cinegarimpo

julho, 2012

A CIDADE PERDIDA – The Lost City
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, Estados Unidos, Drama - 31/07/2012

DIREÇÃO: Andy Garcia

ROTEIRO: Guillermo Cabrera Infante

ELENCO: Andy Garcia, Inés Sastre, Bill Murray, Nestor Carbonell

EUA, 2005 (144 min)

Voltando de uma recente visita a Cuba, um casal de amigos veio contando as novidades – que, a bem dizer, não são fatos tão novos assim com Fidel Castro no comando desde 1959. É mais, do mesmo. Até quando? Mas vieram contando aquilo que não é oficial, que descobre-se na boca pequena, na conversa. Que o camareiro do hotel é engenheiro, que o médico de um belo resort ganha o equivalente a US$ 50 por mês – e ainda é privilegiado para os padrões locais, que há uma moeda local para os mortais cubanos, e outra para os turistas. E que Cuba é linda, claro!

Contaram também que, antes de viajar, fizeram a lição de casa: assistiram ao filme dirigido por Andy Garcia, A Cidade Perdida – é o que devemos fazer, sempre há um filme interessante que nos leva para onde nunca fomos. Aprendi outra, não sabia que Garcia era cubano. Pois é. De família abastada, foi perseguida por Fidel e sua turma após a revolução, como todos aqueles que tinham posses e algum poder. Pelo que consta, fugiu com a família para Miami em 1961, onde seus pais tiveram de se virar para sobreviver, já que quem conseguiu sair da ilha naquela época praticamente fugiu com a roupa do corpo.

Lembrava vagamente de ter assistido ao filme, mas confesso que talvez tenha visto apenas algumas partes. A Cidade Perdida me pareceu um presente a Andy Garcia, quase que uma revisita à história de sua família. No filme, ele faz parte de um clã rico, dono de terras e prestígio, a espinha dorsal de uma família amorosa e tradicional. Os irmãos revolucionários pagam o preço do comunismo e seu personagem, Fico Fellove, é quem vê com clareza que a violência apenas mudava de mão. Essencialmente não viriam mudanças sociais e a repressão se tornaria ainda mais severa e duradoura.

Na direção de Andy Garcia, A Cidade Perdida tem uma abordagem quase que poética, mas sem lustrar a pílula. Seus figurinos e reconstituições de época primorosos ajudam na valorização dos diálogos (alguns emblemáticos) e da condição humana. Dono de uma casa de shows, Fellove dá o tom musical ao filme com as canções e ritmos caribenhos característicos da ilha. Quem se interessa pelo assunto, é uma boa pedida. Andy Garcia (também em O Poderoso Chefão, 11 Homens e Um Segredo, 12 Homens e Outro Segredo) é sempre ótimo na tela.

Aproveito também para recomendar também os dois filmes de Steven Soderbergh, Che – O Argentino e Che – A Guerrilha, além, é claro, do filme de Walter Salles, Diários de Motocicleta, que mostra um Che ainda médico, antes de ser guerrilheiro. Para uma visão bem contemporânea do que realmente se passa em Cuba, o livro da blogueira Yoani Sánchez, De Cuba, Com Carinho, é uma pequena mostra dos desafios a vencer.

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ALÉM DA LIBERDADE – The Lady
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, Garimpo na Locadora, França, Drama, Biografia - 30/07/2012

Orquídea de Aço seria o melhor título. Tenho dito aqui e repito: essa coisa de optar por palavras teoricamente de apelo emocional (como “liberdade”, “felicidade”), tão comuns nos títulos dos filmes estrangeiros, produzem o efeito contrário. Enfraquecem o pôster (grande chamariz) e a narrativa, e caem no lugar comum.

Seria o melhor título, porque é assim que a ativista birmanesa Aung San Suu Kyi, vencedora do Prêmio Nobel da Paz em 1991, é conhecida. Filha do general Aung San, que comandou a libertação da Birmânia da ocupação inglesa e foi morto em 1947 pelos militares que tomaram o poder, Suu Kyi é a cara da Birmânia, atual Mianmar, no que tange a repressão política, o poder autoritário, a falta de liberdade. Orquídea de Aço se aplica à sua resistência pacífica durante os 21 anos em que sofreu violenta repressão, inspirada e amparada pelos princípios e ensinamentos de Gandhi. Portanto, apesar de o filme em si não ser uma obra-prima, produções como essas normalmente valem a pena. Fornecem informações interessantes e atuais sobre um país distante, mas sobre uma realidade muito comum e bem perto de nós.

Importante dizer isso antes de tocar no teor da produção e escolhas feitas pelo diretor francês Luc Bessson. Cada aspecto tem a sua importância e considero o teor histórico e documental (apensar, eu sei, de ter também situações fictícias, como sempre acontece) o mais rico – nem que seja só para se inteirar do assunto.

Dito isso, vamos ao filme em si. Suu Kyi (Michelle Yeoh) vai estudar em Oxford, onde conhece o professor Michael Aris (David Thewlis), casa-se e tem dois filhos. Volta para a Mianmar em 1988 para cuidar da mãe, quando se dá conta do caos social, econômico e político em que o país está mergulhado. Sensibilizada, mobiliza seguidores para formar a força de oposição e lutar pela democracia no país. Sem querer que Suu Kyi vire mártir, o governo decreta sua prisão domiciliar em 1989. Até ser inteiramente revogada em 2010, graças à forte pressão internacional, Suu Kyi passa esses 21 anos sem poder sair do país, totalmente cerceada, sendo que a maior parte do tempo é vivida em prisão domiciliar. Em abril deste ano foi eleita deputada e só conseguiu sair de Mianmar em junho deste ano – mais uma razão para assistir ao filme e se manter atualizado com o que acontece no mundo.

De modo geral, Além da Liberdade me manteve entretida e interessada durante todo o tempo. A personagem de Suu Kyi assume a postura e atitude pacifista, enfrentando seus opositores violentos com orquídeas, abrindo mão do convívio familiar para lutar pela causa. Apesar da força que sabemos que ela tem, no filme quem comanda é seu marido Michael, na pele de David Thewlis. Ele tem um papel mais dramático e rouba a cena em diversas ocasiões. Claro que o filme poderia ter se aprofundado mais, ainda mais considerando o peso, a importância e a história da persoangem, mas a pincelada é boa, nos dá uma noção interessante sobre um personagem histórico espetacular. Esse é o grande trunfo da história. Para entender o nosso mundo, claro. Ou entender cada vez menos.

DIREÇÃO: Luc Besson ROTEIRO: Rebecca Frayn ELENCO: Michelle Yeoh, David Thewlis, William Hope, Jonathan Raggett, Jonathan Woodhouse, Susan Wooldridge, Benedict Wong | 2011 (132 min)


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AQUI É O MEU LUGAR – This Must Be The Place
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Itália, Drama - 28/07/2012

DIREÇÃO e ROTEIRO: Paolo Sorrentino

ELENCO: Sean Penn, Frances McDormand, Judd Hirsch, Eve Hewson, Kerry Condon, Harry Dean Stanton, Joyce Van Patten, David Byrne, Olwen Fouere

Itália, 2011 (118 min)

Nos cinemas: 27 de julho

“Tem alguma coisa estranha, mas não sei o que é.” Concordo com Chayenne. Tem alguma coisa estranha. À medida que Aqui é o Meu Lugar vai ganhando corpo, o que se percebe é que o estranho não é o ex-roqueiro Chayenne em seu visual noir, maquiado e efeminado. Isso é a fantasia que ele resolve incorporar para esconder a estranheza que sente de si próprio, essa coisa mal resolvida que tem dentre dele que não consegue resolver. Só vai ser vencida quando ele toma a decisão de colocar o pé na estrada e acertar as contas com o passado.

Mas justiça seja feita. Chayenne só é esse personagem bizarro, de olhar perdido e distante, fala mansa e arrastada, o inexpressivo que beira o indiferente, o surreal, o absolutamente fora da realidade, porque está na pele de Sean Penn. Talentoso e competente, veste a camisa e tudo mais proposto pelo diretor italiano Paolo Sorrentino. Sai da seara de Hollywood e aceita ser este personagem, no mínimo, diferente. E não é só o personagem, o olhar da direção é outro, tem a preocupação com nuances, detalhes, diálogos precisos que enriquecem ainda mais a estranheza do ex-roqueiro americano, que ganhou muito dinheiro, abandonou a carreira por causa de um acidente traumático, é casado com uma fiel e firme companheira (um contraste e tanto com sua figura), mora recluso em uma casa enorme em Dublin e vai construindo uma realidade ao mesmo tempo apática e instigante, que só me fez ficar ainda mais curiosa para saber o desfecho.

Claro, Sean Penn (também em Milk – A Voz da Igualdade, Sobre Meninos e Lobos) não dá ponto sem nó. De apático só a fala e o olhar. Porque as palavras são certeiras. Ótimas tiradas. Até quando a rotina se quebra e Chayenne precisa voltar para os EUA para o velório do pai, com quem não falava há 30 anos. Ex-prisioneiro do campo de concentração no Holocausto, seu pai passou anos em busca do nazista que o torturou. Chayenne sente-se em dívida, assume a vingança do pai e de uma maneira muito particular entra na segunda metade do filme construindo um road movie e mostrando a que veio. Não só para nós, mas para ele também.

E essa descoberta, esse desfecho, suas escolhas e o olhar elaborado e nada óbvio do Sorrentino fazem com que Chayenne encontre realmente seu lugar ao sol. É isso mesmo, Aqui é o meu Lugar não é óbvio, nem o enredo, nem o personagem, nem a narrativa em si. No mínimo muito interessante; se for para ir além, rende ótimas conversas e reflexões. Com direito à palinha de David Byrne, do Talking Heads. Muito bom!

 

 

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CADA UM COM SEU CINEMA – Chacun son Cinéma
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Para Entender o Nosso Mundo, França - 26/07/2012

DIREÇÃO: Theodoros Angelopoulos, Youssef Chahine, Ethan Coen, Joel Coen, David Cronenberg, Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne, Manoel de Oliveira, Amos Gitai, Alejandro González Iñárritu, Abbas Kiarostami, Claude Lelouch, David Lynch, Nanni Moretti, Roman Polanski, Raoul Ruiz, Walter Salles, Elia Suleiman, Gus Van Sant, Wim Wenders

Festival de Cannes, 2007 (119 min)

A ideia é espetacular  – não porque seja original, mas por nos fazer pensar no que o cinema desperta dentro de nós. Trinta e seis diretores renomados, de diversas nacionalidades, foram convidados a produzir um curta sobre a sétima arte para celebrar os 60 anos do Festival de Cannes, reproduzindo nas telas aquela sensação única que é o momento do apagar das luzes, quando o filme começa e a magia se instala. Cada curta tem três minutos – incrível como dá tempo de transmitir em tão pouco tempo, tantos e tão diversos sentimentos. Adoro esse tipo de abordagem, quando um tema é lido sob diversos prismas. Um presente para qualquer cinéfilo. Assim como outros filmes que seguem a mesma linha, como a série Cities of Love (Paris, Eu Te Amo, Nova York, Eu Te Amo), em que vários diretores fazem um curta com a sua visão das cidades, e 11 de Setembro, também uma revisita ao atentado às Torres Gêmeas pelo olhar de diferentes cineastas.

Não conseguiria contar todas as histórias, são muitas e muito variadas. Se for possível assistir um a um, tendo em mente pelo menos algo da filmografia do diretor, tanto melhor. Fica mais fácil captar a sutileza da sua releitura do tema (o Cine Garimpo tem diversos filmes dos diretores convidados). O egípcio Youssef Chahine, por exemplo, conta como foi a sua primeira temporada em Cannes, como diretor iniciante, até receber o prêmio pelo conjunto da obra depois de 47 anos; o francês Claude Lelouch homenageia os pais, responsáveis pelo seu contato com o cinema; o israelense Amos Gitai fala do conflito árabe-israelense com tom de rotina e de tragédia humana e política; David Cronenberg questiona o fim do cinema e dos judeus, como notícia; o italiano Nanni Moretti faz uma crônica da vida e do cinema, com sua típica comédia irônica; o alemão Win Wenders filma a miséria africana indo ao cinema. Curioso notar que cada diretor recebe a proposta de uma maneira e faz uma leitura como entende, seja de forma vivencial, pessoal, política ou saudosista. Pena que o brasileiro Walter Sales tenha feito um curta esquisito com a dupla Caju e Castanha – mais pareceu uma peça publicitária do festival em si – talento jogado fora.

De uma maneira geral, Cada um Com Seu Cinema é um exercício curioso e interessante de como uma mesma mensagem chega para cada um de nós, da mesma maneira que cada um vivencia o mesmo momento de forma distinta. O mais bacana é que o cinema se confunde com a vida e se mistura intensamente com todas as nossas mais genuínas emoções.

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BATMAN – O CAVALEIRO DAS TREVAS RESSURGE – The Dark Knight Rises
CLASSIFICAÇÃO: Para se Divertir, Estados Unidos, Ação - 25/07/2012


DIREÇÃO: Christopher Nolan

ROTEIRO: Christopher Nola, Jonathan Nolan

ELENCO: Christian Bale, Anne Hathaway, Michael Caine, Gary Oldman, Tom Hardy, Joseph Gordon-Levitt, Marion Cottilard, Morgan Freeman

Estados Unidos, 2012 (164 min)

Com O Espetacular Homem-Aranha tive mais sorte. Ele começa uma série totalmente nova, uma releitura com novos atores vestindo antigos personagens. Portanto, começamos juntos. Já com este terceiro filme do Batman foi diferente. Tive uma verdadeira overdose do homem-morcego mais famoso do mundo em menos de 24 horas. Não dava para ser diferente, eu tinha que correr atrás do prejuízo e assistir aos dois filmes anteriores do diretor Christopher Nolan, antes de ir à sessão de Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge. Foi um ótimo pretexto, eu diria. E uma grata surpresa.

Na época, deixei Batman Begins (2005) e Batman – O Cavaleiro das Trevas (2008) passar, imagino que por causa do preconceito contra os filmes que revivem as lendas dos super-heróis. Como se tudo fosse déjà vu. Não é. Considero até que fiz minha iniciação em X-Men e tive de dar mão à palmatória.  E qual não foi a minha surpresa quando me vi torcendo, acompanhando passo por passo as tragédias, as conquistas, as derrotas, as surras, as mirabolantes estratégias e parafernálias desse novo Batman, na pele do incrível Christian Bale, que começou pequeno, estrelando em O Império do Sol, de Steven Spielberg, e brilhou em O Vencedor, levando o Oscar de melhor ator coadjuvante pelo papel.

Aliás, me surpreendi com muita coisa. A começar por essa tendência, eu diria, de revisar o passado do super-herói, desde a sua infância, dando a ele a singela característica de ser gente-como-a-gente. Foi assim como Homem-Aranha e também nesta trilogia do Batman. E isso é bom, humaniza o personagem e o aproxima do espectador. Batman, eu e você sentimos raiva, erramos, fracassamos. Isso é reconfortante e dá sentido a muitas das tiradas engraçadas e inteligentes no decorrer da história.

Enquanto Bruce Wayne passa grande parte do primeiro filme treinando para ser o homem-morcego, no segundo luta contra o arquirrival Coringa. Sempre acompanhado do fiel mordomo Alfred (Michael Caine), do cientista Fox (Morgan Freeman), do policial honesto Gordom (Gary Oldman). No terceiro filme, faz a amarração de tudo o que ficou para trás, explica o que ficou propositalmente meio nebuloso e cria situações que mudam drasticamente o rumo do filme. Tudo para salvar Gotham City das mãos do mal.. Desta vez, Gotham também conta com a participação da executiva Marion Cotillard (Até a Eternidade, A Origem, Piaf), da misteriosa ladra Selina Kyle (Anne Hathaway, também em O Casamento de Rachel, Alice no País das Maravilhas, Um Dia), do policial John Blake (Joseph Gordon-Levitt, também em 500 dias com Ela, A Origem), além de todos os vilões.

Aliás, melhor parar por aqui. O homem-morcego tem muitas surpresas reservadas e não serei a estraga-prazer. Só digo e deixo registrado: Batman ressurge com muita ação, uma trilha e efeitos de som perfeitamente encaixados e um roteiro muito bem amarrado, divertido, interessante de assistir. Estou torcendo para que Nolan (também de A Origem) se anime a continuar. Enquanto o Batman não vem, você tem mais do que as minhas 24 horas para ver (ou rever) os dois filmes anteriores. Vale a pena. Depois não diz que não entendeu que personagens eram aqueles e que ninguém avisou. Porque está tudo muito, mas muito bem pensado.

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BEM AMADAS – Les Bien-Aimés
CLASSIFICAÇÃO: Romance, Para Ver Bem Acompanhado, França, Drama - 23/07/2012

DIREÇÃO e ROTEIRO: Christophe Honoré

ELENCO: Chiara Mastroianni, Catherine Deneuve, Ludivine Sagnier, Louis Garrel, Milos Forman, Paul Schneider,

França, 2011 (139 min)

Em tom de fábula, Christophe Honoré, também diretor de Em Paris, fala sobre o amor. Bem francês, o filme. Fala do amor para frisar bem a dificuldade de amar. Não tanto de ser amado, mas de amar a pessoa certa, aquela que retribui seu sentimento, aquela que se importa, aquela que realmente vai ficar ao seu lado. Quando digo fábula me refiro ao clima, aos atores cantando pelas ruas de Paris, à total despreocupação do diretor de querer parecer real. O importante é ser real no sentimento. Principalmente em uma das coisas que ele tem de mais complexas: a dificuldade que temos de lidar com ele.

Claro que a segunda parte do filme é superior. Nem poderia ser diferente. Catherine Deneuve e Chiara Mastroianni, mãe e filha também no filme, são imbatíveis juntas, numa sintonia ímpar. Não é para menos e é esse o grande charme de Bem Amadas.

E são realmente mulheres bem amadas, intensas, insaciáveis, cada uma à sua maneira. Madeleine, a mãe, interpretada quando jovem pela atriz Ludivine Sagnier, é uma prostituta, que se apaixona por um cliente nos anos 60 e segue assim até o fim da vida. Entre idas e vindas, amores e desamores, nasce Vera (Chiara Mastroianni), que também tem dificuldade de lidar com o amor. Não como Madeleine (Catherine Deneuve, também em Potiche – A Esposa Troféu), que se une ao amor estilo porto-seguro, mas ama verdadeiramente o amor bandido, safado, sem vergonha. Vera não sabe o que ama, procura desesperadamente um tronco para se agarrar, sempre lutando para permanecer viva, mesmo mergulhada nos seus sentimentos, desesperos, desilusões e sonhos.

O que começa em tom mais de comédia, termina em drama, em dor. O desfecho me pegou de surpresa, confesso. Apesar de um pouco longo demais, Christophe Honoré fez poesia. Alegorias do difícil que é amar. Porque amadas, elas foram.

 

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A ENSEADA – The Cove
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, Estados Unidos, Documentário - 23/07/2012

DIREÇÃO: Louie Psihoyos

ROTEIRO: Mark Monroe

ELENCO: Richard O’Barry, Louie Psihoyos, Hardy Jones

Estados Unidos, 2009 (92 min)


Premiadíssimo pelo público em vários festivais do mundo, The Cove ganhou também o Oscar de melhor documentário longa metragem em 2010. Curioso isso, ter sido tão premiado pelo espectador. Mas absolutamente compreensível e merecido, já que se trata de um documentário denúncia, que tem como objetivo chamar a atenção das pessoas comuns, como nós, para o abuso cometido pelas autoridades.

E chama realmente a atenção. Por três motivos principais, eu diria. O primeiro deles, e mais óbvio, é a denúncia em si: 23 mil golfinhos são encurralados todos os anos na enseada perto de Taiji, no Japão (parte é capturada e exporta para os diversos parques aquáticos espalhados pelo mundo, onde os golfinhos são mantidos em cativeiro para alegria das famílias que querem ver suas peripécias; parte é morta para vender a carne). Em segundo lugar, o documentário impressiona pela ação dos ativistas. Convencidos a coletar provas do massacre, arriscam-se colocando câmeras camufladas, inclusive subaquáticas, em toda a enseada, para registrar a matança. Desta maneira poderiam fazer um forte lobby contra o governo que dizia não saber de nada. E por último, The Cove surpreende quando sabemos que toda a operação de espionagem, protesto e coleta de provas é liderada por nada mais, nada menos do que Richard O’Barry, o ex-treinador do golfinho mais famoso do mundo, o Flipper do seriado famoso no mundo todo, inclusive no Brasil nos anos 70. Quem não se lembra?

Vejam só que interessante. Depois dessa experiência como treinador dos golfinhos e ator no seriado, O’Barry se dá conta de que o animal não se adapta ao cativeiro. Cria o Dolphin Project em 1970 e desde então tenta conscientizar as pessoas e libertar golfinhos em cativeiro. O projeto do documentário tem imagens impressionantes, levanta e expõe questões sérias de segurança pública (oferecer carne de golfinho com alta contaminação por mercúrio), abuso de poder e ganância da indústria pesqueira japonesa. Vale ser visto, pelo suspense que é criado no filme em si, pela ousadia da operação e pela real barbaridade.

Disponível no iTunes

 

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ELLES
CLASSIFICAÇÃO: Polônia, Para Ver Bem Acompanhado, França, Drama - 20/07/2012

DIREÇÃO: Malgorzata Szumowska

ROTEIRO: Malgorzata Szumowska, Tine Byrckel

ELENCO: Juliette Binoche, Anaïs Demoustier, Joanna Kulig

França, Polônia, 2011 (99 min)

 

Nos cinemas: 20 de julho

Anne (Juliette Binoche) é aquela “mulher-polvo”, que cuida da casa, lava, limpa, cozinha (inclusive par o chefe do marido), cuida dos filhos (um adolescente indolente e um menino menor, que não desgruda do videogame) e ainda trabalha! É jornalista da revista Elle e está se dedicando a uma matéria sobre estudantes prostitutas. A partir da vivência e das entrevista com as garotas, Anne passa a questionar sua satisfação no casamento e no sexo. Intimista, o filme é Juliettte Binoche do começo ao fim, não dá para separar uma coisa da outra (também em A Insustentável Leveza do Ser, a trilogia A Liberdade é Azul, A Igualdade é Branca, A Fraternidade é Vermelha, O Paciente Inglês, Paris, Horas de Verão, Cópia Fiel). Portanto, é preciso gostar do seu trabalho. Eu particularmente gosto, sinto nela uma entrega ao personagem – e aqui isso é fundamental para que o filme tenha realmente algo a dizer. Mas repito, é intimista demais, no tema relacionamento com ela mesma, com seu corpo, seu marido, sua sexualidade e até no paradoxo era feminista versus tarefas que a mulher-polvo precisa dar conta.

Uma das garotas que Anne entrevista e serve como personagem para sua matéria é Charlotte (Anaïs Demoustier), uma jovem parisiense de classe média e família estruturada, que trabalha no comércio para camuflar o dinheiro que ganha na prostituição e não levantar suspeita perante os pais e o namorado. Personagem bastante real, bem construída. A outra é Alicja (Joanna Kulig), uma imigrante polonesa que quer esbanjar o dinheiro que ganha, sem medo ou culpa. Essa já é mais caricata, algo mais esperado e até preconceituoso por ser imigrante. São as suas histórias que vão mexer com o sentimento de Anne, fazendo com que ela mergulhe – inundada pela música clássica – no seu íntimo para se dar conta do que está realmente acontecendo na sua vida.

O curioso do filme – e o que eu acho que deve ser dito – é que as garotas não só contam o que vivem, o que fazem com os clientes, mas também envolvem Anne em um momento que ela está fragilizada, que a vida está perdida na rotina e que o prazer parece ter ficado para último plano. Os fetiches e as cenas de sexo – e violência sexual – são explícitos, não só para nós espectadores, mas para Anne, que passa a questionar a fidelidade do marido (as garotas atendem principalmente homens casados, bem sucedidos, que estão cheios da monotonia do casamento) e o seu papel como mulher.
Da diretor polonesa Malgorzata Szumowska, Elles pode ser interssante para mulheres, como diz o nome. Um homem não faria um filme desses, é feminino demais – assim como uma mulher não dirigiria Shame da maneira como fez o diretor Steve McQueen com as questões da masculinidade (guardadas as devidas proporções, porque Shame é muito superior em qualidade e intensidade). É o retrato de uma mulher insatisfeita, em vários aspectos da vida e que precisa se encaixar novamente naquele contexto. Isso incomoda, talvez por ser tão comum. Mulheres-polvo que se cuidem!

 

 

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CHERNOBYL – Chernobyl Diaries
CLASSIFICAÇÃO: Suspense, Para se Divertir, Estados Unidos - 19/07/2012

DIREÇÃO: Bradley Parker

ROTEIRO: Oren Peli, Carey Van Dyke

ELENCO: Jesse McCartney, Jonathan Sadowski, Olivia Dudley, Ingrid Bolso Berdal, Dimitri Diatchenko, Devin Kelley, Nathan Phillips

Estados Unidos, 2012 (86 min)

 

Nos cinemas: 20 de julho

Não necessariamente um suspense precisa ser inteligente para dar susto. Uma trilha sonora básica, daquelas em que o ritmo e o volume vai num crescente até atingir o seu pico na hora H; um clima sinistro, sombrio e previsível; personagens reunidos no mais improvável dos lugares bastam para criar um ambiente, no mínimo, tenebroso. Assim é Chernobyl. Tem tudo isso, inclusive a falta de suspense com inteligência, trama, algo que instigue realmente. Portanto, aviso desde já: é filme de levar susto, não medo.

Medo e angústia senti quando assisti por exemplo Ilha do Medo, de Scorcese. Ou ainda O Escritor Fantasma, de Polanski, o velho e bom O Iluminado, ou ainda a trilogia Millenium, principalmente a série sueca. Em Chenobyl levei muitos sustos, sem assustar – o que me dá uma certa preguiça. Mas não achava que fosse diferente e o filme entrega o que se propõe. Portanto, não espere nada além de um roteiro também batido: um grupo de amigos vai até um lugar improvável, neste caso a cidade vizinha a Chernobyl, onde houve o desastre do reator nuclear em 1986. O vazamento da radiação  não só matou diversas pessoas, como infectou outras tantas e causou a evasão dos habitantes do vilarejos vizinhos. Esse “turismo extremo” e tosco de visitar lugares como esses já demostra o teor do filme. Claro que tudo dá errado e os seis turistas têm que lutar para sobreviver no meio da mata ucraniana, cheia de lobos e criaturas um tanto quanto estranhas. E mutantes, desfiguradas pelos efeitos da radiação.

Minha dica: vá preparado. Ou não vá. Veja bem qual é o seu perfil e avalie se levar esses sustos vale o seu ingresso de cinema. Eu não pagaria. Já me daria por satisfeita com o trailer abaixo.

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O ABRIGO – Take Shelter
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Estados Unidos, Drama - 18/07/2012

DIREÇÃO e ROTEIRO: Jeff Nichols

ELENCO: Michael Shannon, Jessica Chastain, Shea Whigham

Estados Unidos, 2011 (120 min)

Cheguei a ficar aflita com a agonia intensa de Curtis (Michael Shannon). Dá para sentir o medo de que a família se machuque e a angústia de não poder resolver o problema de uma maneira mais fácil. Acho que esse é o ponto forte de O Abrigo, melhor filme da Semana da Crítica do Festival de Cannes em 2011. A atuação de Shannon garante que o lado humano perturbado, e não o lado da natureza que atormenta (talvez por ser tão atormentada), seja o mais impressionante. Fico me perguntando o que a nossa cabeça é capaz de produzir, imaginar e acreditar, a ponto de criar supostas realidades, capazes de mudar absolutamente toda a maneira com que nos relacionamos com o mundo e com as pessoas.

Com Curtis foi assim. Casado com a bela e supercompetente Samantha (Jessica Chastain, também em A Árvore da Vida, Histórias Cruzadas), o casal tem um relacionamento amoroso e dedicado, embora tenham que lidar com as dificuldades trazidas pela surdez da filha, com a falta de dinheiro e com os constantes tufões que assolam a região.

Acho que o que faz parar para pensar, se você é daqueles que veste a carapuça – é o fato de nos projetarmos na loucura do personagem. Quantas vezes nos deixamos paralisar pelo medo de algo que, na realidade, não é tão importante, ainda não aconteceu ou na verdade nem existe? Obcecado pela possibilidade de ser atingido por um daqueles furacões arrasadores, Curtis investe seu tempo, dinheiro (o que lhe resta) e energia na ampliação e melhoria de um abrigo subterrâneo. Envolve a família, os amigos e a si mesmo de uma maneira assustadora. Mas insisto, é muito mais assustadora do ponto de visto da mente humana, sem que o filme apresente questões catastróficas ou apocalípticas. Muito interessante, envolvente. Um desfecho instigante, que me deixou com a pulga atrás da orelha. Quem estava, afinal, com a razão?

 

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