cinegarimpo

abril, 2012

BIRD
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Estados Unidos, Biografia - 30/04/2012

DIREÇÃO: Clint Eastwood

ROTEIRO: Joel Oliansky

ELENCO: Forest Whitaker, Diane Venora, Michael Zelniker, Samuel E. Wright

Estados Unidos, 1988 (161 min)

Aos amantes do jazz, Bird vai encantar por seu repertório. Aos que esperam uma história dinâmica, vai cansar. A biografia feita por Clint Eastwood (também em J.Edgar, Sobre Meninos e Lobos, Além da Vida, Conquista da Honra, Invictus, Cartas de Iwo Jima, Gran Torino, A Troca) é escura, dentro dos bares, da noite, dos clubes de jazz e da imensa depressão e do profundo vício em que o jazzista Charlie Parker (Forest Whitaker, vencedor em Cannes pelo papel) se afunda. Bebe e se droga desde os 15 e ao morrer, aos 34 anos, o médico legista estima que seu corpo tenha a idade de 65.

Claro que Eastwood não dá ponto sem nó – ganhou inclusive o Globo de Ouro por este filme. A escuridão é proposital, é reflexo da vida que Parker levou. Considerado um dos mestre do jazz, o percursor do bebop e do jazz agradável para se ouvir, não só para se dançar (como era antes com as big bands), teve uma vida pessoal consumida pela instabilidade, com mais baixos do que altos, o que é muito bem retratado no filme. Até por isso – e por suas 2h20 de duração – Bird se alonga um pouco demais da conta e vai ficando a cada cena mais sombrio. Assim como a vida do músico e compositor. De novo: para quem ama o jazz, sem dúvida uma biografia interessante dos anos 1940/50 no mundo da música. Se esse não for seu tema preferido, outras biografias do diretor como J.Edgar (sobre o chefão do FBI) e Invictus  (sobre Nelson Mandela) talvez agradem mais. Mas lembre-se de que Eastwood tem um estilo próprio, que não precisa pedir passagem nem permissão para filmar.

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TREM DA VIDA – Train de Vie
CLASSIFICAÇÃO: Romênia, Para Entender o Nosso Mundo, Comédia - 28/04/2012

DIREÇÃO: Radu Mihaileanu

ROTEIRO: Radu Mihaileanu, Moni Ovadia

ELENCO: Lionel Abelanski, Rufus, Clément Harari, Michel Muller, Agathe de la Fontaine, Johan Leysen, Bruno Abraham-Kremer, Marie-José Nat

Romênia, 1998 (103 min)

O alemão é uma língua rígida, concisa e triste. O iídiche é uma paródia do alemão, mas tem humor a mais. Para perder o sotaque iídiche é preciso retirar o humor. Só isso.”

Fazia tempo que queria conferir Trem da Vida, filme do diretor romeno Radu Mihaileanu. Desde que assisti aos ótimos A Fonte das Mulheres e O Concerto, notei que há algo em comum nos filmes que instiga a curiosidade sobre o olhar do diretor perante a vida. O humor, talvez, mas sobretudo possibilidade de rir de si próprio sem infantilizar ou ridicularizar. Uma sutileza que afasta gentil, porém firmemente, o pessimismo e o mau humor e aplaude a incrível capacidade de agradecer o dom da vida. Mihaileanu mistura situações da vida com outras improváveis, eu diria até fantasiosas, sem fazer realismo fantástico, mas numa dose boa para não parecer ridículo. Faz praticamente de um limão, uma limonada, da tragédia, uma parábola. É bem essa sensação que dá. E positiva.

Em Trem da Vida, o diretor fala do Holocausto, sem ser dramático ou catastrófico. Consegue transmitir a mensagem da dimensão do absurdo e da barbárie, através de um viés interessante da tragédia vivida pelos judeus durante a Segunda Guerra. Monta uma paródia do caos. Tudo começa em vilarejo na Europa ocidental, quando os habitantes dessa comunidade judaica recebem a notícia de que os nazistas vão deportá-los para um campo de concentração. Quem dá a notícia é o louco da comunidade, que também apresenta a solução – um tanto quando inusitada. Já que seria impossível furar o bloqueio dos alemães, por que não se passar por eles? Seria preciso só falar alemão sem sotaque, encontrar um comandante nazista, soldados, um maquinistas, prisioneiros e um trem para chegar em Israel a salvo.

Esquema montado, personagens escolhidos, a farsa começa e todos os habitantes do vilarejo embarcam no trem. É no trajeto que são contadas as histórias do povo judeu, em que são encenadas as tradições, em que aparecem outras minorias pelo caminho, também perseguidas, como os ciganos, em que grupos opostos se formam, em que é celebrada a vida em meio ao caos. Mihaileanu usa e abusa da cor, do texto afiado, do humor sutil e inteligente para envolver o espectador e quase nos fazer acreditar que isso seria possível. A começar pelo diálogo sobre a diferença entre a língua alemã e o iídiche, língua derivada do alemão medieval, falado por milhões de judeus na Europa na época da guerra. Passar-se por alemão significava falar sem sotaque iídiche. Para tanto, era só tirar o humor, a sutileza, e transformá-los em rigidez. Fantasiados de nazistas, seriam perfeitos alemães. Brilhante!

 

Outros filmes sobre o Holocausto: A Chave de Sarah, Marcha da Vida, A Lista de Schindler, O Menino do Pijama Listrado, O Pianista, O Leitor, Os Falsários, Um Homem Bom

 

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AS IDADES DO AMOR – The Ages of Love
CLASSIFICAÇÃO: Romance, Para Ver Bem Acompanhado, Itália, Comédia Romântica - 27/04/2012

DIREÇÃO: Giovanni Veronesi

ROTEIRO: Giovanni Veronesi, Ugo Chiti

ELENCO: Robert De Niro, Monica Bellucci, Riccardo Scamarcio, Michele Placido, Laura Chiatti, Valeria Solarino, Donatella Finocchiaro, Carlo Verdone

Itália, 2011 (125 min)

 

Nos cinemas: 27 de abril

Tenho falado mal, num tom até sem paciência, das últimas comédias românticas americanas que vi. É pura falta de paciência mesmo para aquilo que não apresenta novidade, nem graça. Não é implicância com o tema, que fique bem claro. Não só gosto do gênero, como acho que ele deve ser explorado cada vez mais – afinal, é o repertório em comum a todos nós.

As Idades do Amor é prova disso. Quando saí da sessão, pensei justamente no fato de não ter ficado impaciente, de ter acompanhado as três histórias  na bela Itália, achando o programa da segunda-feira de manhã um privilégio! Não é para ser profundo, nem denso. Esse tipo de filme é pensado para nos identificarmos, cada um com o seu repertório romântico, e nos divertirmos com a comédia da vida. E falado em italiano, tem um toque especial.

São três histórias, em três idades. Na juventude, às vésperas do casamento, o advogado Roberto (Riccardo Scamarcio, também em O Primeiro que Disse, Meu Irmão é Filho Único) se encanta com outra mulher, a bela Micol (Laura Chiatti) e já não sabe se casa com a também bela Sara (Valeria Solarino) ou se compra uma bicicleta. Já na maturidade do casamento, o apresentador de televisão se rende às maluquices de Eliana (Donatella Finocchiaro) e coloca anos de confiança a perder. Por fim, o professor americano de História da Arte Adrian (Robert De Niro, também em Noite de Ano Novo, Estão Todos Bem, O Poderoso Chefão), vai passar um tempo em Roma depois de se aposentar e um encontro com Viola (Monica Bellucci) muda sua vida de uma maneira que ele não poderia imaginar.

São pequenas histórias, por vezes exageradas, improváveis – até por isso não entre em detalhes. Mas o ponto deste gênero de filme não é ser tão fiel assim à realidade, mas florear um pouco e dar risada das situações criadas pelos mais diversos relacionamentos. As Idades do Amor (em italiano, a quem interessar possa, é Manuale d’Amore) é gracioso, tem um toque original e descontraído no narrador-cupido, que conta a trajetória dos casais e mostra belas paisagens da Itália. Para ver bem acompanhado, é um programa bem gostoso.

 

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SETE DIAS COM MARILYN – My Week with Marilyn
CLASSIFICAÇÃO: Para Ver Bem Acompanhado, Inglaterra, Drama, Biografia - 26/04/2012

DIREÇÃO: Simon Curtis

ROTEIRO: Adrian Hodges, Colin Clark (livro)

ELENCO: Michelle Williams, Eddie Redmayne, Kenneth Branagh, Julia Ormond, Pip Torrens, Geraldine Somerville, Dougray Scott, Judie Dench, Emma Watson

Inglaterra, 2011 (99 min)

 


Em agosto de 2012 faz 50 anos que Marilyn morreu. Mesmo para quem veio depois de sua morte, que é o meu caso, a sua imagem é fortíssima, marcante, única, um ícone. Não há outra Marilyn. Nem outra com a dimensão da sua fama, beleza e capacidade de atrair a atenção – feminina, também, diga-se de passagem. Portanto, eu diria que apresentar Marilyn Monroe (1926-62) é chover no molhado. Mesmo para quem não sabe direito em que filmes atuou, quantos casamentos teve, por que morreu tão jovem aos 36 anos, por que vivia tão deprimida, por que a vida não lhe dava paz – aquilo que ela mais queria – para continuar usufruindo com tudo aquilo que a vida lhe deu de bandeja: fama, dinheiro, sucesso.

Não há outra Marilyn, é verdade. Mas Michelle Williams (também em Namorados para Sempre, Ilha do Medo) consegue parecer Marilyn de fato. Em Sete Dias com Marilyn, que estreia dia 27 de abril nos cinemas, a atriz conseguiu incorporar o que para mim é o que mais me chama atenção na diva: o olhar dúbio, ao mesmo tempo poderoso e extremamente carente.

Não se trata de uma biografia – o que é bem interessante. São somente sete dias que conseguem nos mostrar essa faceta em que, antes de ser atriz, Marilyn é uma mulher como todas nós, com seus medos, inseguranças e dúvidas. Em somente sete dias a vida do jovem e rico aspirante a produtor Colin Clark (Eddie Redmayne, também em Os Pilares da Terra) muda completamente. Assistente do famoso cineasta e ator Laurence Olivier (Kenneth Branagh), ele trabalha na filmagem de O Príncipe Encantado (The Prince and the Showgirl) em 1956. Encanta-se com Marilyn e vive com ela esses sete dias mágicos e irreais, quando seu marido, o dramaturgo Arthur Miller, volta para os Estados Unidos. Colin Clark conta sua experiência no livro The Prince, the Showgirl and Me (sugestivo, o título), mas só revela esta semana fatídica mais tarde em livro homônimo, agora adaptado para o cinema.

Além de plasticamente muito bonito e até poético, o filme é uma viagem no tempo, principalmente para quem não tem a filmografia de Marilyn fresca na cabeça, nem paciência (ou vontade) de assistir a seus filmes. Este vale a pena. Para mim, soou perfeita a observação que um dos personagens faz sobre seus atrasos, sua postura egocêntrica, frágil e conturbada no set de filmagens. Marilyn seria uma estrela, que tenta ser uma grande atriz. Daí a dificuldade dos grandes atores lidarem com ela, porque talvez nunca cheguem ao patamar de estrelas. Ela brilha, mesmo na sua insegurança indiscutível. E Michelle Williams, que venceu o Globo de Ouro pelo papel, foi muito corajosa em aceitar tamanha responsabilidade. Afinal, não há duas Marilyns.

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DIÁRIO DE UM JORNALISTA BÊBADO – The Rum Diary
CLASSIFICAÇÃO: Para se Divertir, Estados Unidos, Comédia, Biografia - 26/04/2012

DIREÇÃO: Bruce Robinson

ROTEIRO: Bruce Robinson, Hunter S. Thompson

ELENCO: Johnny Depp, Giovanni Ribisi, Aaron Eckhart, Michael Rispoli, Amber Heard, Richard Jenkins

Estados Unidos, 2011 (120 min)

Quem gosta de Johnny Depp? Prefere o ator na pele de personagens afetados como o chapeleiro em Alice no País das Maravilhas, Piratas do Caribe, Edward Mãos de Tesoura, ou alguém mais normal como em Inimigos Públicos e O Turista? Em Diário de um Jornalista Bêbado ele encarna um sujeito instável e alcoólatra, que vai a Porto Rico trabalhar em um jornal de segunda linha, praticamente falido e sem qualquer poder editorial.

Vale a pena falar de Thompson, para que você possa entender um pouco mais da história. Hunter Thompson foi o jornalista que inventou o jornalismo “gonzo”, em que não escreve com distanciamento ou objetividade, mas participa da matéria sobre a qual vai escrever, sente na pele o que está acontecendo. Jornalismo com emoção e opinião, basicamente, e no filme vemos o início dessa linha de pensamento. Escreve o livro homônimo, em que cria o personagem de Paul Kemp, um alter ego ainda na fase jovem, quando não era conhecido, já bebia e usava alucinógenos e vai parar em Porto Rico nos anos 1950. Foi amigo pessoal de Johnny Depp e por isso o projeto saiu do papel.

Paul Kemp é um sujeito que faz caras e bocas, tem o tom e o timing engraçado característico de Depp, que tenta se adequar à maneira de pensar e viver deste país caribenho. Fica dividido entre os mandos frouxos do editor, entre a demanda dos empresários americanos que querem divulgar a especulação imobiliária e ganhar muito dinheiro apropriando-se da beleza do país, e entre o seu lado ético. Em meio a toda a confusão e exageros, ele se depara com a namorada do empresário, apaixona-se por ela e tudo se complica para o seu lado.

Diário de um Jornalista Bêbado é movimentado e dinâmico, com situações divertidas vividas por Kemp e seus amigos jornalistas – não menos bêbados e desmedidos. Mas ele tem momentos de lucidez e confesso que gosto quando faz um papel mais… normal. O mais interessante no filme é a ambientação em Porto Rico, as questões culturais do país e a maneira de viver. Mas eu diria que é preciso gostar antes da figura de Depp para encarar o filme pelo viés da diversão. Quem gosta de Johnny Depp?

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NOITE DE ANO NOVO – New Year’s Eve
CLASSIFICAÇÃO: Para Ver Bem Acompanhado, Estados Unidos, Comédia Romântica - 25/04/2012

DIREÇÃO: Garry Marshall

ROTEIRO: Katherine Fugate

ELENCO: Halle Berry, Jessica Biel, Abigail Breslin, Chris “Ludacris” Bridges, Robert De Niro, Josh Duhamel, Zac Efron, Hector Elizondo, Katherine Heigl, Ashton Kutcher, Seth Meyers, Lea Michele, Sarah Jessica Parker, Michelle Pfeiffer, Til Schweiger, Hilary Swank, Sofía Vergara, Jon Bon Jovi

Estados Unidos, 2011 (118 min)

Gosto da noite de ano novo. Não gosto do frenesi que se instala entre as pessoas no mês de dezembro, antevendo erroneamente que algo vai mudar depois da meia-noite. Inclusive, se dezembro pudesse ser tirado do calendário… Mas o que normalmente vemos entre aqueles que se dispõem a festejar a passagem do ano é uma confraternização interessante, um sentimento (ilusório, mas válido) de balanço do ano passado e mandamentos para o ano que se inicia – que muitas vezes não saem do papel. Essa é a premissa de Noite de Ano Novo, que conta com diversos atores e atrizes famosos, cada um com seu métier e suas confusões, passando a virada do ano de 2011 na Times Square de Nova York.

O time tem, nada mais, nada menos que Robert De Niro, Michelle Pfiefer, Sarah Jessica Parker, Hilary Swank, Sofia Vergara, Asthon Kutcher, Jessica Biel, Jon Bon Jovi, Abigail Breslin, Josh Duahmel, Zac Efron, Katherine Heigl e por aí vai. Portanto, a ideia do diretor GArry Marshall (também de Uma Linda MulherIdas e Vindas do Amor) é mostrar pessoas com perfis diferentes, que de alguma maneira se cruzam naquela noite, naquele lugar. Alguns apaixonados, outros sozinhos, um doente, outro fazendo festa, outros tendo filho, todos fazem seus votos para o ano de 2012.

Há algumas passagens divertidas – afinal, o elenco é bom. Até por isso, acho que o roteiro poderia ser melhor, que Nova York poderia ter sido palco de histórias interessantes e ecléticas. Poderia surpreender. No fim das contas, é filme para distrair, que acaba caindo no lugar comum da comédia romântica. Entra naquela prateleira de filmes bons para ver no avião – categoria fictícia que criei quando assistir A Proposta em um voo longo e cansativo. Pois é, distrai. E se você pegar no sono em algum momento, tranquilamente acompanha a história até o final.

 

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SENTIDOS DO AMOR – PERFECT SENSE
CLASSIFICAÇÃO: Para Ver Bem Acompanhado, Para se Emocionar, Para Pensar, Inglaterra, Garimpo na Locadora, Drama - 24/04/2012

Perfect Sense foi traduzido como Sentidos do Amor. Ora, francamente. Por que não dizer Sentido Perfeito, se é isso mesmo que o filme quer transmitir? Veja se concorda comigo: misteriosamente, e de forma epidêmica, as pessoas perdem o olfato, depois o paladar, depois a audição e assim sucessivamente. Cada uma dessas perdas, aparentemente essenciais para nossas vidas e sobrevida, vão se tornando secundárias quando ainda resta o amor.

Aqui entra e se encaixa perfeitamente o título escolhido. Apesar da tragédia e da perda dos sentidos que nos fazem sentir o cheiro e o gosto das coisas, que nos permitem comunicar e interagir com outras pessoas, que nos permitem ver o mundo, o sentido perfeito, que prescinde dos outros, permanece, resiste. O amor. Simples assim.

E simples também é a visão do diretor David Mackenzie, que coloca no centro de tudo o casal Susan e Michel, ela cientista, ciente da epidemia misteriosa e do pânico que se alastra; ele , chefe de cozinha que vive dos sabores e dos cheiros perdidos no caos. Simples, mas também sofisticada e bela, inclusive a trilha sonora. Impossível não se lembrar de Ensaio sobre a Cegueira, de Ferrnando Meirelles, baseado no livro homônimo de Saramago, quando todos os habitantes ficam cegos e caem na barbárie, perdendo inclusive sua dignidade. Aqui não, Susan e Michael sobrevivem enquanto casal, enquanto esperança, essência. E ainda lhes restou o tato, a que se dá tão pouco valor.

Perfect Sense – perfiro assim, pode ser? – soa como um insight sobre o essencial, numa estranha e aflitiva epidemia, que de uma forma ou de outra pode ser também uma metáfora da pouca atenção que damos aos nossos poderosos sentidos nessa vida tão cheia de superficialidades. Se fui muito longe? Pode ser, mas confesso que esse belo filme me pareeceu um soco com luva de pelica. Com um afago de esperança no final.

Veja o trailer, vale a pena.

DIREÇÃO: David Mackenzie ROTEIRO: Kim Fupz Aakeson ELENCO: Ewan McGregor, Eva Green, Connie Nielsen, Stephen Dillane | 2011 (92 min)

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TEATRO – VERMELHO
CLASSIFICAÇÃO: Brasil, Biografia - 22/04/2012

DIREÇÃO: Jorge Takla

TEXTO: John Logan

ELENCO: Bruno Fagundes, Antonio Fagundes

Vermelho como sangue arterial, ferrugem na bicicleta, incêndio na noite de Dresden, o sol em Rousseau, bandeira em Delacroix, mármore fiorentino, corte ao se barbear, sangue na espuma branca,  bandeira russa, bandeira nazista, bandeira comunista, víceras, chamas, satã!Rothko, o artista

Vermelho como o entardecer, bater do coração, paixão, vinho, rosas, batom, beterrabas, tulipas, maçãs, tomates, pimentas, nariz de um coelho, olhos de um albino, telefone vermelho na mesa do presidente, caquis, romãs, distrito da luz vermelha, placa de “pare”, Papai Noel!Ken, o aprendiz

O embate do Vermelho! Mestre contra aprendiz, experiência contra inocência, conhecimento contra emoção, velho contra novo, desgaste contra o fresco. Vermelho, no palco com Bruno e Antonio Fagundes, pai e filho, fala dessa dualidade natural da passagem do tempo a todo momento. E o faz através de um momento específico da carreira do pintor russo Mark Rothko (1903-70). Expressionista abstrato, contemporâneo de Jackson Pollock (veja link do filme Pollock), fez parte do grupo de artistas que surge após a Segunda Guerra para fazer uma arte que reflita os sentimentos, a visão de mundo, a tragédia humana. Com cores fortes e marcantes, vive um momento de crise em sua carreira, quando recebe uma encomenda milionária para pintar painéis para o luxuoso restaurante Four Seasons em Nova York nos anos 1950. Se aceita a encomenda, está colaborando com a dinâmica da arte comercial, aquela arte que “combina com o sofá” – o que vai contra sua leitura da expressão máxima do artista.

É esse embate entre o emocional e o racional que ele trava com seu aprendiz Ken (Bruno Fagundes). Ken é o representante da nova geração de artistas que vê na pop art de Andy Worhol a nova visão de mundo, que vai sufocar o expressionismo abstrato, que por sua vez sufocou o cubismo e o surrealismo, e assim por diante. É todo esse conteúdo de renovação e decadência que é tratado no lindo e sensível texto de John Logan, peça que fez muito sucesso na Broadway, sem ser abstrato demais. Afinal, tem como espinha dorsal a interessantíssima história de Rothko, com sutis e delicados toques de humor.

Os Fagundes têm liga no palco de fato. Achei acertado também no sentido figurado – a inocência de Ken em relação à arrogância e vivência de Rothko pode ser transportada pela maestria de Antonio e o talento inexperiente de Bruno. Tanto é verdade que no fim da peça os atores nos convidaram para ficar mais, bater um papo, conversar sobre o que vimos. Convidam-nos para doar um pouco mais de tempo (assim como pede Rothko em relação à observação de sua arte), para conversar, refletir – coisa rara hoje em dia. Portanto, programe-se para uns 20 minutos a mais além da 1h20 de espetáculo no belo e novo em folha Teatro Geo. O papo com os atores é delicioso, enriquecedor e principalmente muito descontraído. Toda a experiência de Antonio Fagundes nos palcos (parece que são 36 anos) aparece ali sem máscaras, de uma maneira generosa, como quem quer, precisa, adora trocar. Conhecimento, experiências, teatro.

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PROGRAME-SE:

Teatro Geo (Instituto Tomie Ohtake), R. Coropés, 88 – Pinheiros – tel: (11) 3728 4930 – de quinta a domingo. 

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HOTEL RUANDA – Hotel Rwanda
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, Estados Unidos, Drama, África do Sul - 21/04/2012

DIREÇÃO: Terry George

ROTEIRO: Terry George, Keir Pearson

ELENCO: Don Cheadle, Sophie Okonedo, Joaquin Phoenix, Cara Seymour, Nick Nolte

Estados Unidos, Inglaterra, África do Sul, 2004 (121 min)

Nossa tarefa é manter a paz, não estabelecer a paz. Temos ordem para não intervir.” – funcionário das Nações Unidas

Um pequeno resumo, para nossas mentes distraídas: Ruanda, na África, era colônia belga, governada com consentimento dos tutsis, etnia minoritária. Depois da independência, os hutus, etnia majoritária, tomam o poder, têm sede de vingança, armam a violenta e implacável milícia Interahamwe e comandam um massacre de mais de 800 mil pessoas – inclusive crianças, para dizimar os tutsis pela raiz. Apesar da presença das Nações Unidas no país, apesar do acordo de paz firmado. Apesar de tudo, o massacre aconteceu bem embaixo dos olhos de todo o mundo. Literalmente.

Hotel Ruanda refresca a nossa memória. Quem não se lembra da notícias sobre a matança, os estupros, a presença das forças de paz e a incapacidade de fazer a diferença? O filme é encabeçado pelo gerente do hotel Mille Collines, Paul Rusesabagina (Don Cheadle, também em Crash – No Limite, Um Hotel Bom pra Cachorro, Doze Homens e Outro Segredo), um hutu, que faz de seu hotel em Kigali um abrigo para os tutsis perseguidos. O filme é absolutamente devastador, tanto do ponto de vista humano, desumano, de solidariedade e descaso, de generosidade e atrocidade. Segue a mesma linha Darfur – Deserto de Sangue no quisito barbaridade, mas é muito mais cruel e muito melhor no quisito cinema.

Assista. Além de um ótimo filme por toda a sua carga trágica e humana ao mesmo tempo, faz parar para pensar. A história é real, Paul Rusesabagina realmente lutou para salvar a vida de centenas de pessoas e tudo isso ocorreu há menos de 20 anos, em 1994, cansando um êxodo de refugiados para os países vizinhos gigantesco. Impressionante, não?

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Sobre a África, assista também a Diamante de Sangue, Life, Above All, Minha Terra, África, Infância Roubada.

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UM SONHO DE LIBERDADE – The Shawshank Redemption
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Estados Unidos, Drama - 21/04/2012

DIREÇÃO: Frank Darabont

ROTEIRO: Stephen King (livro), Frank Darabont

ELENCO: Tim Robbins, Morgan Freeman, Bob Gunton, William Sadler, Clancy Brown, Gil Bellows, Mark Rolston

Estados Unidos, 1994 (142 min)

Shawshank é o nome da prisão onde o banqueiro Andy (Tim Robbins, também em A Vida Secreta das Palavras) vai parar, acusado de matar sua mulher e o amante dela. Condenado a prisão perpétua, apesar de alegar inocência, passa 20 anos sonhando com a liberdade, embora a experiência já o tenha transformado um bocado. Imagino que seja desse ponto que surge o título em português. Mas, é claro, cai no clichê desnecessário, ainda mais se tem elenco forte, história boa e uma direção e roteiro muito alinhados. Portanto, fica registrado, mais uma vez, minha insatisfação com essas adaptações novelescas dos títulos.

Na prisão, Andy conhece Red (Morgan Freeman, também em Conduzindo Miss Daisy, Invictus, Winter, O Golfinho, Antes de Partir), preso 20 anos antes, acostumado com o esquema todo de contrabando, mandos e desmandos da prisão – inclusive, é parte dele. Daí nasce uma grande amizade. Aproveitando suas habilidades profissionais, Andy beneficia os presos com consultorias financeiras, enriquece o diretor com a evasão de divisas e lavagem de dinheiro e cria uma biblioteca. Todo esse panorama é inserido dentro das regras rígidas e implacáveis de uma prisão de segurança máxima nos anos 40 e 50, acompanhados cronologicamente pelos pôsteres de musas das época, passando por Rita Hayworth e Marilyn Monroe.

Dizer mais é revelar a chave do roteiro antes da hora e suas revelações. Bem amarrado e muito bem elaborado, ele constrói, ao mesmo tempo, relações de amizade e desconfiança, cumplicidade e hipocrisia, sob a narração sábia do personagem Red. E humaniza cada um dos presos, criminosos ou inocentes. Seja na sua fraqueza, na impossibilidade de se adequar a uma realidade diferente da prisão, no exercício de uma habilidade para que a justiça, de uma forma ou de outra, fosse feita. Um Sonho de Liberdade é, sobretudo, um filme sobre a amizade e da confiança – apesar do ambiente corrompido e de todos os outros pesares que vêm junto com ele.

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