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XINGU
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, Brasil, Aventura - 05/04/2012

DIREÇÃO: Cao Hamburguer

ROTEIRO: Cao Hamburguer, Helena Soarez, Anna Muylaert

ELENCO: João Miguel, Caio Blat, Felipe Camargo, Maria Flor, Maiarim Kaiabi, Awakari Tumã Kaiabi, Adana Kambeba, Tapaié Waurá, Totomai Yawalapiti, Augusto Madeira, Fabio Lago

Brasil, 2012 (103 min)

Em 1943, cansados da vida tradicional e previsível da elite paulistana e cercados por burocracia no centro de São Paulo, os irmãos Villas Bôas se passam por caboclos analfabetos – requisito básico para integrar a Expedição Roncador-Xingu do governo federal – e seguem para desbravar o oeste ainda selvagem do Brasil. De aventureiros a indianistas, de curiosos a corajosos ambientalistas, Orlando, Cláudio e Leonardo Villas Bôas conseguiram o inimaginável: fechar o cerco, proteger os índios com a criação do Parque Nacional do Xingu em 1961, no extremo nordeste do Mato Grosso, para preservar e proteger a cultura, a tradição, a fauna e a flora brasileiras para as gerações futuras. O que é considerada a fronteira do parque, também chamada de “o abraço da morte”. Preservar significou, neste caso, isolar. Irônico, esse modelo. Mas foi uma medida de pura sobrevivência.

Xingu, o novo filme de Cao Hamburguer (também em O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias) conta, de forma grandiosa, cuidadosa e emocionante essa história quase inacreditável de dedicação e luta pelo ideal. Tive a impressão, fascinada, de um Xingu-filme enraizado, feito com consciência, responsabilidade e extrema beleza, claro. “O projeto demorou cinco anos para ser finalizado, devido às dificuldades de pesquisa, informação, ambientação na natureza local implacável”, relata o diretor na entrevista coletiva, que contou com a produção sempre humanista de Fernando Meirelles.

Mas para ter esse viés humano forte e incontestável, é preciso soar verdadeiro. A composição e preparação do elenco são fundamentais, que além de atores famosos e experientes como Caio Blat (também em As Melhores Coisas do Mundo, Bróder, Batismo de Sangue, Carandiru, O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias) , João Miguel e Felipe Camargo (os três irmãos), conta com a participação dos índios das tribos locais. “Quando filmamos com amadores, o desafio para o profissional é bem maior”, confessa Felipe Camargo, o Orlando. “A história e a tradição do índio se perpetuam através da encenação, da dança, da música. Pensando bem, eles já sabem representar naturalmente, eles é que estão sempre prontos para entrar em cena”. E é verdade, da parte deles, texto é o que tem de menos. Até nisso houve equilíbrio de saberes. O filme tem uma sintonia impressionante entre os atores e o profissional, entre a produção e o meio ambiente. O profissional é que tem que se descontruir, entrar no ambiente estrangeiro. De fato, o que Cao faz é nos colocar dentro das tribos, obrigando-nos a trabalhar um olhar humilde, reverencial e respeitoso, o mesmo que os irmãos tiveram ao entrar onde não foram chamados, ao integrar-se sem interferir, ao conviver.

“Quando o Brasil em geral fica difícil de aturar, eu fecho os olhos um instante e me refugio no pedaço do Brasil onde corre o Tuatuari, [...] um humilde formador do poderoso Xingu onde os irmãos Villas Bôas estabeleceram a sede do Parque Indígena do Xingu, onde nossos índios passaram a receber o único tratamento VIP que jamais tiveram ou terão”, desabafa o jornalista Antonio Callado, na apresentação do livro A Marcha para o Oeste – A Epopeia da Expedição Roncador-Xingu, de Orlando e Cláudio Villas Bôas (Cia das Letras), uma das referências do filme. Além de difícil de aturar, o Brasil das madeireiras, das estradas, das usinas hidrelétricas, das pastagens, da criação de gado está difícil de brecar. Agora, mais do que nunca, é preciso abrir bem os olhos e interpretar Xingu além de suas fronteiras.

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