cinegarimpo

outubro, 2012

ARGO
CLASSIFICAÇÃO: Suspense, Para Entender o Nosso Mundo, Estados Unidos, Ação - 30/10/2012

Ben Affleck acerta no tom e no suspense em Argo, seu próximo filme, com estreia marcada para dia 9 de novembro. Quem se lembra do eletrizante Munique, de Steven Spielberg, pode imaginar o tamanho do drama retratado no filme.

Estamos no Irã em 1979, ano em que o Xá Reza Pahlevi é deposto pela oposição xiita, liderados pelo Aiatolá Khomeini, que havia passado 14 anos no exílio. Reza Pahlevi foge, é exilado nos Estados Unidos e a população não se conforma como o apoio americano ao ditador. Invade a embaixada americana em Teerã, faz seus funcionários reféns, mas 6 deles conseguem refugiar-se na embaixada canadense. Argo é a operação de alto risco, montada para tirar esses 6 funcionários do país.

Não percam. Roteiro e direção são excelentes e o elenco conta também com Ben Affleck, no papel principal. Talentoso. O trailer dá uma pequena mostra do que vem por aí.

 

 

Sem Comentários » TAGS:  
MUITO ALÉM DO PESO (Mostra de Cinema SP)
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Documentário, Brasil - 30/10/2012

DIREÇÃO: Estela Renner

Brasil, 2012 (84 min)

Muito além do peso, da diretora Estela Renner (leia entrevista), trata de vários extremos. O principal, é o peso, o excesso de gordura que as crianças carregam (33% das brasileiras estão acima do peso), que acarreta em doenças antes típicas do corpo adulto, como a diabetes, hipertensão, trombose, depressão, problemas respiratórios. Mas o interessante também é reparar em todos os outros excessos ligados a esse primeiro, típicos da vida atribulada, corrida e concorrida que levamos.

O argumento é praticamente o mesmo. Não temos tempo: tem-se menos controle sobre o que as crianças comem. Não temos tempo: prima-se pela comida rápida, instantânea, processada. Não temos tempo: é a desculpa para delegar para a escola. Não temos tempo: formamos crianças sem instrução sobre a importância dos alimentos, do cuidado com a saúde. Não temos tempo: a publicidade é quem escolhe aquilo que entra na nossa casa. Consumimos inconsciente e desmedidamente; não há reflexão, mas imediatismo. Concorremos com o outro; consumo de alimentos é ligado ao status, poder, posse, posição social. Desesperador. Um bombardeio de informações, na contramão do que é uma alimentação saudável e indicada para o crescimento equilibrado da mente e do corpo das crianças.

Considerada a maior pandemia de todos os tempos, a obesidade atinge todos os continentes, sem exceção. Interessante o recorte que Estela faz do assunto, sem ser professoral. Num tom de informalidade, estabelece uma relação próxima com seus entrevistados, conseguindo declarações preciosas das famílias que participaram do documentário. E deixa claro o pouco que se sabe sobre o valor dos alimentos, sobre a qualidade daquilo que está sendo ingerido dentro de casa.

Diretora também do curta Criança, A Alma do Negócio,  Estela se preocupa em passar o recado e colocar as pessoas em estado de alerta, respaldada pela opinião de profissionais brasileiros, americanos e ingleses, e de uma amostragem do Brasil todo. Intercalando entrevistas e infográficos lúdicos e informativos, Muito Além do Peso deve servir para chacoalhar pais e filhos. O que entra em casa é uma questão de parceria. Todos têm que participar. E com a linguagem escolhida, fica fácil trazer o filme, as questões e problemáticas discutidas e perspectivas para o futuro para dentro de casa. Aqui, foi assunto na sobremesa. Com frutas.

Comentários » 3 comentários TAGS:  
ALARME FALSO: MORGAN FREEMAN NÃO MORREU
CLASSIFICAÇÃO: Estados Unidos, Especial - 29/10/2012

Não é a primeira vez que corre o boato da morte do ator Morgan Freeman. Brincadeiras de mau gosto à parte, Morgan Freeman, 75 anos, veio a público domingo para desmentir, bem humorado. E parece que não há sinais de que pretende pendurar a chuteira. No site IMDb, o mais completo banco de dados do cinema mundial, Freeman tem nada menos do que cinco projetos em andamento para os próximos dois anos. Sorte nossa. Enquanto isso, confira alguns de seus filmes no Cine Garimpo.

Batman – O Cavaleiro das Trevas (2012)

Winter – O Golfinho (2011)

Invictus (2009)

Antes de Partir (2007)

Um Sonho de Liberdade (1994)

Conduzindo Miss Daisy (1989)

Comentários » 4 comentários TAGS:  
GONZAGA – DE PAI PRA FILHO
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Brasil, Biografia - 28/10/2012

DIREÇÃO: Breno Silveira

ROTEIRO: Patrícia Andrade

ELENCO: Adelio Lima, Chambinho do Acordeon, Land Vieira, Julio Andrade, Giancarlo di Tomazzio, Alison Santos, Nanda Costa, Silvia Buarque, Luciano Quirino, Claudio Jaborandy, Cyria Coentro, Olivia Araújo, Zezé Motta, João Miguel

Brasil, 2012 (120 min)

“E se eu chorar
E o sal molhar o meu sorriso
Não se espante
Cante
Que o teu canto é a minha força pra cantar”
Sangrando, Gonzaguinha

“Se tem alguém que gosta de você nessa vida é esse menino, Luiz. Tudo que ele queria era ser seu amigo”, diz Priscila, criada com Luiz Gonzaga desde a infância no sertão de Pernambuco e sua fiel escudeira a vida toda. Ela resume em poucas palavras a complexidade da relação entre o Rei do Baião, Luiza Gonzaga, e seu filho, Gonzaguinha. Foram poucos anos de convivência na vida e na música, antes de a morte chegar, para o pai em 1989 e em seguida para o filho, em 1991. Mas o que Breno Silveira fez, também como diretor de Dois Filhos de Francisco, foi contar como traçaram o seu destino, com muita sensibilidade e um olhar um tanto quanto intimista na relação entre pai e filho.

Confesso que pouco conhecia da vida familiar  de Luiz Gonzaga e Gonzaguinha. Sem fazer melodrama, mas dando a devida importância ao relacionamento entre pai e filho, ou ausência dele, às diferenças ideológicas e comportamentais e à sua música, Silveira acerta no tom e conta uma bela história. Sofrida, mas vivida. Com sorriso estampado no rosto, os três atores que interpretam Luiz Gonzaga dão vida ao personagem do rei do baião, que saiu de sua casa simples no sertão por causa de uma desilusão amorosa e penou muito até encontrar um ritmo na sanfona que fizesse a diferença. E o fazem com coragem e muita competência.

Gonzaguinha cresce sem a mãe, que morre de tuberculose, e sem o pai, que está preocupado em fazer a carreira e ganhar dinheiro. De uma maneira atrapalhada e pouco habilidosa, Luiz Gonzaga constrói uma relação com o filho fundamentada na mágoa e no ressentimento. Gozaguinha faz carreira sem ficar na sombra do pai, o compositor de Asa Branca, trilhando um caminho diferente, mas vai se reconciliar lá na frente, quando a carreira do pai já está em decadência. Quando se encontram nessa fase, Gonzaguinha resolve entrevistar o pai. É através do momento da entrevista que o roteiro se desenrola.

Delicioso de ver na sua musicalidade, brasilidade e complexidade familiar. Figuras públicas, ícones da música e do legado brasileiro, Gonzaga – De Pai Para Filho deve ser visto, principalmente se você pouco sabe sobre esses personagens. Por um momento me esqueci de que Gonzaguinha já tinha morrido – e faz 21 anos. Tão presente é a sua imagem, tamanha a semelhança física do ator com o personagem e sua interpretação cuidadosa e talentosa. Agora fica selada em filme, a historia de pai para filho.

Comentários » 2 comentários TAGS:  
A CAÇA – Jagten – The Hunt (Mostra de Cinema SP)
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Para Pensar, Drama, Dinamarca - 27/10/2012

DIREÇÃO: Thomas Vinterberg

ROTEIRO: Thomas Vinterberg, Tobias Lindholm

ELENCO: Mads Mikkelsen, Thomas Bo Larsen, Annika Wedderkopp, Lasse Fogelstrom, Susse Wold, Anne Louise Hassing, Lars Ranthe, Alexandra Rapaport, Ole Dupont

Dinamarca, 2012  (115 min)

Thomas Vinterberg é parceiro de Lars Von Trier em um projeto bastante interessante. Em 1995, eles se juntaram para fundar o movimento Dogma 95, que estipulou 10 mandamentos para um novo cinema que seria feito a partir dali. Para encaixar-se no padrão, o filme tem que ser rodado no local, sem cenografia, som natural, câmera na mão, sem filtro ou truques fotográficos. Deve ser em cores, na época atual, vetados os filmes de gênero. Ou seja, naturalista, a vida como ela é, aqui e agora, sem maquiagem. Radical ou não, confesso que gosto. É o avesso do pode-tudo de Hollywood. Um cinema que me dá prazer em assistir.

Deve ser porque retrata os dramas humanos, seus e meus, como ele realmente são. Intensos, cruéis, traiçoeiros, surpreendentes. A Caça lida com isso, com mazelas, das mais humanas. A injustiça, o julgamento, a traição. Lucas (Mads Mikkelsen, também em Depois do Casamento, Coco Chanel & Igor Stravinsky, vencedor de melhor ator em Cannes por este filme) é professor da educação infantil, acaba de divorciar-se e está em plena delicada negociação com a ex-mulher a respeito da guarda do filho adolescente. O ambiente é amigável, uma pequena cidade dinamarquesa em que todos se conhecem. É de repente que surge um boato e a vida de Lucas vira do avesso. Suas conduta é questionada, suas relações mais íntimas e duradouras são colocadas em dúvida. Verdade ou mentira, fato é que Vinterberg traz à tona e faz questão de ressaltar a capacidade humana do pré-julgamento e todo o perigo que vem junto com ele.

De uma intensidade ímpar, de uma profundidade cortante. Por ser real. Tem muito do cinema conterrâneo de Susanne Bier, como seu Em Um Mundo Melhor e Depois do Casamento. E de uma angústia que fica e que seguiu comigo até depois que o filme terminou, sobre a proporção que o ressentimento ocupa dentro das pessoas. E do que isso é capaz.

__________________________________

PROGRAME-SE: Para mais informações sobre horários e salas, clique aqui.

Sem Comentários » TAGS:  
007 – OPERAÇÃO SKYFALL – Skyfall
CLASSIFICAÇÃO: Para se Divertir, Inglaterra, Estados Unidos, Ação - 26/10/2012

DIREÇÃO: Sam Mendes

ROTEIRO: Neal Purvis, Roberto Wade

ELENCO: Daniel Craig, Helen MeCrory, Javier Bardem, Bérénice Marlohe, Ben Whishaw, Ralph Finnes, Naomie Harris, Judi Dench

Estados Unidos, Inglaterra, 2012 (143)

 

Nos cinemas: 26 de outubro

Não escrevo para quem é fã incorrigível do agente secreto inglês, o James Bond. Esse sujeito vai ao cinema conferir o filme, de qualquer maneira. Escrevo para pessoas como eu, que gostam de filme de ação, mas que nem sempre preferem esse gênero. Ou nem sempre têm paciência e disposição para tantas perseguições mirabolantes, tiros para todo o lado, bond girls e tudo mais que está incluso no pacote da franquia. Para vocês, digo o seguinte: Skyfall vale seu ingresso e seu tempo.

A franquia é ótima e tem toques especiais. Além de fazer Bond renascer das águas, faz inúmeras referências aos 50 anos de história do agente secreto mais famoso do mundo. Não se usa mais aquela famosa caneta explosiva, mas a bond girl ainda é, e sempre será, um ícone das suas missões secretas, perseguições impossíveis e de seu charme. Não acho que Daniel Craig convença a todos, mas pessoalmente acho que está muito bem na fita e não vai decepcionar. Assista, por três bons motivos:

1. Por Skyfall, a canção tema – Na voz da cantora inglesa Adele, dispensaria qualquer comentário extra – mesmo porque você pode conferir o vídeo aqui mesmo no Cine Garimpo, na publicação que fiz esta semana. No contexto do filme, da imagem, da montagem e de toda a ambientação construída para esse lançamento dos 50 anos de Bond, a voz de Adele fica ainda mais especial.

2. Sam Mendes, o diretor – Quem conhece alguns dos trabalhos anteriores do diretor inglês, sabe que ele não é o típico-diretor-de-filme-de-ação. Para deixar bem claro: é dele o incrível Beleza Americana, que lida de forma primorosa com a tristeza, com a decepção, com a profundidade dos sentimentos humanos. Dirige também Foi Apenas um Sonho, também sobre as mazelas dos relacionamentos, e Por Uma Vida Melhor, que tem todo o tom de filme independente, um viés diferenciado e intimista da vida e das opções de duas pessoas que querem ser um casal de verdade. Portanto, nada a ver com filme de ação, espionagem, tiros, carros, bombas. Se Sam Mendes, com sua visão intimista e sensível das relações humanas, colocou sua mão nesse projeto, é porque tem algo a mais. Sem, claro, tirar o brilho de Bond.

3. Por Javier Bardem, o vingador – Quem se lembra do ator espanhol em Os Fracos Não Têm Vez, entende o que eu estou falando. Mais uma vez na pele do sujeito implacável, cruel e sádico, o personagem de Bardem, ex-agente secreto, quer se vingar por não ter sido protegido por M (Judy Dench, também em O Exótico Hotel Marigold, Sete Dias com Marilyn) quando o cerco apertou. Está fantástico e dá um tom pessoal, quase infantil, ao seu ódio que sente contra o coração do MI6, contra a invencibilidade e imortalidade do 007. E contra o que ele representa, claro.

 

COMENTE » 1 comentário TAGS:  
CELULAR NÃO É PIPOCA
CLASSIFICAÇÃO: Especial, Brasil - 25/10/2012

Toda vez que vou ao cinema – e não são poucas, acredite – me faço a mesma pergunta: será que um dia usar o celular dentro do cinema será algo inimaginável como é hoje fumar? Claro, ninguém cogita acender um cigarro na sala escura. Certo? Pois é. Toda vez que aparece aquela animação que as salas de cinema projetam, com direito a bonequinhos, gracinhas e trilha sonora (linguagem universal, animação, para que todos possam entender) anunciando que é proibido fumar, que a brigada de incêndio está pronta para socorrer (será?), que as luzes se acenderão automaticamente, etc e tal, fico pensando que linguagem universal é essa.

Porque ninguém entende a parte que aparecem os celulares. Tem texto, aúdio, imagem sinalizando e dizendo com todas as palavras que devemos desligar nossos celulares durante a projeção do filme. Uma vez que isso não é obedecido, mais tempo deveria ser gasto para dizer que não é permitido usar o celular para passar mensagem de texto, chegar emails, facebook, twitter e tudo mais que os pequenos grandes (maravilhosos!) computadores de bolso fazem hoje. Claro, é permitido ter bom senso. Se o cinema estiver vazio, não tiver ninguém sentado do seu lado, você realmente tiver de responder e puder tampar com as mãos ou com o casaco (sempre necessário, já que a temperatura é, via de regra, sempre fria demais – pelo menos para as mulheres!) aquela luz que tanto atrapalha as pessoas que estão tentando entrar e sentir realmente o filme, ainda vá lá. Algo como esquematizar idas e vindas de filhos – cujas programações parecem sempre micar justo na hora H – é uma boa justificativa. Desde que se preocupe, terminantemente, em não incomodar.

Hoje mesmo fui a uma sessão da Mostra Internacional de Cinema de SP no MIS. Concorda que, quem vai ao MIS, assistir a um filme alemão, está realmente a fim de se envolver com o filme. Tem tantas outras coisas para fazer em São Paulo do que ver filme alemão! Para meu espanto um fulano levanta o celular, do jeito que a gente faz quando está em casa, assim, sem qualquer cerimônia, e navega na sua página do Facebook tranquilamente, enquanto eu, até aquele momento, estava absorvida pelo drama familiar daquela família em Berlim. Bastou para eu me desconcentrar e, então, acreditem, uma simples luz branca na sala escura é capaz de estragos enormes. No mínimo, no quisito respeito.

Já mandei gente desligar o celular, já pedi para parerem de mandar mensagem, já dei lição de moral dizendo que “cinema não é lugar de conversa”, e blá blá blá. Mas as pessoas não entendem. Será que um o “proibido-usar-o-celular-no-cinema” será algo tão óbvio quanto a proibição acender um cigarro? Em algumas cabines de imprensa de grandes lançamentos, como a do 007 – Operação Skyfall, a distribuidora do filme “confisca” os celulares dos jornalistas na porta da sala. Todos ficam devidamente guardados em envelopes lacrados e numerados, para retirar na saída. E ainda somos checados com detectores de metal antes de entrar na sala. Uma precaução contra possíveis filmagens piratas durante a sessão. Duvido que algum jornalista se sinta constrangido. Regra é regra. Os cinemas poderiam fazer o mesmo. Quem sabe passando vergonha as pessoas se (des)ligam!

Sem Comentários » TAGS:  
OS VISITANTES – Die Besucher (Mostra de Cinema SP)
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Drama, Alemanha - 25/10/2012

DIREÇÃO: Constanze Knoche

ROTEIRO: Leis Bagdach

ELENCO: Uwe Kockisch, Corinna Kirchhoff, Anjorka Strechel, Jocob Diehl, Andreas Leupold, Anne Müller, Irina Potapenko, Anjorka Strechel

Alemanha, 2012 (92 min)

Impossível não lembrar de Estamos Todos Bem, o original italiano com Marcello Mastroianni, e da adaptação americana com Robert De Niro, Estão Todos Bem. A cena do pai deslocado e distante que sai de casa para visitar os filhos que, já adultos e teoricamente responsáveis por suas vidas, moram em outras cidades, é a marca desses filmes. Mas não só isso. O que marca é o distanciamento da família com o passar do tempo, a indiferença que camufla a frustração e a tristeza de ter a família afastada, o tempo que passa e nem nos damos conta. Será que não é tempo de agir, lavar a roupa suja e juntar aquilo que um dia foi chamado de “família”?

Jakob, pai de três filhos que moram em Berlim e já não vê há anos, resolve visitar os filhos para lhes contar  algo importante. Chega de surpresa e, claro, pega todos despreparados para uma visita tão inusitada. Nas conversas e encontros, o único em comum são mágoas, situação mal resolvidas no passado, palavras não ditas e muito sentimento não demonstrado. Diante da dificuldade da nova situação financeira, as mentiras, podres, traições veem à tona e são o gatilho para a crise que viria mais cedo ou mais tarde.

Simples e singelo, o filme Os Visitantes têm esse nome porque é isso que os filhos achavam que seu pai era: um visitante dentro de casa, alguém isolado, ausente e indiferente. E visitantes eles também se tornaram, não só na vida dos familiares, mas nas suas próprias. Bonita visão dessa difícil relação familiar, que vai criando particularidades que o tempo aguça e trata de enrijecer cada vez mais. Bonita visão do olhar externo, da namorada que se sente sim confortável, acolhida. Mais uma amostra de que a sujeira colocada debaixo de tapete durante a vida causa mágoas difíceis de serem esquecidas. Cuidar. Juntar forças. Talvez sejam essas a palavra de ordem que aparecem nas cenas finais. Dizem que os amigos são a família que escolhemos. Eu diria que a família são os amigos em potencial que recebemos de bandeja.

__________________________________

PROGRAME-SE: para mais informações sobre horários e datas, clique aqui.

 

 

Sem Comentários » TAGS:  
PERDER A RAZÃO – À Perdre la Raison (Mostra de Cinema SP)
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Drama, Bélgica - 24/10/2012

DIREÇÃO: Joachim Lafosse

ROTEIRO: Joachim Lafosse, Matthieu Reynaert, Thomas Bidegain

ELENCO: Niels Arestrup, Tahar Rahim, Emilie Dequenne

Bélgica, 2012 (114 min)

Esta Mostra está cheia de filmes que competem com O Palhaço, de Selton Melo, pela vaga na seleta lista da Academia de Hollywood para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2013. Perder a Razão é o concorrente da Bélgica, No, do Chile, Barbara, da Alemanha, Além das Montanhas, da Romênia. E durante a semana publicarei outros mais. Bom esse movimento, assim chegamos na premiação com mais conhecimento de causa e menos curiosidade – é sempre uma categoria que me fascina, pela diversidade de olhares.

Outro comentário um pouco deslocado do filme, mas que vem bastante a calhar. Por que é que as distribuidoras e assessorias de imprensa (ou quem quer que seja responsável pelas sinopses) teimam em contar o que acontece no final? Ao ver a sinopse do filme no site da Mostra, ficamos sabendo do tom do final do filme. Não leiam. Aliás, nem precisa. Para um bom espectador, meia palavra basta. Ou melhor, três. O título do filme já denuncia a perda da razão em algum momento, absolutamente em comunhão com o andar do roteiro, com a construção (e destruição) da personagem de Murielle (Emilie Dequenne). Certo, entendo. Mas fica chato ler uma sinopse que conta, como se não fôssemos capazes de entender e sentir as matizes, as sutilezas, o silêncio, o diálogo proposto no filme. Pronto, falei!

Agora sim, o filme. Murielle e Mounir (Tahar Rahim, também em O Príncipe do DesertoO Profeta) se apaixonam e se casam sob a aprovação de Pinget (Niels Arestrup, também em O Profeta, Cavalo de Guerra, A Chave de Sarah), pai adotivo de Mounir. Além de acolher o casal, é Pinget quem banca a vida confortável, a criação dos filhos e os trâmites da família muçulmana de Mounir no Marrocos, que enfrenta problemas típicos de imigração. Com o tempo, o que era conveniência e parceria, torna-se privação e perda da individualidade. Mais que isso: transcendo o incômodo físico e se mistura ao emocional, à diferença cultural, à falta de diálogo, à interferência, à dificuldade de criação dos filhos.

Perder a Razão é sutil, não é óbvio. Muito embora o potencial dramático vá crescendo, à medida que desaparecem a satisfação. Claro que isso não se aplica ao momento do nascimento do filho homem. Não que seja um filme arrebatador, mas é um forte  drama pessoal, em que a maternidade e o tratamento dado à mulher nas diferentes culturas vem à tona de uma maneira singular. Foi selecionado para a categoria Um Certo Olhar (Un Certain Regard) de Cannes. Faz todo o sentido.

___________________________________________

PROGRAME-SE: para mais informações sobre horários e salas, clique aqui

Sem Comentários » TAGS:  
ALÉM DAS MONTANHAS – Beyond the Hills (Mostra de Cinema SP)
CLASSIFICAÇÃO: Romênia, Para Pensar, Drama - 24/10/2012

A princípio tem-se a impressão de que o convento ortodoxo nas montanhas romenas pertence a outros tempos. Recluso e rígido, pode muito bem estar localizado no passado, quando era comum meninas serem entregues aos cuidados de ordens religiosas. Até que aparece um celular e me dou conta de que estamos falando sim de isolamento físico e moral nos dias de hoje. Com esse contraste do dinâmico e do estático, do contemporâneo e do arcaico em plena Europa do século 21, a crítica torna-se ainda mais contundente.

Diretor também de Contos da Era Dourada, que trata dos anos anteriores à  queda do comunismo com sarcasmo, ironia e humor inteligente, Christian Mungiu escolhe, aqui, deixar o humor definitivamente para outro projeto. Além das Montanhas, concorrente romeno ao prêmio de melhor filme estrangeiro em 2013, tem tudo, menos humor. É monótono no seu ritmo (poderíamos tranquilamente ter recebido a mesma mensagem com 30 minutos a menos de filme), que está carregado de significado na lentidão das mudanças – ou ausência delas – na manipulação dos gestos e pensamentos, no isolamento, na existência do demônio. Com uma fotografia linda, forte, fria e cheia de metáforas, o filme é uma crítica severa ao culto levado ao extremismo, à inconsequência, à falta de razão, ou, no mínimo, de bom senso, na interpretação das escrituras religiosas e a sua tradução em comportamento humano. Lembra um pouco O Monge, com Vincent Cassel, na dimensão que ganha o pecado.
Alina trabalha na Alemanha e volta para a Romênia para rever a amiga Voichita, que vive enclausurada em um monastério ortodoxo nas montanhas. Órfãs, as duas eram íntimas quando viviam no orfanato, deixando claro, inclusive, que mantinham uma relação amorosa naquela época. Enquanto Voichita enrtrega-se cegamente a Deus, Alina contesta esse amor, a existência do ser supremo, a legitimidade da convivência cega e rigorosa da rotina do monastério e declara todo o seu amor à amiga. Conflito entre fé e razão, sentimento e discurso vem à tona pela postura incontrolada e obstinada de Alina, deixando no ar uma sensação de desconforto, incompreensão e impaciência com a trama que se arrasta. E se arrasta como as cenas geladas do inverno romeno, como a fala mansa de Voichita, como a falta de perspectiva de uma solução pacífica e conciliadora.

Vencedoras da Palma de Ouro de melhores atrizes em Cannes, Cosmina Stratan e Cristina Flutur dão o tom dramático ao filme, que também rendeu a Mungiu o prêmio de melhor diretor no mesmo festival. Embora seja uma crítica direta à igreja ortodoxa do Leste Europeu, mais especificamente da Romênia, podemos pensar em todas as comunidades religiosas que tem seu rebanho fechado em uma redoma de pensamento e credo, sempre obediente. Obediência pura e simples. Um perigo.

 

DIREÇÃO: Christian Mungiu ROTEIRO: Christian Mungiu, Tatiana Nicukescu Bran ELENCO: Cosmina Stratan, Cristina Flutur, Valeriu Andriuta, Dana Tapalaga | 2012 (155 min)

Sem Comentários » TAGS:  

Próxima página »

CATEGORIAS

INSCREVA-SE PARA RECEBER NOSSA NEWSLETTER

Você também pode assinar listas específicas: