cinegarimpo

maio, 2011

QUEBRANDO O TABU
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, Brasil - 31/05/2011

DIREÇÃO: Fernando Grostein Andrade

ELENCO: Fernando Henrique Cardoso, Bill Clinton, Jimmy Carter, Dráuzio Varella, Paulo Coelho

Brasil 2011 (74 min)

“Questionar a lógica da guerra às drogas não é fazer apologia, mas provocar a mudança de eixo da guerra para a paz.”

– Fernando Grostein, cineasta

“Este não é um filme de tese, é um filme de debate; não é tempo de tomar partido, é tempo de se informar.”

– FHC

 

Um documentário sobre drogas poderia trazer no título algo mais impactante, com palavras fortes como tráfico, armas, contrabando, ilegalidade, morte, violência, crime organizado. Afinal, pelas informações que recebemos todos os dias, está tudo intimamente relacionado. Mas não. A meu ver, muito sabiamente o título tirou o tema do linguajar militar e o transferiu para um campo comportamental, civil, familiar, educativo. Deu ao título Quebrando o Tabu um significado totalmente condizente com a mensagem que pretende passar: de que não é mais possível combater as drogas, o tráfico e a dependência com ações de guerra; que é preciso mudar a maneira de pensar o problema, quebrar o tabu que ronda o assunto e trazer a questão para discussão na sociedade civil. Ponto. Não impõe solução mágica, nem receita para resolver a questão, mas sugere reflexão, análise e aprendizado com experiências feitas em outros países.

Segundo o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, presente na coletiva de imprensa após a exibição do filme, não se trata de um discurso ideológico, político ou moralista. Trata-se da abertura de um debate na sociedade civil, que já percebeu por experiência própria que o combate militar às drogas não funciona. Não desta maneira com que vem sendo feita desde os anos 70, seguindo a trilha da tolerância zero norte-americana. É só a gente olhar em que situação estão as grandes cidades do Brasil. E mundo afora. Este documentário vai além da fronteira brasileira para aprender com experiências em países como Portugal, Holanda e Suíça, qual o enfoque que tem sido dado para tentar mudar a situação do dependente, do tráfico e do fortíssimo impacto e dano que eles causam na sociedade.

Depoimentos de pessoas influentes e formadoras de opinião como Bill Clinton, Jimmy Carter, Paulo Coelho, Dráuzio Varella referendam a necessidade de mudança de comportamento da sociedade em relação ao dependente para que ele não seja jogado na cadeia, mas seja devidamente tratado para ter chance de voltar à vida em família e em sociedade. Se funciona, descriminalizar o uso da maconha, fazendo com que o dependente seja tratado como paciente, e não como criminoso? Em alguns países, os índices de overdose, criminalidade, casos de AIDS diminuíram. É claro que o estado precisa fazer a sua parte e dar condições para que essas pessoas se recuperem – o que no Brasil ainda está longe de acontecer – e que o processo é extremamente complexo. Mas é preciso refletir sobre o assunto e Quebrando o Tabu quer mostrar justamente isso. Achei interessante quando Grostein falou sobre a dificuldade de conseguir partrocionadores que quisessem vincular sua marca ao tema das drogas. Só conseguiu quando já tinha algumas partes filmadas e pode exemplificar o teor da proposta. Como se vê, são muitos os tabus a serem quebrados para que se possa abordar o assunto abertamente e de forma esclarecedora.

Além de muito bem dirigido e de contar com escolhas certeiras para dar os depoimentos, o argumento apresentado é muito pertinente e, a meu ver, não é impositivo. Aliás, essa foi a posição de toda a equipe da produção do filme durante a coletiva. A ideia é somar esforços, inserir o assunto nas escolas, dentro de casa, educar para diminuir os riscos e perigos das drogas. É colocar essa nova abordagem na pauta do dia. Pelo teor e qualidade do documentário, acho que vai conseguir gerar boas e interessantes discussões.

Estreia dia 03 de junho nos cinemas.

 

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O MÁGICO – L’Illusionniste
CLASSIFICAÇÃO: Para Ver em Família, Para Pensar, França - 30/05/2011

DIREÇÃO: Sylvain Chomet

ROTEIRO: Sylvain Chomet, Jacques Tati

França, Inglaterra, 2010 (90 min)

Nosso olhar está não só acostumado com a narrativa e o traço da animação americana, mas também acomodado. As crianças, então, nem se fale. Muitas delas nunca viram uma animação diferente daquela produzida nos grandiosos estúdios e a primeira reação ao se deparar com um filme como O Mágico é de estranheza. Não só pelo traçado em si, mas principalmente pela temática melancólica e entristecida e pela escassez de diálogos. Sem dúvida um rico exercício de apreciação de linguagens e formas de expressão diferentes. Assim como em Mary e Max – Uma Amizade Diferente.

Mas a temática é adulta e isso o torna um pouco mais difícil – mas, insisto, é interessante para ver em família quando acompanhado e se torna fonte de muitas reflexões. Além disso, qual o problema com a estranheza? É muito bom sair da zona de conforto. Afinal, é essa a sensação que o próprio mágico protagonista da história nos passa. Na França do final dos anos 50, a plateia dos teatros já não vê graça nas apresentações do velho mágico, que continua tirando coelhos da cartola. A grande atração são os grupos de rock e é preciso buscar, em outras freguesias, de onde tirar o sustento. O mágico Tatischeff parte então para Londres e Edimburgo, até chegar em um pequeno vilarejo na Escócia, onde a menina Alice se encanta com suas peripécias no palco e na vida e começa aí uma grande amizade e uma relação de mútua admiração.

Apesar de momentos bonitos e alegres entre o velho e antigo (representado pelo mágico) e o novo e moderno (na pele da jovem Alice), o diretor Sylvain Chomet (também em As Bicicletas de Belleville) faz com que o preponderante seja a dificuldade de integração de ambos, a falta de sintonia e de possibilidade de convivência de duas realidades – o que é natural em qualquer tempo, o jovem renova o antigo e a vida segue em frente. O senhor Tatischeff continua praticando seu ofício por ideal, por ser artista nato (embora o palhaço já não tenha a mesma força) e não perde a esperança, nem a sua original magia. Mas existe uma áurea de tristeza dos encantos antigos e genuínos que vão se perdendo com o tempo, por pura falta de espaço, renovação, reinvenção e plateia. É possível ver em O Mágico uma nostalgia do tipo tempos-que-não-voltam-mais. Mas faço uma leitura mais otimista da existência do artista nato, de completude, de sobreposição de linguagens e de um traçado absolutamente belo e irretocável, à francesa.

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PERFUME DE MULHER – Scent of a Woman
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Para Rever, Estados Unidos, Drama - 29/05/2011

DIREÇÃO: Martin Brest

ROTEIRO: Giovanni Arpino

ELENCO: Al Pacino, Chris O’Donnell, James Redhorn, Gabrielle Anwar

Estados Unidos, 1992 (157 min)

“Não sei se o silêncio de Charlie está certo. Não cabe a mim julgar. Mas sei que ele não denunciará ninguém em troca de um futuro. Isso é integridade. Isso é coragem.” – Frank Slade

Em tempos de total falta de ética e comprometimento, revi Perfume de Mulher. Algumas cenas são memoráveis, como o tango (veja o vídeo abaixo) e a defesa aos princípios que o tenente-coronel Frank Slade (Al Pacino, também na trilogia O Poderoso Chefão) faz diante do corpo dirigente do colégio. Mas isso só foi possível e só é inesquecível porque conta com a atuação impecável de Al Pacino, que faz o papel de um militar cego que consegue transmitir sensações e sentir o mundo de uma maneira muito particular. Incrível o olhar do ator, que recebeu o Oscar pelo papel. Apesar de cego, seu olhar é fulminante. Confesso que em alguns momentos cheguei a pensar que ele enxergasse, tamanha a sutileza da atuação. E de fato consegue, só que não com os olhos.

Para quem não lembra, ou ainda não viu, em Perfume de Mulher o tenente-coronel mora com a sobrinha, numa casinha no quintal da casa, e é tudo aquilo que se espera de alguém sozinho, solitário e frustrado: um sujeito rabugento e mal humorado. A sobrinha quer viajar no feriado de Thanksgiving e contrata um estudante da renomada Baird School para cuidar do tio. Quem aceita o trabalho é Charlie Simms (Chris O’Donnell), que vive um dilema: dedurar ou não seus colegas ao diretor. Da relação tumultuada e agressiva do começo, surge um profundo respeito e Charlie e Frank encontram, um no outro, a motivação que eles precisam para continuar a luta. Cada um, a sua.

O perfume de mulher propriamente dito entra como alusão à sensibilidade aguçada de Frank, própria da sua condição de cego. Mas achei desta segunda vez que o título vai mais além. Remete à cegueira de uma maneira geral, que aprisiona os pensamentos, as atitudes, o comprometimento, a coragem. Fala de todos os sentimentos que são invisíveis aos olhos e que só são percebidos ao sair da materialidade, da mesmice, da zona de conforto. Isso serve para o perfume, da mesma forma que serve para a dança, a delicadeza, o humor, os sentidos, a ética, a integridade.

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O PODER E A LEI – The Lincoln Lawer
CLASSIFICAÇÃO: Para se Divertir, Estados Unidos - 26/05/2011

DIREÇÃO: Brad Furman

ROTEIRO: John Romano, Michael Connelly (livro)

ELENCO: Matthew McConaughey, Josh Lucas, Ryan Phillipe, Marisa Tomei

Estados Unidos, 2011 (110 min)

Quem gosta de um bom suspense de tribunal, daqueles em que a mentira e verdade se confundem e terminam por nos deixar também na dúvida, vai curtir O Poder e a Lei. Ambientada em uma Los Angeles perversa, marginal e anti-ética, a trama é centrada no adovogado Michael Haller (o ótimo Matthew McConaughey), um sujeito que faz todo e qualquer negócio para ganhar um extra. Com seu escritório dentro do carro Lincoln (daí o título em inglês), faz acordos suspeitos com gangues, traficantes, sujeitos corruptos, prostitutas e arma uma rede de contatos e favores que colocam a lei e o poder em um balaio só.

Até ser contratado por Louis Roulet (Ryan Phillippe, também em Crash – No Limite e A Conquista da Honra), um garoto mimado e milionário, acusado de violentar uma prostituta. Várias perguntas surgem a partir desse momento, outros casos antigos vêm à tona e o suspense toma conta do filme. Ancorado em Maggie, sua ex-mulher e promotora (Marisa Tomei, também em Cyrus), Michael desta vez precisa aliar sua habilidade como advogado e investigador para se safar.

Baseado no livro homônimo de Michael Connelly, O Poder e a Lei é muito interessante, não só do ponto de vista da trama jurídica, mas também da construção do personagem, que nitidamente vai de um advogado oportunista e com jeito de malandro do começo do filme, a alguém estratégico, articulado, inteligente. Ético? Quando convém. Esperto, isso sim. Sempre.

Estreia dia 27 de maio.

 

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FESTIVAL DE CANNES 2011
CLASSIFICAÇÃO: Para se Divertir, França - 26/05/2011

Muito já se disse sobre o cinema enquanto extensão da vida e da vida enquanto caldeirão de repertório para o cinema. Se assim é, fica cada vez mais difícil separar as ideias que rondam os festivais, as atitudes dos envolvidos na produção dos filmes, do cinema em si. A arte imita a vida e Cannes é assim: o palco mundial do cinema e das celebridades, mas também lugar de contestações políticas, questionamentos comportamentais e posturas controversas.

O 64º Festival de Cannes terminou depois de 10 dias que deram o que falar. Embora tenha rendido vaias e não seja um modelo de filme comercial, é sim o protótipo de filme de festival: A Árvore da Vida, do diretor americano Terrence Malick, vence a Palma de Ouro, conta com Brad Pitt e Sean Pean no elenco e tem estreia programada para 23 de junho no Brasil. Pode até não ser um blockbuster ou um filme típico do circuito comercial, mas certamente deve ser mais atraente do que foi o vencedor da Palma de 2010, o tailandês Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas.

Mas o que roubou a cena aconteceu dias antes da premiação­. Declarações pró-nazistas como as do diretor dinamarquês Lars Von Trier, de Melancolia (e também do conturbado Anticristo) chocam, mas infelizmente ainda são ditas por aí, seja por diretor de cinema, seja por estilista. Mas a sua expulsão do festival foi um ato de coragem e não podia ser diferente. Palco da liberdade de expressão, não há como tolerar tamanha agressividade. Puniu quem errou e deu à atriz de Melancolia, Kirsten Dunst, o prêmio de melhor atriz. Premiou quem acertou.

O Grand Prix foi dividido entre o filme do diretor turco Nuri Bilge Ceylan, Anatolia, e o dos irmãos belgas Dardenne (também dos premiados A Criança e O Silêncio de Lorna) O Garoto de Bicicleta – já comprado por distribuidora brasileira. Embora não tenham entrado na competição, alguns filmes foram apresentados em Cannes e já estão em cartaz no Brasil. Piratas do Caribe 4 – Navegando em Águas Misteriosas é um deles. Mas por uma curiosidade no quisito comportamento, Um Novo Despertar, de Jodie Foster, criou também uma dúvida que não quer calar. Com Mel Gibson no elenco, no papel de um sujeito deprimido e problemático, seria a arte imitando a vida?

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SINGULARIDADES DE UMA RAPARIGA LOURA
CLASSIFICAÇÃO: Portugal, Para se Divertir - 25/05/2011

DIREÇÃO: Manoel de Oliveira

ROTEIRO: Manoel de Oliveira, baseado no conto de Eça de Queiroz

ELENCO: Ricardo Trêpa, Cataina Wallenstein, Diogo Dória, Leonor Silveira, Júlia Buisel, Filipe Vargas, Miguel Seabra

Portugal, 2009 (64 min)

Manoel de Oliveira tem, nada mais, nada menos que 102 anos. Além da longevidade em si e da disposição de continuar criando, o diretor mostrou que tem uma aguçada capacidade de adaptar o contemporâneo ao antigo, de retratar os costumes do final do século 19 em uma linguagem visual atual, de falar dos costumes e relacionamentos de outros tempos sem parecer piegas ou antiquado. Mostrou que tem uma cabeça moderna, afinal de contas!

Isso porque sua adaptação do conto de Eça de Queiroz é curiosa e bem humorada. Eu não conhecia a história, muito menos esperava por esse final. Enquanto Macário (Ricardo Trêpa) conta sua história a uma moça durante uma viagem de trem e justifica sua tristeza, em flashback conhecemos o que realmente aconteceu. Trabalhando em Lisboa na loja do tio, Macário se apaixona por Luísa, a ‘rapariga loura’ que aparece na janela em frente. Ou melhor, apaixona-se por sua imagem. Sem conhecê-la, pede sua mão em casamento e resolve trabalhar para guardar dinheiro e se casar. Singular, a rapariga…

Interessante a construção de época, do vestuário ao mobiliário, da linguagem aos costumes. Mas mais interessante que isso é a introdução de alguns detalhes do mundo atual numa realidade de 130 anos atrás. Macário usa computador, viaja em trens modernos, ao mesmo tempo em que precisa pedir ao tio autorização para casar e é expulso de casa por não obedecer.  Mas nada disso parece fora do seu lugar, tamanha a sutileza. E para quem está familiarizado com Portugal, o panorama do Rocio e as tomadas da cidade são um convite à vida lisboeta.

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MINHAS TARDES COM MARGUERITTE – La Tête en Friche
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, França - 25/05/2011

 

DIREÇÃO: Jean Becker

ROTEIRO: Jean Becker, Jean-Loup Dabadie (Baseado no livro de Marie-Sabine Roger)

ELENCO: Gérard Depardieu, Gisèle Casadesus, Sophir Guillemin, Patrick Bouchitey

França, 2010 (82 min)

Para ser um bom leitor, é preciso antes ser um bom ouvinte.” – Margueritte

 

Marguerite é uma senhora de 95 anos (Gisèle Casadeusus, de 96 anos e 76 de carreira!), extremamente culta, que vive em uma casa de repouso para idosos. Germain (Gérard Depardieu, também em Camille Claudel, Piaf – Um Hino ao Amor) é um simples agricultor semi-analfabeto, humilhado e menosprezado pela mãe, que mal consegue juntar as palavras, quem dirá contextualizá-las. O improvável encontro se dá em um parque, onde nasce a amizade entre eles. Ela lê obras famosas em voz alta, ele percebe o texto e pouco a pouco vai se interessando pelas palavras, pela leitura e pelos sentimentos que elas despertam. A improvável amizade se transforma numa relação de completude, em que as diferenças preenchem o outro naquilo que mais lhes faz falta; a leitura desperta nele os sentimentos e ela recebe o que mais precisa no momento, companhia e atenção.

O título em francês de Minhas Tardes com Margueritte é La Tête en Friche, que faz referência ao pouco uso da cabeça, do intelecto, algo como “mente inculta” e se refere obviamente ao personagem bronco e simplório de Germain. Mas é com as palavras que Marguerite planta o gosto pelo conhecimento, pela interpretação e pela companhia das histórias e dos livros. Vejo como uma homenagem à sabedoria, não só a formal, publicada, ensinada nas escolas, mas também àquela aprendida nos relacionamentos e na doação de tempo e de carinho.

Quando terminou o filme, lembrei-me imediatamente de Conversas com meu Jardineiro. Mas eu não tinha em mente que era do mesmo diretor, Jean Becker. Claro! Um famoso pintor e um jardineiro, uma culta senhora e um agricultor, todos com um importante viés humano e universal em comum: a amizade.

Estreia nos cinemas dia 27 de maio.

 

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AMOR?
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Brasil - 20/05/2011

 

DIREÇÃO: João Jardim

ELENCO: Lilia Cabral, Eduardo Moscovis, Fabiula Nascimento, Ângelo Antônio, Julia Lemmertz, Mariana Lima, Sílvia Lourenço

Brasil, 2011 (100 min)

Quando se fala sobre violência contra a mulher e sobre relacionamentos que dependem da ameaça, do ciúme e da possessão para sobreviver, logo pensamos na periferia e nas camadas mais desfavorecidas da sociedade. Amor?, metade documentário, metade ficção, mostra exatamente o oposto. Quem conta a história não são pessoas simples, mas sim pessoas de classe média, com bom nível de educação, articuladas, viajadas, esclarecidas, cheias de oportunidades na vida e com capacidade de fazer análises bastante profundas. Portanto, corajosamente desvincula a imagem da agressão, da covardia, da violência à falta de educação formal e classe social, ou coisa que o valha.

Interpretados por renomados artistas, os entrevistados conseguem contar com riqueza de detalhes a fase da vida em que a violência foi preponderante na relação amorosa, e com mais detalhes ainda conseguem analisar, depois de passado o turbilhão, a razão de tanta agressividade, de tanta raiva, de tanta dependência, de tanto desamor. Na pele de atrizes incríveis como Julia Lemmertz e Lilia Cabral, os entrevistados tiveram sua identidade preservada. Tanto melhor – são histórias de arrepiar, interpretadas de forma absolutamente verossímil pelos atores. Dá tranquilamente para acreditar que cada um deles viveu de fato aquilo que narram. Pelo que li sobre o diretor João Jardim (também em Lixo Extraordinário), a sua intenção foi justamente essa: entregar aos atores uma nova vida e não um personagem.

São 100 minutos de monólogos, interrompidos por cenas em que alguém mergulha em águas claras, profundas, mar ou piscina, banho de chuveiro. Metáforas da intensidade dos relacionametos, da sensação de afogamento, de sufocamento, de completo envolvimento e cegueira? Pode ser, mas na prática funcionam para interromper os pensamentos e dar a nós, espectadores, um tempo para respirar. São histórias de amor e desamor, paixão e ciúme, dependedência e ódio capazes de arrasar qualquer um. Remete sim ao filme Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho, em que atrizes interpretam alguns episódios da vida de outras mulheres. Mas aqui o que está em jogo é a mais profunda relação de amor, mas na sua forma distorcida, desfigurada e completamente traiçoeira. Mais perto de nós do que podemos imaginar.

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PIRATAS DO CARIBE 4: NAVEGANDO EM ÁGUAS MISTERIOSAS – Pirates of the Caribbean – On Stranger Tides
CLASSIFICAÇÃO: Para Ver em Família, Para se Divertir, Estados Unidos - 19/05/2011

DIREÇÃO: Rob Marshall

ROTEIRO: Ted Elliott, Terry Rossio,

ELENCO: Johnny Depp, Penélope Cruz, Ian McShane, Geoffrey Rush, Kevin McNally, Astrid Berges-Frisbey

Estados Unidos, 2011 (137 min)

Repleto de piratas e soldados, pitadas de romance, boa dose de humor de boa qualidade e sobretudo muita aventura, Piratas do Caribe 4 realmente transita por águas misteriosas – ainda mais sugestivas sob o incrível efeito do 3D. Se for uma sala IMAX, tanto melhor. São misteriosas as águas infestadas de belas, traiçoeiras e sensíveis sereias (a cena em que aparecem é incrível), mas é preciso dizer que o filme também transita por um território bem conhecido do espectador, o que é um alento. Ancorado sempre na figura do ótimo e irreverente Jack Sparrow (Johnny Depp, também em Alice no País das Maravilhas, O Turista), seu personagem é quem dá o tom e quem comanda todo o roteiro (aliás, muito mais interessante do que o personagem Chapeleiro Maluco em Alice). Contar com suas tiradas, caras e bocas, sutilezas e molecagens nos dá a chancela que precisávamos para entrar de olhos fechados neste 4º filme da série.

Tenha você visto ou não os 3 anteriores, tanto faz. A história remete aos acontecimentos passados, como o sumiço do navio pirata Pérola Negra, mas o próprio roteiro trata de ambientar o espectador e contar sutilmente o que aconteceu. Por isso, não se preocupe. Mesmo porque Jack Sparrow está agora acompanhando de Angélica (Penélope Cruz, também em Fatal, Vicky Cristina Barcelona, Tudo Sobre Minha Mãe, Volver, Nine, Abraços Partidos) e não mais de Elizabeth (Keyra Knightley). É com a espanhola – ou contra ela, como queira – que Jack Sparrow tenta encontrar a fonte da juventude. A história envolve você na aventura e não vai nem sobrar tempo para se lembrar dos piratas do passado. Aliás, falando em Penélope Cruz, gosto dela no papel de filha do Barba Negra. Daquele seu jeito de sempre, bem espanhola, pergunto-me se o inglês com forte sotaque seria uma jogada de marketing, um charme a mais ou realmente uma dificuldade em aprimorar o idioma?

Fica a dúvida. Mas o que realmente é certo é que a Disney já faturou mais de 2,6 bilhões de dólares com os três primeiros filmes e vai certamente encher mais o cofrinho com Piratas do Caribe 4. É um programa ótimo para ver em família. Quem sabe você não se inspira em rever os outros três. Falando nisso, me perguntaram se há indícios de que o 5º filme possa surgir em algum momento. Há sim e são inúmeros…

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COMO ARRASAR UM CORAÇÃO – L’arnacoeur
CLASSIFICAÇÃO: Para Ver Bem Acompanhado, Para se Divertir, França - 19/05/2011

DIREÇÃO: Pascal Chaumeil

ROTEIRO: Laurent Zeitoun, Jeremy Doner, Yohan Gromb

ELENCO: Romain Duris, Vanessa Paradis, Julie Ferrier, François Damiens, Helena Noguerra

França, 2010 (105 min)

Estou em dívida no quisito “comédia romântica”. O filme Como Você Sabe, publicado no Cine Garimpo, não foi exatamente uma indicação – mas um sinal de alerta. Já avisei de cara que não valia a pena, que há outros tantos muito mais divertidos e bacanas, que é preciso inovar no gênero para não cair na bobagem de quase sempre. E voilá, apareceu um filme que ajuda a explicar minha posição – e francês! Como Arrasar um Coração é um daqueles roteiros dinâmicos, engraçados, originais, com elenco convincente (e que tem empatia!) e que faz o programa ser agradável e divertido.

O filme é despretensioso e algumas sequências são até inverossímeis, ou pelo menos improváveis – incluo aqui as do brutamontes que cobra dinheiro do versátil Alex Lippi (Romain Duris). Mas pagar não é o forte deste ótimo personagem. Sua especialidade é romper relacionamentos e ser pago por isso. Mas só aceita fazê-lo quando a mulher está infeliz; quando tudo vai bem, não quer arrasar corações. Mas como nem sempre as regras são seguidas na vida, surge uma missão de separar um casal apaixonado às vésperas do casamento. O pai de Juliette Van Der Becq (Vanessa Paradis, esposa de Johnny Depp) contrata Alex para que separe sua filha do noivo, em apenas 10 dias. Com ajuda da irmã (Julie Ferrier) e do cunhado (François Damiens), finge ser seu guarda-costas e cria as situações mais estapafúrdias, entre elas imita a sequência divertida da dança do filme Dirty Dancing, a preferida da noiva.

Pela reação da plateia, percebi que se divertiram. E eu também. Humor com sabor francês, nas belas paisagens do Marrocos e da Riviera Francesa, é a minha redenção depois de ter arrasado com Como Você Sabe, que continua em cartaz. É verdade que uma coisa não tem nada a ver com a outra, que são formatos e cinemas bastante diferentes. Mas se o objetivo é se divertir, Como Arrasar um Coração faz valer o ingresso do cinema.

 

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