cinegarimpo

novembro, 2011

EU, VOCÊ E TODOS NÓS – Me and You and Everyone We Know
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Estados Unidos - 29/11/2011

DIREÇÃO e ROTEIRO: Miranda July

ELENCO: Miranda July, John Hawkes, Miles Thompson, Brandon Ratcliff

Estados Unidos, 2005 (91 min)

Na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo tive a oportunidade de assistir ao filme O Futuro, de Miranda July. Instigante a linguagem dessa diretora e roteirista, que prefere andar na contramão das grandes audiências e fazer filmes de gente comum, com os problemas, traumas, bloqueios naturais de qualquer um de nós. E quando eu digo contramão, não é de forma alguma preconceito, nem menosprezo. Pelo contrário. Miranda July tem coragem, explicita as mazelas íntimas da alma humana descaradamente. Causa até incômodo ver que, lá no fundo, é difícil relacionar-se, doar-se, trabalhar com o que gosta, cuidar bem dos outros, ser amoroso para finalmente ser feliz.

O “Eu e Você” do título é o casal que se forma nos olhares, mas não se forma de fato. Christine (Miranda July, também em O Futuro) é uma artista plástica que não consegue mostrar seu trabalho. Faz obras chamadas instalações e produz vídeos, questionando muito o envolvimento do interlocutor com a obra em si, com a vida, com sua postura diante das pessoas. Para pagar as contas, ela trabalha como motorista de táxi atendendo idosos. Um dia vai a uma loja de departamento e se depara com o Richard (John Hawkes, também em Inverno da Alma), recém-separado que ainda sofre as dores da separação, pai de dois garotos – um adolescente que está descobrindo o sexo, é de poucas palavras e prefere relacionar-se pela internet; outro pequeno, que não entende o entorno, mas vai na trilha do mais velho, dentro da sua ingenuidade.

Eles são a espinha dorsal, que vai se construindo sem qualquer glamour, sem qualquer situação especial. Ao redor estão “todos nós”- as adolescentes pervertidas, de uma geração desinteressada; a garota que não tem amigos e já coleciona eletrodomésticos para o enxoval, numa alusão ao consumo desenfreado, ao “preenchimento” do vazio interno; o idoso que se apaixona perdidamente por uma senhora à beira da morte e dá conselhos sábios; uma curadora de arte descolada na aparência, mas solitária e desestruturada no íntimo. Parece que o “todos nós” do título tem a intenção de nos incluir nessa jogada…

Apesar do modelos histórias-que-se-cruzam, Eu, Você e Todos Nós, vencedor da Caméra d’Or no Festival de Cannes em 2005, prêmio dado ao melhor filme de um diretor estreante, inova e impressiona pela densidade dos personagens, da construção do drama de cada um, da escolha por pessoa normais, insatisfeitas com a própria vida. Tive uma sensação de desconforto parecida quando assisti aos filmes do diretor Todd Solondz, Felicidade e A Vida Durante a Guerra, no que diz respeito ao lado medíocre e perverso dos personagens. Mas Miranda não ironiza a busca pela felicidade e a falsidade das pessoas, mas a trata com um certo cuidado e olhar carinhoso. Preste atenção nas sequências do encontro no banco do parque e no trajeto que o casal Christine e Richard fazem pela rua, numa metáfora aos passos da vida a dois. No fundo é otimista, só mostra como é duro encontrar o caminho.

 

 

 

 

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GUERRA DOS SEXOS – Maschi contro Femmine
CLASSIFICAÇÃO: Para se Divertir, Itália - 28/11/2011

Nos cinemas: 02 de dezembro

 

DIREÇÃO: Fausto Brizzi

ROTEIRO: Fausto Brizzi, Massimiliano Bruno, Valeria Di Napoli, Marco Martani

ELENCO: Fabio De Luigi, Paola Cortellesi, Francesco Pannofino, Allessandro Preziosi, Paolo Ruffini, Nicolas Vaporidis, Sarah Felberbaum, Chiara Francini, Lucia Ocone, Carla Signoris, Giorgia Wurth

Itália, 2011 (113 min)

 

Fui conferir este italiano Guerra dos Sexos, impulsionada pela boa leva filmes italianos recentes como Que Mais Posso Querer, O Primeiro que Disse, Um Sonho de Amor, Saturno em Oposição – só para citar alguns. Imaginei encontrar algo divertido em Guerra dos Sexos, já que o tema suscita as intermináveis diferenças e discussões entre homens e mulheres, mas também a inquestionável vontade de se apaixonar. A propósito, o filme começa bemq quando cita a máxima de que um homem e uma mulher são as pessoas menos indicadas para se casar, vide as diferenças, traições, disputas, medos, inseguranças. Mas, depois disso, seguiu previsível, sem criatividade. Confesso que fiquei impaciente.

Explico. Se a expectativa era dar risadas das mazelas e amores entre um homem e uma mulher, fiquei frustrada. Não achei graça, como achei em O Primeiro que Disse, por exemplo. Achei que “choveu no molhado”. Conta quatro histórias que se cruzam. Uma mulher já nos seus 50 anos, pega o marido transando na sala da sua casa com outra, bem mais jovem, e obviamente se sente a pior das mulheres, velha e acabada; um treinador de vôlei casado acaba de ter seu primeiro filho, mas é constantemente paquerado por uma das atletas do time; três amigos solteiros, dois rapazes e uma moça lésbica, estão sempre à procura de novos casos, até que se envolvem com a mesma mulher; e finalmente uma moça ecologicamente correta tem que conviver com o vizinho garanhão, que cada dia chega em casa com uma mulher de diferente nacionalidade.

As confusões acontecem, como pode-se ver no trailer abaixo, e os personagens se cruzam. Tem um gostinho de déjà vu, onde falta o novo, o toque de graça – mais parece um filme retalhado que se perde nas próprias confusões. Nem sempre é preciso ir além do riso, da ironia e do tom de deboche. O difícil é fazer isso de forma diferenciada. Guerra dos Sexos é igual a tantos outros – chega a lembrar até uma daquelas ditas “comédias românticas” americanas que, no meio de tanto sexo, não são nem uma coisa, nem outra…

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CENTRAL DO BRASIL
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Brasil - 27/11/2011

DIREÇÃO: Walter Salles

ROTEIRO: Marcos Bernstein, João Emanuel Carneiro, Walter Salles

ELENCO: Fernanda Montenegro, Vinícius de Oliveira, Marília Pêra, Matheus Nachtergaele, Soia Lira, Othon Bastos, Otávio Augusto, Stela Freitas

Brasil, 1998 (113 min)

 

Comentei outro dia que ia rever o belíssimo Central do Brasil. Afinal, o filme que colocou definitivamente o Brasil no circuito internacional e foi premiado no mundo todo (Inglaterra com o Bafta, Estados Unidos com o Globo de Ouro, Festival de Berlim, além de ter tido várias indicações, inclusive no Oscar) já tem 13 anos. Difícil esquecer a essência humana desta obra-prima de Walter Salles (também de Diários de Motocicleta, Linha de Passe), mas alguns detalhes vão ficando para trás e achei que faltava falar dele no Cine Garimpo. Meu comentário rendeu réplicas do tipo “inesquecível”, “lindo, mas velho”, ou “como é mesmo a história?”.

Fiquei, obviamente, ainda mais instigada a rever. E respondo sem medo de errar: filmes como este não envelhecem. São referências em vários aspectos, a começar pela sua importância no posicionamento da produção brasileira no mercado nacional e internacional, na renovação do cinema brasileiro como arte, roteiro, capacidade criativa, inteligência – inclusive emocional – de lidar com temas sensíveis, humanos e muito sutis – normalmente os mais difíceis de serem traduzidos em qualquer forma artística. Portanto, quem não assistiu, faça isso logo. Quem já viu, garanto que se emocionará de forma diferente e com mais intensidade. Não vai se arrepender.

Respondendo à questão da história em si, eu diria que o roteiro é perfeitamente equilibrado na simplicidade do enredo e na complexidade dos personagens. Dora (a espetacular Fernanda Montenegro, também em Casa de Areia) ganha a vida escrevendo cartas na Central do Brasil, no Rio. Escreve em nome de pessoas analfabetas, que querem mandar uma mensagem para parentes e amigos em outras cidades. Ela e a irmã Irene (Marília Pêra) vivem de rolos e trambiques, numa vida que mostra bem a realidade da periferia do Rio e das grandes cidades brasileiras, com extrema desigualdade social, luta diária pela sobrevivência, violência e impunidade. A Central do Brasil aqui é uma metáfora fortíssima da migração de milhares de brasileiros para as grandes cidades em busca de uma vida melhor, do centro onde se reúnem todas as crenças e esperanças, onde pessoas se encontram, chegam e partem para todos os lugares do Brasil, a procura de emprego, de amor, do pai, da mãe, do filho, do dinheiro, da saúde – a grande simbologia do filme, sem sombra de dúvida.

Um dia, Ana e seu filho Josué pedem que ela escreva uma carta para o pai do menino, que os abandonou. A partir daí, a relação de amizade e respeito entre Dora e Josué é inevitável. Vai sendo construída à medida que desconstrói a Dora rígida e amarga, trazendo à tona as lembranças, tristezas, arrependimentos por que passou no decorrer da vida. O lado humano é muito forte, a emoção latente – mérito de Walter Salles que dirige Fernanda Montenegro e Vinícius Oliveira (também em Assalto ao Banco Central, Linha de Passe) com maestria. Não dá para não se emocionar. Assista a Central do Brasil. Fica como lição de casa. Depois você me conta se achou o filme “velho”.

 

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ISTO NÃO É UM FILME – This is Not a Film
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, Irã - 25/11/2011

Nos cinemas: 2 de dezembro

 

DIREÇÃO: Jafar Panahi, Mojtabe MirtahmasB

ROTEIRO: Jafar Panahi

Irã, 2010 (71 min)

No Festival de Cannes deste ano, quando a atriz Juliette Binoche dava entrevista coletiva para falar do filme Cópia Fiel, do diretor iraniano Abbas Kiarostami, ela caiu em prantos. Emocionou-se ao fazer um apelo internacional pela libertação dos cineastas iranianos perseguidos, mais especificamente por Jafar Panahi. Em 2010, ele foi condenado a 6 anos de prisão domiciliar, proibido de escrever roteiros, dirigir filmes por 20 anos, falar com a mídia e sair do Irã. Acusado de cometer crimes contra a segurança nacional e contra a República Islâmica, é condenado a não trabalhar, não denunciar, não atrapalhar o status quo do ditador Mahmoud Ahmadinejad.

Isto Não é um Filme é de fato uma denúncia. Trata justamente desse tema, um momento anterior ao veredito propriamente dito. Sem poder trabalhar e em prisão domiciliar enquanto aguardava a decisão final da apelação de sentença, Jafar decidiu produzir este filme escondido. Ou seja, filma ele mesmo, com suas dúvidas, inconformismos, falta de paciência, dentro da sua própria casa. Faz uma reflexão sobre a liberdade de expressão e a capacidade da arte de romper as barreiras da intolerância e da censura, enquanto espera o veredito. Para executá-lo, chama o amigo também cineasta Mojtaba Mirtahmasb e com ele divide este momento de intimidade e denúncia que percorre o mundo.

Este documentário foi enviado ao Festival de Cannes gravado em um pen drive, dentro de um bolo, onde foi exibido pela primeira vez. Depois disso, foi mostrado em importantes festivais do mundo todo, dando força ao protesto internacional contra esse tipo de repressão. Enquanto Jafar Panahi está preso, outros diretores também sofrem com a ditadura islâmica, como Mohsen Makhmalbaf (de A Caminho de Kandahar), que vive no exílio com a família e Mojtaba Mirtahmasb (co-diretor deste documentário), que teve seu passaporte confiscado. Isto Não é um Filme é um relato político, assim como é o critério da prisão e censura. Puramente político. Tem ritmo lento, reflexivo, documental, como deve ser a vida de alguém preso dentro da própria casa e da própria capacidade criativa. Muito instigante, faz parar para pensar.



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HAPPY FEET 2
CLASSIFICAÇÃO: Para Ver em Família, Para se Divertir, Austrália - 24/11/2011

DIREÇÃO: George Miller

ROTEIRO: George Miller, Paul Livingston, Warren Coleman

Estados Unidos, 2011 (100 min)

Politicamente correto, os pinguins e todas as outras espécies que vivem na Antártida têm que se unir contra o inimigo comum: o aquecimento global. O homem, vilão do primeiro Happy Feet, agora até que tenta colaborar, mas parece que o estrago já está feito e que a natureza está louca pela desforra. Claro que nem tudo é lição de moral, do tipo “fizeram-agora-engulam”. Mas nas entrelinhas, deixa bem claro que é preciso a colaboração de todos se quisermos lutar contra um mal poderoso e implacável – e isso serve também para os animais, liderados pelos pinguins imperadores.

Mano, o pinguin que no primeiro filme sentia-se deslocado porque não sabia cantar com os outros da sua espécie, sabia sapatear como ninguém. Casa-se com sua paixão, a charmosa Glória, que canta maravilhosamente bem, e com ela tem um filho, Erik. Ele é a grande estrela deste filme, mas não sabe sapatear, tem vergonha, sente-se carta fora do baralho por isso e vai literalmente procurar outra turma. Com outra espécie de pinguins, elefantes-marinhos e os minúsculos krills, os imperadores precisam enfrentar os deslocamentos dos gigantescos icebergs, o derretimento da neve e a mudança que isso causa na cadeia alimentar e na sobrevivência das espécies.

Apesar dessas situações ecologicamente corretas, que podem despertar nas crianças a tão desejada necessidade de preservação do meio ambiente e render conversas interessantes, acho que Happy Feet 2 é mais bonito e graficamente impecável (é 3D!) do que moralista; mais agradável e divertido do que político. Adoro animação – já disse isso aqui – e se você for acompanhado de crianças que ainda se encantam com a graça do pequeno Erik e dos filhotes de elefante-marinho, tanto melhor. Um delicioso programa em família!

 PROGRAME-SE: Em cartaz dia 25 de novembro!

 

 

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DAWSON, ILHA 10 – Dawson, Isla 10
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, Drama, Chile - 23/11/2011

DIREÇÃO: Miguel Littin

ROTEIRO: Miguel Littin, Sergio Bitar

ELENCO: Bertrand Duarte, Benjamín Vicuña, Pablo Krogh, Sergio Allard, Cristián de la Fuente, Luis Dubó, Sergio Hernández

Chile, 2009 (min 118)

Dawson é o nome dessa ilha nos confins do continente sulamericano, perto da Terra do Fogo, onde além de frio e gelo havia um campo de concentração na década de 1970. Era lá que ficavam confinados os principais colaboradores de Salvador Allende, após a junta militar liderada por Pinochet tomar o poder em 1973. Como qualquer campo de concentração, a regra básica era obedecer, trabalhar e esperar pelo melhor. Para lá foram enviados os ministros, como Sérgio Bitar, que sobreviveu ao campo, escreveu um livro homônimo contando sua experiência, que foi a base para esta produção.

Claro que o registro histórico é importante. Vemos tantos filmes mostrando os horrores que ocorreram (e ainda ocorrem) em governos totalitários europeus, mas nos esquecemos do nosso próprio continente. Ou ainda, temos a tendência em achar que aqui a coisa foi branda. Ledo engano. Admiro muito as produções latino-americanas sobre o tema como O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, Zuzu Angel, Machuca, O Que é Isso Companheiro? – só para citar alguns. Saber que houve um prisão nas gélidas terras chilenas do sul é assustador e bem documentado nesta produção.

Sem ser um filmaço sobre o assunto, nem emocionar o quanto deveria pela gravidade da situação, Dawson, Ilha 10 cumpre seu papel e acho que agrada aos que têm especial interesse pelo tema. Particularmente, gosto desse tipo de registro histórico por fazer parte da construção das nações como elas são hoje. E lógico, relembrar as catástrofes para que não se repitam.

 

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RAPSÓDIA EM AGOSTO – Rhapsody in August
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Japão - 22/11/2011

DIREÇÃO: Akira Kurosawa

ROTEIRO: Akira Kurosawa, Kiyoko Murata (livro)

ELENCO: Sachiko Murase, Richard Gere, Hisashi Igawa, NArumi Kayashima, Tomoko Ôtakara, Mitsunori Isaki, Toshie Negushi

Japão, 1991 (98 min)

“Há pessoas que ficam silenciosas quando falam.”

 

Alguns falam, mas não dizem nada; outros preferem o silêncio, que é mais eficiente que um discurso inteiro. Com sábias palavras como essas, olhares, gestos e silêncio, a matriarca da família japonesa atravessa o tempo de dor pela perda do marido na explosão da bomba atômica de Nagasaki em 1945, da destruição da cidade, da necessidade de seguir viva, cuidando, educando e transmitindo sabedoria e paciência às novas gerações. Na cultura japonesa já ocidentalizada em muitos aspectos, Rapsódia em Agosto é um exercício de compreensão dos sentimentos e razões para se viver em cada uma das épocas. Filme de observação.

A senhora Kane é uma sobrevivente da guerra. Perdeu o marido ainda jovem, separou-se dos irmãos que foram se dispersando para outros cantos. O que foi para o Havaí, casa-se por lá, forma uma família ocidental, faz fortuna e perde o contato com os familiares e com a cultura japonesa. Quando os sobrinhos vão visitar o tio (pai de Richard Gere) que está morrendo nos Estados Unidos, os quatro netos adolescentes têm a chance de conviver com a avó e com o rico e antiquado, mas não menos importante, repertório e vivência desta senhora.

Rapsódia em Agosto traz questões muito interessantes sobre as heranças históricas e familiares que cada geração carrega. A geração pós-guerra japonesa carrega o trauma da bomba nuclear e a americana, a culpa por isso, da mesma forma que os alemães têm que conviver com o fantasma do nazismo dos tempos de Hitler (falamos disso em filmes alemães como Se Não Nós, Quem?). Como as gerações processam as atitudes passadas e elaboram o perdão e a culpa? Uma senhora, que viveu os horrores da bomba atômica e suas mais cruéis consequências, consegue perdoar e ensinar a perdoar, mas não a esquecer. O ritual de homenagensàs vítimas do ataque em agosto são singelos e de forte impacto, e se perpetuam no tempo.

Assim como em Marcha da Vida, em que judeus que viveram o Holocausto percorrem o caminho entre os campos de concentração com jovens, para que o passado não seja esquecido e que os ensine a olhar para frente e construir um mundo melhor, a senhora japonesa de Rapsódia em Agosto faz esse papel. Ensina seus netos a não guardar rancor, a lembrar para não repetir. O que deve apaziguar a alma, mas não diminuir a dor.

Rapsódia em Agosto é um singelo e bonito retrato da passagem do tempo. A dor é retratada pelo esforço (a última cena da chuva), pela sabedoria, pela lembrança. O importante diretor japonês Akira Kurosawa entrega aos jovens a carga da esperança, da construção de um mundo com menos mágoas. Deposita neles o futuro, mas enaltece a importância do passado, da história, das raízes e da família.

 

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A CAMINHO DE KANDAHAR – Safar e Ghandehar
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, Irã - 19/11/2011

DIREÇÃO e ROTEIRO: Mohsen Makhmalbaf

ELENCO: Nelofer Pazira, Hassan Tantai, Ike Ogut, Sadou Teymouri

Irã, França 2001 (85 min)

“O amor é capaz de atravessar a escuridão da burca?”

Nafas, afegã que vive no Canadá

Assim como vários diretores iranianos, Mohsen Makhmalbaf, pai da também cineasta Hana Makhmalbaf, diretora de Green Days, vive fora do Irã. O regime do ditador Mahmoud Ahmadinejad adota descaradamente o caminho da censura, repressão, violência e prisão para tirar de cena pessoas, artistas e profissionais que tenham algo a dizer contra ele. Ou que simplesmente tenham algo a dizer.

Apesar disso – e por causa disso – a produção cinematográfica vai de vento em popa, sempre mostrando a cultura do Irã e dos países vizinhos como o Afeganistão. Em A Caminho de Kandahar, o diretor escancara todas as mazelas implantadas pelo regime opressor do Taliban neste país, assim como os rastros de destruição humanitária deixados por governo corrupto, extremista, teocrático, islâmico e machista. O filme mostra a crueldade das cicatrizes em cenas impressionantes, através da narrativa da viagem da jornalista Nafas (Nelofer Pazira), que precisa chegar à Kandahar para encontrar a irmã e impedir que ela se mate. Depois da separação ainda pequenas, quando fugiam do país para se fixar no Canadá, não se encontraram mais. Na ocasião, Nafas e a família deixaram a irmã para trás após ela ser gravemente ferida nas pernas em um dos campos minados afegãos. Nafas recebe uma carta da irmã dizendo que não consegue mais viver e que vai se suicidar após o último eclipse do século 21. Ela então começa a viagem até Kandahar pelos desertos inóspitos e desumanos, tentando se infiltrar numa das tantas caravanas de refugiados afegãos que retornam ao país pela fronteira com o Irã.

O caminho de Nafas é cruel em todos os sentidos, mas tem uma pitada de esperança na figura do “médico” que encontra pelo caminho. Ainda há quem se preocupe em simplesmente cuidar dos outros. Na maior parte dos casos, o trajeto é coberto de malandros e oportunistas; gente desconfiada e desconfiança; gente mutilada física e emocionalmente; gente faminta e miserável; mulheres cobertas e infelizes; sem rosto e sem identidade.

As cenas são de uma beleza incrível – e de uma crueldade atroz. Homens mutilados apelam no acampamento da Cruz Vermelha por um par de pernas, por uma mão, por algo que os faça dormir, ou parar de chorar; homens mutilados correm desesperadamente em busca da esperança que se resume no par de pernas lançados de paraquedas pelos helicópteros da Cruz Vermelha nesse território inclemente; mulheres de burca cruzam o deserto sem rosto, sem vontades, sem vida – coloridas sim (o visual que o diretor produz a partir daí é de arrepiar), mas com alma sem cor, sem brilho, sem nome, embora ainda vaidosa. São apenas algumas das cenas, mas garanto que vale o todo, o contexto, o aprendizado que chega sobre a intolerância, sobre o que ela é capaz de fazer com um povo e com a relação entre as pessoas. Como dizem os personagens, a esperança para quem tem fome é o pão; para quem tem sede, a água; para quem vive coberta, ser vista. Disse tudo. Imagine ver o mundo através dos pequenos buracos de uma burca. Conseguiu? Eu não fui capaz.

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DEIXA ELA ENTRAR – Let the Right One In
CLASSIFICAÇÃO: Suécia, Para Pensar - 18/11/2011

DIREÇÃO: Tomas Alfredson

ROTEIRO: John Ajvide Lindgvist

ELENCO: Kåre Hedebrant, Lina Leandersson, Per Ragnar, Henrik Dahl, Karin Berqquist, Peter Carlberg

Suécia, 2008 (115 min)

Vou na contramão dos cinemas, que lançam hoje Amanhecer – Parte 1, o primeiro episódio do quarto filme de A Saga Crepúsculo. Não assisti – até queria a opinião de quem acompanha essas produções. E já que o tema do fim de semana são vampiros, peguei carona, mas no outro sentido, fugindo descaradamente da maré dos filmes blockbuster, indo na direção das produções européias que gosto tanto.

Não dá pra dizer que prefiro sem ter assistido às duas opções. Mas o trailer de Amanhecer – Parte 1 não é exatamente um atrativo… Por outro lado, e numa linguagem absolutamente diferenciada, está esta produção sueca Deixa Ela Entrar, exibido na Mostra Internacional de Cinema em 2008 e este ano, no vão livre do MASP.

A protagonista é uma menina de 13 anos, vampira, que não sente frio, voa, está para sempre congelada no corpo de uma adolescente. Seu par, um garoto da mesma idade, que sofre forte bullying no colégio, não tem amigos, vive quieto, com medo, é fascinado por histórias de terror e morte e descobre a adolescência sem ter com quem conversar, nas gélidas paisagens suecas. Entre neve, frio, gelo e dias totalmente cinzas (uma metáfora dessas relações duras, frias, impessoais, individualistas e absolutamente cruéis), os dois se encontram, conversam, selam uma amizade que vai chegar às últimas consequências – para um vampiro e para um ser humano.

A atuação de Oskar (Kåre Hedebrant) e Eli (Lina Leandersson) é incrível e dá muita força para todo o clima de suspense e mortes misteriosas na pequena cidade onde vivem. Eli chega acompanhada de um senhor, que trata de conseguir sangue para alimentá-la da forma mais esquisita e mórbida possível. Técnica-morcego, eu diria. Eli tem uma aura de mistério, uma palidez própria dos vampiros (se é que posso dizer isso), sem que isso pareça artificial. Tem aquele olhar esbugalhado impressionante e muito, mas muito convincente.

O que completa essa caracterização física e cenográfica e é de fato muito bem construída, é o emocional dos personagens, a vivência das descobertas da adolescência com essa cumplicidade tão improvável, mas que funciona na aceitação das diferenças, na adaptação, no respeito e ajuda mútua. Tipo de ajuda que não é qualquer um que daria… precisa ser uma amizade realmente muito especial. Quanto tudo parece terminado e resolvido, o diretor Tomas Alfredson dá um toque magistral. A última cena é de uma leveza e inocência incríveis. Não pensei que pudesse ter um final doce… agridoce, melhor dizendo.

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O AMOR EM 5 TEMPOS – 5X2
CLASSIFICAÇÃO: Para Ver Bem Acompanhado, França - 17/11/2011

DIREÇÃO: François Ozon

ROTEIRO: Emmanuèle Bernheim

ELENCO: Valerie Bruni Tedeschi, Stéphane Freiss, Géraldine Pailhas, Françoise Fabian, Michael Lonsdale, Antoine Chappey

França, 2004 (90 min)

 

Do colapso, à solidão, ao medo, à alegria, ao encantamento, à Itália, onde tudo começou. Na ordem inversa, com muita profundidade – principalmente no que diz respeito às entrelinhas, à fuga inteligente e sensível do óbvio – François Ozon dirige O Amor em 5 Tempos (também de Ricky, O Refúgio, Potiche – Esposa Troféu). Neste conto de amor e desamor, o diretor começa pelo fim e conta desconstrói a amargura da relação e a frustração até chegar na descoberta do amor. Aliás, com muita categoria.

Faz o caminho inverso, dividindo a trajetória do casal Marion (Valerie Bruni Tedeschi) e Gilles (Stéphane Freiss) em cinco fases. Primeiro eles desistem deles mesmos e se separam, depois se veem solitários no casamento, depois têm medo da responsabilidade, depois se casam, depois se apaixonam. De um homem e uma mulher desestruturados e desacreditados, transformam-se em um casal bonito e promissor. Essa passagem é incrível, incorporada pelo casal com muita força. Sem cair no óbvio, como já disse, ficamos sem saber os detalhes da vida deles, mas o que é mostrado, sentido e vivido no filme é suficiente para dar força à construção de algo já destruído.

Interessante as regras de união e divórcio. O que deveria pautado pelo sentimento e pelo amor, aqui é mostrado como um contrato de deveres e direitos, perante a lei. Não que não seja um contrato, mas que coloca o casamento no patamar do acordo frio e impessoal. É o que conta no começo do final?

 

A TV Cultura, em parceria com a Mostra Internacional de Cinema, exibe filmes de edições passadas do evento todas as 4as e 6as, às 22h. Vale a pena acompanhar –  O Amor em 5 Tempos fez parte dessa seleção. Veja a programação no link.

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