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junho, 2012

A ERA DO GELO 4 – The Ice Age 4
CLASSIFICAÇÃO: Para Ver em Família, Para se Divertir, Estados Unidos, Animação - 30/06/2012

DIREÇÃO: Steve Martino, Mike Thurmeier

ROTEIRO: Michael Berg, Jason Fuchs

ELENCO: Ray Romano, Denis Leary, John Leguizamo, Peter Dinklage, Queen Latifah, Jennifer Lopez

Estados Unidos, 2012

A trilogia A Era do Gelo foi realmente genial. Dirigida pelo brasileiro Carlos Saldanha, o mesmo de Rio, tem um humor fino, na medida, divertido para crianças e adultos. Além de personagens bem elaborados – gosto dos mamutes, embora as caras e bocas do enlouquecido esquilo sejam a marca registrada da franquia. E é ele quem faz acontecer a trama de A Era do Gelo 4, já que quer enterrar a sua desejadíssima noz no gelo, o que provoca uma rachadura gigante e a consequente criação dos continentes. Mas desta vez Saldanha está só na produção (o que não é pouca coisa, claro!), mas dá sinais claros de que faltou o toque do brasileiro no humor  e na graça do filme.

Não que não seja bacana. Gostei sim. É divertido, tem os efeitos 3D impecáveis e se você for assistir em 4D (disponível em somente uma sala, lá no shopping JK Iguatemi-SP), vai sentir a cadeira balançar no ritmo da aventura dos animais, a cadeira espirrar água, soltar vento e tudo mais. Algo no estilo daqueles brinquedos de parques de diversões. Crianças bem pequenas podem assustar, mas é uma experiência divertida. Acho só que quando os filmes anteriores de uma mesma franquia estão na prateleira da genialidade, algo um pouco abaixo disso causa um certo saudosismo.

Os personagens “do bem” estão de um lado do iceberg: os mamutes e sua filha adolescente (com diálogos típicos da idade, que me tiraram boas risadas), o tigre dente de sabre, a preguiça e sua avó (uma senhora um tanto atrapalhada, mas que tem uma boa presença); do outro, os vilões: um gorila-pirata, uma tigresa e outros animais que querem se vingar dos heróis-amigos. Isso porque  com a formação dos continentes, Manny, o mamute, separa-se da família, fica à deriva, é atacado pelos piratas e precisa dar um jeito de voltar para a terra firme – que já não se parece com nada do que ele estava acostumado.

Adoro animações, digo sempre isso. A Era do Gelo tem uma história marcante, principalmente para quem acompanhou os outros três filmes. Vale ver, é gostoso, um programa para ver em família. Mas minha sugestão é rever os outros, quando a era do gelo era de gelo mesmo, relembrar a trajetória dos personagens e todas as referências que a direção de Saldanha foi capaz de fazer ao mundo dos adultos. Quanto ao mundo das crianças, ainda continua sendo uma animação e tanto. Agora, não perca o curta metragem que é passado antes de o longa começar. Não sou fã de Os Simpsons, mas esse curta é realmente muito, muito bacana.

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OS ACOMPANHANTES – The Extra Man
CLASSIFICAÇÃO: Para se Divertir, Estados Unidos, Comédia - 26/06/2012

DIREÇÃO: Shari Springer Berman, Robert Pulcini

ROTEIRO: Robert Pulcini, Jonathan Ames

ELENCO: John C. Reilly, Katie Holmes, Paul Dano, Kevin Kline, Cathy Moriarty, Alicia Goranson, Patti D’Arbanville, Celia Weston

Estados Unidos, 2009 (108 min)

Morno, esta é a temperatura de Os Acompanhantes. Na verdade, o acompanhante é um só, o personagem Harry (Kevin Kline), também em Sexo sem Compromisso), que é um sujeito mandão e cheio de manias, por vezes engraçado, que tem como trabalho acompanhar senhoras em restaurantes, teatros e tudo mais. Quem chega para perturbar essa ordem é o tímido e esquisitíssimo Louis (Paul Dano, também em Pequena Miss Sunshine), que comete uma gafe na faculdade onde dá aula, é expulso e se muda para Nova York para tentar ser finalmente um escritor.
É na casa de Harry que Louis se instala, para trabalhar no escritório onde está a linda Mary (Katie Holmes, também em O Casamento do meu Ex). Embora goste dela, não leva jeito com as mulheres, nem mesmo consegue se posicionar perante as pessoas. É nessa tentativa de se conhecer, adaptar-se ao novo ambiente e às suas velhas manias, que Louis constrói sua relação com Harry. Apesar de alguns (poucos) momentos engraçados, mais por causa de Kline que ainda consegue parecer natural diante da câmera, Os Acompanhantes não ata, nem desata, não tem grandes personagens que mereçam destaque. Vai seguindo morno, sem grandes conflitos ou questões que prendem realmente a atenção e me façam dizer que o filme vale o seu ingresso de cinema. Se gostar dos atores, espere o DVD. Vai fazer melhor negócio.

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MICMACS – UM PLANO COMPLICADO – Micmacs à tire-larigot
CLASSIFICAÇÃO: Para se Divertir, França, Comédia - 26/06/2012

DIREÇÃO: Jean-Pierra Jeunet

ROTEIRO: Jean-Pierre Jeunet, Guillaume Laurent

ELENCO: Dany Boon, André Dussollier, Nicolas Marié, Jean-Pierre Marielle, Yolande Moreau, Julie Ferrier, Omar Sy

França, 2009 (105 min)

Não fique intrigado com o significado de Micmacs. Siga em frente, porque acho que este é o grande entrave deste interessante filme de Jean-Pierre Jeunet, que mantém aqui os mesmos elementos fantásticos e ingênuos usados em O Fabuloso Destino de Amélie Polain, com Audrey Tautou. Conta uma história com uma plasticidade especial, enfatizando as expressões e gestos, mais do que as palavras, fazendo o jogo do contente para resolver um grande problema.

O problema aqui é a indústria de armamentos, que vai ser destruída por um grupo de Micmacs, malucos, loucos, excêntricos. Isso porque Bazil (Dany Bonn, também em A Riviera não é Aqui) perde o pai por causa de uma granada e leva, ele mesmo, uma bala perdida. Quase morre. Perde tudo, não tem onde morar, o que comer. Daí se junta a essa trupe de excêntricos, que tem desde homem-bala a contorcionista, todos morando amigavelmente em um grande depósito de materiais recicláveis. É com esses materiais que eles vão declarar guerra às duas maiores indústrias de armas e montar um plano muito complicado.

Mas sem desejar o mal ou incitar a violência. É aqui que entra o estilo do diretor que usa o humor e a graça para fazer uma guerra pacífica, para levar os próprios donos das fábricas a se autodestruírem. É um belicismo às avessas, já que os personagens se mudem de inteligência, criatividade, inventividade e habilidades específicas para driblar as duras regras da corrupção e da guerra. Uma crítica bem humorada ao enriquecimento a qualquer preço e uma homenagem à união de esforços e às soluções pacíficas que deveriam levar à reflexão. Inteligente e principalmente criativo, com imagens bonitas, muitas vezes em sépia, da sucata que aparentemente não tem utilidade. Assista sem preconceitos, mas com olhar de quem recebe uma linguagem diferente e um conteúdo importante. Fico devendo o Amélie Polain, que diz bastante, ou quase tudo, desse estilo de contar um conto e dar uma lição de moral. Soco com luva de pelica.

 

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A ESTRADA – The Road
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Estados Unidos, Drama - 25/06/2012

DIREÇÃO: John Hillcoat

ROTEIRO: Cormac McCarthy, Joe Penhall

ELENCO: Viggo Mortensen, Charlize Theron, Kodi Smit-McPhee

Estados Unidos, 2009 (111 min)

A Estrada tem um tom caótico, apocalíptico, de fim de mundo. Realmente, o mundo termina. Morre tudo: natureza, seres humanos e qualquer esperança de vida. Resta a sobrevida. Lembra bastante o clima de O Livro de Eli e o caos e desespero geral de O Ensaio sobre a Cegueira. Aquele caos instalado, sem luz no fim do túnel. Aliás, sem qualquer luz. O filme é escuro, sombrio, cinza. Assim como deve ser o mundo sem verde, queimado, destruído, frio.

A Estrada é o caminho que os sobreviventes tem de seguir após não restar mais comida. Seguir a estrada rumo ao sul, apesar dos marginais, bandidos, canibais que roubam tudo e todos pelo caminho. O que faz deste filme emocionante é a relação entre pai e filho. Os sobreviventes, já que a mãe não pode suportar o fato de simplesmente ter de sobreviver. Para ela, era preciso viver. Pai (Viggo Mortensen, também em Um Método Perigoso, Um Homem Bom) e filho buscam juntos comida e abrigo, e formam um vínculo fortíssimo, uma cumplicidade que não é capaz de se desfazer, nem diante da possibilidade de duas balas terminarem o sofrimento para sempre.

Sem esperar nada, me deparei com um filme que discute o extremo, a possibilidade de o homem ter de lidar com a destruição de tudo que foi construído, com os excessos praticados contra a natureza, contra os povos, contra o convívio. O que restaria, quem sobreviveria? Homens bons, homens maus. Como sempre.

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PARA ROMA COM AMOR – To Rome With Love
CLASSIFICAÇÃO: Para se Divertir, Itália, Estados Unidos - 23/06/2012

DIREÇÃO e ROTEIRO: Woody Allen

ELENCO: Woody Allen, Alec Baldwin, Ellen Page, Jesse Eisenberg, Penélope Cruz, Alison Pill, Roberto Benigni, Flavio Parenti, Alessandro Tiberi, Judy Davis, Alessandra Mastronardi

Estados Unidos, Itália, 2012 (102 min)

 

Parece que Woody Allen se cansou de Nova York. É justo. Depois de deixar sua marca registrada na cidade e vice-versa, o diretor envereda pelas europeias, basicamente contanto casos. Com seu olhar característico, como quem observa moradores, pontos turísticos e modos de vida, constrói personagens que interagem com o lugar, mudam seus destinos pelo simples fato de estarem ali. Tem algo especial em Woody Allen, nesse seu estilo de incluir um narrador, de falar diretamente com o espectador. Um contador de casos.

Primeiro foi Londres, com a incrível e intrigante história de Ponto Final – Match Point; depois foi para a Espanha, com a sensual e divertida Vicky Cristina Barcelona; passou pela Cidade das Luzes com a deliciosa viagem pelas artes, pela literatura e pelo tempo em Meia-Noite em Paris. Para chegar agora em Roma e contar casos de amor.

Aqui não há uma linha mestra, protagonistas fortes e intrigantes como nos outros filmes – o que faz deles produções especiais, toques de mestre de Woody Allen que, a meu ver, se renovou quando mudou para o outro lado do oceano. Em Para Roma, Com Amor, os casos são quatro, que não se entrecruzam, mas são contados entrelaçados. Ao mesmo tempo que conhecemos a história da estudante americana (Alison Pill, também em Milk – A Voz da Liberdade, Meia-Noite em Paris, Os Pilares da Terra) que conhece um italiano (Flavio Parenti) nas ruas de Roma, resolve se casar e convida os pais (Woody Allen e Judy Davis) para irem à Itália, deparamo-nos com o ingênuo casal de italianos recém-casados (Alessandra Mastronardi e Alessandro Tiberi), perturbados pela chegada inesperada de uma garota de programa (Penélope Cruz). Sem falar no casal de namorados (Greta Gerwig e Jesse Eisenberg, também em A Rede Social), cuja harmonia é quebrada pela chegada de uma amiga (Ellen Page, também em Juno, A Origem) e pela visita inesperada e profética de um arquiteto americano (Alec Baldwin) e no cidadão comum (Roberto Benigni), que fica famoso do dia para a noite, numa sátira ao culto às celebridades.

São histórias de vida pelas ruas da linda Roma, logicamente regadas a humor. Estilo Woody Allen de ser, mas sem nostalgia ou qualquer outra chatice. Como tem sido nos seus projetos europeus. Mas confesso que minha trilogia preferida é Londres-Barcelona-Paris. Os roteiros são imbatíveis. Roma entra aqui como um bônus, um bom filme, um bom programa. Sem ser genial.

 

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VIOLETA FOI PARA O CÉU – Violeta Se Fue a los Cielo
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Chile, Biografia - 22/06/2012

DIREÇÃO: Andrés Wood

ROTEIRO: Eliseo Altunaga

ELENCO: Francisca Gavilán, Thomas Durand, Christian Quevedo, Gabriela Aguilera,

Chile, Brasil, 2011 (101 min)

Mesmo que você nunca tenha ouvido falar de Violeta Parra, assista ao filme. Mesmo que você tenha em mente que não gosta da música andina e que a primeira que lhe vem na cabeça soa como algo pejorativo, assista. Por dois simples motivos: o primeiro, cinematográfico – este filme é muito bem feito, com intensidades de música, emoção e tragédia na medida certa. O segundo, pessoal: a vida de Violeta Parra (1917-67), um ícone da música folclórica chilena, que teve um infância humilde, foi reconhecida internacionalmente, para depois morrer abandonada física e moralmente, já é uma história de vida e tanto.

Violeta Foi Para o Céu venceu o Prêmio de Júri Internacional do Festival de Sundance, além de ter sido o grande aclamado no Cine Ceará de 2012. Reconhecidamente, o trabalho e o olhar do diretor chileno Andrés Wood (também de Machuca) se destaca pela sensibilidade e coerência. Eu não conhecia a história de Violeta, mas já nos primeiros minutos, fragmentos da infância e da vida adulta se misturam, mostrando a confusão e instabilidade da vida da cantora e compositora, que também pintava, que traçou sua trajetória internacional com a cara e a coragem, conseguiu expor no Louvre, morou na Europa e foi desprezada em seu próprio país. Interpretada pela excelente atriz Francisca Gavilán, Violeta se mostra inflexível, sensível, geniosa, possessiva, intensa. Em tudo que fazia.

Depois de sua temporada fora, volta para Santiago, cria um espaço onde pretendia disseminar a cultura popular chilena, mas é nocauteada pelo amor não correspondido e pelo fracasso da proposta. Se mata, deixando um legado que é hoje divulgado por seu filho Ángel Parra, que escreve um livro em que este filme se baseia, e sua filha, ambos cantores e compositores. Além de música – muito boa, sonora, forte, com letras recheadas de protestos sociais e políticos e alta dose de inconformismo  sensibilidade – Violeta Foi Para o Céu é cheio de vida, inquieto. A própria Violeta. Assista, mesmo que seja só para tirar a impressão de a música latino-americana é toda igual. Não é, a de Violeta é cantada com uma força impressionante.

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A FEBRE DO RATO
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Drama, Brasil - 21/06/2012

DIREÇÃO: Cláudio Assis

ROTEIRO: Hilton Lacerda

ELENCO: Irandhir Santos, Nanda Costa, Conceição Camaroti, Matheus Nachtergaele, Juliano Cazarré,

Brasil, 2011

A febre do rato qualquer um pega. É como se chama uma situação fora do controle em Pernambuco. Assim como foi o surto de leptospirose há algumas décadas, algo fora de controle. Assim é o universo de Zizo, esse irreverente, inusitado, inconformado, ousado e anarquista dono de um tablóide popular, feito com sua poesia, sua mais nobre forma de expressão.

Nobre e maluca. Faz poesia em meio à anarquia da sociedade em que vive. Um Recife da periferia, da pobreza, do rio morto, do mangue sem caranguejo, das casas em palafitas sem saneamento. Anarquia do sexo, da droga, do faço-o-que-bem-entendo. E muita poesia. Enquanto Zizo (Irandhir Santos, também em Besouro, Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, Tropa de Elite 2, Quincas Berro D’Água) protesta em prosa, poesia e voz, seu amigo (Matheus Nachtergaele) gosta daquilo que não entende. Nessa Recife que é como um inferninho – uma terra de vale tudo, regada a muita cerveja, maconha, merengue e sexo, muito sexo.

Até que essa ordem desordeira é perturbada pela jovem Eneida (Nanda Costa), que se encanta com Zizo, mas não se rende aos seus pedidos por sexo. É ela que perturba a estável instabilidade desse apaixonado pela vida, que o diretor Cláudio Assis faz questão de construir  e mostrar nu e cru, sem máscaras. Deve ser como mostrar a vida como ela é. Nua e crua, sem roupa (literalmente), sem hipocrisia, sem ordem – ou falsa ordem, sem conformismo, sem papas na língua. De forma direta, sem rodeios.

Por essas e outras, A Febre do Rato não é para qualquer um. Pode incomodar, assim como incomoda a anarquia dos personagens, o olhar de não-estou-nem-aí-com-nada. Proposital, claro, a nudez toda, as provocações, as exibições. Em entrevista durante o Festival de Paulínia em 2011, quando o filme foi o vencedor dos prêmios principais, Cláudio Assis ataca a hipocrisia da sociedade de se incomodar com a nudez do seu cinema, sendo que aceita a robalheira, a nudez exposta na televisão todos os dias, a falta de ética e moral. Aceita, sem ressalvas. E fala bravo, incomodado, de forma contundente.

O que não incomoda e é, sem sombra de dúvida, o mais bonito do filme, é a fotografia. Todo rodado em preto e branco, A Febre do Rato consegue construir uma harmonia impressionante entre a fotografia e a poesia de Zizo. Apazigua o caos, a falta de ordem, o amor não correspondido, a linguagem chula e grosseira, a violenta repressão dos sentimentos. Foto e texto tem um poder de expressão sem igual.

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GRANDE DEMAIS PARA QUEBRAR – Too Big to Fail
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, Estados Unidos, Drama - 20/06/2012

DIREÇÃO: Curtis Hanson

ROTEIRO: Peter Gould, Andrew Ross Sorkin (livro)

ELENCO: William Hurt, John Heard, James Wood, Paul Giamatti, Erin Dilly, Amy Carlson, Topher Grace, Ayad Akhtar, Cynthia Nixon, Kathy Baker, Edward Asner

Estados Unidos, 2011 (98 min)

Os bancos americanos são tão grandes que não podem virar pó do dia para a noite. O estrago seria avassalador, não só para o sistema financeiro americano, mas também para toda a economia mundial. A expressão em inglês “too big to fail” é usada justamente em situações como essa de 2008, quando eles ficaram na corda bamba por causa da bolha imobiliária, gerada pela falta de regulamentação do mercado financeiro americano, por sua vez gerada pela ganância desmesurada dos executivos, que enchem o bolso com bônus milionários, a um custo e risco muito altos do lado de quem não tem como se defender.

Tudo isso é explicado no filme, eu diria, de uma maneira até que didática – muito embora seja sempre um assunto árduo para quem não é do meio. Diferente do ótimo documentário Trabalho Interno, vencedor do Oscar na categoria, sobre o mesmo assunto, Grande Demais para Quebrar usa a linguagem técnica sim, mas o faz de modo a facilitar a nossa vida. Explica porque os cidadãos comuns passaram a investir suas economias em imóveis, como os bancos incentivaram os empréstimos, supervalorizaram as transações, amarraram as seguradoras no processo, investiram em transações de alto risco, encheram o bolso de dinheiro e levaram à falência vários bancos importantes e milhares de cidadãos americanos quando a situação ficou insustentável.

Com elenco forte, liderado por Henry Paulson, presidente do FED, o Banco Central americano, na pele de William Hurt (também em Filhos do Silêncio, Late Bloomers, Syriana, Robin Hood), o filme mostra o interessante jogo de interesses entre os banqueiros, que se veem na eminência de quebrar e provocar um colapso sem precedentes, do Congresso americano, que precisa votar de acordo com os interesses eleitoreiros, do FED, que falhou em deixar as rédeas da economia nas mãos das raposas e agora precisa correr para salvar o rebanho. Claro que Paulson não é o bonzinho que o filme pinta – mesmo porque já tinha estado à frente de um dos grandes bancos americanos e, consequentemente, ganho milhões com isso. Mas é retratado como sendo o arquiteto de um acordo improvável de salvamento dos bancos e da gigante seguradora AIG, no último minuto antes do colapso da economia.

Assim como em Margin Call – O Dia Antes do Fim, é interessante conhecer os bastidores de algo que foge da nossa esfera de atuação, mas que nos atinge ferroz e diretamente. Desconte aquilo que é ficção ou exagero, atenha-se ao que vivemos. Parece tudo muito lógico – inclusive essa grande estratégia trágica do capitalismo a qualquer custo.

 

 

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AMOR IMPOSSÍVEL – Salmon Fishing in the Yemen
CLASSIFICAÇÃO: Para Ver Bem Acompanhado, Inglaterra, Comédia Romântica - 15/06/2012

DIREÇÃO: Lasse Hallström

ROTEIRO: Simon Beaufoy, Paul Torday (livro)

ELENCO: Ewan McGregor, Emily Blunt, Amr Waked, Kristin Scott Thomas, Rachel Stirling, Tom Mison, Catherine Steadman

Inglaterra, 2011 (107 min)

A Pesca do Salmão no Iêmen é a tradução livre do título original deste filme, baseado em livro homônimo. Optar por comercializá-lo com o horroroso clichê Amor Impossível é realmente muita falta de imaginação. Fico boquiaberta com essas opções, que praticamente menosprezam a inteligência do espectador e até a sua capacidade de interessar-se por algo que fuja do padrão comercial de títulos com “amor”, “felicidade” e coisas do gênero. E digo mais: além desse péssimo começo para um filme que é, de fato, charmoso, não acho que o amor seja impossível no filme; o que é impossível é o projeto visionado pelo xeique Mohammed (Amr Waked), mas é ele que move os personagens e deveria sim ter sido, ao menos, adaptado. Pobres e renegados salmões!

A impossibilidade desse projeto consiste na dificuldade de levar 10 mil peixes para as montanhas do Iêmen. Para tanto, a consultora de investimentos Harriet (Emily Blunt, também em A Jovem Rainha Vitória, A Mente que Mente, Os Agentes do Destino), a pedido do xeique, contrata a especialista em pesca Dr. Alfred Jones (Ewan McGregor, também em Sentidos do Amor, O Escritor Fantasma, Toda Forma de Amor) para ajudá-la a satisfazer os caprichos desse rei generoso e progressista. Claro, com apoio do governo inglês na pele da agitada assessora de imprensa do primeiro ministro (Kristin Scott Thomas, também em Há Tanto Tempo que Te Amo, A Chave de Sarah, O Garoto de Liverpool, Partir, O Paciente Inglês) que precisa de uma boa história para tirar os olhos dos cidadãos ingleses das encrencas em que a Inglaterra anda metida.

No entanto, os terroristas de plantão do Oriente Médio não gostam da intervenção do xeique, o casamento de Alfred não vai bem, Harriet está inconsolável com o sumiço do namorado, o que dá margem para as reviravoltas acontecerem. Entre bonitos cenários e boas tiradas, o diretor sueco Lasse Hallström (também de Sempre ao Seu Lado) faz crescer o clima de romance e os salmões vão compor o pano de fundo. O que não é demérito – acho até que tem um bom equilíbrio, contribuindo para o filme ser uma graciosa comédia romântica.

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O DUBLÊ DO DIABO – The Devil’s Double
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, Bélgica, Ação - 15/06/2012

DIREÇÃO: Lee Tomahori

ROTEIRO: Michael Thomas, Latif Yahia

ELENCO: Dominic Cooper, Ludivine Sagnier, Mimoun Oaïssa, Philip Quast, Mem Ferda, Dar Salim, Raad Raw

Bélgica, Holanda, 2011 (109 min)

De que diabo estamos falando? Que ainda por cima tem dublê? Todo mundo conhece ou já ouviu falar das famosas – e lendárias –  histórias sobre o clã violento e perigoso de Saddam Hussein. Quem ousa contestar? O que a gente ouviu durante os anos em que foi ditador, em que circulava pelo bem bom do mundo árabe e europeu, em que manda soltar e mandava prender quem quer que fosse, que fazia guerra quando bem intendesse não foi pouca coisa. Não importava contra quem, mas era do contra – curdos, iraquianos, americanos, kwaitianos e quem mais aparecesse pela frente.

Tal pai, tal filho, literalmente. É do “diabo-filho” que estamos falando, de Uday Hussein, filho sádico, maldoso, alcóolatra, drogado, promíscuo e assassino de Saddam Hussein, que esbaldou-se com mulheres, drogas, carros, excessos de todos os lados durante o tempo em que seu pai reinou solto pelo Iraque. Isso tudo é contato pelo ponto de vista de Latif Yahia, um rapaz que estudou com Uday e, pela semelhança física, foi selecionado por ele para ser seu dublê, seu sósia. Ou seja, para correr perigo em nome de Uday, obviamente sem ter tido a opção de dizer não. Latif é quem conta essa experiência em livro quando consegue fugir da vista da autoridades iraquianas e dá a sua versão dos fatos.

Eu ressalto dois pontos: o primeiro, e fundamental, é a atuação de Dominic Cooper (também em A Duquesa, Educação, Sete Dias com Marilyn) como Latif e Uday. Ora bom moço, inconformado com tanta maldade; ora um assassino sádico e extremamente perigoso. Tem alguns excessos, mas não saberia dizer que ficou por conta das lentes do diretor e da liberdade do ator, ou se realmente retratam a verdade. Acho que jamais saberemos – ainda mais agora, que o reinado virou pó. Mas convence dos dois lados e se mostra competente. Outro ponto é a história em si – que embora possa ter algumas distorções, é inacreditável. Algumas cenas, como as emboscadas e os enfrentamentos entre os sósias, são boas; outras me soaram desnecessárias, como a violência sexual – que já está absolutamente explícita na sua atitude. No fim das contas, acho que essa violência exarcebada – não só física, mas também moral – me cansaram um pouco. Menos teria sido mais. No entanto, é interessante – e no mínimo curioso, para quem tiver estômago para aguentar tanta maldade – entrar nos palácios iraquianos, espiar pelo buraco da fechadura e ver quantos “Saddams” havia por lá, rindo à toa.

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