cinegarimpo

fevereiro, 2017

UM LIMITE ENTRE NÓS – Fences
CLASSIFICAÇÃO: Vale seu Ingresso de Cinema, Para se Emocionar, Para Pensar, Estados Unidos, Drama - 25/02/2017

O cenário é praticamente um só: o quintal que dá para a entrada da casa de Troy e Rose – um sobrado de tijolo atrás de um pequeno beco, em um bairro de uma grande cidade, em 1957. Baseado na peça de teatro Fences, Um Limite Entre Nós é sobre isso mesmo. Limites. Cercas. Muros internos que subimos, mesmo quando não são a primeira opção, para que o limite seja bem marcado.

Emocionante do começo ao fim. Troy e Rose são casados, juntos têm um filho adolescente, mas ele traz outro filho mais velho do primeiro casamento. Lidam com humor com as questões da vida, com garra diante das dificuldades de juntar dinheiro, com afeto diante do casamento, com amizade diante do amigo de 30 anos.

Mas as frustrações se acumulam no foro da intimidade e é preciso levantar a tal da cerca. “Há pessoas que constróem cercas para afastar as pessoas; outras constróem para manter as pessoas dentro”, diz o texto. De que são feitas as cercas? De raiva? De compaixão? Melhor assim –  a cerca se transforma em decisão, não em repúdio. Denzel Washington e Viola Davis dão um espetáculo de honestidade e vigor. Profundo, tocante e verdadeiro, Um Limite Entre Nós é um filme doído, mas necessário e corajoso.

 

DIREÇÃO: Denzel Washington ROTEIRO: August Wilson ELENCO: Viola Davis, Denzel Washington, Stephen Henderson | 2016 (139 min)

 

 

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LION – UMA JORNADA PARA CASA – Lion
CLASSIFICAÇÃO: Vale seu Ingresso de Cinema, Para se Emocionar, Estados Unidos, Drama, Austrália - 25/02/2017

Saroo tem cinco anos, perde-se do irmão Guddu numa estação de trem de uma pequena cidade indiana, pega no sono em um vagão abandonado e, quando acorda, percebe que será engolido pela multidão daquela outra estação, a 1600 quilômetros de distância de onde viu seu irmão pela última vez. Essa parte da história já vale seu ingresso. É visceral a procura de Saroo por um rosto conhecido. Seu olhar diz tudo e se perde na indiferença daquela multidão. Mas a alegria chega, ele é adotado por uma família australiana bacana, cheia de amor pra dar. Por si só, a trajetória já é emocionante e cheia de ternura, em um cinema cuidadoso, delicado, do jeito que são as relações delicadas e afetivas que vão se formando no decorrer da vida desse improvável garoto que tirou a sorte grande.

No entanto, Lion – Uma Jornada Para Casa tem também um aspecto que não só se entrelaça com o drama, mas que é o grande gatilho para que a busca de Saroo por sua família biológica aconteça. Representado por Dev Patel (também em Quem Quer Ser Um Milionário, O Exótico Hotel Marigold) na fase adulta, Saroo tem tudo: pais amorosos, uma boa educação, um futuro promissor profissional, uma namorada conquistada e querida. Mas nada disso consegue diminuir sua angústia e procurar a família se torna uma  obsessão. Entra Google Earth em ação, ele mergulha fundo e solitário nessa jornada, perde-se em suas dúvidas pessoais, mas é o momento que lhe cabe viver. Seguir sem esse pedaço da vida parece impossível.

Lion é um mergulho nesse universo daquilo que existe dentro de nós e que não vivemos. Quando algo – mesmo que transbordando de medos e dúvidas –  bate na porta do coração, não há como negar. É preciso correr atrás, preencher o vazio para, então, seguir em frente. Lion é sobre isso, sobre preencher um grande vazio. E é lindo demais.

 

DIREÇÃO: Garth Davis ROTEIRO: Saroo Brierley, Luke Davis ELENCO: Dev Patel, Nicole Kidman, Rooney Mara, Sunny Pawar, Abhishek Bharate | 2016 (118 min)

 

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A GAROTA DESCONHECIDA
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, França, Em cartaz, Drama, Bélgica - 24/02/2017

Demorei pra digerir o último filme dos irmãos Dardenne. Fui com muita sede ao pote – sou fã desse cinema realista, nu e cru, social e político, humano no retrato mais seco que se pode ter das facetas humanas. É assim em A Criança; suaviza e emite uma réstia de otimismo na raça humana em O Garoto da Bicicleta, volta pro viés individualista e cruel da sociedade mercantilista em Dois Dias, Uma Noite; e vai ladeira abaixo naquilo que o ser humano ainda tem de esperança nele mesmo em A Garota Desconhecida.

No meu breve comentário no post sobre o filme no Instagram (@cinegarimpo), logo depois que saí da cabine de imprensa, digo que faltou realismo, aquele retrato da realidade que tanto me emociona nos seus filmes. Algo não me caiu bem – como se a falta de verossimilhança tivesse me incomodado demais. Depois que li a crítica do jornalista Luiz Zanin no Estadão, entendi o que eu realmente havia sentido. Jean-Pierre e Luc Dardenne preferem a fábula à realidade como a conhecemos. Constroem um personagem quase fictício: uma médica jovem, altruísta na essência, um dia não recebe uma paciente em seu consultório porque o horário de atendimento já havia encerrado. Ao descobrir que aquela mulher morreu logo depois, sente-se responsável e não sossega, genuinamente, até reparar o dano.

Não que as pessoas não possam ser tão boas assim. Pelo contrário, sou otimista. Acredito sempre. Mas ficou morno. Esforçar-se para encontrar a emoção na obra dos irmãos belgas, não combina. Sua obra é latente, pulsante, perturbadora porque toca fundo na alma. No que há de mais puro – e escuro. Normalmente não exige esforço. Ser inverossímil rompe esse mecanismo. E cansa. 

DIRECÃO e ROTEIRO: Jean-Pierre e Luc Dardenne ELENCO: Adèle Haenel, Olivier Bonnaud, Jérémie Renier | 2016 (113 min)

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MOONLIGHT – SOB A LUZ DO LUAR – Moonlight
CLASSIFICAÇÃO: Vale seu Ingresso de Cinema, Para se Emocionar, Para Pensar, Estados Unidos, Drama - 24/02/2017

 

A divisão de Moonlight em três partes ajuda a envelopar a história do menino negro que pena com o bullying na escola e sofre com a mãe viciada em drogas, que vira adolescente retraído e pouco afetivo, que se torna um adulto seco e frio, mas que, lá no fundo, nutre uma ternura perdida pela vida.

Com a dureza própria do mundo em que a lei da rua prevalece, Moonlight, vencedor do Globo de Ouro na categoria melhor filme drama e de três Oscars – melhor filme, roteiro adaptado e ator coadjuvante para Mahershala Ali –, reserva algumas pérolas de solidariedade e compaixão que dão ao ele um equilíbrio quase que agridoce. Ao mesmo tempo que mostra a realidade nua e crua da infância abandonada pela figura materna, das amizades perdidas e não conquistadas, da ausência do pai, da devastação que causa o mundo ilusório das drogas, dos estragos que produz o bullying bem conduzido, o filme tem um bonito resgate do carinho que se dá sem pedir nada em troca, da amizade verdadeira que não tem tempo ou espaço, do poder do perdão sincero. Para se emocionar e pensar na diferença que faz a tomada de atitude.

Moonlight é econômico ao contar a história de Chiron. Não diz mais do que precisa, mostra a realidade hostil dessa periferia de Miami que judia, castiga e reserva poucas opções para a criança criada no mundo das drogas. Mesmo sendo seco, o que o diretor Barry Jenkins consegue é fazer transbordar afeto e amizade – mesmo onde não havia solo fértil. Sublime!

DIREÇÃO: Barry Jenkins ROTEIRO: Barry Jenkins, Tarell Alvin McCraney ELENCO: Mahershala Ali, Shariff Earp, Duan Sanderson, Janelle Monáe, Naomie Harris | 2016 (111 min)

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O APARTAMENTO – The Salesman
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Para Entender o Nosso Mundo, Irã, Garimpo na Locadora, Drama - 21/02/2017

O cinema iraniano não dá ponto sem nó. Justificar o conflito do filme em um prédio que corre o risco de desabar é como dizer que os alicerces da sociedade iraniana, da cultura censurada estão abalados. Asghar Farhadi faz filmes de gente comum, em que as situações estão no limite, em que é preciso resolver conflitos. Procurando Elly, por exemplo, vai além da moça que desaparece; é pano de fundo para discutir a condição da mulher muçulmana, a influência do ocidente, a relação homem-mulher no Irã, que se repente em O Passado, em A Separação. De novo, não tem ponto sem nó. Filmes densos, bem localizados na sociedade rígida e machista, mas que se aplicam, sim, aos contextos dos relacionamentos humanos em qualquer canto do mundo.

O Apartamento não foge à regra.  Entra mais a fundo na questão da honra masculina, numa sociedade em que a mulher é, explicitamente, propriedade do marido. Rana e Emad são atores, vão morar em um apartamento de um colega de trabalho e, enquanto se adaptam, Rana é violentada por um homem que invade sua casa. Louco de raiva – mas sem demonstrar afeto, nem acolhimento – o marido passa o investigar a identidade do agressor, em busca de vingança. Clima tenso: enquanto o marido escolhe o caminho da honra ferida, a mulher escolhe o perdão. Um Farhadi constrói um abismo entre o casal que, até então, parecia ter, na profissão e no teatro, a sinergia necessária para romper as barreiras da sociedade. Cenas marcantes, de um casal que se abandonou para mergulhar nas suas dúvidas e na sua solidão individual.

Aliás, o que fica é um abismo mesmo. Dá a impressão de que tudo será engolido pela distância que se cria ao construir um muro separando o afeto da tradição religiosa, o amor da expectativa da sociedade, o sentimento da honra. Metáfora das relações humanas, essa coisa do desabamento do prédio. Basta um abalo e vai tudo pro chão.

 

DIREÇÃO e ROTEIRO: Asghar Farhadi ELENCO: Taraneh Alidoosti, Shahab Hosseini, Babak KarimI | 2016 (125 min)

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ALIADOS – Allied
CLASSIFICAÇÃO: Vale seu Ingresso de Cinema, Para se Emocionar, Para Entender o Nosso Mundo, Estados Unidos, Drama - 21/02/2017

A grande questão de Aliados é saber se Marianne Beausejour (Marion Cotillard, também em É Apenas o Fim do Mundo, Ferrugem e Osso, Piaf – Um Hino Ao Amor) realmente é uma espiã. Se for, teria casado com Max Vatan (Brad Pitt, também em Guerra Mundial Z, À Beira-Mar, Babel) para conseguir informações privilegiadas sobre a movimentação dos Aliados na Segunda Guerra. Se não for, teria se apaixonado realmente por ele e seu amor seria genuíno.

A liga entre eles é bem boa, diga-se de passagem. Bom ritmo e romance, Aliados segura até o final esse suspense, com detalhes do roteiro que vão dando sustentação (mas não entregando) o desfecho. Robert Zemeckis é diretor também do ótimo Náufrago e O Voo. Eu diria que aqui tem um bom mix de romantismo e aventura, pra culminar num desfecho com drama à altura!

Concorre ao Oscar de melhor figurino.

DIREÇÃO: Robert Zemeckis ROTEIRO: Steven Knight ELENCO: Brad Pitt, Marion Cotillard, Lizzy Caplan, Jared Harris | 2016 (124 min)

 

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UM HOMEM CHAMADO OVE – A Man Called Ove
CLASSIFICAÇÃO: Vale seu Ingresso de Cinema, Suécia, Para se Emocionar, Drama - 17/02/2017

Numa Europa multirracial, usar o cinema para trazer esse assunto da tolerância, do acolhimento e da ajuda mútua é um alento para tantos conflitos. Sou fã incondicional do cinema escandinavo (aliás, tem lista, clica aqui) e Um Homem Chamado Ove integra esse panorama.

Mas tem uma pegada diferente, fugindo daquele clima denso do realismo de filmes como  Em Um Mundo Melhor e A Comunidade. O tom aqui é de comédia dramática, no estilo rir-pra-não-chorar. Ove é um senhor rabugento (aparentemente), solitário e de mal com a vida, que planeja o suicídio para poder ficar ao lado de sua mulher, que já faleceu. Trata mal os vizinhos e não quer muita conversa. Até que uma família iraniana se muda, vai chegando com jeitinho e acaba cativando o coração deste homem que já não via mais razão para viver.

Essencialmente um filme sobre amizade e sobre esse poder transformador. Singelo e verdadeiro, emociona por ser genuíno. Lembra o inglês O Visitante, em que o protagonista também é fisgado pela amizade de um imigrante clandestino.

Concorre ao Oscar de melhor filme estrangeiro pela Suécia, além de melhor maquiagem.

 

DIREÇÃO: Hannes Holm ROTEIRO: Hannes Holm, Fredrik Backman ELENCO: Rolf Lassgard, Bahar Pars, Filip Berg | 2015 (116 min)

 

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MINHA VIDA DE ABOBRINHA – My Life as a Zucchini
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Garimpo na Locadora, França, Animação - 17/02/2017

Cheio de ternura, Minha Vida de Abobrinha é daquelas animações que pegam a gente de jeito. Por três motivos bem básicos – e bem suficientes pra te dar a dica de sair do comum.

Aliás, esta é a primeira: animação que tem um traço diferenciado, que sai do padrão hollywoodiano (nada contra, só diferente), já chama a minha atenção. É feita com a técnica stop motion, aquela dos bonecos de massinha filmados quadro a quadro. Isso por si só já cria uma certa intimidade com os personagens, principalmente com o protagonista Abobrinha – esse garoto de 9 anos, que é abandonado pela mãe “que bebe muita cerveja”, vai parar num orfanato e, aos poucos, recupera a autoestima, a vontade de viver e ganha o amor de uma nova família.

A segunda é justamente o tema: a ternura e a amizade transformam a vida do garoto, que chega ressabiado, sofre bullying, vai aos poucos se encontrando e se desmancha em alegria quando faz novos amigos e se sente novamente amado. Tema adulto, essa dureza do abandono e da tristeza. Mas a amizade salva. Sempre!

Por fim, a qualidade desse cinema que é capaz de trazer um assunto tão comum, tão explorado, de uma maneira sensível e única. Cinema francês, concorre ao Oscar de melhor animação e vai pra lista do Cine Garimpo de animações que fogem do traço tradicional.

 

DIREÇÃO: Claude Barras ROTEIRO: Gilles Paris, Céline Sciamma ELENCO: Gaspard Schlatter, Sixtine Murat, Paulin Jaccoud | 2016 (70 min)

 

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ATÉ O ÚLTIMO HOMEM – Hacksaw Ridge
CLASSIFICAÇÃO: Vale seu Ingresso de Cinema, Para se Emocionar, Estados Unidos, Drama, Biografia - 01/02/2017

Último trabalho que vi com Mel Gibson ator tem um clima tenso. Mas tenso- depressivo, filme pesado, alcoolismo, dificuldade de tocar a vida, em Um Novo Despertar. Bom vê-lo de volta nas telonas, agora como diretor, numa história de redenção. Tensa também, mas tensa-guerreira. E isso é bom, porque lutar – mesmo que aqui tenha duplo sentido – é sempre sinal de que estamos vivos.

A tradução bem livre do original Hacksaw Ridge, o nome de uma serra da ilha japonesa de Okinawa, onde acontece a batalha retratada no filme, mostra qual a intenção do filme. O protagonista Desmond Doss se alista para lutar na Segunda Guerra, mas por princípios religiosos, nega-se a pegar em armas. Quer ser médico, salvar vidas. Convicto, não cede às pressões dos comandantes e se propõe a lutar, mas para salvar “Até o Último Homem” que puder.

Faz sentido. Além de contar como foi essa resistência, de mostrar a força da sua fé e os frutos que colhe depois – não só resgatando os soldados feridos do campo de batalha em território japonês, mas também colecionando admiradores e amigos – Gibson faz um retrato realista e bem sangrento do que foi esse pedaço da guerra.

Tem sangue a beça, mas guerra é guerra e não gosto daqueles recortes plastificados em que não consigo acreditar que possa ser verdade. Já que é cruel, prefiro que o diretor chegue perto do real. Assim o altruísmo de Doss fica ainda mais nobre. Andrew Garfield, também em A Rede Social e O Espetacular Homem-Aranha, merece os holofotes.

 

DIREÇÃO: Mel Gibson ROTEIRO: Robert Schenkkan, Andrew Knight ELENCO: Andrew Garfield, Sam Worthington, Luke Bracey | 2016 (139 min)

 

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