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abril, 2013

FESTIVAL VARILUX DE CINEMA FRANCÊS 2013
CLASSIFICAÇÃO: Festival, Especial, Dicas Afins - 30/04/2013

varilux 2013

De 1 a 16 de maio o cinema francês desembarca no Brasil com uma programação imperdível. Acho, sim, que sou suspeita para falar. O Cine Garimpo está cheio de filmes franceses e não me canso de trazer sempre algo novo.

Mas quem traz novidade é o Festival Varilux de Cinema Francês deste ano, que acontecerá em 40 cidades do Brasil, distribuído por 80 cinemas. Bem maior do que no ano passado, o Festival é sempre disputado. Portanto, programe-se com antecedência. Veja a programação separada por cidades no site do Festival, mas acompanhe aqui no Cine Garimpo as indicações de filmes.

Por enquanto, sugiro não perder, de forma alguma, o lindo e comovente Ferrugem e Osso, de Jacques Audiard, conta com a sempre fantástica Marion Cotillard (também em Até a Eternidade, Meia-noite em Paris, Contágio, Piaf – Um Hino ao Amor) no elenco. Além de emocionante, o roteiro é de uma profundidade humana incrível.

Sutil, engraçado e delicado é Pedalando com Molière, de Philippe Le Guay, tem Fabrice Luchini no elenco, o mesmo de Potiche, Dentro da Casa, As Mulheres do 6o Andar. Espirituoso, o filme é uma poesia sobre a literatura e relacionamentos, uma homenagem ao teatro regado a Molière.

Belo filme de época é Adeus, Minha Rainha, de Benoît Jacquot. Plasticamente impecával, mostra os bastidores de Versailles em julho de 1789, só que pelo ponto de vista de uma criada do castelo (com Léa Seydoux e Diane Kruger).

 

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DEPOIS DE MAIO – Après May
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Garimpo na Locadora, França, Drama - 29/04/2013

depois de maio2

 

Depois de maio de 68, tudo foi diferente. A ebolição daquela década mudou para sempre a história dessa juventude que transgrediu, desafiou, foi para as ruas protestar contra a guerra, a rigidez das regras culturais e comportamentais que resultavam dos anos em que a França estava se recompondo da destruição da Segunda Guerra.

Apesar de ter sacudido tudo e todos na França e de ter contagiado outros jovens, universitários e operários em outros países europeus, o que se viu na década seguinte foi o oposto disso. Jovens sem rumo ou propósito, buscando o que ser e o que fazer, mas sem aquele entusiasmo do fim dos anos 60. E isso que eu mais gosto no filme: a indecisão do personagem Gilles diante de fazer a revolução ou o cinema tem o ritmo dessa fase lenta, letárgica, morna. O diretor Olivier Assayas (também de Horas de Verão) acerta nesse tom carregado de significado, embora possa parecer, em alguns momentos, devagar demais.

Mas esse é o ritmo de Gilles, que busca se encontrar nessa sociedade politizada, mas que não sabe muito bem o que fazer com isso. Sabe que precisa andar em grupo, procurar juntar-se aos que têm objetivo em comum, nem que este seja ‘não ter objetivo de fato’. Mas, assim como em Horas de Verão, Depois de Maio tem um gosto forte de recomeço, de descoberta. No primeiro, a família que perde a matriarca precisa encontrar uma nova maneira de se relacionar entre si e com as marcas do passado que existem em comum; neste os jovens precisam descobrir o que fazer com o legado da ebulição cultural e social dos anos 1960. E esse é o ponto interessante, que pede reflexão, não tanto política quanto no filme/série Carlos (sobre o terrorista Chacal), mas sobre o papel pessoal de cada um na sociedade.

 

DIREÇÃO e ROTEIRO: Olivier Assayas ELENCO: Lola Creton, Clément Métayer, Félix Armand | 2012 (122 min)

 

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HOMEM DE FERRO 3 – Iron Man 3
CLASSIFICAÇÃO: Para se Divertir, Estados Unidos, Aventura, Ação - 26/04/2013

homem de ferro 3DIREÇÃO: Shane Black

ROTEIRO: Shane Black, Drew Pearce

ELENCO: Roberto Downey  Jr., Gwyneth Paltrow, Guy Pearce, Rebecca Hall, Ben Kingsley, Don Cheadle

Estados Unidos, 2013

Quando assisti ao terceiro filme da série de Christopher Nolan, Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge, disse a mesma coisa que vou dizer agora. Gostei muito, mas faltou voltar ao começo. Claro que quem for ao cinema conferir as novas armaduras e desafios de Tony Stark em Homem de Ferro 3, sem ter assistido aos dois filmes anteriores, vai se divertir. Não tenho dúvida. Mas pode se sentir um peixe fora d’água quando os outros espectadores derem risada sobre alguns sutis detalhes, em que você não viu graça. As referências são inevitáveis e encare isso como uma convite para ver os outros dois em casa. Eu fiz isso e confesso que adorei!

Claro, tudo é uma questão de contexto. Embora este terceiro filme não seja mais dirigido por Jonh Favreau (ele continua sendo o fiel guarda-costas de Stark), é claramente uma sequência. E muito bem conduzida. O diretor Shane Black (também de Máquina Mortífera) acerta na continuidade do tom, imprime humor fino principalmente no personagem do ótimo ator Robert Downey Jr. que tem que derrotar o tão temido terrorista Mandarin e fecha (será?) a trilogia da Marvel com chave de ouro.

Falei em humor e reforço. Embora a tecnologia, qualidade da produção, o elenco afinado (Gwyneth Paltrow, Guy Pearce, Rebecca Hall, Ben Kingsley, Don Cheadle) e a criatividade sejam pontos fortes, eu diria que um filme como este, sem um toque refinado no roteiro seria, só mais um filme de ação. Diante de tanta concorrência com filmes vazios de conteúdo e cheios de matança, sangue e aventuras mirabolantes, caprichar nos diálogos é o grande trunfo. Mesmo para quem não é – ou não era – tão fã assim de super-heróis.

Deixo por último a história propriamente do filme. Mesmo porque, acho que ela é secundária mesmo, considerando o peso dos personagens e a qualidade do texto. Tony agora se questiona, não consegue dormir, porque sabe das inimizades óbvias que criou mundo afora. Pepper Potts (Gwyneth Paltrow) passa, de simples assistente a manda-chuva da empresa. É ela quem decide tudo. Tony Starks pesquisa, aprimora seus inventos e se prepara para a próxima ameaça. Até que ela chega devastadora e ele precisa lugar contra um terrorista daqueles, o Mandarin. O resto, você já pode imaginar. Se não, dê só uma espiada no trailer. Entendeu?

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O FUTURO – The Future
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Estados Unidos, Drama, Alemanha - 25/04/2013

DIREÇÃO E ROTEIRO: Miranda Julyo futuro1

ELENCO: Miranda July, Hamish Linklater, David Warshofsky

Alemanha, Estados Unidos, 2011 (91 min)

 

Nos cinemas: 26 de abril

 

Assisti a este filme na 35a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Replico aqui meu comentário, já que filme entrará em circuito comercial. E, claro, replico porque vale a pena ver!

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O futuro de ponta-cabeça – gostei do cartaz do filme. Aliás, que futuro? Que perspectiva? Quais são os planos? Nenhum, a não ser adotar um gato. E ao se deparar com essa mudança no futuro próximo, que chega em 30 dias, o casal Sophie (Miranda July, também a diretora) e Jason perde o chão. Será que conseguirão lidar com tamanha responsabilidade? Fará sentido continuar fazendo um trabalho sem graça, que não gostam, diante dessa mudança tão importante que está para acontecer? Antes de chegar o gato, que mudará suas vidas para sempre, é preciso aproveitar, correr atrás do sonho, desligar a internet, porque depois disso tudo estará acabado.

Este é o panorama irônico de O Futuro, logicamente mostrando um casal acomodado ao extremo para causar estranheza. Eles próprios são estranhos – vivem sem entusiasmo, tomam decisões sem pensar, se precipitam justamente quando a causa pede calma. Fazer a diferença no mundo particular de cada um pede calma e determinação. Mas Sophie e Jason não sabem o que querem: se dançam, ou se compram árvores para salvar o planeta; se fazem o tempo parar para não se perder ou não perder o outro, ou se correm para os braços do primeiro que abrir as portas. Interessante o retrato da relação que não se sustenta, que não se relaciona, que vive no imaginário irreal, na espera vazia. Apenas vive, cada um no seu mundo virtual, sem comunicar-se realmente, sem compartilhar sonhos, sem ambicionar construir.

O Futuro vale ser visto, mesmo porque tem figuras de linguagem e metáforas extremamente profundas, que chegam a incomodar. A da solidão interior, do vazio, da falta de auto-conhecimento, da falta de perspectiva, da falta de garra e vontade – motores fundamentais para uma vida ser vivida. Metáfora dos tempos atuais, em que o medo paralisa, em que o rigor das convenções e expectativas engessa iniciativas e quebra de paradigmas? Também acho que sim. Fato é que, ao sair dessa sessão da 35a Mostra, notei que as pessoas perguntavam aos amigos se tinham entendido bem tal e tal parte do filme. Pelo que senti, era isso que Miranda July queria despertar: o desconforto, a incerteza diante de um comportamento, para gerar reflexão, para deixar sentir a história de acordo com o repertório de cada um.

E o gato? Bem, o gato faz parte desse contexto sempre inacabado da vida do casal, ilusório, cheio de intenções, mas nunca concluído. Difícil sair da zona de conforto…


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GWYNETH PALTROW É MAIS BONITA DO MUNDO
CLASSIFICAÇÃO: Especial - 24/04/2013

gwyneth paltrow2

Gwyneth Paltrow acaba de ser eleita a mulher mais bonita do mundo pela revista People! Coincidência ou não, sexta ela estará nos cinemas com o ótimo O Homem de Ferro 3! Imperdível – mesmo para quem não é tão fã assim de super-herói como eu.

Vejam outros filmes com a atriz:

CONTÁGIO, de Steven Soderbergh

AMANTES, de James Gray

SEVEN – OS SETE PECADOS CAPITAIS, de David Fincher

OS VINGADORES, de Joss Whedon

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TAPETE VERMELHO DA PRÉ-ESTREIA DE “SOMOS TÃO JOVENS” TERÁ TRANSMISSÃO AO VIVO HOJE
CLASSIFICAÇÃO: Especial, Dicas Afins - 24/04/2013

PosterCinema SomosTao 2.inddHoje tem pré-estreia de Somos Tão Jovens, filme que conta a trajetória de Renato Russo desde a adolescência em Brasília, até a formação da banda Legião Urbana. O evento acontecerá no Cine Odeon BR, no Rio. Mas o que é mais bacana é que a sessão será transmitida ao vivo, simultaneamente via satélite, para as salas da Rede Cinemark em São Paulo, Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba, Belo Horizonte, Goiânia, Vitória e Salvador.

Quem estiver em uma dessas salas vai poder acompanhar a movimentação do elenco, do diretor Antonio Carlos da Fontoura e dos parceiros de Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, em tempo real. Além de curtir o filme, apreciar a performance de Thiago Mendonça como Renato e cantar. O tempo todo!

Vejam também a entrevista com elenco e diretores aqui no Cine Garimpo. O filme estreia nos cinemas dia 03 de maio.

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“SOMOS TÃO JOVENS” É UM FILME DE TURMA
CLASSIFICAÇÃO: Especial, Entrevista, Brasil - 23/04/2013


somos tão jovens2
“Maior dificuldade? Eu diria que houve desafios, o de humanizar esse mito que é o Renato”, diz o ator Thiago Mendonça durante entrevista coletiva, ele que interpreta Renato Russo (1960-96), o idealizador da banda Legião Urbana, com uma precisão impressionante. Em Somos Tão Jovens, que estreia dia 03 de maio, Thiago parece mesmo Renato, nos trejeitos, na voz, no olhar que está sempre buscando algo mais.

Digo na voz porque esse é a grande sacada do filme. Em Somos Tão Jovens não tem playback. É som ao vivo, banda de rock tocando aqui e agora. E é daí que vem a grande energia do filme. Enquanto o Aborto Elétrico (primeira banda de Renato), Legião Urbana, Capital Inicial tocam, ou quando Renato toca sozinho, o público realmente vibra e a gente, do lado de cá da telona, sente que tem algo a mais nessa turma de Brasília, que mudou a faceta da música dos anos 80 no Brasil.

Para quem não sabe, Somos Tão Jovens conta como o menino Júnior (como era chamado pela família), que se considerava um sujeito estranho e feio, descobriu o punk e virou poeta, cantor de rock e formou uma banda que continua bombando até hoje. “Eu fiz uma escolha”, conta o diretor Antônio Carlos de Fontoura. “Percebi que queria contar a história desse menino nerd preso em uma cadeira de rodas, contar como ele descobre que pode ser roqueiro assim como os punks, embora se achasse feio, e usar a sua cultura musical para encontrar o seu caminho.”

Thiago MendonçaBuscou o seu caminho, numa Brasília também adolescente, provinciana. “Até por isso, falar da homossexualidade naquela cidade pequena e careta era difícil, praticamente impossível”, lembra Marcelo Bonfá, seu parceiro na Legião, juntamente com Dado Villa-Lobos, representado por seu próprio filho no filme, Nicolau Villa-Lobos. Por isso, a escolha foi falar sutilmente da questão sexual de Renato. Sugerir, sem que esse fosse o foco.

O foco é realmente o movimento brasiliense da juventude irriquieta e irreverente diante da sociedade de embaixadores, políticos, militares. Era transgredir, fazer música, se divertir e deixar a marca. Conseguiram. Em turma, emprestando instrumentos, bateristas e tudo mais que as outras bandas precisavam, marcaram uma época. “Acho que o Renato gostaria muito do filme, principalmente porque tem essa vibração juvenil, que pode vir a contagiar a juventude de hoje a largar isso daqui [aponta o celular], pegar uma guitarra, um violão, aprender alguns acordes e montar a própria banda. Se o filme conseguir motivar a galera, Renato ficaria orgulhoso”, conclui Thiago. E dá para sentir na veia o clima no filme. Ainda mais para quem viveu os anos 80 da Legião. Ainda somos bem jovens para lembrar de tudo.

 

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QUANDO A CRIANÇA É QUE DÁ O TOM NO CINEMA
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Especial, Dicas Afins - 22/04/2013

meu pé de laranja lima2Especiais os filmes que têm o dom de mostrar o que passa na mente de uma criança. Algumas produções são marcantes por isso e valem ser vistas. Diria ainda mais: especiais os diretores que conseguem se colocar no lugar das crianças.

Que foram crianças um dia, eu sei, mas são lembranças longínquas, sensações muitas vezes apagadas e caladas no fundo da alma. Trazer à tona pelo cinema e para o cinema, e transportá-las para a realidade de outra criança é o que torna essas obras delicadas e profundas.

Puxando a lista está o filme brasileiro Meu Pé de Laranja Lima, em cartaz em todo o país. O Cine Garimpo preparou uma lista de histórias que são contadas a partir do ponto de vista da criança. Aproveite e bom garimpo!

 

MEU PÉ DE LARANJA LIMA, de Marcos Bernstein (Brasil, 2012)

INFÂNCIA CLANDESTINA, de Benjamín Ávila (Argentina, 2012)

O QUE EU MAIS DESEJO, de Hirokazu Koreeda (Japão, 2011)

O ANO EM QUE MEUS PAIS SAÍRAM DE FÉRIAS, de Cao Hamburguer (Brasil, 2006)

A CULPA É DO FIDEL, de Julie Gavras (França, 2006)

MACHUCA, de  Andrés Wood (Chile, 2004)

 

 

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MEU PÉ DE LARANJA LIMA
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Drama, Brasil - 20/04/2013

meu pé de laranja limaDIREÇÃO: Marcos Bernstein

ROTEIRO: Marcos Bernstein, Melanie Dimantas

ELENCO: João Guilherme Ávila, José de Abreu, Caco Ciocler, Emiliano Queiroz

Brasil, 2012 (97 min)

 

 

A vida é dura para o menino Zezé. É pobre de dinheiro, pobre de pai (que bebe demais e o maltrata), pobre de compreensão. Mas não pobre de espírito, muito menos de imaginação. E é o sonhar acordado que é a tábua de salvação para essa infância sem presente de Natal, sem presença de mãe, com muita surra. Seu amigo imaginário, o pé de laranja lima, ganha vida, o transporta para outro mundo, o leva para longe, onde há mar, amigos, doçura.

Assim foi a infância de José Mauro de Vasconcelos, que a transformou em livro em 1968, um best seller. De lá para cá, sua história já foi adaptada para o cinema e para a televisão, e continua atual. O desafio aqui é mostrar o ponto de vista do garoto endiabrado, que tem um só amigo, seu irmão mais moço, Luís, enquanto todos os outros o hostilizam. E que cria, justamente com pessoas mais velhas (o Portuga, José de Abreu, e seu tio, Emiliano Queiroz), uma relação de amizade e admiração. Teria sido fácil fazer um melodrama, do ponto de vista adulto. Ou até do ponto de vista da criança, que apanha por qualquer motivo. Ao mesmo tempo que o diretor Marcos Bernstein (também roteirista de Central do Brasil, Zuzu Angel, Somos Tão Jovens) mostra o sofrimento de Zezé, traz à tona com muita beleza a criatividade do menino, sua vivacidade, companheirismo e bom coração.

Se deu para Zezé fechar as feridas dessa infância, isso não sei. Fato é que vira escritor (na pele de Caco Ciocler), registra sua experiência em livro e deixa claro que o que o salva de uma vida adulta amarga é justamente a capacidade de sonhar e imaginar. Portanto, a esperança. Nos olhos do menino Zezé, isso ficava claro. Era só dar chance, que vinha na mente uma boa história, um bom papo, algo novo para criar. Ou aprontar. Que também, tudo bem. Era menino, afinal de contas.

Misturando realidade e fantasia, Meu Pé de Laranja Lima tem um tom melancólico, um ritmo mais lento. Vai gostar quem realmente gosta do cinema brasileiro, fora das comédias que temos visto por aí. Embora tenha o menino como protagonista, não é exatamente um filme infantil – até pelas cenas em que o garoto apanha dos pais e irmãos. Mas dá para ser visto por crianças maiores, que inclusive podem exercitar o gosto pelo cinema nacional.

Especiais os filmes que têm o dom de mostrar o que passa na mente de uma criança. Algumas produções são marcantes por isso e valem ser vistas. Diria ainda mais: especiais os diretores que conseguem se colocar no lugar das crianças. Que foram crianças um dia, eu sei, mas são lembranças longínquas, sensações muitas vezes apagadas e caladas no fundo da alma. Trazer à tona pelo cinema e para o cinema, e transportá-las para a realidade de outra criança é o que torna essas obras delicadas e profundas.

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HOJE
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Drama, Brasil - 16/04/2013

hojeDIREÇÃO: Tata Amaral

ROTEIRO: Jean-Claude Bernardet, Rubens Rewald

ELENCO: Denise Fraga, Pedro Abdhull, Cláudia Assunção, César Troncoso, Lorena Lobato, João Baldasserini

Brasil, 2011 (90 min)

 

Hoje é Denise Fraga. Ponto. O único personagem que a acompanha é real e irreal ao mesmo tempo;  a solidão e o medo que ela carrega a tornam ainda mais só nessa produção de Tata Amaral. Então, Denise Fraga é o filme Hoje, integralmente. Não só fisicamente, mas principalmente nas emoções, lembranças, possibilidades futuras. Nesse ponto a diretora acerta em cheio: constrói a Vera amedrontada com o passado e temerosa em relação ao futuro. E são esses sentimentos que transbordam em Hoje, o momento da vida dela que pretende ser o momento da virada.

Vera era militante política na ditadura, seu marido (Cesar Troncoso, também em Infância Clandestina, O Banheiro do Papa) desaparece na repressão e ela luta durante anos para ser indenizada. Quando finalmente consegue, compra um apartamento – cenário do filme praticamente inteiro – e tenta recomeçar a vida. Tenta, mais ainda derrapa nas lembranças, nas inseguranças, na perda da liberdade. Tive a impressão de assistir a uma peça de teatro, em que Denise é não só a protagonista, mas praticamente fala com ela mesma o tempo todo. Diálogo interior, denso e profundo. De uma dramaticidade que poucas atrizes poderiam transmitir. Até por isso acho, infelizmente, que Hoje não é para qualquer público. Precisa paciência, apreciação.

Hoje, vencedor do Festival de Brasília em 2011, é para quem gosta de monólogos. Usei a palavra ‘diálogo’ acima, mas acho até que está empregada no sentido figurado. Vera conversa com outros personagens, mas tenho a impressão de que está, o tempo todo, tentando entender seus sentimentos, colocá-los em ordem, livrar-se de culpas passadas, para então seguir em frente. Dá pra ver que não se trata de um roteiro linear, organizado, pragmático. É simples e elaborado ao mesmo tempo, assim como são as sensações que vão e vem dentro de alguém que precisa, finalmente, dar um rumo na vida.

Gosto quando um filme tem um formato que condiz com seu tema. Hoje faz isso, pincelando as ideias e situações, para chegar no desfecho. Que é muito bacana por sinal.

 

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