DIREÇÃO e ROTEIRO: Hirokazu Koreeda
ELENCO: Koki Maeda, Ohshirô Maeda, Ryôga Hayashi
Japão, 2011 (128 min)
Nos cinemas: 18 de maio
O que Koichi, o garoto do pôster, mais deseja é ver sua família morando junto novamente. Seus pais se separaram e seu irmão mais novo, Ryunosuke, ficou morando com o pai em outra cidade, enquanto ele e a mãe foram para a casa dos avós. Na cabeça de uma criança de 12 anos e de seus amigos, um milagre é algo possível – e principalmente factível. Nem que para isso seja preciso vender brinquedos para conseguir dinheiro, inventar uma mentira na escola e em casa, fazer as malas e pegar um trem para outra cidade sem ter onde dormir,
Além de leve e criativo, O Que Eu Mais Desejo toca nesse ponto importante do imaginário infantil, que faz tudo ser possível. No Japão, dizem que quando dois trens-balas se cruzam, a energia é tão grande que faz os desejos se realizarem. Acreditando nisso, as turmas dos dois irmãos, cada uma na sua cidade, montam o esquema para a aventura. Combinam de se encontrarem num ponto estratégico de uma determinada cidade, onde é possível ver os trens se cruzarem. Sem qualquer complicação ou empecilho, comuns aos adultos, é claro.
Com muita delicadeza, o filme mostra a alma da relação dos irmãos com o mundo, com os pais, com os amigos. Registra, sem interferir. Deposita a sensação de veracidade nas relações e nos sentimentos, de algo genuíno, ingênuo como deve ser nessa idade, verdadeiro nas intenções. Mais do que contar a aventura em si – que é muito bacana também - O Que Eu Mais Desejo é lindo pelo retrato que faz das crianças e da esperança que eles são capazes de nutrir na mais vaga possibilidade de sucesso. Sem falar na incrível atuação dos dois irmãos (são irmãos na realidade), que me envolveram na narrativa com todos os seus desejos e sorrisos.
Dê uma espiada no trailer abaixo – vale a pena!
ROTEIRO: Ben Livingston, Hannah Shakespeare
ELENCO: John Cusack, Alice Eve, Luke Evans
Estados Unidos, 2012 (110 min)
Nos cinemas: 18 de maio
Edgar Allan Poe está na memória longínqua e restrita de quantos de nós? Imagino que de poucos. Pensando nisso, talvez fosse interessante repassar um pouco da trajetória desse poeta e escritor norte-americano, para entendermos que o filme O Corvo não é uma biografia, mas sim uma obra de ficção inspirada na morte de Poe (1809-1849), que foi um importantíssimo autor de literatura policial, com contos cheios de sangue, mistério e crimes horrendos, numa ambientação absolutamente sombria e percursora do gênero.
Aproveitando-se da sua morte misteriosa aos 40 anos, quando foi encontrado completamente fora de si em uma praça de Baltimore, escreveu-se o roteiro. Por que Poe enlouqueceu? Esse foi o gancho usado para compor a história de O Corvo, que usa os contos do escritor como peças-chave para o mistério. Na direção de James McTeigue, Poe (John Cusack) é um escritor medíocre de um jornal, que luta para publicar suas histórias e ganhar a vida. Até que começam a acontecer crimes horrendos, nos moldes daqueles imaginados pelo próprio Poe em seus contos, usados como inspiração pelo assassino. Mãe e filhas são brutalmente estranguladas, um corpo é cortado ao meio por um pêndulo gigante, um assassinato ocorre numa ópera. Tudo fica ainda mais grave com o rapto da sua namorada Emily (Alice Eve). A investigação, coordenada pelo detetive Fields (Luke Evans), precisa contar com a lógica e esperteza de Poe, que tem frescos na memória o enredo de suas histórias.
John Cusack não é lá grande coisa – mas não tem sido há tempos, vide o fraco 2012. Mas O Corvo, inspirado no nome de um de seus contos, imagino que agrade aos que gostam de suspense fantástico e de um roteiro mais mastigado. É criado o clima sombrio dos Estados Unidos de meados do século 19 e Poe vira o detetive da história juntando as peças do quebra-cabeça deixadas pelo serial killer. Tudo para chegar no paradeiro de Emily e não enlouquecer de vez.
Se for para falar de suspense recente, eu diria que gosto mesmo do roteiro de Os Homens que não Amavam as Mulheres, da série sueca Millenium, Ilha do Medo, de Scorsese, O Escritor Fantasma, de Polanski, ou Deixa Ela Entrar, do também sueco Tomas Alfredson – para citar alguns (uma busca no Cine Garimpo vai dar a você várias boas opções). Mas O Corvo fica em outra prateleira, na dos filmes que distraem. Se Poe não habitasse nossa curta e longínqua memória como imagino, talvez aproveitássemos mais as referências que o filme faz à sua obra. De qualquer maneira, traz à tona o nome do escritor e o gênero de seu talento. O que já é alguma coisa para mentes tão esquecidas.
ROTEIRO: Amos Gitai, Marie-Jose Sanselme
ELENCO: Hanna Laslo, Hiam Abbass, Natalie Portman, Carmem Maura
Israel, 2005 (96 min)
Filme feminino, em pleno conflito árabe-israelense – um assunto que automaticamente associamos a temas masculinos, como guerra, poder, violência. Assim como outros filmes como A Noiva Síria e Lemon Tree, as diferenças religiosas, desavenças territoriais e rixas históricas são mostradas através da alma feminina. Em Free Zone, elas são uma palestina, americana filha de israelense e uma judia que se encontram quase que por acaso: Rebecca briga com o namorado em Israel, entra no táxi de Hanna que não pode levá-la a lugar nenhum porque está indo para a Jordânia cobrar uma dívida. Cada uma com sua história, mas todas mulheres e mães. Como se isso bastasse quando se trata de solidariedade e identidade.
Na pele de três grandes atrizes, Free Zone é uma bonita história sobre a dificuldade de lidar com as diferenças e a facilidade de encontrar, até mesmo nas situações mais improváveis e mais controversas, pontos em comum, interesses parecidos, vontades semelhantes quando há boa vontade. Mesmo quando se trata do barril de pólvora que é o Oriente Médio. A cena das três cantando felizes no carro é emblemática – e emocionante.
Na pele de grandes atrizes como Natalie Portman (também em Cisne Negro, Nova York, Eu Te Amo, Closer – Perto Demais, Sexo sem Compromisso, As Coisas Impossíveis do Amor), Hiam Abbass (também em A Noiva Síria, Lemon Tree, O Visitante, Miral, Munique, Conversa com meu Jardineiro) e Hanna Laslo (melhor atriz em Cannes), o diretor israelense Amos Gitai (também em Aproximação, O Dia do Perdão) acerta no tom feminino, no que ele tem de mais humano e característico: a emoção, no choro de Rebecca; a teimosia, na insistência de Hanna; a maternidade, no pedido final de Leila. Assim como Caramelo e A Fonte das Mulheres, que também ajudam a construir quem são as mulheres do Oriente Médio.
ROTEIRO: David Lean, E.M. Forster (livro)
ELENCO: Judy Davis, Victor Banerjee, Peggy Ashcroft, James Fox, Alec Guinness, Nigel Havers, Richard Wilson
Inglaterra, 1984 (164 min)
Depois de assistir a O Exótico Hotel Marigold, lembrei-me de Passagem para a Índia, um registro interessante sobre os conflitos raciais, econômicos, políticos e sociais entre o império britânico e sua colônia, a Índia, nos anos 20. Interessante e colorido, é dirigido por David Lean, do grande e incomparável Lawrence da Arábia.
Passagem para a Índia, para quem não viu, vale a pena. Toca na questão do preconceito racial dos brancos imperialistas e indianos, na diferença humana feita pela cor da pele, na maneira de tratar e sentir-se superior dos ingleses. Adela (Judy Davis) vai à Índia acompanhada pela sogra, para encontrar o noivo que exerce uma função importante no poder jurídico – nada imparcial, diga-se de passagem. Desprovida de preconceitos e sem compartilhar da mesma atitude de seus compatriotas que usufruem das mordomias e desprezam os indianos, Adela quer conhecer a verdadeira Índia. Sua disposição em viajar e conviver com os locais deflagra o conflito do filme. Do lado de Adela está um educador inglês, que tem uma visão humanista e positiva do que a presença britânica poderia contribuir para o país e sua população.
Uma grande produção, sem dúvida. A Índia é sempre um assunto de grande interesse e diversidade, que contribui para aumentar o repertório, enriquecer culturalmente e sair do cenário comum. Quem gosta do tema pode ver também o aclamado Gandhi (aliás, imperdível pela importância do tema e pela qualidade cinematográfica), Quem Quer Ser um Milionário ou ainda o simpático Despachado para a Índia. Sem esquecer de O Exótico Hotel Marigold, nos cinemas.
DIREÇÃO e ROTEIRO: Lúcia Murat
ELENCO: Caio Blat
Brasil, 2011 (97 min)
Nos cinemas: 11 de maio
A viagem parece durar até hoje. Quando revira as lembranças, cartas, sensações, descobertas e medos do passado, a cineasta Lúcia Murat decide contar o que viveu. E mais, o que viveram seus irmãos. Miguel morreu recentemente, o que motivou Lúcia a recordar, puxar pela memória a experiência daqueles anos de ditadura. Auxiliada pelo irmão Heitor, que dá seu depoimento emocionante e também é representado na telona por Caio Blat, ela escreve o roteiro daquilo que ficou registrado na mente e na alma dos membros da família.
É por isso que a viagem é longa. Começa no fim dos anos 1960, quando Lúcia milita contra a ditadura no Brasil e Heitor é mandado pela família para Londres para não acabar também na cadeia. E dura até hoje. Heitor não só vai a Londres, como viaja por anos pelo mundo todo, vive uma época em que a contracultura está solta, em que as drogas, o sexo e o rock ‘n roll são a ordem da vez e ele se envolve profundamente com narcóticos de todos os tipos. Acaba ficando esquizofrênico, o que acarretou inúmeras intervenções psiquiátricas, como podemos perceber pela maneira de falar e recordar o seu passado nos depoimentos do filme. A viagem que começou naquela época teve sérias implicações até hoje e leva o espectador também por esse túnel de emoções pessoas e muito particulares. E esse é o ponto principal do filme, as sequelas emocionais que ficam, os valores que são criados e alimentados com as experiências da vida. E claro, a coragem de Lúcia Murat de abrir sua intimidade desta maneira.
Em off, Lúcia narra suas lembranças neste documentário, o grande vencedor do Festival de Gramado do ano passado. A construção das passagens de Heitor na pele de Caio Blat (também em Bróder, Xingu, Carandiru, Os Inquilinos, As Melhores Coisas do Mundo, O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias) têm algo de surrealista, com base naquilo que foi escrito nas cartas enviadas por ele dos quatro cantos do mundo, guardadas por sua mãe. Não pretende parecer biográfico, acho que não. Mas sim um registro da memória afetiva de uma época que marcou a família e fez de seus membros aquilo que eles são hoje.
ROTEIRO: Charlotte Brontë, Moira Buffini
ELENCO: Mia Wasikowska, Michael Fassbender, Jamie Bell, Judi Dench, Sally Hawkins
Estados Unidos, Inglaterra, 2011 (120 min)
Filmes de época não agradam a todos, eu sei. Mas Jane Eyre, baseado no romance de Charlotte Brontë de 1847, conta uma boa história, com uma produção cuidadosa e ótimo elenco. A começar por Mia Wasikowska (também em Albert Nobbs, Inquietos, Minhas Mães e Meu Pai, Alice no País das Maravilhas), que vive a protagonista ao lado de Michael Fassbander (também em Um Método Perigoso, Shame, X-Men – Primeira Classe, Bastardos Inglórios), que tem feitos ótimos papéis ultimamente.
ROTEIRO: Ol Parker, Deborah Moggach
ELENCO: Judi Dench, Bill Nighy, Maggie Smith, Penelope Wilton, Dev Patel, Celia Imrie, Ronald Pickup, Tom Wilkinson
Inglaterra, 2011 (124 min)
Nos cinemas: 11 de maio
Como envelhecer? Dentre todas as questões expostas neste filme, ficou a pergunta. Acho que foi o que se perguntaram os sete senhores e senhoras ingleses na hora de procurar uma alternativa para viver a terceira idade. Optar por mais do mesmo, seria uma alternativa. No entanto, a beleza do filme está justamente na possibilidade de criar alternativas de vida, de olhar os anos futuros com novas perspectivas e não fazer da idade um empecilho. E sim um bônus.
O Exótico Hotel Marigold fica na Índia. É para lá que os sete aposentados ingleses querem ir, a procura de sol e tranquilidade. Cada um carrega sua história de vida. Evelyn (Judi Dench, também em Sete Dias com Marilyn, Nine) perdeu o marido e o dinheiro; Graham decepcionou-se com a carreira do magistrado; Douglas e Jean são casados, não se entendem e dependem do dinheiro da filha para sair do buraco; a rabugenta Muriel operou o quadril, precisa se recuperar logo para se mandar de volta pra a Inglaterra; Normal e Madge querem encontrar um novo amor. Chegam em Jaipur e encontram um hotel bem diferente do esperado, administrado por Sonny (Dev Patel, também em Quem Quer Ser um Milionário). A partir daí as máscaras caem, cada um se revela na sua habilidade e na sua fraqueza e escolhas diferentes são feitas para o futuro.
Inteligente, cheio de graça, além de muita cor e alegria próprios do local, O Exótico Hotel Marigold tem diálogos interessantíssimos e boas fontes de reflexão. Não só para quem está vivendo a terceira idade, mas para todos os que mudam a fase da vida, que fazem escolhas, que ficam paralisados com medo de sair da zona de conforto. Reinventar o estilo de vida é ter coragem e as rédeas da vida na mão. E esse é a grande mensagem do filme, sem que ele seja moralista ou professoral. Pelo contrário, é leve, singelo e delicado. Como deveriam ser os anos do outono da vida de cada um de nós.
ROTEIRO: Joe Carnahan, Ian Mackensie Jeffers
ELENCO: Liam Neeson, Dermot Mulroney, Frank Grillo, Dallas Roberts, Joe Anderson, Nonso Anozie, James Badge Dale, Ben Bray
Estados Unidos, 2012 (117 min)
Achei que veria um filme de sobrevivência diferente. Tinha me impressionado com as críticas que diziam que percebíamos os ataque dos lobos somente pelos uivos e por seus olhos na escuridão do gelado Alaska. Que os animais mal eram vistos e que, portanto, o trabalho de sonoplastia era muito bom.
De fato, é bom mesmo. Pelo som da matilha de lobos, percebemos o nível do suspense prentendido pelo diretor. Mas, na maioria das vezes, em seguida os lobos aparecem sim e fiquei frustrada com esse argumento de que só os uivos criavam o clima de pavor vivido pelos personagens. Fora o detalhe interessante da sonoplastia, A Perseguição é mais um filme de sobrevivência após um trágico acidente de avião em que só 7 passageiros ficam vivos no meio da imensidão do território coberto de gelo e neve. O líder é Liam Neeson (também em 72 horas, Cruzada, A Lista de Schindler), exímio conhecedor do comportamento dos lobos, que ameaçam o grupo o tempo todo. Eles lutam contra o frio, a fome, o cansaço, as intrigas, as diferenças de temperamento, mas o filme não apresenta novidades.
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