cinegarimpo

agosto, 2012

A ARTE DA CONQUISTA – The Art of Getting By
CLASSIFICAÇÃO: Para Ver Bem Acompanhado, Estados Unidos, Comédia Romântica - 24/08/2012

DIREÇÃO e ROTEIRO: Gavin Wiesen

ELENCO: Freddie Highmore, Emma Roberts, Michael Angaro , Elizabeth Reaser, Sam Robard.

Estados Unidos, 2011 (83 min)

Nos cinemas: 24 de agosto

Com a cara de Nova York, A Arte da Conquista me lembrou o simpático ABC do Amor. Só que agora os personagens são mais velhos e não andam mais de patinete pela cidade. Eles têm 17 anos, estão terminando o ensino médio e estão bem naquela fase de indefinição. Crescer ou não crescer? Que caminho seguir? Como enfrentar os problemas do mundo adulto, que já fazem parte do seu repertório de compreensão, mas não das suas possibilidade de resolução?

Assim está a situação de George (Freddie Highmore, também em As Crônicas de Spiderwick, O Som do Coração, A Fantástica Fábrica de Chocolate) e Sally (Emma Roberts, também em Um Hotel Bom pra Cachorro): ele se apaixona por ela, uma das garotas mais populares da turma, mas vive um momento de insegurança familiar, não se interessa pelos estudos, não faz os trabalhos e está prestes a repetir de ano. Está naquela situação crítica de baixa auto-estima, em que é preciso um desafio maior para escolher que caminho seguir.

Vivendo essa fase de descobertas e decepções, Sally e George experimentam encontros e desencontros pelas ruas de Nova York. Não importa se é previsível ou se não é um filmaço – nem era essa a intenção do diretor  Gavin Wiesen neste seu primeiro longa. A ideia era fazer um filme gracioso, em que os personagens tivessem afinidade, conseguissem compor um casal jovem simpático e afetivo. Gosto particularmente de Freddie Highmore e foi uma grata surpresa ver que saiu da fase criança/adolescente para o jovem adulto maduro e bom ator. A Arte da Conquista é um daqueles filmes gostosos de assistir, com um toque de produção independente. Gosto do tom da narrativa, que não precisa apelar para aquelas breguices típicas das comédias românticas e investe na simplicidade. Com bom gosto!

 

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FESTIVAL DE CINEMA DE GRAMADO – PREMIAÇÃO
CLASSIFICAÇÃO: Festival, Brasil - 23/08/2012

Filme de festival de cinema muitas vezes se encaixa na categoria das produções difíceis, mais elaborados intelectualmente, que não têm apelo para grandes bilheterias, que interessam mais aos críticos de cinema e acadêmicos do que ao público em geral. Muitas vezes não chegam nem aos cinemas. São produções bacanas e muito interessantes, que rodam os festivais do mundo ganhando projeção e prêmios, mas a que público brasileiro não tem acesso. Nem interesse.

Estive no Festival de Cinema de Gramado na semana passada e parece que algo está mudando. A começar pela seleção feita pela nova curadoria – filmes mais acessíveis (mas não menos inteligentes), que podem despertar o interesse do público pelo cinema nacional – está mais do que na hora que isso aconteça! Mudança essa que foi coroada com a escolha de melhor filme para Colegas, de Marcelo Galvão.

Colegas foge do gênero “filme cabeça”, típico dos festivais. Foi aplaudido de pé na exibição e emocionou a todos na premiação. Motivo: além de ser uma história de aventura, divertida, original e bem feita, o trio de protagonistas do filme de Galvão é portador da Síndrome de Down. São eles que saem num road movie em busca da realização de seus sonhos, com diálogos repletos de humor, sem vitimização – esse é o grande mérito da visão do diretor. Além de ter apelo de público e bilheteria pela aventura e diversão em si, tem o fator educacional importante, sem moralismo ou puxão de orelha. É entretenimento, que inclui um simpático e competente trio de atores.

Confesso que não achei que Colegas fosse ganhar o prêmio máximo. Também premiadíssimo foi O Som Ao Redor, de Kleber Mendonça Filho, que se enquadra na categoria dos filmes “para pensar” e teria sido a minha aposta, juntamente com o lindo e feminino O Que Se Move e com o musical Jorge Mautner – O Filho do Holocausto. Sem falar no divertidíssimo e absolutamente jovem Eu não Faço a Meno Ideia do que Eu Tô Fazendo Com a Minha Vida, de Matheus Souza, o criativo Futuro do Pretérito – Tropicalismo Now! e o instigante Super Nada, de Rubens Rewald. Portanto, uma seleção interessante e diversificada – oito dias de cinema muito bem preenchidos!

Achei que Gramado daria um prêmio especial aos atores de Colegas, que de fato venceram o Prêmio Especial do Júri, não só pela atuação, mas pelo significado dessa produção no que diz respeito à inserção social de pessoas com alguma deficiência, seja ela qual for. Mas Gramado premiou Colegas com seu mais importante Kikito e isso tem um lado muito positivo. Para nós que trabalhamos com cinema, com a ideia de trocar com o público informações sobre produções diferenciadas, visões de mundo complementares e díspares, aguçar a curiosidade por produções culturais que fogem do esperado e jogar um foco de luz no cinema brasileiro, vejo com ótimos olhos. Quem venha Colegas e encha os cinemas. Aguardem, já tem data de estreia marcada para novembro deste ano.

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O MONGE – Le Moine
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, França, Drama - 20/08/2012

DIREÇÃO: Dominik Moll

ROTEIRO: Mathew Lewis, Dominik Moll

ELENCO: Vincent Cassel, Déborah François, Joséphine Japy, Sergi López, Catherine Mouchet, Jordi Dauder, Geraldine Chaplin

França, Espanha, 2011 (101 min)

A culpa ganha a dimensão que nós estamos dispostos a lhe dar. Nem mais, nem menos. Essa foi a colocação mais forte desse filme, que está repleto de cenas marcantes, imponentes, pecadoras, sombrias. Claro, estamos em um mosteiro espanhol de monges capuchinos, em meados do século 17. A atmosfera escura e misteriosa é perfeita para o imprimir a força que o diretor Dominik Moll quer dar ao pecado, à culpa, à tentação. E usando a figura do ator Vicent Cassel como o monge que passa de modelo à transgressor e pecador, melhor ainda.

Não espere nada muito palatável, de fácil digestão. O Monge tem uma estrutura que enfoca o lado prático no começo, ou seja, a missão de Ambrósio como pregador, seu carisma com os fiéis, sua oratória cativante. Depois envereda para outro lado, o da tentação, da imaginação, dos sonhos, do pecado. Aí o filme ganha, além do tom sombrio, um tom de mistério, de miséria humana, de culpa, de loucura. Ouvi algumas pessoas dizendo que é forte demais. Mas esta é a intenção, provocar, passar da adoração e santidade para o estado de queda, humilhação, abandono. Chega a ser cruel.

Da minha parte, gostei da proposta do filme, da reflexão sugerida. Realmente não passa despercebido. Mas o melhor de tudo é Vincent Cassel (também em À Deriva, Cisne Negro, Um Método Perigoso). Vá preparado para algo com clima de Idade Média – embora não seja. E veja que peso você dá para a maldita da culpa. E para o pecado.

 

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CORAÇÕES SUJOS
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, Drama, Brasil - 17/08/2012

DIREÇÃO: Vicente Amorim

ROTEIRO: David França Mendes

ELENCO: Tsuyoshi Ihara, Takako Tokiwa, Eiji Okuda, Shun Sugata, Kimiko Yo, Eduardo Moscovis, Celine Miyuki, Issamu Yazaki

Brasil, 2011 (115 min)


Corações sujos eram aqueles japoneses que acreditavam que o Japão tinha perdido a Segunda Guerra. Ao acreditar (na verdade), estavam traindo a pátria, os comandantes da imigração japonesa no Brasil, e, por consequência, o imperador – o que já seria assinar uma sentença de morte. Assim escreveu Fernando Morais em seu livro homônimo (2000), para contar a interessante história do núcleo japonês que se estabeleceu em São Paulo naquela época, formando a imensa e integrada colônia que temos hoje.

Li o livro já há algum tempo e realmente não viria a saber do ocorrido se não fosse por essa vasta pesquisa do escritor. Gosto muito do texto de Fernando Morais (também de Chatô, O Rei do Brasil, Olga, O Mago, comentado aqui no blog), principalmente no quesito construção dos personagens. E é justamente aqui que o filme Corações Sujos, de Vicente Amorim (também de Um Homem Bom), peca. Rasos e sem contexto, os personagens japoneses centrados na figura do fotógrafo, que é escolhido para matar aqueles que “traem” a pátria por acreditarem que o Japão não é mais um guerreiro vencedor, perdem a sua força interpretativa e a narrativa fica desinteressante. De marido afetuoso e profissional gentil, passa a assassino cruel e implacável. Num estalo. 

O que não quer dizer que esteticamente não seja um filme bonito. É sim, inclusive o visual conta muito do que aconteceu com essa colônia. Muito embora não precisasse ter essa áurea tão arrumada, impecável, com tudo no devido lugar. Não tem cara de verdade, embora a gente saiba que o livro de Morais seja documental. Mas é um registro cinematográfico, que ilustra essa passagem história tão pouco conhecida. E inusitada, diga-se de passagem.

 

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O SOM AO REDOR (Gramado 2012)
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Drama, Brasil - 17/08/2012

DIREÇÃO e ROTEIRO: Kleber Mendonça Filho

ELENCO: Iranshir Santos, Gustavo Jahn, Maeve Jinkings, WJ Solha, Clébia Souza, Irma Brown, Albert Tenório, Rovaldo Nascimento, Yuri Holanda, Bruno Negaum

Brasil, 2012 (131 min)

 

FILME DA MOSTRA COMPETITIVA DE LONGA NACIONAL

Quando o som da sessão de ontem do Festival de Cinema de Gramado apresentou problemas que comprometiam não só a qualidade do filme, mas o entendimento do que diziam os personagens, a exibição foi interrompida. Faltava muito pouco para o final. Além da obviedade da situação, já que se tratava de um filme da mostra competitiva, foi dito que haveria reprise hoje pela manhã, já que aquele desfecho seria absolutamente essencial para toda a trama apresentada em O Som ao Redor.

E hoje foi provado que tinham absoluta razão. O filme já se delineava interessantíssimo na sua construção do panorama da vida da classe média urbana nordestina, inserida no contexto dos bairros descaracterizados, da especulação imobiliária, do medo paralisante, das relações familiares e servis, da família paternalista, do coronelismo. Naquela categoria de filme que costumo ressaltar com filmes de observação, que também estão na função de observar o comportamento da sociedade. E, especificamente neste caso, de observação do som da cidade de Recife – que é de fato um dos personagens do filme. Mas o desfecho, aquele que ficou faltando na noite de ontem, é realmente fundamental. E surpreendente. Para quem não tem tanta paciência, gosta de filmes mais rápidos, decisivos, minha dica é investir. Porque o desfecho compensa.

“O que me interessa muito nas cidades são os não-lugares, como o bairro de Setubal, onde se passa o filme”, comenta o diretor Kleber Mendonça. “Os não-lugares são fotogênicos, têm pessoas circulando e, onde se tem o elemento humano, há histórias.” E são essas histórias que são retratadas, não sem a intenção de retratar a mudança do perfil urbano da zona sul do Recife, não sem a preocupação de registrar o novo perfil da sociedade que por ali circula.

Para tanto, os personagens têm diálogos muito realistas, as cenas têm tempos reais e muita observação. João (Gustavo Jahn) é quem permeia por praticamente todas as situações. É neto de Francisco (Solha), que é dono do antigo engenho, portanto um senhor de terras, e hoje é dono do espaço urbano, na figura da demolição da cidade e da sua verticalização. Francisco é dono de tudo: do dinheiro, da rua, dos prédios e da ordem vigente. A elite.

Por outro lado, surge a classe média que desponta no panorama da família de Bia, com sua rotina, suas preocupações e pirações. Formando a triangulação, a classe média baixa de empregados surge na figura das empregadas domésticas, e dos vigias da rua, liderados por Clodoaldo (Irandhir Santos, também em A Febre do Rato, Tropa de Elite 2, Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo), que aparecem oferecendo, ou melhor, impondo, seus serviços, moeda de troca quando se pensa no medo que escraviza a sociedade.

O Som Ao Redor é um convite à observação do que está em torno da vida nas cidades. Ter assistido duas vezes foi até uma boa pedida. O filme exige atenção e observação dos signos e códigos colocados ali pelo diretor. Kleber Mendonça fala do Recife, mas poderia ser qualquer grande cidade brasileira, inserida no seu contexto particular. Quem é morador de uma grande cidade sabe o quanto é difícil parar, olhar, sentir e perceber o que está acontecendo ao redor. No mínimo, não dá tempo. No máximo, perdemos essa capacidade de contemplar e emitir opinião. Aproveite para fazer o exercício. Sua cidade pode ser um grande laboratório.

 

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O QUE SE MOVE (Gramado 2012)
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Drama, Brasil - 16/08/2012

o que se moveDIREÇÃO e ROTEIRO: Caetano Gotardo

ELENCO: Cida Moreira, Andrea Marquee, Fernanda Vianna, Wandré Gouveia, Germano Melo, Rômulo Braga, Henrique Schafer

Brasil, 2012 (97 min)

FILME DA MOSTRA COMPETITIVA LONGA NACIONAL 
Ao ser exibido em Gramado ontem, os realizadores do filme pediram paciência. Disseram que o filme tinha um tempo específico, próprio e necessário. Que seria preciso esperar que ele acontecesse. De fato e preciso. É isso mesmo. As escolhas do diretor Caetano Gotardo, para reproduzir na tela sua leitura de três histórias extraídas dos jornais, têm uma razão de ser. Os planos longos e demorados são necessários para entrar no momento de vida das personagens, que vivem, as três, momentos decisivos.

O que faz com que O Que Se Move não seja um filme para todo mundo. Nem para qualquer hora. Exige não só atenção, mas principalmente entrega, assim como citei em Trabalhar Cansa (não é à toa que as equipes têm profissionais em comum e que a linguagem é semelhante). Entrega porque o filme apresenta histórias, sem emitir juízo de valor. Portanto, não está pronto, não é óbvio, não é industrializado, por assim dizer. Sinto isso em filmes desse tipo, que o diretor pede, implora que o espectador entre, se envolva, sinta realmente a dor a e alegria que os personagens estão vivendo. Por isso planos tão longos, para dar tempo de o personagem e nós absorvemos a realidade.

“O filme não vai para o psicologismo do personagem, ele narra”, resume bem Cida Moreira, uma das mulheres-chave do filme. É isso, exige do espectador, mas compensa pela profundidade da problemática humana. “Procurei colocar uma lupa em coisas mais cotidianas, porque as três mulheres atravessam um instante extremo em suas vidas”, justifica o diretor Caetano Gotardo, em relação a esse tempo tão longo do filme. Vá sabendo e tenha, mais do que paciência, um olhar mais cuidadoso. Não para enxergar, mas para sentir.

Isso porque o clímax vivido na tela não é pouca coisa, mas também não acho que seja prudente da minha parte entrar em detalhes. Parte da magia do filme é justamente a sensação que desperta de surpresa. Eu sabia, o tempo todo, que algo ia acontecer. Mas isso só se concretiza no final de cada bloco e causa espanto, dor, alegria dentro e fora da tela. Ao mesmo tempo. Repare também na escolha poética do diretor, quando ele propõe que os sentimentos sejam cantados pelas personagens. Nestes momentos, o olhar feminino e maternal se aguça de uma maneira capaz de deixar qualquer mãe realmente emocionada. Aconteceu comigo.

Não que seja mérito meu, nada disso. Mas acho que é preciso estar predisposto e aberto à linguagens diferenciadas, numa tradução ousada do sentimento para a tela. Dificulta comercialmente, mas humaniza de uma maneira bela e profunda. E corajosa.

 

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COLEGAS (Gramado 2012)
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Para se Divertir, Comédia, Brasil - 16/08/2012

DIREÇÃO e ROTEIRO: Marcelo Galvão

ELENCO: Ariel Goldenberg, Breno Viola, Rita Pokk, Lima Duarte, Marco Luque, Rui Unas, Deto Montenegro, Leonardo Miggiorin, Otávio Mesquita, Theo Werneck, Christiano Cochrane, Thogun, Juliana Didone, Amélia Bittencourt

Brasil, 2012 (99 min)

FILME DA MOSTRA COMPETITIVA LONGA NACIONAL

O projeto é de inclusão social, claro. Afinal, os três protagonistas são portadores da Síndrome de Down, o que criou uma dificuldade extra na captação de recursos – a ideia é que não fossem vistos como deficientes, mas muitas empresas não querem ver seu nome associado a portadores da síndrome. “Por incrível que pareça, a dificuldade não foi dirigir os garotos, não foi filmar na Argentina, não foi fazer o take de helicóptero, nem encontrar a plantação de girassol para invadir”, relata o diretor Marcelo Galvão. Em outras palavras, foi o preconceito. Mas o desafio proposto é assistir ao filme deixando de lado as diferenças, focando na aventura e nas qualidades do elenco. E claro, na diversão!

Foi assim que Marcelo Galvão apresentou o filme em Gramado, um convite para que as pessoas esquecessem as diferenças e caminhassem juntas. Inclusive visualmente. A sessão do Festival de Cinema de Gramado teve audiodescrição, ou seja, narrativa ao vivo das cenas do filme, para que pessoas com dificuldades visuais pudessem assistir. Mais um recurso de inclusão social, que estará presente no DVD do filme. Incluir esta melhoria nos cinemas é uma questão comercial, que depende de outras negociações. Mas que a sensação é muito boa, isto é, sentir que é possível democratizar.

Colegas me lembrou logo de cara o filme belga Hasta la Vista, Venha Como Você É, em que 3 jovens deficientes fogem da casa dos pais e partem em uma aventura na Espanha. Perguntei ao diretor se ele tinha assistido ao filme. “Ainda não, está na minha agenda.” Pois vale a pena, toca neste mesmo viés de falar sobre suas próprias limitações com humor e inteligência, sem preconceito. Assim como os belgas, os 3 amigos de Colegas se inspiram no road movie Telma & Louise, pegam emprestado” o carro do diretor do instituto onde moram na calada da noite e partem para uma aventura. Assim mesmo, intuitivamente. Vão andando numa certa direção, que eles acreditam terminar no mar. Este é o sonho de Stalone (Ariel), ver o mar. Aninha (Rita) quer se casar e Márcio (Breno) sonha em voar. Buscando realizar esses desejos, armam confusão por onde passam, atormentam os policiais que não conseguem capturá-los, criam um frenesi na mídia sensacionalista, que os chama de “bandidos perigosíssimos”, e diverte a plateia com referências cinematográficas deliciosas.

Divertido também foi ouvir dos atores Rita e Ariel sobre a sua participação no filme. Espontâneos, como naturalmente são, Rita disse que está esperando o momento de subir no palco para receber o Kikito, ou melhor, o Oscar – claro que arrancou risos do jornalistas na entrevista coletiva. “Eles são assim, desarmados, espontâneos”, conta Juliana Didone, que faz a repórter do jornal sensacionalista. E é bem isso que o filme passa – e foi isso que me cativou. Espontâneo, solto, livre de preconceitos, de limites, de fronteiras. Gostoso de assistir, funciona não só na missão de trabalhar a inclusão social, aumentar os horizontes da convivência e da aceitação, mas também questão entretenimento. Alia o útil ao agradável. Ponto para os colegas!

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FUTURO DO PRETÉRITO – TROPICALISMO NOW! (Gramado 2012)
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, Documentário, Brasil - 15/08/2012

DIREÇÃO: Ninho Moraes e Francisco César Filho

ROTEIRO: Ninho Moraes

ELENCO: Carlos Meceni, Gero Camilo, Helena Albegaria, Alice Braga, Luiz Caldas

Brasil, 2011 (76 min)

FILME DA MOSTRA COMPETITIVA LONGA NACIONAL

Tropicalismo now! Como assim, já não foi? Pois é, se você não se deu conta do que foi esse movimento de quebra de paradigmas, conceitos e comportamentos no final dos anos 1960, quando a ditadura se tornou ainda mais ferrenha, Futuro do Pretérito – Tropicalismo Now! tem a função de despertar a sua curiosidade. “Não se trata de um documentário, mas de uma visão de 2011 do Tropicalismo, com todas as referências que temos hoje”, revela o diretor Ninho Moraes. “A ideia do filme é instigar, deixar o espectador curioso para querer saber mais, e não resgatar o movimento em si.”

E desperta a curiosidade mesmo. O filme é um caleidoscópio de linguagens, documentário, poética e ficção ao mesmo tempo. Uma leitura que mistura diversas formas de expressões, mixando o digital, a música contemporânea eletrônica com canções Tropicalistas, na figura do compositor e músico André Abujamra (responsável pela trilha), a leitura de textos de Caetano, a narrativa do momento político direta com o espectador, a projeção do rosto da atriz Alice Braga enquanto Lindonéia (a personagem da música que Caetano fez a pedido de Nara Leão). Multimídia, interativa, jovial total. Deixe-se levar, porque a estrutura não é linear, é sensitiva. Meio maluca, um show totalmente diferente, performático no Teatro Oficina, feito especialmente para o filme, como deve ter sido a quebra de conceitos naquela época.

Imediatamente me lembrei de Uma Noite em 67, de Renato Terra e Ricardo Kalil, que mostra os festivais, o momento em que a mudança veio ao público e já era um caminho sem volta. De fato e o próprio Ninho Moraes também lembrou de outro, ainda inédito. “Super complementar é o filme do Marcelo Machado, Tropicália (será lançado nos cinemas em setembro), esse sim centrado em arquivo, com depoimento de todos eles, coisa que a gente não poderia ter.”

Gilberto Gil é grande figura Tropicalista que aparece, e não Caetano, embora este esteja presente em tudo, nos textos, nas citações.  Ninho explica que Gil era o curador de um fórum da música digital que acontecia na época, então já era a ponte entre passado e presente. Aí então veio a pergunta: por que Caetano não dá o seu depoimento? “Ora, Caetano é muito charmoso, viria com seu jeito baiano puxando sardinha pro seu lado”, diz Ninho Moraes, despertando risos dos jornalistas e a cumplicidade do também baiano Luiz Caldas. “Ele já disso tudo o que tinha que dizer em seu livro Verdade Tropical e está presente no filme de outras maneiras.” Interessante, mas fiquei curiosa e perguntei se Caetano gostou do que viu na tela. E se viu. “Mandei o filme pra ele. Foi econômico, disse que curtiu. Pelo que conheço dele, não teria porque não dizer a verdade.” De fato, a essa altura do campeonato, não teria mesmo. E o filme tem o clima do Tropicalismo, da diversidade, da não obviedade. Amplia os horizontes, bem legal. Se complementar com os documentários citados, ainda melhor.

 

 

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MOSTRA COMPETITIVA CURTAS NACIONAIS 2 (Gramado 2012)
CLASSIFICAÇÃO: Festival, Curta Metragem - 14/08/2012

Mais Curtas da Mostra Competitiva do Festival de Gramado:

CASA AFOGADA, de Gilson Vargas, 2011 (13’30)

A casa sob palafitas, construída para este curta metragem, tem o mínimo de elementos para a sobrevivência física do personagem, e para a sobrevivência afetiva, na figura do peixinho, dos livros, das fotos. Palavras do diretor do filme Gilson Vargas, cuja equipe que já arrebatou prêmio de direção de arte e edição de som em Gramado, na categoria Curtas Gaúchos. “Casa Afogada não tem excessos, é econômico, mesmo porque não é sobre a casa que cai, mas sobre um homem que vive lá e precisa dar conta do espaço em que vive”, diz Vargas.

É isso. O ator Zé da Terreira não tem fala, exprime-se de outra maneira, pelo olhar, pela tentativa de salvar o é seu, pela decisão que toma no desfecho do curta. Vive na casa em palafitas, que subitamente desmorona. No espaço da casa estão todas as suas referências, inclusive seus livros, que tratam de dar voz ao filme e nos fazem a pergunta: que homem era esse? Qual a sua história de vida? Isso fica em aberto e é o que eu mais gosto. Instiga. Do diretor, vem um tratamento integrado da imagem, atuação, locação, todos dando significado ao personagem ‘casa’, ao personagem ‘homem’. Que no fundo senti como uma coisa só.

 

META, de Rafael Baliú, 2012 (20 min)

Rafael Baliú é personagem de seu próprio filme. Metalinguagem, é um filme sobre como fazer um filme. Com orçamento muito baixo e ajuda dos amigos, Rafael faz um filme para conseguir conquistar a garota dos seus sonhos. É uma grande brincadeira, sem pretender se algo diferente disso. Com passagens engraçadas pela simplicidade com que são apresentadas, Meta é mais curioso do que qualquer outra coisa. Mas acho que, pelo estilo do curta, poderia ter economizado alguns minutos em diálogos repetitivos.

 

A MÃO QUE AFAGA, de Gabriela Amaral Almeida, 2011 (19 min)

Vencedor do Prêmio Especial do Júri em Gramado, A Mão Que Afaga é um perturbador retrato sobre a conturbada comunicação do nosso tempo. “O telemarketing é um sintoma do tempo em que a gente vive”, diz a diretora Gabriela Amaral Almeida em entrevista. “É uma pessoa que vive se comunicando, sem se comunicar realmente”, completa.

A personagem Estela – perturbadora e muito bem construída, diga-se de passagem – passa o dia rodeada de gente e falando com diversas pessoas, mas á solitária, sem laços, carente da própria capacidade de comunicação que serve de sustento. A rotina do atendimento é rompida pela chegada do aniversário do filho de 9 anos. Estela planeja uma festa que beira o patético e o tragicômico, que desperta risos pela situação ridícula em que a personagem que vê. A mão que afaga é a mesma que apedreja. A expressão se encaixa, também na contradição do não-comunicador da emoção e do afeto que somos, nessa sociedade midiática e imediatista de hoje.

 

FUNERAL À CIGANA, de Fernando Honesko, 2012 (15 min)

 


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FESTIVAL VARILUX DE CINEMA FRANCÊS
CLASSIFICAÇÃO: Brasil - 13/08/2012

Já disse várias vezes e repito: se a gente quiser, praticamente todos os dias tem festival de cinema em São Paulo. Não precisamos ir longe: o Anima Mundi terminou na última semana de julho, o Traffic – Festival de Cinema e Cultura Asiática veio em seguida, coincidindo com o Festival de Cinema Judaico, que abre as portas de 15 a 23 de agosto para o cinema francês, em 32 cidades do Brasil. Sou fã dessa dinâmica invasão estrangeira, é verdade. A riqueza de informação, cultura e entretenimento é espetacular e vale a pena conferir.

Assistir a alguns deles e faço as minhas recomendações. A começar pelo filme de abertura, Intocáveis, que arrebatou bilheterias na França e me emocionou. Fez lembrar o ótimo filme belga Hasta la Vista: Venha Como Você É, do diretor Geoffrey Enthoven, que esteve em cartaz em maio deste ano. Ambos tratam a questão do deficiente físico sem piedade, com respeito, humor e graça – o que parece simples, mas não é. Intocáveis é uma bonita história da amizade entre um sujeito rico e requintado, que fica tetraplégico e contrata alguém totalmente fora do perfil de um cuidador para ajudá-lo e principalmente fazer sua vida mais interessante. O bacana do filme é que não se restringe à emoção, passeia pelo humor de um maneira deliciosa e delicada, com os ótimos François Cluzet e Omar Sy.

Também gostoso é Um Evento Feliz, que apesar de tratar do tema conhecido do casal que vai ter o primeiro filho e vê a vida virar do avesso, é inteligente, engraçado e vai fazer muitas mães se identificarem. Outro gênero bem diferente, que tem um pouco de mistério, sombras e religião, é O Monge, de Dominik Moll, com o ator Vincent Cassel. Aqui quem manda é a danada a culpa, que rege o filme todo, num tom denso e pesado, numa ambientação sombria de um mosteiro espanhol do século 17.

Quero muito ver E Agora, Aonde Vamos?, da atriz e diretora franco-libanesa Nadine Labaki, também do ótimo e ultra feminino Caramelo. Ela vem ao Brasil divulgar o filme, que também fala de mulheres, religião e tolerância – ou intolerância, não sei. Importante é garimpar a alternativa que mais coincide com seu estado de espírito. Acompanhe no Cine Garimpo as novidades e consulte o site do Festival Varilux de Cinema Francês para mais informações.

 

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