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julho, 2015

O CICLO DA VIDA – Fei Yue Lao Yuan
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Para Pensar, Garimpo na Locadora, Drama, China - 31/07/2015

Filmes assim são inspiradores. Quando tudo parece perdido, um único – e simples – gesto reacende a esperança. E me pega desprevenida, me deixando sem graça com a minha repentina desesperança. Quem tem tempo, tem sempre uma maneira de seguir em frente. Os protagonistas de O Ciclo da Vida não têm esse trunfo, mas encontram na arte, na amizade e na solidariedade uma forma de seguir vivendo. Nem que seja para viver o último desejo.

Filmes assim emocionam, pelo poder genuíno que tem a experiência de vida. Numa casa de repouso, seus hóspedes são todos idosos, uns mais outros menos, alguns doentes, outros ainda não, alguns ranzinzas e outros bem dispostos, alegres e criativos. Reinventam a terceira idade, superam as tristezas do abandono familiar, resgatam a esperança do outro com o viés poderoso da amizade e fazem arte – que sempre é um caminho para a reconciliação com o tempo e consigo mesmo. Montam uma apresentação de teatro, basicamente uma pantomima, e estão determinados a inscrever-se num concurso de talentos.

Há outros bons filmes também inspiradores sobre essa terceira fase da vida. Vou montar uma lista de recomendações aqui no blog, porque todos chegaremos lá ou já enfrentamos essa realidade com pessoas queridas. O Ciclo da Vida tem um road movie embutido, por sinal bem simbólico: os velhinhos fogem para o concurso num ônibus, libertam-se dos medos alheios e das convenções, como tem que acontecer em cada um dos outros ciclos da vida. A diferença é que este ciclo é aquele vivido com mais maturidade, experiência, porém menos tempo. Por isso cada minuto é valorizado ao extremo. Não há tempo a perder. Mas ainda há tempo pra viver.

 

DIREÇÃO: Zhang Yang ELENCO: Huanshan Xu, Tian-Ming Wu, Bin Li, Yan Bingyan | 2012 (105 min)

 

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19º FESTIVAL DE CINEMA JUDAICO DE SÃO PAULO
Ronit Elkmbetz em O JULGAMENTO DE VIVIANE AMSALEM: ela é a protagonista e diretora
CLASSIFICAÇÃO: Festivais - 31/07/2015

O foco do 19º Festival de Cinema Judaico de São Paulo é a força feminina. Há dois filmes emblemáticos que justificam o tema: O Julgamento de Viviane Amsalem, com Ronit Elkabetz, e  A Dama Dourada, com Helen Mirren (também em A Rainha). Enquanto O Julgamento… (Gett, Israel | 2014 | 115 min) se passa inteiramente em uma sala de um tribunal, onde três rabinos decidem se Viviane deve (ou pode) se separar do marido, A Dama Dourada (Woman in Gold | 2015 | 110 min) amplia os horizontes, vai da Califórnia à Áustria, onde uma sobrevivente do holocausto tenta recuperar uma valiosa obra de arte roubada de sua família pelos nazistas.

De teores diferentes, os dois filmes são protagonizados por mulheres fortes e determinadas, e valem seu ingresso. O Julgamento de Viviane Amsalem foi premiado mundo afora e chega a ser tragicômico. Viviane é casada com Eliseu, sente-se infeliz e pede o divórcio. Ele não concorda. Ela sai de casa, contrata um advogado bastante eloquente e vai ao tribunal religioso presidido por três rabinos, que decidirão o que o casal deve fazer. Aos olhos dos religiosos, não há motivo para a separação – Viviane deve aproveitar a chance de voltar pra casa para ser uma esposa obediente e uma boa mãe. Aos olhos de Viviane, não há nada que o desabone, é um bom sujeito. Mas o fato de estar infeliz é suficiente para querer sua liberdade.

Filme de um único cenário, o tribunal é o local onde a roupa suja é lavada – inclusive por aqueles que não têm nada a ver com a vida do casal. Já que o trio de rabinos não consegue convencer nenhuma das partes, apela para essas testemunhas que acabam fazendo dessa corte um circo. Uma tragicomédia das tradições judaicas, do machismo que domina as relações, da luta pela individualidade das mulheres. Lembra um pouco o iraniano A Separação, nesse quesito da voz masculina ser imperativa e inquestionável, mas não tem um drama pesado. É teatral; dramático, com tom pitoresco e irônico; intenso nas atuações.

A programação completa do está no site do festival (acima) dividida entre 11 filmes de ficção e 11 documentários. Garimpe!

 

quando: de 4 a 9 de agosto

onde: A Hebraica, Cinesesc, MIS, Cinemark Pátio Higienópolis, Livraria Cultura – Teatro Eva Herz

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QUE MAL EU FIZ A DEUS? – Qu’est-ce qu’on fait au Bon Dieu?
CLASSIFICAÇÃO: Para se Divertir, Garimpo na Locadora, França, Comédia - 31/07/2015

Essa é a pergunta que o casal Claude e Marie se faz, quando tem que aceitar (e encarar) cada um dos quatro genros. Católicos, conservadores e muito engraçados, eles são o centro dessa tragicomédia francesa, que traz à tona, com muita graça, a mistura de raças e religiões que mudou a composição das famílias francesas.

Claude e Marie têm quatro filhas e, como não poderia deixar de ser, cada uma delas escolhe seu marido como bem deseja. Uma se casa com um judeu, outra com um muçulmano de origem argelina, outra com um investidor chinês. A quarta filha, última a se casar, é a grande esperança dos pais, que reza com todas as forças para que encontre um bom cristão para se juntar dentro das tradições familiares.

Sucesso de público no mundo todo com mais de 20 milhões de espectadores, Que Mal Eu Fiz a Deus? é superdivertida, já passou por aqui no Festival Varilux de Cinema Francês e agora entre em cartaz (esta semana já tem pré-estreia). É uma maneira bem humorada de falar sobre as grandes migrações, sobre o caldeirão cultural que é o mundo de hoje e sobre a ginástica que é fazer a conciliação familiar! Como diz o cartaz do filme, “família a gente não escolhe, muito menos os genros”.

DIREÇÃO: Philippe de Chauveron ROTEIRO: Philippe de Chauveron, Guy Laurent ELENCO: Christian Clavier, Chantal Lauby, Ary Abittan, Medi Sadoun, Frédéric Chau, Noom Diawara, Frédérique Bel, Julia Piaton, Émilie Caen, Elodie Fontan, Pascal Nzonzi, Mpho Kamate, Tatiana Rojo | 2014 (97 min)

 

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SENTIMENTOS QUE CURAM – Infinetely Polar Bear
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Para se Divertir, Garimpo na Locadora, Estados Unidos, Drama - 29/07/2015

Vários aspectos chamam atenção em Sentimentos que Curam. Eu destacaria dois deles, que fazem o filme valer seu ingresso e lançam uma semente de curiosidade, para você ficar mais atento a produções diferentes, com formatos e propostas incomuns.

A primeira delas é a cara de cinema independente que tem esta estreia da roteirista Maya Forbes na direção. Não tem jeito de superprodução, tem forte carga emocional e consegue transportar o espectador para entro do filme. A segunda é o título original. Se você não costuma prestar atenção nele, tente fazê-lo a partir de agora. Invariavelmente a tradução é adotada por motivos comerciais e perde-se muito ao deixar de lado todo o conteúdo presente na escolha do diretor. Infinitely Polar Bear é uma história autobiográfica da própria diretora, cujo pai era bipolar. Da dificuldade de sua irmã menor pronunciar a palavra “bipolar”, surgiu a ideia do título, que brinca com as palavras e dá ao pai o sentido de “urso polar”, no que ele tem de mais amoroso.

O que de fato faz muito sentido, porque o personagem de Mark Ruffalo (também em Foxcatcher, Mesmo Se Nada Der Certo, Minhas Mães e Meu Pai) é maníaco-depressivo sim, não consegue se firmar no emprego, põe seu casamento a perder, mas é um pai extremamente amoroso e um marido compreensivo. Diante da dificuldade financeira, sua esposa Maggie resolve investir na carreira, fazer faculdade e, com isso, sustentar a família e garantir uma boa educação para as filhas. Invertendo os papéis, Cameron fica responsável por tomar conta das meninas, enquanto ela passa a ser a provedora.

Cheio de ternura, Sentimentos que Curam não deixa de ser uma boa alternativa de título. Com toques de humor, fala da dificuldade de aceitação, da necessidade de adequação e da valorização da família. Fica ainda mais especial quando a gente sabe que é autobiográfico. Inspirador.

 

DIREÇÃO e ROTEIRO: Maya Forbes ELENCO: Mark Ruffalo, Zoe Saldana, Ashley Aufdeheide | 2014 (88 min)

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SAMBA
CLASSIFICAÇÃO: Garimpo na Locadora, França, Drama, Comédia - 08/07/2015

Quando estiveram no Brasil em maio para falar de Samba no Festival Varilux de Cinema Francês, Olivier Nakache e Eric Toledano não conseguiram escapar da comparação. Eles também são os diretores de Intocáveis (2012), a produção francesa mais vista fora da França, com 25 milhões de espectadores. E é justificável: a história da amizade entre o negro imigrante da periferia e o tetraplégico milionário é realmente uma pérola.

Agora a dupla surge com um tema parecido: também tem imigrante ilegal, também tem riso e emoção. Mas, segundo eles, este não é um gênero, nem uma tendência. É a maneira deles de falar das coisas da vida, da realidade do mundo atual, das relações. O que era em Intocáveis um drama cômico, aqui vira uma comédia dramática. Com toque de brasilidade, a começar pelo título Samba.

Diferente do que muita gente pensa, não se trata de uma história sobre o samba. O personagem vivido pelo (incrível) ator Omar Sy (também em Intocáveis, Jurassic World) chama-se Simba Cissé: um imigrante do Senegal, que não consegue regularizar sua situação na França e por isso não arranja um emprego estável. Encontra a executiva Alice (Charlotte Gainsbourg, também em A Árvore, Melancolia, Anticristo), que está estressada com o trabalho, pede um afastamento e resolve prestar serviço numa ONG que ajuda a recolocar imigrantes no mercado de trabalho. Simba tem o mesmo jeitão simpático, espirituoso e divertido que apresenta em Intocáveis; Alice já é mais fechada, mas pela primeira vez Charlotte faz um papel mais leve e solto. A dupla tem liga e cai muito bem, ainda mais porque compõe com o amigo Walid (Tahar Rahim, também em O Profeta, O Passado, Grand Central): também imigrante, um sujeito alegre e brincalhão nato, que sabe um pouco de português, adora música brasileira e reveste o filme do tom familiar que logo identificamos.

Pra quem ainda acha que filme francês tem que ser sério e sisudo, precisa inovar e sair do comum. Começar por Samba é uma boa pedida: equilibra bem o drama com a comédia e mostra que os franceses são bons sim em tratar das questões humanas – sem que para isso tenham que fechar a cara.

 

DIREÇÃO: Olivier Nakache, Eric Toledano ROTEIRO: Delphine Coulin (livro), Muriel Coulin ELENCO: Omar Sy, Charlotte Gainsbourg, Tahar Rahim, Izïa Higelin| 2014 (118 min)

 

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CIDADES DE PAPEL – Paper Towns
CLASSIFICAÇÃO: Para Ver Bem Acompanhado, Para se Divertir, Garimpo na Locadora, Estados Unidos, Comédia Romântica, Aventura - 08/07/2015

Não tenho dúvidas de que Cidades de Papel será um sucesso. Assim como A Culpa é das Estrelas, este filme também é baseado em um livro de John Green – o escritor americano que fala para o jovens, através dos jovens, com histórias que fogem do óbvio. Claro que aborda tudo aquilo que já sabemos do universo juvenil, mas consegue fazer uma leitura subliminar, falar do pulo da adolescência para a fase adulta sem dar lição de moral, imprimir emoção e graça, além de dar um toque bacana sobre a tal da “maturidade” que chega com o tempo.

Não é à toa que a Fox fez um superlançamento do filme por aqui – se a expectativa de faturamento for parecido com A Culpa é das Estrelas, vai passar da casa dos 120 milhões de dólares. Eu acho que passa. Cidades de Papel tem um apelo interessante na escolha dos protagonistas. Margo, a garota mais popular da escola, aquela que todas as meninas querem imitar e a que todos os meninos desejam, é vivida por Cara Delevingne, uma linda modelo escalada pra o papel, num tiro bem certeiro. Tem uma beleza única, assim como é a sua personalidade no filme. Seu parceiro é o ator Nat Wolff, um ótimo amigo, um sujeito tranquilo e apaixonado. A máxima os-opostos-se-atraem é genuína: o selvagem com o caseiro, o imprevisível com o planejado.

Esses adjetivos mais parecem uma metáfora da juventude. Vai ver que é por isso que a identificação é tão forte e suas histórias fazem tanto sucesso no mundo todo entre os jovens. Vale dizer que os roteiristas também escreveram 500 Dias com Ela – tem algo semelhante no trabalho de fugir do contexto esperado dos adolescentes e dos relacionamentos. Melhor não ter lido o livro, porque as surpresas são bem-vindas. Mas duvido que os que leram terão coragem de deixar passar!

 

DIREÇÃO: Jake Schreier ROTEIRO: John Greeen (livro), Scott Neustadter, Michael H. Weber  ELENCO: Cara Delevingne, Nat Wolff, Halston Sage, Hannah Alligood, Justice Smith, Austin Abrams | 2015

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GARIMPO NA NETFLIX – 5
CLASSIFICAÇÃO: Lista - 08/07/2015

Mais 10 filmes bacanas do Netflix Brasil e bem diferentes entre si. Assim, todo mundo recebe uma dica boa, de acordo com seu estado de espírito, pro fim de semana com chuva! Será?

Anna Kendrick e George Clooney em Amor Sem Escalas (Up In The Air) – um dos bons filmes garimpados (na foto).

 

 

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ANIMA MUNDI
CLASSIFICAÇÃO: Festivais, Brasil, Animação - 07/07/2015

Vem aí o 23º Festival Internacional de Animação do Brasil:

Rio de Janeiro – 10 a 15 de julho

São Paulo – 17 a 22 de julho

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CASA GRANDE
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Garimpo na Locadora, Drama, Brasil - 03/07/2015

Quanto mais eu penso sobre Casa Grande, mais o filme faz sentido. E mais percebo como tecer esse teia de relações foi complexa. Relacionamentos já são complexos por definição – e pela experiência de cada um de nós. O que o diretor Fellipe Barbosa fez aqui foi construir o universo da classe brasileira mais abastada, entrar nos meandros da sua casa, das relações entre a família e seus empregados, da intimidade e dos tabus sociais, para depois desconstruí-lo a partir de duas descobertas: a falência financeira e os questionamentos da adolescência.

Quanto mais eu penso sobre Casa Grande, mais questão surgem e mais me intriga essa relação que existe da servidão, da diferença de classes e da classificação descarada que rotula pessoas pelo seu status social. Eu sei, é assim em vários lugares. É do ser humano. Mas está na nossa sociedade de maneira muito preconceituosa. Em Casa Grande, Jean é um adolescente que questiona a condição financeira do pai (que faz investimentos ruins, fica sem emprego, mas não admite baixar a crista), mantém uma relação honesta e afetiva com os empregados da casa (motorista, cozinheira e arrumadeira) e desperta para a sua sexualidade quando conhece uma garota diferente dele, de outra cor, de outra classe social. Tudo isso junto acaba vindo à tona como uma tormenta e indica ser um divisor de águas na vida desse personagem tão cheio de dúvidas.

Só mesmo recorrendo ao diretor carioca para levantar alguns assuntos e entender como essa teia foi montada. Casa Grande dá muito pano pra manga. Rende conversa em casa, é profundo e não se esgota em uma única sessão. Fellipe Barbosa deu sua contribuição valiosa, comentando algumas das minhas indagações na entrevista abaixo. Quanto mais penso sobre o filme, mais vejo o reflexo da nossa sociedade nas entranhas dessa grande casa grande.

 

Cine Garimpo – Gosto do recorte feito da sociedade brasileira em Casa Grande: a classe abastada é mais distante, mascarada e resistente à mudanças; os empregados são afetivos, são mais espontâneos, adaptam-se com mais facilidade à nova realidade. Como você vê isso? Isso é exclusivo da nossa sociedade acostumada com a servidão de uns a favor dos outros?

Fellipe Barbosa – Tem um certo romantismo nessa leitura de que os afetos reais estão entre os empregados ou na favela. Talvez eu seja um romântico. Mas creio que o dinheiro em excesso acaba sufocando os afetos, e que a felicidade não tem nada a ver com a riqueza, muito pelo contrário. Isso não é exclusivo do Brasil, senti muito isso viajando pela África também. O que é particular do Brasil é essa cordialidade alienada, onde os patrões são extremamente próximos dos empregados, os tratando como parte da família, e ao mesmo tempo completamente ignorantes da sua realidade, o que não torna o afeto menos real. Essa contradição é muito brasileira, e é o motivo do pranto de Jean ao reencontrar Severino na favela: a vergonha da própria ignorância, sua culpa burguesa. Nos últimos 12 anos no Brasil houve uma tomada de consciência dos empregados sobre o lugar que ocupam na casa grande, acompanhada pela consciência de seus direitos. A Pec das domésticas de 2012 foi uma evidência desse despertar, que é irreversível e resistirá à qualquer crise.

 

CG – Tenho um interesse particular no comportamento dos adolescentes, porque meus dois filhos estão passando por essa fase agora. O filme junta o questionamento natural da adolescência com questões familiares impossíveis de serem respondidas ou solucionadas. Com isso, senti que os conflitos ficam ainda mais nebulosos: lidar com o preconceito dos pais, com a diferença de classes, com o distanciamento afetivo entre pais e filhos, com a pressão da sociedade com as escolhas profissionais. O filme foi estruturado na figura do Jean como alicerce para todos os conflitos ou pensou-se na crise familiar como um todo e os personagens foram sendo delineados à medida em que a trama foi se desenrolando?

FB – Eu pensei a trama ao redor de Jean, sem dúvida. O filme conta a estória desse adolescente diante da encruzilhada do vestibular, que vai tornando-se mais presente e atento à medida que a família vai a falência. Como a família esconde a crise do filho a fim de protegê-lo, o filme precisava ter acesso aos outros personagens da casa para entender o que está sendo escondido de Jean. Ou seja, para ter ironia dramática, o filme precisava saber mais do que Jean. Assim, o ponto de vista na casa é da casa: podemos estar com qualquer personagem, mesmo que sem o Jean. Mas só saímos de casa com o Jean. Assim, o filme é uma espécie de comédia de costumes no interior da casa e um romance de formação no trajeto entre casa e colégio, pois é no ônibus que Jean conhece Luiza.

 

CG – Costumo assistir às cabines de imprensa sabendo muito pouco sobre o filme. Não me aprofundo, não leio resenhas, nem releases das assessorias. Assim, tento ser mais isenta e mais fiel aos meus sentimentos e sensações durante a sessão, inclusive para escrever meu comentário depois. Tudo isso pra dizer que quando fui assistir a Casa Grande, não conhecia o enredo. Mas o título já me remeteu à Casa Grande & Senzala, ao preconceito, à diferença de classes, à sociedade estratificada, ao racismo, à valorização excessiva do poder econômico. Como surgiu esse nome? Alguma relação explícita à obra de Gilberto Freyre ou só uma citação?

FB – Esse título surgiu nos laboratórios de Sundance, onde trabalhei o roteiro em 2008. Antes o filme de chamava “Cotas”, e Sundance insistiu que eu mudasse. Intuitivamente sugeri “Casa Grande”, e eles gostaram. Meu desafio a partir daí foi encontrar uma imagem que estivesse à altura do título. E assim surgiu a abertura do filme, que é uma descrição minuciosa dessa casa que é de fato muito grande. No filme, o literal vem sempre antes do simbólico. Mas é inegável que existe uma relação com a obra de Freyre. Após mudar o título, fui percebendo que as cotas raciais deveriam ser mais um pano de fundo — mais uma ameaça à essa família rica — e a relação entre empregados e patrões deveria ficar em primeiro plano. E assim estruturei o filme em torno de três demissões.

 

CG – Gosto muito da escolha dos atores: Marcello Novaes e Suzana Pires estão ótimos no papel do casal falido, que está mais preocupado com o que os outros vão pensar, do que em começar a resolver os seus sérios problemas. Thales Cavalcanti é o grande alicerce do filme e faz o papel com muita força. Vi que é seu primeiro longa. Como ele foi descoberto e como foi a sua preparação para assumir esse trabalho?

Creio que Sônia (vivida por Suzana Pires, grande parceira minha) é uma personagem bem pragmática, disposta a encarar a realidade e resolver os problemas. Quando vem a crise, ela arregaça as mangas, engole o orgulho e começa a vender cosméticos para sustentar a família.

Quanto ao Jean, o descobri no Colégio de São Bento, onde se passa a ação, assim como todos os outros adolescentes do filme. Acreditava que a maneira mais justa de retratar esse ambiente tão específico do único colégio só para homens no Brasil, precisava trabalhar com meninos de lá. Busquei o grupo ideal ao invés do Jean ideal, e nesse grupo apareceu o Thales. Era uma turma muito carismática e curiosa, e vários deles eram músicos que inclusive compuseram as músicas que eles tocam no filme. O Thales emprestou uma característica dele muito importante para o personagem: uma ingenuidade e sinceridade à flor da pele, que torna sua jornada de amadurecimento e tomada de consciência mais dilatada e dramática.

 

DIREÇÃO: Fellipe Barbosa ROTEIRO: Fellipe Barbosa, Karen Sztajnberg ELENCO: Marcello Novaes, Suzana Pires, Thales Cavalcanti, Clarissa Pinheiro, Marília Coelho, Bruna Amaya | 2015 (115 min)

 

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