cinegarimpo

setembro, 2011

TRABALHAR CANSA
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Drama, Brasil - 30/09/2011

DIREÇÃO e ROTEIRO: Marco Dutra e Juliana Rojas

ELENCO: Helena Albergaria, Marat Descartes, Naloana Lima, Gilda Nomacce, Marina Flores, Lilian Blanc

Brasil, 2011 (99 min)

Será que Helena faz o papel dela mesma? Fiquei com a impressão que sim, não só por causa do mesmo nome, mas pela simplicidade do personagem enquanto representação da classe média. Helena (Helena Albergaria na vida real) faz o papel dessa dona de casa que se cansa, não só do trabalho que dá o novo mercadinho, mas da empreitada da vida.

Trabalhar Cansa é interessante por isso – junta elementos reais e surreais para tratar da dura luta do dia-a-dia. Os reais são representados pela família de Helena. Na pele de uma dona de casa, a gente percebe o seu envolvimento com nova ideia de ajudar nas despesas da casa abrindo um pequeno mercado, seu entusiasmo com o novo ritmo de vida, a dura realidade de ter de lidar com os funcionários, de ter de abrir mão do tempo com a família, de não ter retorno financeiro, até cair na exaustão total e completa. Dentro desse panorama, que vai crescendo no descontrole e na ansiedade, seu marido Otávio (Marat Decartes) perde o emprego. Mais uma dificuldade para lidar com a frustração, o nervosismo, a falta de dinheiro e principalmente a falta de perspectiva num mercado de trabalho cruel e implacável para quem já tem mais de 40 anos e precisa se recolocar.

Já os elementos surreais são introduzidos no decorrer da narrativa, apontando a falta de controle que temos das coisas práticas e a impossibilidade de compreender tudo. Alguns mistérios cercam a vida de Helena e o trabalho de tocar a vida em frente vai sugando todas as energias. Algumas metáforas são bem colocadas, principalmente quando sair do eixo emocional significa colocar a sanidade, a estabilidade, a razão a perder.

Para completar esse quadro os diretores Marco Dutra e Juliana Rojas inserem a figura da empregada doméstica, numa crítica ao comportamento da classe média, às mazelas do emprego informal e à desigualdade social. Trabalhar esse dinâmica também cansa do lado de cá da tela e me pareceu que era essa a intenção dos diretores. Talvez tenha sido esse o argumento para selecionar o filme para ser exibido na categoria Um Certo Olhar, em Cannes, este ano. Trabalhar Cansa tem um outro olhar a partir de uma tema conhecido nosso de cada dia. Mesmo que esse olhar seja o do estranhamento diante do cheiro ruim, do esgoto transbordando, das paredes úmidas, dos latidos dos cachorros. Um olhar cansado… Mas alguém por acaso disse que seria fácil?

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MEMÓRIA DE QUEM FICA – 18-J
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, Argentina - 29/09/2011

DIREÇÃO: Daniel Burman, Adrián Caetano, Lucia Cedrón, Alejandro Doria, Alberto Lecchi, Marcelo Schapces, Carlos Sorin, Juan Bautista Stagnaro, Adrián Suar, Mauricio Wainrot

ROTEIRO: Damián Fraticelli, Santiago Girait, Roverto Gispert, Juan Bautista Stagnaro, Mariano Vera

ELENCO: Federico Barga, Nicolás Attadia, Sandra Seco, Francisco Pascual, María Carmen Diez, Norman Erlich, Adriana Aizemberg, Ana Calentano, Victor Hugo Morales, Marina Ferraro, Susú Pecoraro

Argentina, 2004 (100 min)

 

“A explosão matou muita gente que não tinha nada a ver com isso. Mas alguém tinha?” – trecho de um dos curtas

Coincidentemente, hoje os judeus comemoram o Ano Novo, o Rosh Hashaná. Festejam a chegada do ano de 5772, iniciam os 10 dias de reflexão e arrependimento, que se encerarão com o Yon Kipur, o Dia do Perdão. Por acaso, acabei de assistir a Memória de Quem Fica, filme em homenagem às vítimas do atentado à sede de AMIA (Associação Mutual Israelita Argentina), em 18 de julho de 1994, em Buenos Aires. Quando o filme acabou é que me dei conta da data…

Os jornais argentinos nessa segunda-feira estampavam a conquista do tetracampeonato pelo Brasil na Copa do Mundo de Futebol dos Estados Unidos, no dia anterior. Logo pela manhã, uma bomba explode na sede da comunidade judaica de Buenos Aires, que se preparava para comemorar o seu centenário. Morreram 85 pessoas e mais de 300 foram mutiladas. Da investigação, nada se sabe, ninguém foi punido e as provas foram manipuladas ou destruídas pela justiça argentina.

Esse foi o material de reflexão usado por dez cineastas para expressar o horror, a dor e o inconformismo. É um recurso também explorado em outros filmes, como Paris, Eu Te Amo e Nova York, Eu Te Amo – juntar diversas linguagens e pontos de vista para falar de um só tema. Aqui retrata a unanimidade da indignação. Claro que as referências à cultura judaica são inúmeras, mas eu gosto mais é do forte lado humano de alguns curtas, como o do casal de senhores que se prepara para visitar a filha em Israel, mas é ela quem acaba indo à Buenos Aires para enterrá-los (de Daniel Burman, também de Ninho Vazio, Dois Irmãos); como o tio que morre quando vai à cidade para a circuncisão do sobrinho; como a mãe, que mora longe e se desespera com a possibilidade e falta de notícias do filho que mora no bairro atingido; como o depoimento da atriz Susú Pecoraro, cobrando atitude e justiça; como as imagens em câmara lenta do momento da explosão – cenas que não somos capazes de perceber. Não gosto da escolha de expor as fotos dos mortos no atentado. Não me parece criativo, mas pouco importa. Acho que o filme tem tom de documentário, sendo ficção. E o objetivo é não deixar esquecer, afinal não se faz história sem memória.

 

 

 

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ALÉM DA ESTRADA – Por el Camino
CLASSIFICAÇÃO: Uruguai, Para Ver Bem Acompanhado, Brasil - 29/09/2011

DIREÇÃO e ROTEIRO: Charly Braun

ELENCO: Esteban Feune de Colombi, Jill Mulleady, Guilhermina Guinle, Hugo Arias, Naomi Campbell

Brasil/Uruguai, 2010 (85 min)

Que lindas as paisagens uruguaias. Aliás, dá vontade de ir. Ainda mais porque a câmera do diretor brasileiro Charly Braun consegue mostrar bem o olhar do argentino Santiago (Esteban Feune de Colombi) e da belga Juliette (Jill Mulleady), os protagonistas desse road movie. É o olhar deles que conta, tanto da percepção que eles têm do território uruguaio, onde se conhecem por acaso por causa de uma carona, quanto da percepção deles mesmos. Com uma produção intimista, percebemos que a viagem de ambos em um território estrangeiro é uma metáfora para a descoberta dessa nova relação, descoberta daquilo que são­ nesse momento da vida e daquilo que buscam.

Santiago vai para o Uruguai para cuidar de assuntos de família; Juliette vai atrás de um antigo namorado. Ele fala espanhol, ela francês. A língua em comum, portanto, é o inglês – estrangeira, assim como aquele país. Aos poucos vão se conhecendo durante a viagem, a relação é construída passo a passo, sem sobressaltos, sem precipitações. Simplesmente acontece, com o olhar natural que as lentes do diretor fazem questão de deixar bem claro.

Gosto bastante da adaptação do título deste filme que ganhou o prêmio de melhor direção no Festival do Rio. Originalmente Por el Camino, a opção por Além da Estrada traz uma conotação muito sutil do que realmente acontece na tela. A história vai além da carona, de duas pessoas que percorrem um trajeto juntas. Transcende e passa para o campo afetivo, sem ser apelativo, sexualmente falando – aliás, isso é o que menos tem no filme. O bonito e delicado são os olhares, as risadas, as brincadeiras e principalmente a sinceridade com que a relação é elaborada. E é aos poucos mesmo, no mesmo ritmo em que Santiago e Juliette também percebem que estão envolvidos, nós percebemos que eles vão se encontrando dentro deles também.

Além da Estrada me lembrou um filme que acabei de rever e publicar no blog. Antes do Amanhecer, em que dois jovens se conhecem por acaso em um trem na Europa. Bonita essa releitura do mesmo tema. Singela e inteligente.

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MISSÃO MADRINHA DE CASAMENTO – Bridesmaids
CLASSIFICAÇÃO: Para se Divertir, Estados Unidos - 28/09/2011

DIREÇÃO: Paul Feig

ROTEIRO: Kristen Wiig, Annie Mumolo

ELENCO: Kristen Wiig, Maya Rodolph, Rose Byrne, Melissa McCarthy, Chris O’Dowd, Jon Hamm, Matt Lucas, Ellie Kemper

Estados Unidos, 2011 (125 min)

Antes mesmo de começar a escrever, já tenho a impressão de que esta coluna será um desabafo. Nada trágico – até porque o tema não permite. Pelo contrário, cômico, considerando todo o exagero de Missão Madrinha de Casamento, em cartaz nos cinemas. Mas pensando bem, não dá para não exagerar quando a alma feminina está em xeque, com os nervos à flor da pele, bem no momento de subir no altar. Este é aquele típico filme caricato, é verdade, mas também é preciso dizer que nós, mulheres, vestimos a carapuça e vamos rindo por dentro das situações única e exclusivamente femininas. Afinal, quem mais seria capaz de passar pela ‘crise-de-ciúme-da-melhor-amiga’ senão nós mesmas?

Não dá pra dizer que esse é um comportamento típico da adolescência – acho que nunca deu. Até hoje, com a adolescência já no século passado, acho engraçada a denominação ‘melhor amiga’ entre adultos. Hoje as meninas usam até a expressão best friends forever, com direito à consagrada abreviação BBF e vários apetrechos­ com os dizeres mágicos. Mas entre adultos, acho bem curioso. Chega uma fase da vida que conseguimos (o que é um luxo!) juntar algumas grandes e eternas amigas. Cada uma para um momento – ou para todos ao mesmo tempo – e fica claro que a ‘melhor amiga’ já não se encaixa no contexto dos anos em as amizades foram sendo solidificadas.

Mas, devaneios à parte, o que interessa aqui é que esse ciúme todo vem à tona no filme justamente no casamento da ótima Lilian (Maya Rudolph). Sua amiga de infância Annie (a divertida Kristen Wigg) vive um péssimo momento, perde o emprego, fica sem dinheiro e sente-se arrasada quando é preterida por Lilian, que se encanta com uma amiga nova, prestativa, bonita e rica. As situações são engraçadas, embora muitas vezes previsíveis, pelo exagero na preparação do casamento e por essa típica situação feminina da ‘sobreposição-de-melhores-amigas-de-acordo-com-a-fase-da-vida’. Para mim, tem sabor de sátira – principalmente porque sempre achei muito curioso esse costume americano de que as madrinhas têm que vestir roupas iguais no casamento. É quase uma tentativa, no mínimo esquisita, de igualar o inigualável. É verdade que não vivemos sem as amigas, mas com cada uma delas a história é única.

 

 

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ANTES DO AMANHECER – Before Sunrise
CLASSIFICAÇÃO: Para Ver Bem Acompanhado, Estados Unidos - 27/09/2011

DIREÇÃO: Richard Linklater

ROTEIRO: Richard Linklater, Kim Krizan

ELENCO: Ethan Hawke, Julie Delpy, Andrea Eckert

Estados Unidos, 1995 (105 min)

Delicioso encontro casual em um trem. Um americano e uma francesa sem compromisso, com possibilidades de mudar o destino com uma simples decisão. E eles decidem: descer do trem em Viena, explorar a cidade na única noite que têm juntos, antes da partida dele de volta pra casa.

Antes do Amanhecer é uma bonita e poética experiência. Ao mesmo tempo em que se conhecem, que sentem que algo os une como se fossem almas gêmeas, falam das relações de família, dos amores passados, das expectativas, medos e filosofias de vida. Durante uma noite fazem o balanço de suas vidas naquele momento em que ambos estão indecisos, insatisfeitos com a vida e portanto abertos a novas vivências. Vi grandes semelhanças com Além da Estrada (em cartaz), em que dois jovens estrangeiros se conhecem no Uruguai e estabelecem uma relação intensa e verdadeira.

A liga entre o casal Celine (Julie Delpy) e Jesse (Ethan Hawke) é evidente e isso faz o filme ser ainda mais gracioso, mais singelo e mais inteligente. Por motivos práticos, acabam se separando ao amanhecer, mas combinam de se encontrar em seis meses. Este filme tem uma sequência, que ainda não assisti: Antes do pôr-do-sol. Não sei se encontram como combinado, mas que o filme deixa algo no ar, isso deixa mesmo.

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CONTRA O TEMPO – Source Code
CLASSIFICAÇÃO: Para se Divertir, Ficção Científica, Estados Unidos - 26/09/2011

DIREÇÃO: Ducan Jones

ROTEIRO: Ben Ripley

ELENCO: Jake Gyllenhaal, Michelle Monaghan, Vera Farmiga, Jeffrey Wright, Russell Peters

Estados Unidos, 2011 (93 min)

Viajar no tempo é um tema recorrente no cinema. Não é para menos. De uma maneira ou de outra, esse sonho faz parte do condicional de nossas vidas todos os dias – quantas vezes nos perguntamos se algo seria diferente se tivéssemos feito ou dito tal coisa. O filme A Origem mostra essa viagem através dos sonhos, em que o personagem entra no subconsciente do outro para mudar o tempo presente. Remete, de alguma forma, a esse formato de viagem no tempo.

Source Code, título original, é o nome da operação em que o piloto de helicópero Colter (Jake Gyllenhaal) está envolvido. Ora aparece em uma cápsula totalmente fechada, monitorada por Collen Goodwin (Vera Farmiga, também em Amor sem Escalas), de uma agência de segurança dos Estados Unidos, ora é transportado para o passado para tentar impedir atentados terroristas a civis, mais precisamente que uma bomba exploda e mate centenas de pessoas em um trem de Chicago. Nesse vai e vem entre passado e presente, a operação tem como objetivo mudar o futuro, evitar que milhares de pessoas sejam vítimas de malucos de plantão, em apenas 8 minutos – uma corrida contra o tempo, assumindo a personalidade de outra pessoa nos últimos minutos da sua vida.

A engrenagem, o roteiro e a direção de um filme desse tipo é sempre complexa e em Contra o Tempo isso é feito com muito cuidado. O diretor Ben Ripley (filho do cantor David Bowe) constrói uma realidade paralela ao tempo presente e coloca na tela um suspense rápido, dinâmico e muito criativo. Há pouco tempo do atentado na Noruega, conhecida por sua neutralidade política e religiosa, fiquei imaginando como seria se a ciência realmente fosse capaz de reverter uma situação como aquela. Mas em se tratando do homem, é como se ele sempre encontrasse um viés de loucura para externar a sua intolerância.

 

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FELICIDADE – Happiness
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Estados Unidos - 23/09/2011

DIREÇÃO e ROTEIRO: Todd Solondz

ELENCO: Lara Flynn Boyle, Philip Seymour Hoffman, Jared Harris, Dylan Baker, Jane Adams, Ben Gazzara

Estados Unidod, 1998 (134 min)

Avassalador e escancarado. Das três irmãs deprimidas, infelizes e frustradas, a única que vive verdadeiramente sua miséria emocional, solidão e busca pela felicidade nunca encontrada  se chama ironicamente Joy (alegria, contentamento, felicidade). O resto dos personagens vive na mentira, na ilusão ou na perversão – ou em todos ao mesmo tempo. Assim é o filme do diretor Todd Solondz, que tem uma releitura em A Vida Durante a Guerrade 2009, com personagens parecidos e mazelas humanas absolutamente idênticas e enraizadas – tanto é que se repetem sem qualquer pudor.

Felicidade impressiona pela constante ironia. Ironiza o modo de vida de Helena, que mascara sua vida fútil e bem sucedida na profissão e no amor com mentiras, sutis e falsas humilhações; de Trish, que vive um casamento de fachada com um homem dissimulado, violento e pedófilo; e de Joy, a aspirante a cantora, frustrada com a carreira musical, humilhada a vida toda pelas irmãs Helen e Trish, envolvida em relacionamentos negativos. Ironiza e evidencia o modo de vida hipócrita de quem vive de aparências, moldado somente pelo código social e não pela ética e pela decência. E de todos os envolvidos, filho, marido, terapeuta, vizinho, paciente. É uma ironia ao sonho americano, remetendo em alguns momentos à frieza e angústia de Beleza Americana.

Pedofilia e o sexo desvirtuado são enfatizados na sua forma mais perversa, principalmente na relação do pai com o filho adolescente. É preciso ter estômago para assistir a essas cenas, porque incomoda – e muito. Embora em 1998 a internet estivesse em outro patamar, essas cenas fizeram-me lembrar de Confiar, também no Cine Garimpo e nos cinemas. É a mesma coisa, só agregamos mais uma forma de abordagem – mais abrangente e talvez até mais eficaz do ponto de vista do criminoso. Felicidade é uma ironia e uma crueldade do começo ao fim, no que seus personagens tem de pior – mas nem por isso menos real e menos importante para a reflexão sobre o autoconhecimento e as relações humanas, a começar pela própria família. Acho até que eu estou sendo redundante – é só reparar na escolha do título Felicidade para imaginar a intensidade da crítica proposta por esse polêmico diretor.

 

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CONFIAR – Trust
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Estados Unidos - 22/09/2011

DIREÇÃO: David Schwimmer

ROTEIRO: Andy Bellin, Robert Festinger

ELENCO: Clive Owen, Catherine Keener, Liana Liberato, Jason Clarke, Viola Davis, Chris Henry Coffey, Spencer Curnutt, Aislinn DeButch, Noah Emmerich

Estados Unidos, 2011 (106 min)

De que adiantam os mecanismos de controle de acesso a sites perigosos, suspeitos, pornográficos, quando o inimigo é gentil, tem boa lábia, é convincente e entra na sua casa através de todo e qualquer chat na internet? E pior: é um verdadeiro camaleão – pode se transformar em homem, mulher, jovem, velho, bonito, feio sem qualquer constrangimento. Se o papel tudo aceita, a internet tudo torna verdade. A tarefa de fiscalizar e acompanhar de perto o andar dos filhos adolescentes fica praticamente impossível. E é cada vez mais evidente que essa tarefa de cumplicidade entre pais e filhos realmente tem que começar no berço. Depois de grandes, eles têm autonomia e são seus próprios filtros de segurança, onde qualquer falha pode representar um perigo irreparável.

Não falo da autonomia emocional e Confiar retrata justamente isso. Falo da autonomia de acessar o mundo pela internet, onde há oportunistas, falsários, pedófilos e ninfomaníacos de plantão, e não de maturidade emocional. Não nos resta mais alternativa que confiar, sobretudo na capacidade deles de dizer não, de desconfiar de que algo parece estranho, de saber detectar a mentira. A linda adolescente Annie (Liana Liberato) quer ser aceita, elogiada, reconhecida. Quer pertencer ao grupo, e por isso acaba confiando na pessoa errada. Sua decisão tem repercussões profundas na sua vida, no seu emocional e na relação familiar. Os pais Will (Clive Owen, também em Closer – Perto Demais) e Lynn (Catherine Keener, também em Cyrus, Sentimento de Culpa, Onde Vivem os Monstros, O Solista) percebem a filha grudada no computador e no telefone, mas não desconfiam que algo prejudicial possa acontecer. Soa familiar?

Entre a angústia, o mal que é feito à garota e a tentativa de recuperação, resgate de auto-estima e reestruturação familiar, Confiar levanta várias questões urgentes sobre geração que praticamente nasceu vendo a internet e o celular entrarem nas casas, apropriarem-se do tempo livre da família, funcionarem como instrumento fundamental de comunicação, substituindo o telefonema e o contato físico e privando as pessoas de relações mais estreitas.
E não deixa de lado a dificuldade que os pais têm de se adequar à nova dinâmica e manter a estrutura e a confiança familiares como base, enquanto o universo todo diz o contrário! Confesso que fiquei aflita em vários momentos. Faz parar para pensar, principalmente porque é uma realidade dentro da casa de cada um de nós. Por isso, digo que a palavra de ordem é desconfiar – até que se prove o contrário.

 

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RISCADO
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Brasil - 21/09/2011

DIREÇÃO: Gustavo Pizzi

ROTEIRO: Gustavo Pizzi, Karine Teles

ELENCO: Karine Teles, Camilo Pelegrini, Dany Roland, Otávio Muller, Lucas Gouvêa, Cecilia Hoeltz, Otto Jr.

Brasil, 2011 (85 min)

O que fazer quando a carreira de atriz não deslancha, quando o ‘ser atriz’ se resume a sair fantasiada na rua distribuindo panfletos promocionais de festas e inauguração de lojas, fazer números em festinhas representando algum personagem famoso, fazendo graça para o aniversariante e seus convidados? Na verdade, são poucos os que conseguem alçar voo e conseguir uma boa posição, um salário decente que pague as contas no fim do mês, que dê satisfação e estímulo para continuar na luta. Riscado é sobre isso, deixando nas entrelinhas a triste e real constatação de que é preciso ter talento profissional, mas todos nós precisamos contar com uma parcela de sorte para que o talento não seja desperdiçado. Lendo sobre o filme, descobri que o diretor Gustavo Pizzi tirou o título da expressão ‘entender do riscado’, numa referência aos alfaiates que tinham um ‘bom traçado’, mas também aplicada para dizer que alguém entende do trabalho que faz, o faz com competência, empenho e tudo mais que é preciso para exercer uma profissão.

Estamos falando aqui da atriz Bianca (Karine Teles, também a roteirista deste filme), que faz bicos para sobreviver e dá um show de interpretação na simplicidade e humildade do seu personagem. Mas poderia ser qualquer outra profissão. Bianca luta para ser aceita em um dos diversos testes que faz, sofre com as intempéries de produtores, diretores e financiadores. Mas tem que seguir em frente, contando ou não com a sorte. O cinema e o teatro precisam de dinheiro e precisam fazer dinheiro; o talento artístico, se preciso, é sacrificado, e Riscado é realmente de uma sensibilidade impressionante nesse aspecto. Cruel. Mas delicado, sempre na figura de Bianca. Premiado em Gramado (direção, atriz, roteiro, trilha sonora e prêmio de crítica) e exibido em diversos festivais internacionais, Riscado deixa a sua marca criativa e emociona. Sobretudo se você lida profissionalmente com o artístico e com o subjetivo, e entende bem o que é esse jogo dos egos.

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SEPARADOS PELO DESTINO – Aftershock
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, China - 21/09/2011

DIREÇÃO: Xiaogang Feng

ROTEIRO: Wu Si, Ling Zhang

ELENCO: Jingchu Zhang, Chen Li, Daoming Chen, Fan Xu

China, 2010 (135 min)

Separados pelo Destino foi dica de uma leitora do Cine Garimpo. Com olhar para as relações humanas, suas complexidades e incoerências, o filme coloca o núcleo familiar acima de tudo –  acima das separações, das mágoas e dos rancores.

Inspirado em fatos reais, não pude deixar de me lembrar de uma situação semelhante no tsunami asiático, quando uma mãe se viu na dramática situação de poder salvar só um dos filhos das ondas gigantes – lembro de esse fato ter aparecido na mídia na época. Se tentasse salvar os dois, todos se afogariam. É uma ‘escolha de Sofia’ dos nossos tempos, das tragédias ditas naturais. O que não é natural é preterir um filho ao outro, mas acaba sendo a única escolha para salvar um deles. Em Separados pelo Destino, a mãe chinesa tem que escolher qual dos filhos gêmeos vai tirar debaixo dos escombros do terremoto avassalador que destrói Tangshan em 1976 e mata seu marido. A história se desenrola a partir dessa escolha e vamos acompanhando a vida das famílias até 2008, quando um terremoto destrói outra cidade chinesa.

Além de todos o drama da perda, das mortes – são mais de 240 mil – da reconstrução das vidas, vemos aqui um interessante retrato da cultura chinesa, do papel dos pais, da importância fundamental da família e suas distorções nas obrigações, das mudanças na sociedade chinesa nos dias de hoje. Diante de tantas tragédias como terremotos, tsunamis, tornados e enchentes (tão familiares por aqui), não tem como não se sensibilizar com a história e transportá-la para nossa realidade. Apesar de algumas falhas no roteiro como a supressão do reencontro entre os irmãos, fiquei pensando se isso não teria sido uma opção do diretor para não cair no melodrama, que acaba sendo inevitável diante do assunto.

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