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outubro, 2013

LORE
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Para Entender o Nosso Mundo, Garimpo na Locadora, Drama, Austrália, Alemanha - 31/10/2013

Um viés diferente, de um contexto bem conhecido. Um pouco da sensação que tive quando li A Trégua, do italiano Primo Levi (foi também feito um filme homônimo, baseado no livro). Levi conta a sua história a partir do momento em que os Aliados vencem a guerra, os campos de concentração já não têm soldados e os  judeus, até então encarcerados esperando a morte, se veem livres para voltar para casa. Mas que casa? Que família? Que país? A Trégua mostra essa jornada pela Europa devastada, por um passado que já não existe nem sinal.

Lore também volta para essa realidade do imediato pós-guerra, em que a paz foi declarada, mas em que ainda há muita luta a ser travada: pela vida, pela comida, pela habitação, pela restauração de algo que já não volta mais. Muito se tem dito nessas décadas sobre os horrores da Segunda Guerra. Mas o que foram os dias e meses imediatamente depois? Em Lore, os protagonistas são o inimigo. Os nazistas. A personagem Lore é filha de nazistas, que são presos após a derrocada de Hitler. É a mais velha de 5 filhos e tem que cuidar dos irmãos, o que inclui a árdua tarefa de cruzar a Alemanha totalmente destruída, encontrar comida e abrigo, cuidar de um bebê de colo, passar pelas adversidades e pelas barreiras dos Aliados, até chegar na casa dos avós.

Extremamente bem conduzido, todo esse contexto da luta pela sobrevivência já vale a pena, mesmo porque nos coloca em contato com uma realidade pouco explorada. Porém, o mais interessante do filme é a discussão ética que ele propõe. Pelo caminho, Lore encontra-se com um rapaz judeu, sem o qual ela não seria capaz de conduzir a família. Ele se dispõe a ajudá-la e ela revida com o ódio plantado pelas crenças e comportamento dos pais. Inteligente e sutil, o filme coloca toda a problemática da formação da geração que viveu a guerra, seja ela do lado que for. Na construção do preconceito e do contraponto com a tolerância. E na importância da formação e dos valores passados pela família. Pelo bem e pelo mal, eles sempre vêm à tona. Fico pensando o que deve ter sido restaurar a sociedade alemã depois de tudo o que se viveu. Fico pensando que fim Lore deu à sua conduta e à sua vida.

Indicado da Austrália ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2012, Lore é emocionante no roteiro, nas imagens e na entrega dos atores. Não seria nada sem atores integralmente envolvidos. Pareceria folhetim. Lore tem uma autenticidade ímpar, facilmente capaz de emocionar.

 

DIREÇÃO: Cate Shortland  ROTEIRO: Cate Shortland, Robin Mukherjee ELENCO: Saskia Rosendahl, Kai-Peter Malina, Nele Trebs, André Frid, Mika Seidel, Ursina Lardi | 2012 (109 min)

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ALÉM DA ESCURIDÃO – STAR TREK
CLASSIFICAÇÃO: Para se Divertir, Garimpo na Locadora, Ficção Científica, Aventura, Ação - 31/10/2013

Toda vez que assisto a um filme que já é sequência de outro, sinalizo a importância da ordem das coisas. Sempre há ganchos entre um e outro, mas algumas vezes as informações passadas no anterior não prejudicam o entendimento daqueles que veem a seguir. No caso de Star Trek, pela releitura de J.J. Abrams, eu diria que vale ver o primeiro. Claro que eu entendi e adorei Além da Escuridão, mesmo sem ter visto o primeiro, lançado em 2009. Mas quando me aventurei pelos meandros da Frota Estelar e suas origens, me rendi. É muito mais legal saber o que acontece antes.

Isso porque ficamos sabendo da origem do lendário Spock (Zachary Quinto, também de Margin Call – O Dia Antes do Fim), esse sujeito metade humano, metade extraterreno, uma raça evoluída que consegue ignorar os sentimentos e emoções para não sofrer. É racional, faz o que é lógico e pronto. Mas, como sua mãe era humana, às vezes dá o braço a torcer. Personagem espetacular.

Também conhecemos melhor a história do capital Kirk (Chris Pine). Sabemos que seu pai foi capitão da Enterprise, que morreu em combate e que seu comportamento intransigente, desafiador e destemido ajuda a contrabalançar a lógica de Spock e tomar as decisões com mais intuição. O que Spock e Kirk vão viver nessa nova aventura estelar, lutando pela Federação dos planetas, perde totalmente a graça se eu simplesmente começar a descrever a história. A riqueza de detalhes é imensa, a sutileza e graça do texto ficam muito além de qualquer comentário, as caras e bocas dos personagens valem mais do que qualquer comentário. Tem muita ação em prol da paz entre os planetas, mas o que seria da aventura sem um texto afinado e afiado?

Minha dica: se der, consuma o pacote completo e assista ao primeiro Star Trek em casa e depois corra para o cinema. Se não conseguir se segurar, voe para o cinema no feriado que vai dar tudo certo. A Enterprise não vai te deixar na mão e depois você tira o atraso em casa!

 

DIREÇÃO: J.J. Abrams  ROTEIRO: Roberto Orci, Alex Kurtzman ELENCO: Chris Pine, Zachary Quinto, Zoe Saldana, Karll Urban, Simon Pegg, John Cho, Benedict Cumberbatch, Anton Yelchin, Bruce Greenwood | 2013 (132 min)

 

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EM CHAMAS NA MODA
CLASSIFICAÇÃO: Notícias - 31/10/2013

Em Chamas, baseado no romance de Suzanne Collins, e sequência de Jogos Vorazes, entra em cartaz no Brasil com exclusividade, antes até dos Estados Unidos! Conta com Jennifer Lawrence e Josh Hucherson no elenco, o que já é uma promoção e tanto. Mas para incrementar ainda mais, os produtores lançaram um site para valorizar um dos aspectos mais bacanas no filme: o figurino.

Já que a temática gira em torno da valorização excessiva do visual da nossa sociedade, nada mais justo do que trazer à tona esse aspecto, tão trabalhado no filme. Acesse o site CAPITOL COUTURE e você vai ver tudo que foi pensado para caracterizar os distritos, seus habitantes, suas diferenças e seu modo de vida.

E acompanhe aqui, porque a estreia é em 15 de novembro. Antes disso, dá tempo de assistir ao primeiro filme da série, Jogos Vorazes, para entender melhor do que se trata!

 

 

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CAPITÃO PHILLIPS
CLASSIFICAÇÃO: Trailer - 27/10/2013

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WAJMA – Mostra SP
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Para Entender o Nosso Mundo, Drama, Afeganistão - 27/10/2013

Wajma é o próprio paradoxo entre a tradição religiosa e o comportamento da vida contemporânea. É o retrato da influência ocidental que chega sem pedir licença numa sociedade ultraconservadora e fechada como o Afeganistão. É um ponto de interrogação gigante na pergunta que não quer calar: como é que uma sociedade regida por leis religiosas extremas pode se adaptar à tecnologia, à liberdade da mulher de ir e vir, de estudar, de namorar, de escolher seu parceiro para casar? Como é que faz?

Wajma até que se fez a mesma pergunta. Não nesses termos, mas questionou o namorado Mustafa, quando ele forçou a barra para avançarem o sinal e transarem antes do casamento. Ela tem 18 anos, acaba de entrar na faculdade de Direito, mas mora com a mãe, o irmão e a avó em Cabul, capital afegã castigada pela guerra e pelas privações impostas à mulher pelo antigo regime do Talibã. Seu pai mora no interior do país, trabalhando para desativar minas terrestres armadas durante as contínuas guerras. Portanto, consegue mais flexibilidade para namorar Mustafa, um garoto que trabalha em um restaurante, tem mais contato com o mundo ocidental e quer, nitidamente, transgredir os costumes de comportamento. Quer namorar, mas não quer fazer o pedido de casamento formal à família. Wajma cede, engravida e planta na família a mais temida vergonha: a desonra perante a sociedade.

Filmado de uma maneira bastante realista e perturbadora, Wajma, indicado afegão ao Oscar de melhor filme estrangeiro, reflete a incompatibilidade entre os mandos do islamismo tradicional e o comportamento do jovem contemporâneo, que usa celular, se inspira nos hábitos dos parentes que conseguiram fugir para o exterior e se livrar de toda a censura, quer ter liberdade de ir e vir, mas não tem a contrapartida da geração criada sob o ferro e fogo do Islã. O próprio Mustafa é reflexo disso. Enquanto interessava, Wajma era bela; quando se viu ameaçado pelo pai da garota, agarra-se no discurso tradicional, respaldado nas leis islâmicas de que não se casaria com uma mulher que não fosse virgem. Só se esquece que ele é o responsável por tirar a sua virgindade e aqui só nos resta rir (e foi essa a reação da plateia). O que era para ser uma história de amor, vira tragédia. Velha e hostil hipocrisia.

 

DIREÇÃO e ROTEIRO: Barmak Akram ELENCO: Wajma Bahar, Hadji Gul, Mustafa Habibi | 2013 (85 min)

 

 

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WAKOLDA – Mostra SP
Indicado da Argentina para concorrer ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, WAKOLDA tem um apelo internacional e humanitário mais forte do que o nosso O Som Ao Redor.
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Para Entender o Nosso Mundo, Drama, Argentina - 27/10/2013

Adoro quando consigo não me informar muito sobre um filme, quando assisto e vou descobrindo, junto com os personagens, as verdades apresentadas. Isso não é possível sempre, mas tento tomar esse cuidado – difícil, porque muitas vezes as informações chegam até nós quase que por osmose. As sinopses, por mais curtas que sejam, muitas vezes são capazes de funcionar como um imediato estraga-prazer. Nem ao trailer eu assisti (está publicado abaixo; faça a sua escolha). Aconteceu isso com Wakolda. Sabia pouco: que era o indicado argentino à vaga para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2014. Isso bastou para que eu aproveitasse cada minuto do projeção e sentisse, mais genuinamente, a angústia e surpresa da família que hospeda um médico misterioso nos anos 1960.

Até por isso, não entrarei em detalhes. Mas posso dizer que Wakolda é delicado na sua crueldade, tem ótimos atores e um tom que valoriza o ser humano e sua diversidade. O tempero que a diretora Lucía Puenzo consegue dar ao drama da família tem o fino trato da ironia, da maldade velada, da desconfiança mesclada com desesperança. Uma família cruza uma estrada deserta da Patagônia e é acompanhada por um médico desconhecido e bastante estranho, também no jeito de abordar a pequena Lilith, que aparente ter menos de 12 anos, por ter uma estatura mais baixa que o normal. A família abre um hotel na região do lago de Nahuel Huapi e esse médico se instala por ali, oferecendo-se para ajudá-los nas questões de saúde, mas também no sonho de Enzo de montar uma fábrica de bonecas. Wakolda é o nome de uma delas, que servem também como uma analogia de perfeição, produção em série do ser humano, moldado com as características ideais da composição de uma raça.

Mas quem era esse sujeito? O que queria? Por que tanto interesse pela família? Vale a pena conferir. Wakolda tem, sem dúvida, um apelo internacional mais forte do que o nosso candidato brasileiro à vaga, O Som Ao Redor. Independente do que a Academia escolha para disputar o prêmio, vale seu ingresso com certeza.

DIREÇÃO E ROTEIRO: Lucía Puenzo ELENCO: Natalia Oreiro, Alex Brendemühl, Diego Peretti | 2013 (93 min)

 

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O CONSELHEIRO DO CRIME – The Counselor
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Garimpo na Locadora, Estados Unidos, Drama, Ação - 24/10/2013

Dos filmes anteriores de Ridley Scott que eu assisti, nenhum segue a mesma linha de O Conselheiro do Crime. Blade Runner é ficção científica futurista; Gladiador, Robin Hood e Cruzada são épicos; Telma & Louise é um drama com pitada de comédia. Este novo filme é um outro departamento: é um thriller, mais parecido com um jogo de cartas. As decisões são rápidas e as consequências, imediatas. Titubeou, você é carta fora do baralho.

Não dá para falar dele e fugir do óbvio: o elenco é realmente estrelar, no nome e no desempenho. Mas antes eu diria o seguinte, para tentar resumir um filme que tem muita coisa acontecendo ao mesmo tempo: não durma no ponto, senão você perde os detalhes dessa trama de intrigas, interesses econômicos, traições, violência e implacável senso prático exigidos para a sobrevivência no business do narcotráfico. O fio da meada é o seguinte: o advogado do personagem de Michael Fassbender (também em Shame, X-Men, Um Método Perigoso) precisa de dinheiro, por isso se mete com gente perigosa do tráfego de drogas entre México e Estados Unidos, representados com maestria por Javier Bardem (também em 007 – Operação Skyfall, Onde os Fracos Não Têm Vez) e Brad Pitt (Guerra Mundial Z, Babel). O plano dá errado num determinado ponto e o senso prático e comum é eliminar quem está atrapalhando. Scott constrói a trama, para depois desconstruir cada um dos personagens, um por um. Por isso o ritmo da tomada de decisão e definição dos personagens é acelerado. Assim como a vida do crime, com causa e consequência inevitáveis.

Para abrandar o clima, pelo menos em teoria, personagens femininas dão o ar da graça. Penélope Cruz e Cameron Diaz são fundamentais para fechar o tom escolhido pelo diretor: da ironia e do sarcasmo, recheado de violência e sensualidade. Ninguém sai ileso – nem nós, espectadores. Tem gente que vai fingir que não viu algumas cenas. Depois você me conta!

 

DIREÇÃO: Ridley Scott ROTEIRO: Cormac McCarthy ELENCO: Michael Fassbender, Penélope Cruz, Cameron Diaz, Brad Pitt, Javier Bardem | EUA, 2013 (117 min)

 

 

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PINA
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Musical, Garimpo na Locadora, Documentário, Biografia, Alemanha - 21/10/2013

No dia em que fomos, os jornalistas, convidados a assistir ao documentário do cineasta alemão Wim Wenders sobre Pina Bausch, morreu uma ciclista na Av. Paulista. Depois de quase 2 horas para chegar à sessão de cinema, confesso que somente a leveza de Pina poderia me descolar da dureza, da crueldade e da insensatez do asfalto. Somente a linguagem do corpo, do olhar, das mãos (!) já na cena de abertura do filme foram capazes de me fazer abstrair tamanha falta de sensibilidade e flutuar por outras esferas.

Com essa licença bem particular e autoral, introduzo este documentário sobre a coreoógrafa e bailarina alemã Pina Baush. Quase uma licença poética, que marcou a sensação completamente oposta do cru e do sublime. Pina não conta uma história, não tem propriamente um enredo. Prescinde de palavras e depoimentos e é essencialmente formado de peças encenadas, maravilhosamente expressadas pelos bailarinos de sua companhia de dança, que a acompanharam na sua trajetória, de diversos lugares do mundo, inclusive do Brasil. A intensidade dos movimentos impressiona, a força da interpretação essencialmente de sentimentos humanos como a alegria, o medo, o amor, a dor, a raiva, a separação, a compaixão. A total interação com o meio, a sensação de fazer questão de pertencer, de marcar presença, de sentir o lugar, a dança, o corpo e a mente e transmitir. Porque transmite, o tempo todo, ainda mais com o recurso do 3D, Pina realmente me fez dançar junto. Num dia em que meus pés estavam cravados no chão, na realidade nua a crua.

O recurso tridimensional faz com que o movimento não só se apresente, mas ele penetra, tem volume, preenche a tela tanto quanto a trilha sonora. Sem exageros, apenas complementar. O que se vê é uma ode ao que temos de mais precioso, a capacidade de expressão, onde represamos todos os nossos sentimentos, não-sentimentos, negações, afirmações. Da maneira com que Pina concebeu as peças apresentadas, esse repertório vem verdadeiramente à tona, extravasa, transborda. Antes de morrer, ela já havia passado com o diretor Wim Wanders o conteúdo do documentário. Mas a obra é póstuma e espetacular. Claro que quem não aprecia minimamente a dança, vai se cansar. Mas o que eu fico realmente imaginando é o que esse registro representa para quem realmente vive e pratica a dança. Para quem simplesmente vive, já é uma preciosidade.

 

DIREÇÃOROTEIRO: Wim Wenders | ELENCO: Pina Bausch, Regina Advento, Malou Airaudo | 2011 (103 min)

 

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A ÁFRICA, SEMPRE EM GUERRA
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, Lista - 21/10/2013

Impressionada com o artigo Congo: A maior guerra do mundo, de Adriana Carranca, publicado em O Estado de São Paulo ontem (20/20/2103), resolvi reunir alguns filmes que tratam do continente africano. Triste perceber que, em todos eles, sem exceção, o que é retratado é o conflito, a mutilação, a guerra, a guerrilha, a violência, o tráfego, a exploração, as armas.

Pelo relato da repórter, as atrocidades praticadas no antigo Zaire vestem o disfarce da “guerra étnica”, mas na verdade é uma guerra de interesses financeiros, já que o território congolês é uma mina riquíssima em metais preciosos como ouro, diamantes e o coltan, minério usado na fabricação dos nossos celulares e tablets.

O cinema, como retrato da vida no que ela tem de melhor e pior, fez registros sobre a África que chocam. Aí vai a seleção do Cine Garimpo. Para entender o nosso mundo. Será que dá?

(foto: Hotel Ruanda, sobre o genocídio em Ruanda em 1994)

 

 

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