cinegarimpo

fevereiro, 2012

INIMIGOS PÚBLICOS – Public Enemies
CLASSIFICAÇÃO: Policial, Para se Divertir, Estados Unidos - 29/02/2012

DIREÇÃO: Michael Mann

ROTEIRO: Ronan Bennett, Michael Mann, Ann Biderman

ELENCO: Johnny Depp, Christian Bale, Marion Cotillard, Jason Clarke, Rory Cochrane, Billy Crudup, Stephen Dorff, Stephen Lang, John Ortiz, Giovanni Ribisi, David Wenham, John Michael Bolger, Bill Camp

Estados Unidos, 2009 (140 min)

J. Edgar Hoover, o chefão do FBI retratado no filme J. Edgarem cartaz com Leonardo DiCaprio, e responsável pela criação da agência americana de inteligência, diz tê-la criado pra combater os inimigos públicos que aterrorizavam os Estados Unidos nos anos seguintes à Grande Depressão de 1929. Ao invés de uma investigação à moda antiga, pautada somente por evidências e testemunhas da cena do crime, J.Edgar forma e informa seus agentes para que trabalhem com rigor científico: treinamento rigoroso, coleta de impressão digitais, análises químicas de materiais e evidências, escutas telefônicas e por aí vai. Tudo isso para combater a onda de crimes, assaltos a banco e trens que assombravam a população e menosprezavam o poder público.

Os inimigos, a que se refere o tão temido chefe por quase 50 anos, está aqui protagonizado pelo ótimo Johnny Depp (também em Alice no País das Maravilhas, Piratas do Caribe 4: Navegando em Águas Misteriosas, O Turista). Em Inimigos Públicos, Depp é o famoso e procurado John Dillinger, chefão da gangue de criminosos ousados, irônicos e extremamente perigosos, que realmente deixou as autoridades de Chicago em polvorosa nos anos 1930. Amparado por uma rede de ladrões de alto escalão espalhada por todo o território nacional, inclusive pelas prisões, faz com que Melvin Purvis (Christian Bale, também em O Império do Sol, O Vencedor), agente responsável pela captura do bandido, criasse um departamento exclusivo no FBI para investigação do paradeiro de Dillinger (aliás, a cena em que Dillinger “passeia” por essa seção da agência sem ser notado, observando toda a parafernália montada para capturá-lo, é uma das melhores).

Filmado de forma a parecer realmente sombrio e escuro, tem o aspecto claro e proposital de algo “fora da lei”. Em meio aos tiroteios, assaltos e crimes muito bem construídos, Dillinger ainda tem tempo, antes de morrer, de prometer à sua amada Billie Frechette (Marion Cotillard, também em Piaf – Um Hino ao Amor, Nine, A Origem, Meia-Noite em Paris, Contágio), que cuidaria dela. No fim das contas, o poder público elimina a rede do crime bem organizado de Dillinger, desbaratando uma das muitas gangues que se espalharam e fizeram fortunas naquelas décadas seguintes. Interessante, muito bem feito e complementar, Inimigos Públicos também mostra a própria figura de J. Edgar em situações semelhantes ao filme com DiCaprio. Vale a pena conferir as duas histórias e montar um panorama da época com filmes de ótima qualidade.

 


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O PORTO – Le Havre
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, Finlândia, Drama - 27/02/2012

DIREÇÃO e ROTEIRO: Aki Kaurismäki

ELENCO: André Wilms, Blodin Miguel, Jean-Pierre Darroussin

Finlândia, França – 2001 (93 min)

 

Nos cinemas: 02 de março

 

Começo pelo tema, que é cada vez presente, importante e difícil de equacionar. Lidar como fluxo contínuo de imigrantes africanos em terras europeias tornou-se uma questão social, política e econômica complexa demais. Estamos falando mais especificamente das cidades portuárias da França, portas de entrada também para a Inglaterra. O chamado contrabando humano e as migrações de famílias inteiras expõem essas pessoas ao desemprego, à falta de moradia e ao preconceito sem igual. Ainda mais em época de crise como a atual na Europa.

O Porto (referindo-se à cidade portuária de Le Havre, na Normandia) trabalha basicamente com essa questão. Mas de uma forma ingênua, que soa muitas vezes totalmente irreal – parece até fábula. Talvez tenha sido essa a intenção do autor, de mostrar uma sociedade idealizada, em que é possível haver compaixão e acolhimento, sem esperar nada em troca. Confesso que no decorrer do filme esse ritmo inexpressivo de alguns personagens, como do ex-escritor e atual engraxate, Marcel Marx, um senhor de bom coração, que cuida da mulher doente, é amigo dos vizinhos, está cheio de problemas mas mantém a cabeça erguida e o otimismo. É ele que se indigna com o tratamento que a mídia dá à família de refugiados do Gabão, encontrados em um conteiner no porto da cidade, e com a perseguição ao garoto Idrissa (Blodin Miguel), cujo desejo é embarcar para Londres para encontrar-se com a mãe. Enquanto Marcel opta por desafiar as autoridades e ajudar o garoto, a amizade entre os dois se estabelece, numa situação um pouco improvável, eu diria. Tudo muito dentro dos conformes demais. Até o policial, feito pelo ator Jean-Pierre Darroussin (também em Conversas com meu Jardineiro, As Neves do Kilimanjaro) parece ser conivente com a situação.

Acho que esse clima é construído propositalmente e que O Porto, que ganhou o prêmio da crítica em Cannes no ano passado, tem sua razão de ser pelo tema que aborda. Mas também confesso que dois outros filmes sobre “imigração ilegal” abordam o assunto de maneira mais verdadeira e tocante, ambos já em DVD. Já citei algumas vezes Bem-Vindo, com Vincent Lindon. Adoro este filme, que também mostra a realidade na cidade portuária de Calais e o relacionamento entre um professor de natação e um garoto curdo refugiado. Outro é O Visitante, que mostra os imigrantes senegaleses e sírios na Nova York após 11 de setembro. Ambos têm um apelo forte à essa improvável amizade e relação de respeito, que vai mudar a vida das pessoas envolvidas para sempre. E são mais realistas, sensíveis, sem a atmosfera teatral de O Porto.

Importante enquanto reflexão e rico em histórias de vida, o tema imigração na Europa em forte crise é sempre pauta do dia. É sensível, desperta simpatia e compaixão, a vontade de conviver numa sociedade ideal, mas minha dica é correr para a locadora e não deixar de conferir Bem-Vindo e O Visitantese o tema interessar. São mais realistas, e nem por isso menos humanos.

 

 

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TÃO FORTE E TÃO PERTO – Extremely Loud & Incredibly Close
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Estados Unidos, Drama - 26/02/2012

DIREÇÃO: Stephen Daldry

ROTEIRO: Eric Roth, Jonathan Safran Foer

ELENCO: Thomas Horn, Tom Hanks, Sandra Bullock, Max Von Sydow, Dennis Hearn, Zoe Caldwell, Viola Davis

Estados Unidos, 2011 (129 min)

Assim como Hugo, de A Invenção de Hugo Cabret, Oskar Schell (Thomas Horn) também procura desesperadamente uma mensagem do pai. Assim como Hugo, Oskar perdeu o pai de forma trágica. O pai de Hugo morre num incêndio em Paris nos anos 1930; o pai de Oskar morre no atentado nas Torres Gêmeas em Nova York, em 11 de setembro de 2001. O pai de Hugo deixa um robô que escreve mensagens; o de Oskar deixa uma chave que deve abrir alguma caixa, cofre, porta, que por sua vez deve conter uma mensagem do pai e uma explicação pela sua morte. Independente das diferenças de circunstâncias, os dois personagens do cinema, Hugo e Oskar, trazem essa questão tocante do filho que vive uma relação de idolatria e companheirismo com o pai em plena adolescência, aquele tipo de relação mágica e heroica. Tirada sem aviso prévio, de sopetão, deixa-os sem referência, sem chão, totalmente inconformados com a perda da maior e mais importante imagem para um garoto nessa idade: a paterna. Fiz dobradinha dos dois filmes em dias seguidos e a força dessa relação, a dor dessa perda não me saiu da cabeça.

Tão Forte e Tão Perto vem do título original do livro Extremely Loud & Incredibly Close. O que é ‘tão forte e tão perto’? O título me intriga. A perda ou presença do pai? Fato é que, apesar das esquisitices de Oskar – menino curioso, criativo, inventivo e muito, muito inquieto – e da improvável situação do “caça ao tesouro” por  Nova York (que é simbólico, é claro), o filme tem situações interessantes de relacionamento pai e filho, de luto pela perda, da necessidade individual e específica de cada um de vivenciar a morte intensamente, para então conseguir superar a ausência.

O pai de Oskar, Thomas (Tom Hanks, também em Náufrago, Sintonia de Amor, Forrest Gump, Filadélfia, Larry Crowne – O Amor está de Volta) morre no atentado ao World Trade Center, comunica-se com o filho minutos antes de os prédios desabarem e desaparece da vida da família sem que o corpo fosse encontrado e velado. Inconformado, Oskar esconde as mensagens da secretária eletrônica deixadas pelo pai, sofre sozinho, sente-se culpado, distancia-se da mãe (Sandra Bullock, também em Crash – No Limite, Um Sonho Possível, A Proposta) e tenta, de qualquer maneira, encontrar uma explicação para a sua morte. A chave que encontra no closet do pai dentro de um envelope, com a enigmática inscrição “Black”, parece ser a salvação de tudo. Para isso, Oskar precisa encontrar o cofre, caixa ou fechadura que seja aberta por essa chave, para desvendar o mistério.

Essa busca é insana. Percorre os cinco distritos de Nova York para encontrar alguém que possa dar informações sobre esse tal “Black”, que possa conhecer seu pai, seus planos, seus desejos, algo que escapava pelos dedos do filho. Apoiado pela avó e seu inquilino, o ótimo, mudo e competente Max Von Sydow (concorre ao Oscar de ator coadjuvante), Oskar é muito convincente (embora cansativo, propositalmente) no papel desse garoto agitado e intenso, que precisa esgotar todas as possibilidades e tentativas para poder seguir adiante. Diretor também dos ótimos As Horas e O Leitor, Stephen Daldry consegue transmite uma pequena parcela do que deve ter sido a perda para essas famílias no 11 de setembro. E uma pequena parcela das histórias de coincidências e solidariedade entre as pessoas envolvidas na tragédia, nessa busca por explicar o inexplicável. Tão Forte e Tão Perto emociona pelo tema da perda do pai, sentida pelos olhos do filho adolescente e pela proximidade e realidade dos fatos. Claro que Nova York não se presta para a peregrinação que Oskar faz pelas ruas, nem essa mãe seria tão relapsa como parece ser Linda (Sandra Bullock) – digo ‘parece’, não se esqueça disso. Tão Forte e Tão Perto concorre ao Oscar de melhor filme, mas não era para tanto. Mas toca no tema recorrente do luto e do inconformismo com a morte prematura dos pais e a necessidade de imaginar a vida nessa ausência.

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OSCAR 2012
CLASSIFICAÇÃO: Estados Unidos - 24/02/2012

Domingo dia 26 tem Oscar 2012. Ouvi esta semana uma ótima definição sobre a premiação: que Oscar nada mais é do que uma grande e grandiosa brincadeira, que muita gente leva a sério. Algo capaz de alavancar carreiras improváveis, destruir talentos, valorizar o comercial em detrimento do artístico. Pode ser tudo isso, sim – e nós sabemos que tem muita política por trás, muito oba-oba, mas que é, de fato, grande evento do cinema mundial, o grande impulso para a indústria, para a bilheteria, para a venda de cópias mundo afora.

Mesmo sendo assim, alguns fatos interessantes deste ano chamam a atenção. Concorrendo ao Oscar de melhor atriz estão as feras Meryl Streep e Gleen Close – portanto, um reconhecimento mais do que justo, pelo papel atual em A Dama de Ferro e Albert Nobbs respectivamente. Dá para rachar o prêmio? Será injusto de qualquer maneira, porque as duas fazem um trabalho espetacular. Também  chama a atenção a performance de O Artista, com 10 indicações. O filme é francês (!), mudo e em preto e branco, portanto a antítese das produções de Hollywood de hoje e dos últimos tempos, e uma homenagem ao cinema. Assim como A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese, que reverencia os primórdios do cinema, fazendo um filme de perfil bem diferente daqueles de sua carreira. Implicâncias à parte com a Academia, gosto das indicações acima.

Tem ainda George Clooney e Brad Pitt, Woody Allen e Steven Spielberg, Viola Davis e Janet McTeer concorrendo, e algumas indicações realmente sem o menor sentido, como a animação Rango e Missão Madrinha de Casamento. Em língua estrangeira, A Separação é o que chegou no Brasil por enquanto – e o grande favorito.

Seja qual for a decisão de domingo e independente de o Oscar ser uma grande brincadeira ou não, o que importa é que há ótimos filmes nos cinemas para todos os gostos. É disso que o público precisa e quer ver: produções diferentes, distintos olhares e percepções variadas do mundo. Com qualidade, é claro.

Abaixo está a lista dos indicados, com os links para os comentários no Cine Garimpo.

Melhor filme
Cavalo de guerra
“O artista”
“O homem que mudou o jogo”
“Os descendentes” 
“A árvore da vida”
“Meia-noite em Paris”
“História cruzadas”
“A invenção de Hugo Cabret”
“Tão forte e tão perto” 

Diretor
Michel Hazanavicius – “O artista”
Alexander Payne – “Os descendentes”
Martin Scorsese – “A invenção de Hugo Cabret”
Woody Allen – “Meia-noite em Paris”
Terrence Malick – “A árvore da vida”

Melhor ator
Demián Bichir – “A better life”
George Clooney – “Os descendentes”
Jean Dujardin – “O artista”
Gary Oldman – “O espião que sabia demais”
Brad Pitt – “O homem que mudou o jogo”

Ator coadjuvante
Kenneth Branagh – “Sete dias com Marilyn” (trailer ao lado)
Jonah Hill – “O homem que mudou o jogo”
Nick Nolte – “Warrior”
Max Von Sydow – “Tão forte e tão perto”
Christopher Plummer – “Beginners”

Melhor atriz
Glenn Close – “Albert Nobbs”
Viola Davis – “Histórias cruzadas”
Rooney Mara – “Os homens que não amavam as mulheres”
Meryl Streep – “A dama de ferro”
Michelle Williams -“Sete dias com Marilyn”

Melhor atriz coadjuvante
Octavia Spencer – “Histórias cruzadas”
Bérénice Bejo – “O artista”
Jessica Chastain – “Histórias cruzadas”
Janet McTeer – “Albert Nobbs”
Melissa McCarthy – “Missão madrinha de casamento”

Melhor roteiro original
“O artista”
“Missão madrinha de casamento”
“Margin Call”
“Meia-noite em Paris”
“A separação”

Trilha sonora original
“As aventura de Tintim” – John Williams
“O Artista” – Ludovic Bource
“A invenção de Hugo Cabret” – Howard Shore
“O espião que sabia demais” – Alberto Iglesias
“Cavalo de guerra” – John Williams

Canção original
“Man or Muppet”, de “Os Muppets”, música e letra de Bret McKenzie
“Real in Rio”, de “Rio”, música de Sergio Mendes e Carlinhos Brown, letra de Siedah Garrett

Maquiagem
“Albert Nobbs”
“Harry Potter”
“A dama de ferro”

Direção de arte

“O artista”
“Harry Potter”
“A invenção de Hugo Cabret”
“Meia-noite em Paris”
“Cavalo de guerra”

Fotografia
“O artista”
“Os homens que não amavam as mulheres”
“A invenção de Hugo Cabret”
“A árvore da vida”
“Cavalo de guerra”

Figurino
Anonymous”
“O artista”
“A invenção de Hugo Cabret”
“Jane Eyre”
“W.E.”

Melhor animação

“A Cat in Paris”
Chico & Rita”
“Kung Fu Panda 2”
“Gato de Botas”
“Rango”

Documentário (longa-metragem)
“Hell and Back Again”
“If a Tree Falls: A Story of the Earth Liberation Front”
“Paradise Lost 3: Purgatory”
“Pina”
“Undefeated”

Documentário (curta-metragem)
“The Barber of Birmingham: Foot Soldier of the Civil Rights Movement”
“God Is the Bigger Elvis”
“Incident in New Baghdad”
“Saving Face”
“The Tsunami and the Cherry Blossom”

Edição
“O artista”
“Os descendentes”
“Os homens que não amavam as mulheres”
“A invenção de Hugo Cabret”
“O homem que mudou o jogo”

Melhor filme em língua estrangeira
“Bullhead” – Bélgica
“Footnote” – Israel
“In Darkness” – Polônia
“Monsieur Lazhar” – Canadá
“Separação” – Irã

Curta-metragem de animação
“Dimanche”
“The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore”
“La Luna”
“A Morning Stroll”
“Wild Life”

Curta-metragem
“Pentecost”
“Raju”
“The Shore”
“Time Freak”
“Tuba Atlantic”

Edição de som
“Drive”
“Os homens que não amavam as mulheres”
“A invenção de Hugo Cabret”
“Transformers: o lado oculto da lua”
“Cavalo de guerra”

Mixagem de som
Os homens que não amavam as mulheres”
“A invenção de Hugo Cabret”
“O homem que mudou o jogo”
“Transformers: o lado oculto da lua”
“Cavalo de guerra”

Efeitos visuais
“Harry Potter”
A invenção de Hugo Cabret”
“Gigantes de aço”
“Planeta do macacos”
“Transformers: o lado oculto da lua”

Roteiro adaptado
“Os descendentes”
“A invenção de Hugo Cabret”
“Tudo pelo poder”
“O homem que mudou o jogo”
“O espião que sabia demais”

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ALBERT NOBBS
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Irlanda, Inglaterra, Garimpo na Locadora, Drama - 24/02/2012

Que opção tem uma mulher pobre, sem recursos, família, herança, senão ser homem na Irlanda machista e católica do fim do século 19? Ficamos sem saber o nome dessa órfã, que vê na oferta de emprego como garçom em um hotel a oportunidade de sobreviver dignamente na cidade de Dublin. Assim surge Albert Nobbs, que assume o papel do sério, dedicado e austero funcionário de um badalado hotel, na pele da simplesmente fantástica Gleen Close. Não se trata de se vestir de homem, mas sim de incorporar a postura, gestos, expressões masculinas, ainda que tenha um toque assexuado. Quase não se percebe a linha que separa os dois mundos, mas a impressão que dá é de um homem ao mesmo tempo determinado e frágil, introspectivo e carente. Impecável maquiagem, impecável interpretação.

Albert Nobbs, no auge da sua elegância, conhece Hubert Page (Janet McTeer) e seus segredos se mesclam numa história só. Hubert também é uma mulher que se passa por homem, por motivos distintos porém semelhantes do que diz respeito à aceitação, oportunidade, trabalho. Concorrendo ao Oscar de melhor atriz e atriz coadjuvante respectivamente, Gleen Close e Janet McTeer dão um show, deixando Helen, vivida por Mia Wasikowska (também em Alice no País das Maravilhas, Minhas Mães e Meu Pai, Inquietos) bem para trás. Mas é por ela que Albert Nobbs se apaixona à sua maneira e é com ela que planeja mudar de vida, abrir seu próprio negócio e ter autonomia.

Não é filme para o grande público. Ainda mais em época em que grandes lançamentos ocupam muitas salas de cinema. Mais lento e o que eu chamaria de “filme de observação” (não perca um só gesto do gentil e minucioso Nobbs), Albert Nobbs tem uma beleza estética marcante, mas também humana. Mesmo na Dublin desumana, assolada pela tifo dos piolhos e pelo desemprego daquele fim de século.

 

DIREÇÃO: Rodrigo García ROTEIRO: Gleen Close,  John Banville ELENCO: Gleen Close, Janet McTeer, Mia Wasikowska, Aaron Johnson, Pauline Collins, Mary Doyle Kennedy |  2011 (113 min)

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A INVENÇÃO DE HUGO CABRET – Hugo
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Para se Divertir, Estados Unidos, Aventura - 24/02/2012


DIREÇÃO: Martin Scorcese

ROTEIRO: John Logan, Brian Selznick

ELENCO: Ben Kingsley, Asa Butterfield, Chloë Moretz, Jude Law, Sacha Baron Cohen

Estados Unidos, 2012

“A história que estou prestes a contar se passa em 1931, sob os telhados de Paris. Aqui, você conhecerá um menino chamado Hugo Cabret, que, certa vez, muito tempo atrás, descobriu um misterioso desenho que mudou sua vida para sempre.”

– narrador

 

Assim começa o livro A Invenção de Hugo Cabret, de Brian Selznick, que deu origem ao filme homônimo. Neste livro de ilustrações lindíssimas, o narrador diz ainda mais. Pede que o leitor se imagine em uma sala escura, como no início de um filme, que acompanhe o zoom até o saguão da estação de trem lotada, onde verá um menino no meio da multidão. É preciso segui-lo, já que o garoto tem muitos segredos na cabeça e uma história para contar. E é assim mesmo que acontece, como se o leitor-espectador estivesse vendo e fazendo um filme ao mesmo tempo. O diretor Martin Scorsese (também em Ilha do Medo) seguiu à risca as instruções iniciais do autor quando adaptou o livro para o cinema. Mais do que uma adorável aventura pela Paris dos anos 1930, pelo maquinário fascinante dos relógios da estação de trem e pelos sonhos e aventuras da adolescência, A Invenção de Hugo Cabret é uma homenagem ao cinema e suas origens.

Indicado ao Oscar em 11 categorias, é um forte concorrente ao prêmio deste domingo, 26 de fevereiro. Hugo (Asa Butterfield, também em O Menino do Pijama Listrado) é filho de um relojoeiro, que além de consertar relógios é fanático por autômatos. Encontra um deles num sótão de um museu e dedica-se a consertá-lo. Mas morre repentinamente e Hugo teima em continuar a tarefa começada, na esperança de que o robô traga uma mensagem do pai (Jude Law, também em Contágio, Sherlock Holmes, Closer – Perto Demais). Vagando pela estação de trem, onde vive ajustando e dando corda nos relógios, as anotações sobre o autômato vão parar nas mãos do entristecido e emburrado dono da loja de brinquedos (Ben Kingsley, também em Gandhi, A Lista de Schindler, Ilha do Medo, Fatal), que não tem outra escapatória senão se defrontar com o passado e enfrentar a curiosidade do garoto e de sua sobrinha Isabelle (Chloë Grace Moretz). Hugo vive entre a precisão dos relógios, a necessidade de não deixar escapar os minutos e segundos, e a dos sonhos, presentes no enigma e no mistério do autômato. Assim é o cinema, também oscilando entre realidade e ficção, observação e atitude.

Sem que a gente se dê conta, o filme conta uma história que ficou distante para a maioria de nós e que pouca gente sabe. Portanto, tem um valor didático enorme ao resgatar o início do cinema realista com os irmãos Lumière e a trajetória do ilusionista George Méliès com seu cinema “fábrica de sonhos” do final do século 19, mostrando a produção de cenários e ilusões em alguns de seus mais de 500 filmes. Muita gente anda perguntando se é indicado para crianças – como diz a classificação oficial do filme. Eu diria que não é um contexto infantil, de simples aventura. É mais sutil e contextualizado do que isso. Crianças maiores, a partir dos 10 anos, talvez aproveitam mais, principalmente se souberem um pouco desse contexto do cinema, se contarmos a eles que o personagem de Ben Kingsley realmente existiu e que há mais de 100 anos o cinema já se apresentava ao público como criação, imaginação, recurso para deixar a realidade de lado e entrar no mundo dos sonhos. Apesar da pequena diferença no final do filme e do livro, a homenagem ao poder da boa narrativa é uma só.

 

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A MÚSICA SEGUNDO TOM JOBIM
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Garimpo na Locadora, Documentário, Brasil - 22/02/2012

Dá vontade de cantar junto. Claro, se você gosta de Tom Jobim. Que você conhece, é óbvio. Pelo menos as clássicas e mundialmente cantadas em todos os idiomas possíveis. O cinema todo sorri ao ver as imagens incríveis de Tom Jobim cantando Garota de Ipanema com Frank Sinatra, fazendo o célebre e maravilhoso dueto com Elis Regina em Águas de Março. E se emociona – tenho certeza.

Independente da época, são canções entoadas e interpretadas pelos mais variados cantores, das mais variadas nacionalidades, até hoje, muito embora os diretores tenham optado por não dar o crédito do intérprete, nem o nome da canção. Você só vai ter essas informações no final do filme. Portanto, não saia correndo. Vale a pena ficar e checar o seu conhecimento musical – mesmo que seja só de curiosidade. Outro ponto interessante é que não há depoimentos, como no documentário As Canções, de Eduardo Coutinho. Aqui, pelo contrário, a música basta, porque a história todos nós já conhecemos. A trajetória de Tom Jobim é contada pelas personalidades que cantam e tocam suas composições, pelos palcos onde tocou e cantou, pelas imagens das etapas da vida. Um belo tributo.

 

DIREÇÃO: Nelson Pereira dos Santos e Dora Jobim ROTEIRO: Nelson Pereira dos Santos e Miúcha Buarque | 2012 (88 min)

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A MULHER DE PRETO – The Woman in Black
CLASSIFICAÇÃO: Suspense, Estados Unidos - 22/02/2012

DIREÇÃO: James Watkins

ROTEIRO: Susan Hill (livro), Jane Goldman

ELENCO: Daniel Radcliffe, Janet McTeer, Ciarán Hinds, Lucy May Baker

Inglaterra, 2012 (95 min)

No primeiro momento, não dá para dissociar a imagem do Harry Potter do personagem de Daniel Radcliffe. Depois de fazer oito filmes de 2001 a 2011, a identidade de Radcliffe passou a se confundir com a do próprio Harry. Aliás, muito se falou sobre isso depois do último filme da série: se ele seria capaz de virar a página do Harry Potter e continuar sua carreira no cinema, investindo em outras imagens, outras histórias e personagens. E o principal: se saberia escolher o projeto ideal para se relançar.

Ainda estou para rever a série toda e publicar aqui no Cine Garimpo um comentário. Mas mesmo sem tê-la fresca na cabeça, tive a impressão de que Radcliffe aceitou este papel em A Mulher de Preto por se tratar de um filme de mistério, casa mal-assombrada, fantasmas – algo que remete ao suspense e terror dos enredo da série. Seria uma maneira de diminuir o risco, um personagem na mesma “linha”? Pelo contrário, acho que foi uma decisão até mais perigosa pelas óbvias comparações que surgem daí. Foi corajoso – e, de certa forma, bem sucedido. Seu personagem exige uma atuação apática e abatida, pelo seu estado emocional, e Radcliffe é bom nisso (ele faz um tipo meio apagado…). Resta saber se encararia um projeto com outro perfil.

A Mulher de Preto propriamente dita é o fantasma de uma senhora que morou em um casarão imenso, localizado numa região pantanosa, com uma ambientação e produção incríveis. Inconformada com a perda trágica de seu filho, assombra a todos que passam por lá, provocando a morte de outras crianças no vilarejo. Arthur Kipps (Daniel Radcliffe) é um advogado austero do começo do século XX, ainda abalado emocionalmente com a morte da mulher. Tem um filho de 4 anos para criar e precisa salvar o emprego. Sua última chance é resolver os problemas de documentação dessa família e de sua propriedade abandonada. E mal-assombrada.

Radcliffe promete suspense, vários sustos e um típico filme de terror com assombração e almas deslocadas que, por algum motivo, ainda não deixaram este mundo. Quem gosta do gênero vai aproveitar – muito embora não tenha novidade alguma, conte com os elementos clássicos do cinema-suspense: vilarejo remoto, habitantes assustados, cenário tenebroso, casa abandonada. Mas pode ser que você se surpreenda com o final. Mas só no último instante.

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O HOMEM QUE MUDOU O JOGO – Moneyball
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Estados Unidos, Drama - 17/02/2012

DIREÇÃO: Bennett Miller

ROTEIRO: Steven Zaillian, Aaron Sorkin

ELENCO: Brad Pitt, Johan Hill, Philip Seymour Hoffman, Robin Wright

Estados Unidos, 2011 (133 min)

 

Nos cinemas: 17 de fevereiro

 

“Seu objetivo não deveria ser comprar jogadores, mas sim comprar vitórias. E para comprar vitórias, precisa comprar quem marca ponto.”

Peter Brand

Sinceramente? Não entendo nada de beisebol. Talvez seja porque não vejo graça na dinâmica do jogo e, logicamente, porque nunca me interessei por aprender suas regras e macetes. E tem o agravante de o esporte não fazer parte da cultura brasileira – o que o torna ainda mais distante. Mas independente de qualquer preferência ou circunstância, fato é que essa informação bastante pessoal só interessa a você por causa do seguinte: O Homem que Mudou o Jogo não é sobre beisebol. É sobre a maneira com que o dinheiro rege os esportes hoje em dia. Poderia ser o futebol (e como!), golfe, automobilismo e tantos outros.

Portanto, se tiver curiosidade pelo assunto, não se acanhe se for parecido comigo nesse ponto. Alguns jogos acontecem, é verdade, mas o enfoque não são as partidas. Com seis indicações ao Oscar entre elas melhor filme, ator, ator coadjuvante (Johan Hill), o filme fala essencialmente da dificuldade de lidar com a falta de dinheiro, quando é ele que manda e desmanda no mundo do esporte. Na pele de Brad Pitt (também em Onze Homens e Um Segredo, A Árvore da Vida, Bastardos Inglórios, Babel, Queime Depois de Ler) – que aliás está muito firme no papel – o ex-jogador Billy Beane é gerente do time de beisebol Oakland Athletics, que anda sem caixa. A cada começo de temporada, ele tem que contratar novos jogadores, mas o valor exorbitante que o mercado paga pelos grandes nomes é algo fora da sua realidade.

Sem saída e totalmente na contramão de todas as opiniões da equipe técnica, entre eles o próprio treinador Art Howe (Philip Seymour Hoffman, também em Tudo pelo Poder, Magnólia, Felicidade, Dúvida), resolve adotar uma política de seleção nada comum. Contrata o jovem economista Peter Brand (Jonah Hill, também em Cyrus) para ajudá-lo a escolher os jogadores com base em estatísticas feitas pelos computadores: quem tivesse mais índices de acertos seria contratado – o que gera muita controvérsia e dúvida quanto à eficácia da estratégia.

Embora eu tenha ficado por fora em alguns momentos, por causa da terminologia dos lances e posições do jogo, o interessante no filme é o personagem de Brad Pitt. Baseado numa história real, ele foi um promissor jogador na juventude, que teve de optar entre aceitar uma bolsa na universidade ou embolsar um bom dinheiro para se dedicar ao time, que lida com a sensação de derrota também no campo emocional por causa do divórcio e da relação distante com a filha. Quase sem saída, precisa agora reinventar outra maneira de lutar, para tentar vencer e recuperar sua autoestima e seu prestígio no meio esportivo. Baseado no livro Moneyball: A Arte de Vencer um Jogo Injusto (tradução livre, livro inédito no Brasil), de Michael Lewis, reflete essa tendência geral de o esporte ser direcionado pelos cifrões. Bem pensado, ótimo título.

 

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REIS E RATOS
CLASSIFICAÇÃO: Para se Divertir, Comédia, Brasil - 17/02/2012

DIREÇÃO e ROTEIRO: Mauro Lima

ELENCO: Selton Mello, Otávio Müller, Orã Figueiredo, Rodrigo Santoro, Cauã Reymond, Rafaela Mandelli, Seu Jorge, Paula Burlamaqui

Brasil, 2012 (93 min)

Grande elenco normalmente costuma aumentar as expectativas. Mas nem sempre garante que o filme seja de fato bom ou do estilo debochado-divertido – como acho que era a intenção aqui. Com Selton Mello fresco na memória por causa do excelente O Palhaço, Rodrigo Santaro e Cauã Reymond em Meu País, confesso que esperava um filmaço. Não é bem assim. Fiquei incomodada com a construção desses personagens e com o deboche desmesurado. Algo não vai bem em Reis e Ratos e a sensação que dá ao assistir ao filme é de “tanto faz” para qualquer coisa, inclusive para a escolha do conteúdo.

Tudo se passa em 1963, às vésperas do golpe militar de 64 no Rio de Janeiro. O Brasil está ameaçado pelas forças comunistas infiltradas e é preciso fazer alguma coisa para evitar que o país caia nas suas mãos em plena Guerra Friz. Com ajuda do agente da CIA Troy Somerset (Selton Mello) disfarçado de comerciante de sapatos, e um major da aeronáutica (Otávio Müller), pretende-se armar uma emboscada para que o golpe seja justificado. Claro, porque Somerset quer, de qualquer maneira, ficar no Brasil depois de terminada a sua missão, continuar levando aquele vidão conveniente com sua esposa Leonor (Paula Burlamaqui). Para ele, sempre há um jeitinho de se resolver isso. Para tanto, conta a ajuda da cantora de boate Amélia (Rafaela Mandelli), de um falsário e vigarista Roni (Rodrigo Santoro, também em Meu País, Leonera, Carandiru, Bicho de Sete Cabeças, Che – O Argentino, Che – A Guerrilha) e com Hervê, um locutor médium afeminado e bem esquisito (Cauã Reymond, também em Meu País, Estamos Juntos, À Deriva, Divã, Se Nada Mais Der Certo). O presente é colorido; o flashback, preto e branco. Mas confuso, com personagens caricatos e pouco críveis.

Mesmo sendo uma releitura de uma época do ponto de vista dos americanos, ou dessa “oportunidade” de imprimir a influência americana nos países mais “fragilizados”, Reis e Ratos tem um roteiro fraco e todo picotado que acaba incomodando. Não flui, mesmo com olhos de quem está vendo uma comédia-ficção de época. Do mesmo diretor de Meu Nome Não É Johnny (filme interessante e bem feito), o conjunto de Reis e Ratos não foi uma escolha (nem um final) feliz.

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