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janeiro, 2012

J. Edgar
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, Estados Unidos, Biografia - 31/01/2012

DIREÇÃO: Clint Eastwood

ROTEIRO: Dustin Lance Black

ELENCO: Leonardo diCaprio, Armie Hammer, Naomi Watts, Josh Hamilton, Judy Dench

Estados Unidos, 2011 (137 min)

“Informação é poder.” –   J. Edgar

Nos Estados Unidos dos anos 1920, o FBI (Federal Bureau of Investigation) era mais um departamento policial ineficiente e corrupto, sem qualquer critério técnicos ou científico para desvendar crimes e prender bandidos. Foi nessa época que o jovem advogado John Edgar Hoover, então com 22 anos, foi trabalhar no Departamento de Justiça americano. Escolhido para combater uma leva grande de estrangeiros subversivos e comunistas, que colocavam em risco a segurança nacional através de atentados e organizações secretas, acaba sendo designado para dirigir o órgão, que nunca mais seria o mesmo. J. Edgar passa a coordenar seu staff com mãos de ferro, adotando estratégias científicas e técnicas de investigação criminal – inclusive das impressões digitais – imprime sua marca logo de cara e termina sendo, ele mesmo, o próprio perfil do FBI.

Foram 48 anos no poder da poderosíssima organização de inteligência americana. J.Edgar (Leonardo DiCaprio, também em Ilha do Medo, Foi Apenas um Sonho, A Origem, Titanic), sempre escoltado pela fiel assistente Helen Gandy (Naomi Watts, também em Jogo de Poder, 21 Gramas, Você Vai Conhecer o Homem dos seus Sonhos) e por seu suposto amante e sabido braço direito Clyde Tolson (Armie Hammer, também em A Rede Social), foi chefe do departamento já em 1924 e diretor de 1935 a 1972, quando morreu. Portanto, viveu no comando importantíssimos anos da história americana: época dos comunistas e gângsters (muito bem retratada em Inimigos Públicos, com Johnny Depp), da crise de 1929, da Segunda Guerra, da Guerra do Vietnã, da morte de Kennedy, do prêmio Nobel dado a Martin Luther King, da subida de Nixon ao poder. Anos tratados no filme num vai e vem entre passado e presente, que poderiam ser menos intensos – o roteiro assinado por Dustin Lance Black (também de Milk – A Voz da Liberdade) poderia ser mais suave nesse quisito.

É assim que conhecemos a história contada por Clint Eastwood (diretor também de Além da Vida, A Troca, Gran Torino, Sobre Meninos e Lobos, A Conquista da Honra, Cartas para Iwo Jima) e é claro que está recheada de fatos interessantes. J.Edgar é retratado com um sujeito esquisito, duro e implacável, absolutamente dono da situação, de maneira muito competente por Leonardo DiCaprio. Viajei por esse pedaço da história, revi fatos, arquitetura, modos, costumes e a cronologia de uma época. Aqui Clint é impecável. Mas não entendo – e esta não é só a minha opinião, tenho lido por todos os cantos a mesma coisa – por que a maquiagem de envelhecimento ficou tão pesada. DiCaprio está muito bem, mas no rosto de Armie Hammer e Naomi Watts realmente parece que perderam o pé. Fiquei incomodada com essas imagens – o que é uma pena, já que se trata de um detalhe técnico fácil de resolver, ainda mais para diretores como Clint Eastwood. De qualquer modo, se isso realmente for só um detalhe para você, deixe passar. J.Edgar é um sujeito que tem, no mínimo, uma interessante e marcante história de vida. E Clint Eastwood, sempre uma maneira muito particular de contar.

 

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OS DESCENDENTES – The Descendants
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Estados Unidos, Drama - 27/01/2012

Por Suzana Vidigal

Histórias mirabolantes e inverossímeis são mais fáceis de resolver, no que diz respeito ao lado humano. A ficção, quase tudo aceita. Acho bem difícil passar um sentimento verdadeiro na tela quando se trata de uma história pouco original, de relações já bastante exploradas pelo cinema – o risco de cair no clichê é bem maior. É aqui que está o grande trunfo de Os Descendentes. Equilibrando muito bem humor e drama, o diretor Alexander Payne (também de Sideways e um dos episódios de Paris, Eu Te Amo,) fala da tristeza da perda, da fria relação entre pai e filhos, da descoberta de uma traição e da necessidade de reinventar as relações com leveza, simplicidade e algumas lágrimas.

Durante o filme todo, George Clooney (também em Tudo Pelo Poder, Amor sem EscalasQueime Depois de Ler11 Homens e um SegredoSyriana – A indústria do Petróleo) nos faz participar de suas descobertas. Excepcional no papel, é indicado ao Oscar melhor ator (aliás, tem meu voto) e consegue transmitir seu sentimento de total perplexidade ao descobrir que tem que dar conta das duas filhas depois que sua esposa entra em coma, da negociação da venda da propriedade e de toda a questão que envolve a traição da sua mulher. Clooney faz rir e faz chorar e transmite sua indignação, tristeza, raiva e simples alegria de retomar as rédeas da vida.

Não há nada de excepcional no roteiro, que é linear, nem na história em si, que é sobre ajustes familiares. Mas é dessa simplicidade que eu gosto, da sensação que me dá de poder realmente entrar no filme e me sentir à vontade. Se não fosse no Havaí, eu bem que diria que quase me “senti em casa”.  Acho até que a beleza toda das ilhas foi pouco explorada – o que valoriza ainda mais o lado humano e real, o fato de estarmos todos (sem exceção) sujeitos a erros e sofrimentos. Os Descendentes, indicado ao Oscar de melhor filme e roteiro adaptado, é essencialmente um filme sobre as relações.

 

DIREÇÃO: Alexander Payne ROTEIRO: Alesander Payne, Nat Faxon ELENCO: George Clooney, Shailene Woodley, Amara Miller, Nick Krause, Patricia Hastie | 2011 (115 min)

 

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AS AVENTURAS DE TINTIM – The Adventures of Tintim: The Secret of the Unicorn
CLASSIFICAÇÃO: Para Ver em Família, Estados Unidos, Animação - 27/01/2012

DIREÇÃO: Steven Spielberg

ROTEIRO: Steven Moffat, Edgar Wright

ELENCO: Jamie Bell, Andy Serkis, Daniel Craig, Nick Frost, Simon Pegg, Daniel Mays, Gad Elmaleh, Toby Jones, Joe Starr, Enn Reitel, Mackenzie Crook

Estados Unidos, 2011 (107 min)

Conheço o personagem Tintim o mesmo tanto que muita gente. Ou seja, quase nada, a não ser que o repórter aventureiro foi criado pelo autor belga Hergé em 1929, que é uma verdadeira febre na Europa e chega a fazer parte da sua identidade. Isso não quer dizer muita coisa, só significa que não era minha leitura predileta (eu bem que preferia quadrinhos mais brasileiros) – muito embora, eu sei, seu fã clube seja imenso por aqui e muita gente tenha realmente o Tintim e suas aventuras como referência de infância.

Digo isso para que ninguém se intimide e vá assistir mesmo fazendo parte desse meu time de “iniciantes” no assunto. Tem muita gente dizendo que o Tintim da telona não tem o mesmo brilho do garoto curioso e sempre bem sucedido dos quadrinhos. Ora, mesmo quem tem repertório para dizer isso, que me desculpe. Eu digo humildemente que não tenho, mas acho que estamos falando de coisas diferentes. Uma coisa é o traço original de Hergé, que criou suas histórias até morrer em 1983 e encantou gerações; outra coisa é a adaptação aos olhos de Steven Spielberg (também de Cavalo de Guerra, A Lista de Schindler), com tecnologia digital e recursos inimagináveis, nos tempo de hoje em que é preciso ter agilidade, dinâmica, técnica e talento para fazer bom cinema e atrair um grande público.

Sei também que os puristas reclamam da junção de três histórias para fazer o As Aventuras de Tintim que está nos cinemas. Mas você há de convir que adaptações são assim mesmo, têm algumas licenças artísticas, são vistas por outro olhar que não o do criador e precisam ser “interessantes” aos olhos do consumidor-espectador. Pelo que entendo – e pelo que senti ao assistir ao filme (e o “sentir” é o que importa neste caso) – isso não prejudica em nada o espírito destemido e aventureiro do jovem repórter, de seu fiel escudeiro Milu e do parceiro capitão Haddock, um beberrão e atrapalhado incorrigível, mas bom sujeito. Pelo contrário, adiciona aspectos que enriquecem e atualizam a trama. A produção feita com o recurso motion caption, que capta movimentos de atores reais para em seguida serem digitalizados e animados, deu ao filme uma impressionante noção de realidade. Por diversas vezes esqueci completamente que assistia a uma animação, tamanha a perfeição.

E eu diria mais, As Aventuras de Tintim é um filme delicioso de assistir, tem sequências impressionantes (a primeira cena da feira na praça, a cena da perseguição no Marrocos – lembra Indiana Jones –, o deserto, a batalha no navio), que fica difícil dizer que o filme não tem alma. Tem, vale a pena, fala com os jovens de hoje, conta uma história muito bacana, tem um herói otimista e com iniciativa e coloca o Tintim no radar daqueles que não tinham noção do que esse garoto do topete é capaz.

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MOSCOU
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Documentário, Brasil - 26/01/2012

DIREÇÃO: Eduardo Coutinho

ELENCO: Enrique Diaz

Brasil, 2009 (78 min)

Moscou é mais um filme do diretor Eduardo Coutinho, que faz documentários e entrevistas como ninguém. Tem um olhar diferenciado, já que seu cenário é o palco e por lá circulam os participantes, que ora são atores, ora eles mesmos. E é justamente essa mistura que ele deixa claro – e faz com que aqueles que participam do projeto também se entreguem à proposta. Se não fosse assim, seria ficção. Mas na sua concepção – ou pelo menos é como sinto seus filmes – realidade e ficção se mesclam na vida. Somos os dois ao mesmo tempo, ora vivendo as nossas próprias lembranças, ora nos imaginando como seria se tudo fosse diferente.

Moscou é uma experiência teatral realmente. Não só o palco está presente, mas também os atores do grupo Galpão, de Belo Horizonte, que concordaram em encenar a peça As Três Irmãs, de Tchekhov, fragmentada, com improvisos e ensaios no meio. Com o diretor convidado Enrique Diaz, os atores representam seus papéis, e no meio do caminho são convidados a contar sobre algo marcante da sua vida. Eles relatam e a gente fica sem saber se é realmente parte da vida real daquele ator, se faz parte do texto ou se ele está simplesmente criando outro personagem na sua mente.

Já digo de cara que é preciso gostar de teatro, do ritmo do teatro para gostar mais de Moscou. Confesso que minha expectativa para este filme era muito alta. De Eduardo Coutinho já tinha assistido a Edifício Master (mas preciso rever) e a Jogo de Cena, que é um retrato interessantíssimo da vida de mulheres comuns e atrizes, que vagam entre a interpretação e a realidade num jogo realmente muito sugestivo. Mas foi As Canções (está em cartaz, não percam!) que realmente me tocou fundo. É excepcional. Dos três, o mais singelo, mais plural, aquele que usa a linguagem mais universal, a música.

 

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PRECISAMOS FALAR SOBRE KEVIN – We Need to Talk about Kevin
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Para Pensar, Inglaterra, Drama - 24/01/2012

DIREÇÃO: Lynne Ramsay

ROTEIRO: Lynne Ramsay, Rory Kinnear, Lionel Shriver (livro)

ELENCO: Tilda Swinton, John Reilly, Ezra Miller, Jasper Newell, Ashley Gerasimovich

Inglaterra, 2011 (110 min)

Só uma mulher poderia dirigir um filme como este. Atuar da maneira com que Tilda Swinton faz aqui (aliás, fiquei decepcionada ao saber que não recebeu indicação para o Oscar), com a intensidade da dor que só uma mãe é capaz de sentir, só poderia ser resultado da parceria com uma diretora. Não estou menosprezando a dor do pai, de forma alguma. Mas é que o pai, representado pelo sempre ótimo John Reilly (também em Magnólia, Cyrus), não sente dor alguma. Para ele, não é preciso falar sobre Kevin. Não é ele o alvo do desprezo. O objetivo de Kevin é ferir a mãe, naquilo que ele sabe ser o mais dolorido: o amor materno banalizado, a ternura correspondida com cinismo, a dedicação com maldade, perversão, olhar de indiferença. Não deve ter dor maior. O que fica para Eva (Tilda Swinton, também em Um Sonho de Amor, Queime Depois de Ler) é a pergunta que não quer calar: onde foi que eu errei tanto assim? Por quê?

Eleito o melhor no Festival de Cinema de Londres de 2011, Precisamos Falar Sobre Kevin já começa duro, sofrido. Conhecemos a história a partir da perspectiva de Eva, que transmite uma solidão e uma dor impressionantes no semblante, nos modos de vida. É fortemente hostilizada pelos vizinhos, tem dificuldade em encontrar emprego. Suas lembranças vão nos contando como foi sendo construída a relação com o pequeno Kevin, que desde muito pequeno parecia já saber como provocar a mãe, como deixá-la desconcertada, sem paciência. Desde pequeno passava dos limites – como se isso lhe desse o direito de agir como bem entendesse. Desde pequeno vemos a diferença na relação que tinha com o pai e com a mãe, ambas controladas e manipuladas pelo garoto. Ele cresceu, as ferramentas para exercer esse domínio e dissimular situações ficam mais disponíveis, e Eva sente, o tempo todo, que precisa falar sobre Kevin, que há um problema, que algo não anda bem. Mas não há diálogo.

Falei sobre este filme no artigo sobre Elefante, por causa da semelhança do tema ligado aos massacres de Columbine e Realengo (RJ). E me perguntaram se Precisamos Falar Sobre Kevin é um daqueles filmes que atormentam a gente pelo resto da vida. Mãe é mãe, confesso que damos a vida para fazer o melhor que podemos, mas sempre fica a sensação de um “será que vai dar tudo certo”? É perturbador, sim. Mas é imperdível – pelo tema em si, pela qualidade das atuações, pela reflexão que isso gera. O que Kevin planeja para ferir de vez essa mãe que ele tanto odeia – e odeia mesmo, vemos isso nos seus olhos, na sua falta de interesse pela vida e de objetivos, no prazer de chocá-la, de dar falsas esperanças de que vão se entender um dia, de ser cínico diante do pai – você vai ver (e sentir). Mas o que mais me afligiu foi a construção do antagonismo entre o amor materno incondicional de um lado, e a culpa, o arrependimento, o ódio, a possibilidade de perdão, a incompreensão, a decepção e frustração de outro. Por que coisas assim acontecem? E depois de tudo isso, onde fica essa cláusula do “incondicional” que colocamos antes do amor de mãe?

 

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ELEFANTE – Elephant
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Estados Unidos - 23/01/2012

DIREÇÃO e ROTEIRO: Gus Van Sant

ELENCO: Elias McConnell, Alex Frost, Eric Deulen, John Robinson

Estados Unidos, 2003 (81 min)

Esta semana teremos estreia de um filme extremamente perturbador, Precisamos Falar Sobre Kevin – que é assunto para outro artigo. Pesquisando sobre ele, cheguei em Elefante, do diretor Gus Van Sant, também de Milk – A Voz da Igualdade, Inquietos, Gênio Indomável. Este filme foi premiado em Cannes com a Palma de Ouro, além de melhor diretor. Tem realmente uma força impressionante e devastadora.

A inspiração foi nada mais, nada menos do que o Massacre de Columbine em uma escola do Colorado em 1999, que também serviu de inspiração para o documentário Tiros em Columbine, de Michael Moore. Mas Gus Van Sant segue uma linha diferente, mais observadora – o que é mais perturbador, porque deixa suspensa qualquer conclusão, qualquer explicação para a tragédia. Tive a sensação que cabe a cada um de nós buscar a razão que leva dois adolescentes bem formados, de classe média, que portanto têm ótimas condições de vida, com famílias, amigos, escola, a planejar a matança e sair atirando em seus colegas e professores.

Elefante tem uma câmera atuante, que faz o espectador passear junto pela escola e sentir-se parte desse mundo adolescente. Percorre os corredores do ensino médio (os atores são alunos reais da escolas escolhidos pelo diretor), portanto por onde circulam os adolescentes, mostrando a dinâmica da vida particular e escolar de cada um deles. Uma cena em que alunos se encontram, por exemplo, é mostrada duas, três vezes, cada vez sob o ponto de vista de um deles. Mostra adolescentes bulímicas, que vão ao banheiro vomitar após a refeição, adolescentes que desprezam os pais e desejam sair de casa o quanto antes, adolescentes que sofrem bullying por serem diferentes do padrão esperado; mostra o preconceito contra o homossexual, a necessidade de rotular pessoas e fatos, o grupo dos atletas, do estudiosos, os que namoram, os que fofocam. Fui sentindo uma angústia com esse panorama, até porque já fui adolescentes um dia e dá pra imaginar a solidão dessas pessoas, o vazio de uma fase em que há crescimento, mas que nem sempre vem acompanhado da maturidade para enfrentar a vida adulta que se anuncia na próxima esquina.

Comecei falando de Precisamos Falar Sobre Kevin, porque ele também trata desse tema que traz à tona a pergunta que não quer calar: por quê? Se não falta nada, por quê? Então, falta algo – ou falta o essencial? Que tremendo vazio. Que tremenda falta de esperança. Ainda não descobri o porquê do título Elefante, mas minha pesquisas indicam que pode ser por causa de uma parábola budista em que três cegos tocam num elefante. Como não conseguem vê-lo por inteiro, o definem de acordo com a parte que tocaram, de forma fragmentada. Sem ver o todo, suas definições são equivocadas e as conclusão imprecisas. É o perigo do rótulo.  Até o ano passado, o Brasil se orgulhava de não não ser palco de massacres do gênero – afinal, isso era parte da cultura americana. Ledo engano. Realengo nos mostrou o quanto essa questão é universal, o quanto tudo isso é complicado e só não enxerga quem não quer. Não deixem de assistir e preparem-se para falar sobre Kevin, ainda esta semana.

 

 

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LIFE, ABOVE ALL
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Drama, África do Sul - 22/01/2012

DIREÇÃO: Oliver Schmitz

ROTEIRO: Dennis Foon

ELENCO: Khomotso Manyaka, Keaobaka Makanyane, Lerato Mvelase, Tinah Mnumzana, Aubrey Poolo

África do Sul, 2010 (100 min)

Melhor avisar antes: este filme ainda não está disponível aqui no Brasil, a não ser que você alugue no Apple TV. Cheguei nele pela seleção da categoria Un Certain Regard, do Festival de Cannes, e para minha surpresa estava disponível para alugar pelo ITunes. Já disse aqui que gosto especialmente dessa seleção de Cannes, por trazer filmes sensíveis, que têm de fato um olhar apurado e diferenciado sobre algum tema cotidiano e universal como Pecado da Carne (Israel), Trabalhar Cansa (Brasil), Mother (Coreia do Sul), A Banda (Israel), Tulpan (Cazaquistão), Abutres (Argentina).

Life, Above All, ou A Vida, Acima de Tudoretrata a dura realidade de um vilarejo rural nos arredores de Johanesburgo, na África do Sul. A grande protagonista é Chanda (Khomotso Manyaka), uma menina de 12 anos que amadurece antes do tempo pelas dificuldades da vida. Tem de lidar com o padrasto que bebe, com a amiga que se prostitui, com a mãe doente, além de cuidar dos dois irmãos menores e despistar os vizinhos que difamam a família. O diretor Oliver Schmitz (também de um episódio de Paris, Eu Te Amo) dá a Chanda a força e a coragem que são a espinha dorsal do filme.

Sem ser um filme muito especial, Life, Above All foi considerado um dos melhores filmes estrangeiros de 2010 pela associação dos críticos americanos e é de fato um muito bonito filme sobre as sequelas que a AIDS deixou no continente africano, tanto do ponto de vista da doença e da epidemia em si, mas principalmente do ponto de vista do entendimento da epidemia. O que é algo científico, ganha por lá um sentido de maldição, de penalidade, de vergonha; o que é para ser combatido com medicamentos e tratamento é feito de acordo com as crenças e rituais. Chanda representa a família destruída não só pela doença, mas principalmente pela perda da honra, da dignidade aos olhos dos vizinhos. Mas aos olhos do diretor, é preciso também deixar claro que o amor de mãe e filha, a capacidade de acolher e perdoar são o grande motor dessa menina-guerreira.

DICA: Quem quiser ver mais sobre o tema África, não deixe de assistir a Minha Terra, África, com Isabelle Rupert. Também um retrato muito interessante e intenso sobre a realidade do continente, mas aqui tem um viés político e colonialista.

 

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SONY WORLD PHOTOGRAPHY AWARDS 2012
CLASSIFICAÇÃO: Dicas Afins, Brasil - 22/01/2012

O Museu da Imagem e do Som (MIS) tem uma bonita e diversificada exposição de fotografia, inaugurada dia 21. Trata-se da Sony World Photography Awards – um projeto organizado pela World Photography Organisation (WPO), com apoio da Sony, que envolveu 105 mil fotógrafos de 162 países – amadores, profissionais e estudantes. Para mim, este é o ponto mais interessante. Com tema aberto, ficou a critério do fotógrafo escolher o que fotografar e que olhar imprimir naquela imagem, dentro das diversas categoria: arquitetura, natureza e vida selvagem, sorriso, pessoas, viagem, panorâmica, arte e cultura, split second, fotografia com pós-processamento e baixa luz.

Neste tipo de proposta, cada um capta uma ideia, um ângulo e transmite o teor que lhe parece mais importante naquele momento da vida. Isso dá diversidade, dinâmica e sensibilidade ao registro fotográfico, passando da imagem belíssima de duas formigas se alimentando, ao panorama do Taj Mahal, à imagem de um campo de refugiados no Congo. Para quem gosta do tema, vale a pena.

Para mais informações, entre no site do museu: www.mis-sp.org.br

 

ANOTE: das 12h às 21h; sáb, dom e feriado, das 11h às 21h; fecha 2a;

Grátis até 31 de janeiro; R$ 10,00; até 12/02;

Espaço Expositivo MIS – Av. Europa, 158 – Jd. Europa; tel: 11 – 2117 477

 

Arquitetura; Arte e cultura; Fotos com pós-processamento; Split second; Baixa luz; Natureza e vida selvagem; Panorâmica; Pessoas; Sorriso; Viagem.

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MAGNÓLIA – Magnolia
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Garimpo na Locadora, Estados Unidos, Drama - 20/01/2012


DIREÇÃO
e ROTEIRO: Paul Thomas Anderson ELENCO: Tom Cruise, Julianne Moore, Jason Robards, Phillip Baker Hall, William H. Macy, John C. Reilly, Phillip Seymour, Hoffman, Jason Robards, Melora Walters | 1999 (188 min)

 

São muitos os temas em Magnólia. Mas se eu tivesse que resumir em uma só palavra, diria: culpa. A tão temida culpa… Do mosaico de personagens construídos pelo diretor Paul Thomas Anderson, o fio condutor do pecado marca suas vidas, que são punidas com um castigo vindo do céu (a chuva de sapos chega a dar arrepio), como dito no livro do Êxodo 8:2 – número que aparece em vários momentos do filme. Claro que isso foi pesquisa após o filme, já que eu não tinha essa referência em mente e fiquei intrigadíssima com esse elemento. Apesar de nauseante, é como se essa chuva representasse o caos existencialista dos personagens, lavasse definitivamente a alma daqueles que conseguem se salvar. É a punição e a esperança de redenção no final dos tempos.

Alguns filmes citados aqui já usaram esse recurso dos personagens com vidas distintas em diversos núcleos, que em algum momento se cruzam durante a narrativa. Como coincidências, introduzidas pelo prólogo do filme – um jogo do improvável e da força do acaso. É assim nos filmes do espanhol Alejandro González Iñárritu, Amores Brutos, 21 Gramas e Babel – aliás, gosto muito dos três. Mas é preciso ser habilidoso, criar uma espinha dorsal e uma liga entre os personagens. Além do tema da culpa, arrependimento, pecado, eu diria também que algumas cenas foram poeticamente pensadas, como aquela em que vários personagens cantam trechos da bela canção Wise Up, de Aimee Mann (linda e premiada trilha, também com a canção Save Me, que está no trailer), em sequência. Espetacular – chega a ter um tom profético, especial (segue vídeo abaixo).

Bem, vamos ao enredo – especial, por causa também da escolha precisa dos atores. Tudo acontece ao redor de uma rua chamada Magnólia, em Los Angeles, durante 24 horas de um dia. Começamos pela sempre ótima Linda (Julianne Moore, também em Minhas Mães e Meu Pai, As Horas, Amor a Toda Prova, Direito de Amar) casada com o milionário empresário do ramo da mídia Earl Partridge (Jason Robards), que está morrendo de câncer. Casou por interesse, mas Linda agora se arrepende de tudo que fez e se sente a pior das piores; já Earl sente-se culpado por ter renegado o filho Frank (Tom Cruise, também em Missão Impossível – Protocolo Fantasma), que é um sujeito estranho obcecado por sexo, que nutre um desprezo imenso pelas mulheres ensinando homens a dominar o sexo oposto. Cuidando de Earl está o enfermeiro Phil (Philip Seymour Hoffman, também em Tudo Pelo Poder, Felicidade, Dúvida), que é um bom sujeito, altruísta e que ajuda Earl a encontrar o filho nos últimos momentos de sua vida. Outro núcleo é composto pelo apresentador de um programa de perguntas e respostas da televisão, Jimmy Gator (Philip Baker Hall), produzido pela empresa de Earl, que tenta se reconciliar com a filha Claudia (Melora Walters) quando descobre que está gravemente doente. Claudia por sua vez é viciada em cocaína, está completamente sem rumo, até que conhece o policial Jim Kurring (John C. Reilly, também em Cyrus). Nesse programa de “perguntas e respostas” está o genial garoto Stanley (Jeremy Blackman), que sabe todas as respostas, mas é manipulado pelo ganancioso pai, assim como foi no passado Donnie Smith (William H. Macy), vencedor do prêmio quando era criança e hoje um adulto frustrado, fracassado e infeliz.

De alguma maneira, a culpa por ter abusado, mentido, enganado, abandonado, rejeitado, por ter deixado se levar, manipular, por não ter falado, não ter protestado causa nos personagens um arrependimento que é o grande pivô de suas vidas. Vão até o fundo do poço, quase que pedindo para que alguém coloque um limite na solidão, no sofrimento, na crise existencial insuportável que eles mesmo escolheram – pensando agora, percebi que muitos desses sentimentos estão ligados ao relacionamento pai-filho, ao abuso de poder e às consequências nefastas que isso causa na criança e no adulto. O diretor constrói Magnólia, vencedor do Urso de Ouro em Berlim, num crescente tão dramático, que a “chuva de sapos” do fim do filme só pode ser realmente uma praga dos deuses. Como diz a canção Wise Up, o sofrimento não acaba, a não ser que se pare para pensar, racionalizar, colocar a vida dos eixos. “Fazer a coisa certa nem sempre é fácil – às vezes as pessoas precisam de ajuda ou precisam ser perdoadas e salvas”, diz o sábio narrador. Imperdível!

 

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A SEPARAÇÃO – A Separation
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Irã, Garimpo na Locadora, Drama - 19/01/2012

A primeira cena aparentemente expõe o drama do filme: um casal discute seu divórcio diante do juiz. Simin (Leila Hatami) consegue às duras penas um visto para sair do país e quer que o marido Nader (Peyman Moadi) dê permissão para que a filha única do casal, Termeh (Sarina Farhadi), viaje com ela. Além de Nader se negar a acompanhá-la por causa do pai doente, não dá autorização para que a filha viaje. Aparentemente, a questão da separação está colocada para o espectador, sendo que de cara são expostas situações delicadíssimas da cultura islâmica machista, controladora, autoritária e um tanto quanto irracional.

Mas é só aparentemente, como eu disse. Assim como em seu ótimo filme anterior Procurando Elly, o diretor Asghar Farhadi escreve um roteiro primoroso – A Separação já levou o Urso de Ouro no Festival de Berlim, além de prêmios para os atores, e o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro. O que parece ser um drama unicamente familiar, de um casamento já falido como tantos outros que precisam lidar com as questões que vêm com a separação, ganha corpo a cada momento em que o diretor apresenta um fato novo. Ele amplia a questão do relacionamento do casal de classe média (ela é médica, ele bancário) e até da questão islâmica em si, para algo muito maior, mais universal e comum a qualquer sociedade. E o faz de forma inteligente, deixando sempre uma ponta de suspense, de surpresa, de revelações que vão mudar o curso da história.

Tudo acontece quando Asghar Farhadi introduz um elemento novo na trama. Simin vai morar na casa da mãe, a filha fica com o marido, que tem que contratar uma pessoa para cuidar do seu pai enquanto ele trabalha. Entra em cena Razieh (Sareh Bayat), uma moça casada, religiosa, grávida, que precisa ajudar o marido desempregado. A presença de Razieh é que amplia a discussão. Pela religião, não poderia fazer esse trabalho (ficar sozinha com outro homem que não seu marido). Por isso mente, inventa, enrola-se na própria história, de modo que eu já não sabia quem falava a verdade. É aqui que entra esse viés mais amplo da relatividade da verdade e da mentira, dependendo do ponto de vista de quem conta e vive a história. Interessantíssimo o mosaico de revelações que o diretor traça, sempre mantendo a separação como pano de fundo, a presença da filha entre a briga dos pais e a questão jurídica, mas revelando principalmente profundas discussões sobre ética, honra, livre arbítrio.

Se tivesse parado na questão pura e simples da separação de um casal esclarecido e bem formado na sociedade iraniana de hoje, cerceada e censurada pelo autoritário Mahmoud Ahmadinejad, já seria um filme e tanto. Já formaria com outros iranianos o perfil dessa sociedade sufocada, como mostrado em Isto Não é um Filme, de Jafar Panahi. Mas Farhadi extrapola as diferenças culturais, sociais e econômicas e expõe a alma humana na sua fragilidade mais íntima, como faz em Procurando Elly. Mas aqui é mais intenso – e até mais perturbador.

 

DIREÇÃO e ROTEIRO: Asghar Farhadi ELENCO: Peyman Moaadi, Leila Hatami, Sareh Bayat | 2011 (123 min)

 

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