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agosto, 2011

O HOMEM DO FUTURO
CLASSIFICAÇÃO: Para se Divertir, Brasil - 31/08/2011

DIREÇÃO e ROTEIRO: Claudio Torres

ELENCO: Wagner Moura, Alinne Moraes, Maria Luísa Mendonça, Fernando Ceylão, Gabriel Braga Nunes

Brasil, 2011 (106 min)

 

Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro é a maior bilheteria brasileira, com mais de 11 milhões de espectadores. A âncora desse sucesso, além da corrupção insaciável e revoltante da polícia e dos políticos é, sem dúvida, Wagner Moura. No papel de capitão Nascimento, dá voz e rosto ao policial implacável, mas também ao ator cuidadoso, comprometido e extremamente competente na composição do personagem. Claro que compor Nascimento é mais complexo, comprometedor e politicamente difícil do que representar o fracassado, frustrado e enlouquecido Zero – um professor de física que jura ter construído uma máquina geradora de energia. Mas, a gente também sabe, pelas comédias brasileiras que vemos por aí, que há atores… e atores. E definitivamente não são todos que têm o dom de fazer a gente rir.

O Homem do Futuro não é o personagem da vida de Wagner Moura (também em Carandiru e VIPs), mas com certeza é o personagem divertido, atrapalhado e apaixonado que ele merecia viver no cinema, depois da imagem dura que lhe rendeu a dobradinha Tropa de Elite. Inclusive – justiça seja feita – acho sempre muito interessante observar a postura, a capacidade de diversificação e de incorporação de personalidades tão diferentes que alguns atores têm. Na pele de Zero, ele faz o que muitos de nós gostaríamos de fazer: voltar para o passado para mudar o futuro. Apesar de já explorado nos cinemas (com a série De Volta Para o Futuro, por exemplo), o tema é sempre alimento para boas tramas. Com a pinta de cientista maluco, volta 20 anos no tempo e vai parar naquela mesma festa que mudou sua vida, quando canta com Helena (Alinne Moraes) o clássico do Legião Urbana, Tempo Perdido (aliás, que cena!).

Aquele é o momento chave, que determina quem Zero é no presente, sua trajetória enquanto estudante, cientista, homem. Mudar aquele momento lhe daria a chance de ser outra pessoa, o que obviamente rende reflexões interessantes e cenas realmente engraçadas. Dê uma espiada no trailer. Já vai dar pra sentir o clima do filme e o objetivo do diretor Claudio Torres (também de A Mulher Invisível, com Luana Piovani e Selton Melo). Gosto desse tipo de comédia brasileira, bem humorada, espirituosa, talentosa. E despretensiosa – o que é, em muitos casos, pré-requisito para uma boa e genuína risada.

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DESENROLA
CLASSIFICAÇÃO: Para se Divertir, Brasil - 30/08/2011

DIREÇÃO: Rosane Svartman

ROTEIRO: Juliana Lins, Rosane Svartman

ELENCO: Olivia Torres, Lucas Salles, Vitor Thiré, Daniel Passi, Pedro Bial, Cláudia Ohana, Kayky Brito, Juliana Paiva, Thais Botelho, Jorge de Sá, Juliana Paes, Letícia Spiller, Marcela Barrozo, Marcello Novaes, Roberta Rodrigues, Smigol

Brasil, 2011 (95 min)

Há três outros filmes brasileiros muito interessantes sobre esse período rico, tanto em conflitos e dúvidas, quanto em descobertas e aventuras: a adolescência. Um deles é o premiado As Melhores Coisas do Mundo; o outro, Antes que o Mundo Acabe e por fim o também ótimo À Deriva. Digo isso antes de falar propriamente de Desenrola, porque assim você já se ambienta na dinâmica deste filme, na rotina dos alunos que vivem as mudanças e desafios do ensino médio, dos garotos e garotas que enfrentam a pressão da primeira transa e as inseguranças de pertencer ou não ao grupo.

A protagonista aqui é Priscila (Olivia Torres) e isso é fundamental. Em seu primeiro longa, essa talentosa atriz dá credibilidade ao roteiro, e graça ao filme – que em alguns momentos deixa o texto cair em alguns clichês. Gostei dela. E ela também parece ter gostado de ficar 20 dias sozinha, sem a mãe, totalmente dona do nariz aos 16 anos. É a sua figura que lidera a questão da transa por impulso, do esquecimento da camisinha e da gravidez, da traição, da conquista realmente batalhada, do melhor amigo. Tudo no ambiente do ensino médio da escola, logicamente cercado das ferramentas de internet e redes sociais, capazes de disseminar uma mentira em um minuto, que no instante seguinte já se transforma em outra coisa qualquer – dependendo do interesse.

Geração rápida, essa! Faz, desfaz, conecta, desconecta, ‘fica’, esquece. Seja como for, Desenrola mostra esses adolescentes tentando não se enrolar demais, para não curtir de menos – seja lá o que ‘curtir’ quer dizer. O que eu sei é que há uma quebra dos tabus da virgindade, mas há um resgate do valor da conquista e do namoro, propriamente dito. Aquele… que às vezes parece coisa do século passado.

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PLANETA DOS MACACOS – A ORIGEM – Rise of the Planet of the Apes
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Para Entender o Nosso Mundo, Estados Unidos - 28/08/2011

DIREÇÃO: Rupert Wyatt

ROTEIRO: Rick Jaffa, Amanda Silver

ELENCO: James Franco, Andy Serkis, Freida Pinto, John Lithgow, Brian Cox, Tom Felton, David Oyelowo

Estados Unidos, 2011 (105 min)

Um planeta dominado pelos macacos chega a assustar. Ainda mais agora, que achamos que estamos com o jogo ganho, que está tudo dominado – apesar da vista grossa que fazemos diante de tanta destruição. Mudar as regras do jogo no final, não vale. Como assim, ninguém avisou que era possível? Agora que destruímos grande parte das florestas e do habitat natural dos chimpanzés, se eles resolverem tirar a desforra, vão invadir a ‘nossa praia’. Nossa sim. Porque somos mais inteligentes, somos a evolução. Mas e se fosse o contrário e o espírito dos macacos, liderados por Caesar, fosse só e unicamente vingativo? Sobrevivemos nós, ou sobrevivem vocês – diriam eles.

E até isso eles acabam fazendo: se apropriam da fala, diferencial humano. Ultra-inteligentes, os chimpanzés do filme são animais criados em cativeiro, para serem usados em pesquisa científica. Will Rodman (James Franco, também em 127 Horas, Milk – A Voz da Igualdade, Comer, Rezar e Amar) é o cientista responsável pelo desenvolvimento de drogas que possam curar males como o Alzheimer, usando chimpanzés como cobaias – coincidentemente (ou nem tanto) seu pai (John Lithgow) sofre da doença. (Nesse ponto, vale dizer que o filme toca no tão questionado poder da manipulação genética, da mudança do curso natural das coisas e dos seres, sempre ligado à ambição pelo poder e pelo dinheiro.) Porém, uma reação adversa nos testes faz com que os animais tenham que ser sacrificados e Will acaba salvando um filhote que será Caesar (Andy Serkis, também na série O Senhor dos Anéis), o líder dos macacos. Caesar adquire modos de seres humanos, é criado por Will, seu pai e sua namorada Caroline (Freida Pinto, também em Quem Quer Ser Um Milionário, Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos) e a relação vai bem até que, num instinto de defesa, mostra sua fúria e não pode mais ser mantido livre. A partir do seu encontro com outros da espécie e com a possibilidade de virar o jogo, o filme ganha um compasso de suspense e horror.

Digo horror sim, pela veracidade das imagens. Não são atores vestidos de ‘macacos’. São atores representando macacos, graças à tecnologia e a destreza dos profissionais envolvidos. A cena da Golden Gate é impressionante e impecável. A gente chega a acreditar que é realmente verdade. Os gestos são simulações humanas, o olhar é praticamente humano – e o pesar também, principalmente. Caesar aprendeu com o bem intencionado Will a ser ‘gente’, mas sua turma não teve o mesmo mestre. Portanto, a sugestão – e do jeito que foi finalizado, já é uma obrigação – de sequência provavelmente vai mostrar o quando Caesar será capaz de formar e formatar o seu exército. E se conseguirá manter a sua boa índole animal. Ou será instinto?

 

* O filme O Planeta dos Macacos, de 1968, dirigido por Franklin J. Schaffner, mostrava um astronauta desembarcando em um planeta liderado por macacos, onde humanos eram escravizados. A ideia rendeu continuações e uma série de televisão – esta última mais fresca na minha memória. Agora que o tema está de novo nos cinemas, seria interessante rever, até do ponto de vista da produção e da tecnologia.

 

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SOBRE MENINOS E LOBOS – Mystic River
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Estados Unidos - 27/08/2011

DIRETOR: Clint Eastwood

ROTEIRO: Brian Helgeland, Dennis Lehane

ELENCO: Sean Penn, Tim Robins, Kevin Bacon, Laurence Fishburne, Marcia Gay Harden, Laura Linney, Kevin Chapman, Tom Guiry, Emmy Rossum

Estados Unidos, 2003 (138 min)

A atuação de Sean Penn em A Árvore da Vida me deixou intrigada. Apático, ausente e distante, seu personagem transmite estranheza para quem está do lado de cá da tela. Olhando sua filmografia, deparei-me com Sobre Meninos e Lobos, que ainda não tinha visto. Dirigido por Clint Eastwood (também em A Troca, Gran Torino, Cartas de Iwo Jima, Invictus, A Conquista da Honra, Além da Vida), o filme mostra logo no começo a sua visão desoladora em relação à sociedade e à conduta humana, a mesma que senti em Gran Torino. A amizade dos três meninos Jimmy, Dave e Sean é carregada de algo que não dá para identificar logo de cara. O que se percebe é que o desequilíbrio emocional e o medo se apoderam da vida deles, a partir do momento em que Dave sofre um grande trauma.

Adultos, depois de cada um seguir o seu caminho, eles se encontram em outra situação traumática: o assassinato da filha de Jimmy (Sean Penn, também em A Árvore da Vida, Milk – A Voz da Igualdade, 21 Gramas, Jogo de Poder). Sean (Kevin Bacon, também em X-Men – Primeira Classe) é o policial encarregado do caso e Dave (Tim Robins) se envolve em algo sinistro na noite da morte da garota. O mistério é mantido até a cena final – embora já saibamos, nesse ponto, quem é o assassino, o suspense se mantém no que diz respeito ao caráter dos personagens, à relatividade da verdade dos fatos e dos sentimentos e à ironia do destino. Ficam no ar as sutilezas de comportamento e as evidências dos atos. Eastwood faz isso com maestria, retratando a aspereza da sociedade e do indivíduo que precisa se salvar a qualquer custo, enquanto outros percebem o valor do resgate familiar como alicerce para as lidar com lobos soltos por aí.

 

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UM CONTO CHINÊS – Un Cuento Chino
CLASSIFICAÇÃO: Para se Divertir, Garimpo na Locadora, Argentina - 26/08/2011

Comecemos pelo início, pelo conto chinês. E pelo problema das traduções dos títulos – e, eu diria, das traduções em geral – é que muitas vezes não encontram equivalente de sentido na língua meta e deixam pelo caminho uma parcela importante do significado que carrega o original. Trocando em miúdos é o seguinte: em espanhol, quando se diz que uma história é um cuento chino, está implícita a ideia de que aquela história é uma mentira, uma ‘história para boi dormir’, uma ‘história de pescador’ – entre tantos outros provérbios que temos em português para dizer que, de tão improvável, aquele conto é uma verdadeira lorota. Como o conto inacreditável deste delicioso filme argentino se passa justamente com um chinês, ficou fácil encontrar um equivalente em português, porém sem a sutileza que traz a língua fonte – o que é uma grande perda.

Mas isso não diminui a riqueza, a simplicidade, a sinceridade da atuação de Ricardo Darín, que andou fazendo filmes fortes e de suspense como O Segredo dos Seus Olhos e Abutres, e agora volta à comédia. E com todo o estilo de um bom filme argentino, trata de questões singelas, relações triviais, de uma maneira humana, engraçada e despretensiosa. Um Conto Chinês fala de Roberto (Darín), um sujeito fechado, emburrado e sozinho, cheio de manias – como colecionar presente de aniversário para a mãe que faleceu no seu nascimento – e histórias improváveis e inacreditáveis que ele lê no jornal, verdadeiros cuentos chinos. Sua vida monótona sofre um revés, graças ao seu ainda vivo viés solidário: um chinês está perdido em Buenos Aires, não fala uma só palavra de espanhol, não tem para onde ir e Roberto o coloca para dentro de casa.

Além de ser delicioso de assistir, Um Conto Chinês é de fato muito criativo. A cena de abertura já mostra que algo diferente está para acontecer – o cartaz do filme em que Darín aparece ao lado de uma vaca, também sugere uma história curiosa. De fato, no melhor estilo argentino de fazer você se divertir.

DIREÇÃO e ROTEIRO: Sebastián Borensztein ELENCO: Ricardo Darín, Muriel Santa Anna, Ignacio Huang, Javier Pinto | 2011 (93 min)

 

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AMOR A TODA PROVA – Crazy, Stupid Love
CLASSIFICAÇÃO: Para Ver Bem Acompanhado, Para se Divertir, Estados Unidos - 24/08/2011

DIREÇÃO: Glenn Ficarra e John Requa

ROTEIRO: Dan Fogelman

ELENCO: Steve Carell, Ryan Gosling, Julianne Moore, Emma Stone, Marisa Tomei, Jonah Bobo, Analeigh Tipton

Estados Unidos, 2011 (118 min)

Imagine a situação: você sai para jantar, tudo está aparentemente bem (ou normal até demais) e na volta pra casa seu marido (ou mulher) diz que quer se separar. Assim, como quem diz que quer ir ao cinema, que precisa ir ao médico, que o filho pegou recuperação. Depois de mais de 20 anos de relacionamento e 3 filhos nas costas, é assim que Emily (Julianne Moore, também em Ensaio sobre a Cegueira, Direito de AmarMinhas Mães e Meu Pai) diz que transou com outro. Cal (Steve Carell, também em Pequena Miss Sunshine) pula literalmente do carro e sua vida muda a partir daquele momento.

O curioso (e muito bacana) de Amor a Toda Prova é que, apesar do divórcio, do desolado Cal afogar as mágoas num bar todas as noites, de mudar seus hábitos com ajuda do conquistador profissional Jacob (Ryan Gosling, também em Namorados para Sempre), de seu filho se frustrar com a paixão por uma garota mais velha, que por sua vez se apaixona por um homem também mais velho, e de tudo aparentemente ser superficial, o roteiro aponta para a importância do tempo certo de maturação de tudo na vida – o que, quase nunca, coincide com o tempo que esperamos que as coisas se resolvam. Antes desse ciclo fechar, não há como passar para a nova fase. Não há como Emily entender que é preciso casar de novo sempre – com o mesmo marido; não há como o mulherengo entender que quando conhecer a  mulher certa, todas as suas táticas cairão por terra; não há como Cal entender que é não dá para parar no tempo, mas é preciso ser fiel à sua essência; não dá para Robbie entender que a adolescente Jessica não vai ligar para ele (ainda!). Que conquista não se aprende, é uma questão de sentimento.

Tudo isso que eu citei acima acontece no filme, obviamente com o humor que atores como Julianne Moore e Steve Carell conseguem transmitir com maestria e muita sutileza. Desde a demonstração de carinho do apaixonado (e ótimo) Robbie (Jonah Bobo), até a reinvenção de um casamento que começou na adolescência, Amor a Toda Prova chama esse amor de louco e estúpido no título original (Crazy, Stupid Love). Não acho. Eu diria que o espírito do filme está mais para a adaptação do título em português, passando muito próximo das relações humanas no que elas têm de mais precioso: descobrir-se para descobrir o outro.


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OS SMURFS – The Smurfs
CLASSIFICAÇÃO: Para Ver em Família, Estados Unidos - 23/08/2011

DIREÇÃO: Raja Gosnell

ELENCO: Neil Pratrick Harris, Jayma Mays, Sofía Vergara

Primeiro eram personagens dos quadrinhos, criados pelo desenhista belga Peyo (Pierre Culliford), em 1958. Na década de 1980, virou desenho animado transmitido pela Rede Globo no Brasil, além de ter sido comercializado como boneco de pelúcia, adesivo, etc – quem era criança nessa época sabe bem o que eu estou falando. Agora virou filme e é campeão de bilheterias no Brasil nessas 3 semanas em que está em cartaz. E realmente é bem feito. Além de ser em 3D, faz a mescla de personagens de animação e atores reais, assim como Hop, Rebeldes sem Páscoa e Alvin e os Esquilos. Mas mais interessante. Acho que as crianças maiores vão achar ‘infantil demais’. Mas não é para elas que o filme é feito. As pequenas adoram, se divertem e vira um ótimo programa em família – se você não se irrita com as criaturinhas azuis brincando com a palavra ‘smurf’ em praticamente todas as falas!

O enredo constrói literalmente um túnel entre a vila encantada dos Smurfs e Nova York, já que, atormentados pelo bruxo Gargamel, os smurfs têm que sair às pressas da sua vila encantada na floresta e buscar refúgio em outro lugar – que acaba sendo o Central Park. Por obra do destino, vão parar no apartamento de um jovem casal que está para ter o primeiro filho e, que portanto está se adaptando à ideia de doar tempo, trabalhar menos, olhar para o outro, etc. A história se desenrola por aí e os pequenos smurfs se mostram espirituosos e tiram boas risadas do público – mas dizer que há um smurf bipolar não é piada para criança.

 

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OCEANOS – Océans
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, França - 20/08/2011

DIREÇÃO: Jacques Perrin, Jacques Cluzard

ROTEIRO: Christophe Cheysson, Jacques Cluzaud,

ELENCO: Pierre Brosnan, Jacques Perrin, Pedro Amendáriz Jr.

França, 2009 (104 min)

“Realidade pálida de uma diversidade que não existe mais.” – comentário sobre aquários e zoológicos

 

É assim que o narrador desse espetacular documentário sobre os oceanos do planeta Terra define o conhecimento que temos das vidas que não vemos. Pálido. Daquelas tantas, inúmeras e indizíveis que habitam os mares, muitas das quais já desapareceram. Daquelas que talvez só estejam disponíveis nos aquários e zoológicos, ou em museus, empalhados. É através dessa realidade pálida e montada que a maioria de nós tem a ínfima noção de seus movimentos, sua harmonia, sua cor. Em Oceanos, os diretores Jacques Perrin e Jacques Cluzaud nos transportam para águas reais e vivas, mostrando imagens simplesmente espetaculares das criaturas marinhas nos quatro cantos dos mares.

É para quem gosta de documentário, claro. Mas indico, principalmente, para quem gosta de natureza. Toda vez que me deparo com imagens como as de Oceanos, em que um leão-marinho é acariciado pela mãe, em que um tubarão abocanha uma foca, em que os cardumes de peixes formam verdadeiros balés, pergunto-me quem é que foi capaz e paciente o suficiente para esperar o momento certo e captar a imagem tão esperada. São essas pessoas que tiram a palidez da visão limítrofe que temos do fundo do mar e nos abrem o horizonte para conhecer uma gota de tamanha grandeza.

Oceanos tem fotografia, proposta e roteiro (não é monótono, aviso de antemão) impecáveis. Praticamente uma poesia em imagens. Sem deixar de questionar a tão falada e discutida questão do meio ambiente. Mas, mais do que ser alarmista, esta produção francesa ressalta e enaltece a beleza, a diversidade e a harmonia que ainda existe.

 

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A ÁRVORE DA VIDA – The Tree of Life
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Estados Unidos - 19/08/2011

DIREÇÃO e ROTEIRO: Terrence Malick

ELENCO: Brad Pitt, Sean Penn, Jessica Chastain, Hunter McCracken, Laramie Eppler, Tye Sheridan, Fiona Shaw,

Estados Unidos, 2010 (139 min)

Fico contente quando vejo filmes como A Árvore da Vida em cartaz, também fora do circuito do chamado ‘cinema de arte’. Democratiza o espaço do shopping e da cidade, tão mal distribuído também nesse quisito cultural. Vencedor da tão cobiçada Palma de Ouro no Festival de Cannes deste ano, o filme do diretor americano Terrence Malick, causa estranheza e é aquele típico filme feito para festival. Enquanto algumas produções são absoluta e indiscutivelmente comerciais (o que não é uma crítica, apenas uma constatação), outras surpreendem pela abstração de ideias, sentimentos e perspectivas – e justamente por isso podem maravilhar ou provocar o sentimento oposto.

Quem já viu A Árvore da Vida sabe do que estou falando. Em uma narrativa nada linear, fala das divagações do diretor (conhecido por ser uma pessoa reclusa e introspectiva) sobre a origem da vida. Para tanto, usa duas ferramentas básicas. A primeira é a história da família de Mr. O’Brien (espetacular Brad Pitt, também em Babel, Bastardos Inglórios, Queime Depois de Ler), que vive no Texas nos anos 1950. É um pai severo e rígido demais para seus três filhos, em especial para o primogênito (Hunter McCracken, incrível), que não entende a dinâmica hierárquica da punição e carrega para a vida adulta (agora como Sean Penn, também em Jogo de Poder, 21 Gramas, Milk – A Voz da Igualdade) a incompreensão da infância, a dor da perda do irmão e o olhar alheio à realidade. A única serena é esposa (Jessica Chastain, muito bem no papel), que transmite no olhar o amor da maternidade e da criação. História de família, mas você vai notar a inconstância e movimentação acentuada da câmera, os saltos entre futuro e passado, a leitura do inconsciente dos próprios personagens, como na cena da praia.

A segunda ferramenta é um recorte pessoal do diretor Malick, do que ele entende como criação do universo, repleto de imagens dos elementos fogo, ar, água e terra, na tentativa de recuperar os primórdios do surgimento da natureza e dessa (e de tantas outras) relações familiares e pessoais complexas e profundas. Grosso modo, é assim o filme se apresenta para o espectador, mas é possível ir muito além, transcendendo as barreiras de Adão e Eva, religião, pecado e outras tantas interpretações.

Embora tivesse lido um pouco sobre o filme antes, confesso que me surpreendi com a intensidade dessa abstração toda. Apesar de muito bonita, é muitas vezes excessiva. Eu diria que a intensidade que toca mais fundo, e por isso incomoda (sempre no campo das difíceis e delicadas relações familiares), está na aspereza do pai, em contradição com a leveza da mãe; na perfeição da árvore da vida e suas ramificações, raízes, ciclos, e na imperfeição do ser humano – e aqui vem o mérito da atuação e da direção dos atores. Por isso A Árvore da Vida causa sensações tão antagônicas. Um outro prisma da vida como ela é – bela, porém contraditória e confusa.

Dê uma espiada no trailer abaixo. Você vai ter uma pequena amostra do gênero e ritmo do filme. Assim você não erra na hora de escolher o que ver no cinema.

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UM SONHO DE AMOR – Io Sono l’Amore
CLASSIFICAÇÃO: Para Ver Bem Acompanhado, Itália, Drama - 18/08/2011

DIREÇÃO e ROTEIRO: Luca Guadagnino

ELENCO: Tilda Swinton, Flavio Parenti, Edoardo Gabbriellini, Alba Rohrwacher, Pippo Delbono, Diane Fleri, Maria Paiato

Itália, 2009 (120 min)

O porte e elegância de Emma (Tilda Swinton, também em Queime Depois de Ler) são arrebatadores neste lindo filme italiano. De origem russa, casa-se com um rico industrial de Milão, da tradicional família Recchi, fez três herdeiros, mas visivelmente não é feliz. Seu olhar é vago, distante, perdido na maravilhosa villa italiana, em que a riqueza de detalhes é de encher os olhos de qualquer um. Pobre menina rica – seria mais ou menos isso. O que não se restringe à mãe. Sua filha Elizabetta (a ótima Alba Rohrwacher, também em Que Mais Posso Querer) também não parece sentir-se à vontade, apesar do esforço em agradar o avô, patricarca e percursor de todo o prestígio e fortuna.

Construído esse universo aparentemente sólido e inabalável, elementos externos causam instabilidade, que vai crescendo, centrada na personagem de Emma, numa atuação espetacular. Lindo esteticamente, mas sobretudo um filme de desconstrução sutil, também elegante (se é que é possível) de personalidades mascaradas pela expectativa da sociedade, mas sem sua verdadeira alma. Em inglês, o título é fiel ao original em italiano: I am Love. Gosto mais, carrega o significado mais profundo da busca pelo amor próprio.

Indicado ao Oscar em 2011 na categoria de Melhor Figurino (perdeu para Alice no País das Maravilhas), Um Sonho de Amor é mais do que figurino. Tem belíssima fotografia, ótimo roteiro e poucos diálogos. O diretor abusa do silência, da trilha sonora e dos olhares – que dizem mais do que mil palavras.

 

 

 

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