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O PECADO DE HADEWIJCH – Hadewijch
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, França - 30/04/2011

DIREÇÃO e ROTEIRO: Bruno Dumont

ELENCO: Julie Sokolowski, Yassine Salime, David Dewaele, Karl Sarafidis

França, 2009 (120 min)

 

Deus não está nas caricaturas religiosas, definitivamente. A madre superior chega a essa sábia conclusão quando a noviça Cèline (Julie Sokolowski) exagera nas privações. Não come, não se protege do frio e insiste nas atitudes que beiram o martírio, como se isso fosse prova de fé. Não é – e essa é a grande questão aqui. O fanatismo religioso não encurta o caminho até Deus, seja a religião que for. A mesma madre superior também diz que não é preciso se afastar do mundo para encontrar o divino e Cèline tem de voltar para a sociedade que tanto traz à tona seus conflitos e dúvidas. É como se a freira a colocasse à prova: se conseguir ver, vivenciar, sentir Deus em tudo que é humano, corriqueiro, trivial, nas pequenas coisas, nas relações, na natureza, tem condições de voltar e exercer a sua vocação.

O tema é superinteressante, atual, pertinente. Mesmo porque, de volta ao mundo e à fria família, Cèline conhece dois irmãos muçulmanos e a procura também se estende ao Islã. A fé da menina não a conforta e se transforma em transtorno. O mais rico do filme são os diálogos entre o professor do islã e a noviça – se sentimos a ausência de Deus, é porque ele existe, diz o rapaz. Mas seu olhar vazio perturba um pouco, a força do silêncio faz refletir e pode cansar aqueles que querem mais ação. Não assisti aos outros filmes do diretor francês Bruno Dumont (A Vida de Jesus e Humanidade), mas sei que ele costuma tratar de questões profundas e existenciais, que mexem com a razão de ser das pessoas. Percebi. Aqui ele acompanha Cèline até o fundo do poço e deixa algumas cenas até desconexas e misteriosas.

Repare no final. Tenho meu palpite, mas confesso que fiquei na dúvida e não sei como o funcionário do convento se encaixa  na trama toda. Aliás, não sei quem vem primeiro: se é a conversa com o líder muçulmano e depois a decisão de entrar para o convento, ou vice-versa. Confuso como a cabeça e o coração de Cèline, talvez seja essa a intenção do diretor. Ou talvez seja assim que funcione a cabeça de quem vê na religião um ato fundamentalista e radical. O filme tem o ritmo francês, e um olhar, no mínimo, perturbador.

 

 

A MINHA VERSÃO DO AMOR – Barney’s Version
CLASSIFICAÇÃO: Para Ver Bem Acompanhado, Canadá - 29/04/2011

DIREÇÃO: Richard J. Lewis

ROTEIRO: Mordecai Richier e Michael Konyves

ELENCO: Paul Giamatti, Rosamund Pike, Minnie Dricer, Scott Speedman

Canadá, 2010 (132 min)

Cada um tem a sua versão do amor e dos acontecimentos, muitas vezes de acordo com o que convém enxergar naquele momento. A versão de Barney Panofsky é assim. Só sua. Ele faz e se desfazer dos casamentos, dos empregos, das amizades, das aventuras e desventuras durante anos. Acaba sendo beneficiado por esse temperamento apaixonado pela vida, mas ao mesmo tempo é vítima de um emocional que transborda o tempo todo, em todas as esferas.

Baseado no livro Barney’s Version, de Mordecai Richler, A Minha Versão do Amor passa pelos 40 anos da vida de Barney, desde sua juventude, suas liberdades, seus dois primeiros casamentos e seu verdadeiro
amor. Traça um panorama divertido, por vezes melancólico, mas sempre sensível da relação com a família, com o pai (o ótimo Dustin Hoffman, também em Tinha que Ser Você), com sua terceira esposa (Rosamund Pike), com os amigos, com suas escolhas e com aquilo que a saúde não o deixou escolher.

De extraordinária, a história não tem muita coisa. É uma história de vida e de um amor – portanto, sem medo de errar, para ver bem acompanhado. O que prende a atenção e acaba emocionando é o enfoque humano, a maneira como são mostradas as dificuldades de lidar com a perda, com o medo, com o ciúme, com a insegurança – sem falar que a escolha do ator Paul Giamatti para o papel dá veracidade e autenticidade ao que se vê na tela. E isso foi essencial. Seja qual for a sua  versão do amor, esteja certo que a de Barney é a que fez ele acreditar que tudo poderia dar certo. E é a versão dele que vai prender a sua atenção. O resto aqui não tem a menor importância.

REFLEXÕES DE UM LIQUIDIFICADOR
CLASSIFICAÇÃO: Para se Divertir, Brasil - 28/04/2011

DIREÇÃO: André Klotzel

ROTEIRO: José Antônio de Souza

ELENCO: Ana Lúcia Torre, Marcos Cesana, Germano Haiut, Aramis Trindade, Fabíula Nascimento, Selton Mello (liquidificador),

Brasil, 2010 (80 min)

À medida em que avançavam as confissões e reflexões daquele antigo liquidificador, mais eu me lembrava do ótimo filme, também brasileiro, É Proibido Fumar. As semelhanças, deixo suspensas para não estragar a surpresa. Mas posso dizer que a maneira divertida, inteligente e dissimulada com que ambos lidam com o humor negro e com o absurdo é realmente o que faz a diferença.

A começar pelo título e pelas imagens de Elvira, dona de casa que empalha animais nas horas vagas, carregando um liquidificador. Precisa ser muito bom para colocar um liquidificador falante e palpitador num longa, sem parecer piegas, brega ou, para dizer o mínimo, infantil. Aqui não tem nada disso. O eletrodoméstico ganha vida pela voz de nada menos que Selton Mello – portanto, imagine seu tom de voz, sua ironia, seu tom de camaradagem ao se tornar o confidente e melhor amigo de Elvira. Muito bem construído, o “personagem” – se é que podemos chamá-lo assim. Além de ser fundamental para a trama. Você saberá por quê. Mas o que o liquidificador e a dona de casa vivem é uma fase diferente de suas vidas, que vai mudar absolutamente tudo. O marido de Elvira sai um dia e não volta – estilo foi-comprar-cigarro-e-desapareceu. Ela faz o boletim de ocorrência, comunica o sumiço do marido e a polícia começa a investigação. Aí ficamos sabendo dos meandros da história, da vida da vizinha, do carteiro, do marido e do liquidificador – que também tem muito o que contar.

Fica a dica. Mas acho esse tipo de filme, descompromissado, que trabalha o humor de uma maneira despretensiosa, que lida com questões e sentimentos do dia a dia de uma maneira muito simples, uma maravilha. Dá leveza ao gênero, diverte e mostra como é difícil trabalhar temas aparentemente rasos de uma maneira delicada e subliminar. Aliás, a gente até se identifica com algumas questões. Ah, se as paredes falassem…

 

 

MINHA TERRA, ÁFRICA – White Material
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, França - 27/04/2011

DIREÇÃO: Claire Denis

ROTEIRO: Claire Denis, Marie N’Diaye, Lucie Borleteau

ELENCO: Isabelle Huppert, Isaach De Bankolé, Christopher Lambert, Nicolas Duvauchelle, William Nadylam, Adèle Ado, Daniel Tchangang, Michel Subor

França, 2009 (106 min)

“Cabelos loiros demais trazem azar; seus olhos azuis são problemáticos. É algo que desejamos destruir.”

“Seu filho nasceu aqui, mas esta não é a sua terra.”

– prefeito da cidade africana, dando o recado à francesa Maria Vial

White Material. Este é o título original e eu bem que queria que a tradução não fosse tão livre. A palavra ‘branco’ faz referência ao ponto principal da trama: a raça branca, colonizadora, pertence à África? Pode sentir-se parte do continente negro? Para os seus habitantes originais, a resposta é não. Os cabelos loiros são sinônimo de azar, os olhos azuis, significam problemas. Nesse país africano sem nome (nem precisa, representa vários deles em guerra civil e total intransigência), a família fazendeira branca não pertence à terra africana quando o que conta é a origem, a cor da pele, a força, as armas, a intimidação.

Quando explode a guerra civil entre forças milicianas do governo corrupto e forças rebeldes, o trabalho, a organização, a produção, o cuidado com a terra e com o ser humano se torna descartável. Prepondera o medo e a violência. A francesa Maria Vial (Isabelle Huppert) resiste, mas não tem mais como colher café. O exército francês foi embora, os empregados da fazenda fugiram, o medo provoca o silêncio e a conivência – ou a morte, para quem enfrenta. Minha Terra, África coloca lado a lado a coragem e a responsabilidade de uma única mulher em terra negra e machista, contra a covardia daqueles que pegam em armas, inibem, torturam e matam. As cenas do exército de crianças rebeldes, com armas em punho e espírito deturpado, são emblemáticas de uma África que recrutou sua infância em prol da ganância adulta. Cenas incríveis – e desoladoras.

O relato de Maria Vial sobre sua trajetória e seu fim é claro no seu semblante. De esperançosa e trabalhadora (aliás, as cenas da lida com o café são até poéticas), à amedrontada e esgotada, Maria não consegue enxergar a realidade e o perigo. Simboliza o material branco que carrega o estigma da colonização sem progresso, desenvolvimento, planejamento. E seu ex-marido (Christopher Lambert), representa os acordos escusos, o oportunismo. Com conflitos familiares extremos, jogo de interesses, falta de perspectiva e de mudança de visão, o filme é um impressionante relato de uma África que pouco conhecemos e pouco conseguimos imaginar. De tudo que se ouve e se lê sobre as crianças recrutadas por forças rebeldes para matar e morrer, aqui dá para olhar no olho desses pequenos grandes criminosos e sentir a extensão do caminho que esses povos têm que percorrer para tentar mudar alguma coisa. Se é que há um caminho…


 

 

CLOSER – PERTO DEMAIS – Closer
CLASSIFICAÇÃO: Para Ver Bem Acompanhado, Estados Unidos, Drama - 26/04/2011

DIREÇÃO: Mike Nichols

ROTEIRO: Patrick Marber

ELENCO: Natalie Portman, Jude Law, Clive Owen, Julia Roberts

“Por que o amor nunca é suficiente?”

 

São muitas as colocações controversas, fortes, contundentes. Mas perguntar por que o amor não é suficiente para que um relacionamento seja duradouro, respeitoso, saudável e fiel é, para dizer o mínimo, perturbador. Como assim não basta? Então não pode ser amor. Depois de rever Closer, ficou claro que a principal proposição do diretor Mike Nichols é nos fazer essa pergunta e nos fazer refletir diante desse mundo imediatista, virtual e impaciente em que vivemos.

Closer – Perto Demais conta a história de quatro personagens, numa narrativa só. A stripper americana Alice (Natalie Portaman, também em Cisne Negro, Nova York, Eu Te Amo), a insegura fotógrafa Anna (Julia Roberts, também em Comer, Rezar, Amar), do escritor frustrado Dan (Jude Law) e o médico pervertido Larry (Clive Owen) entrelaçam suas vidas de uma maneira tal que parece que se tornam dependentes das decisões do outro para seguir adiante, que querem tudo e nada ao mesmo tempo, que se parecem nas suas próprias incertezas e infantilidades, que valorizam o estranho. Do lado de cá, fiquei com a sensação os personagens estão perto demais para conseguir separar o que é deles mesmos, o que é do outro. Aflitivo pensar obre isso, sobretudo considerando a era da imagem em que vivemos, da aproximação inevitável pela internet, pelas comunicações, pela valorização do ter e do prazer.

Com a linda trilha sonora de fundo (principalmente a canção The Blowers Daughter, de Damien Rice), Anna e Dan são o lado fraco, vulnerável; gosto mais dos personagens Alice e Larry. São fortes e ao menos coerentes – a atuação brilhante lhes rendeu o Globo de Ouro pelo papel. Eu diria ainda que Alice é quem instiga, tumultua; que seu estilo camaleoa faz pairar ainda mais a pergunta sobre o amor. Ou seriam vários amores, ou nenhum, ou aquele que convém? Closer é um perigoso e inteligente retrato de relações perturbadas. Descartáveis.

 

BEBÊS – Babies
CLASSIFICAÇÃO: Para se Divertir, França, Documentário - 20/04/2011

DIREÇÃO: Thomas Balmès

ROTEIRO: Thomas Balmès e Alain Chabat

França, 2010 (79 min)

Além dos quatro graciosos bebês, há dois elementos interessantíssimos neste documentário: o primeiro é o olhar sensível do diretor na escolha das imagens, ângulos, significados; o outro está justamente na ausência de texto, de fala, de narrador, de explicação. O filme Bebês prescinde de palavras. No lugar delas, compondo com as imagens, está a linguagem da linda fotografia e da suave e alegre trilha sonora. Elas constroem o ambiente de cada uma dessas crianças, cada uma em seu canto do mundo.

A ideia do projeto é bastante simples. O resultado, um panorama inteligente, engraçado e curioso das diferenças raciais e geográficas, das culturas antagônicas, das belezas naturais do mundo. Pensando bem, acho que acima das diferenças, o filme mostra as semelhanças entre os bebês no seu ambiente familiar de amor, carinho, cuidado, descobertas, frustrações, conquistas, crescimento. São quatro os atores, escolhidos pela equipe de produção que os acompanhou desde o nascimento até o seu primeiro ano de vida  - e consequentes primeiros passos.

Seja nos Estados Unidos, Namíbia, Mongólia ou Japão, os bebês crescem, experimentam aquilo que o ambiente proporciona, desenvolvem as habilidades que cada família valoriza, crescem incorporando a cultura que cada povo carrega. Não há muito mais o que dizer. A experiência do documentário é sensitiva e vale a pena ser vista. Claro, se você gostar de bebês. Mas mesmo se não for o caso, encare pelo panorama da diversidade e aceitação, pelo ponto de vista da escolha e edição de imagens, pela riqueza presente na ausência de palavras. Assim como o primeiro ano da vida de um bebê: apenas os cinco sentidos.

TURNÊ – Tournée
CLASSIFICAÇÃO: Para se Divertir, França - 19/04/2011

DIREÇÃO: Mathieu Amalric

ROTEIRO: Mathieu Amalric, Philippe Di Folco, Marcelo Novais Teles, Raphaëlle Valbrune

ELENCO: Mathieu Amalric, Miranda Colclasure, Suzanne Ramsey, Ângela de Lorenzo, Dirty Martini

França, 2010 (111 min)

O que hoje é chamado burlesco tem suas origens na comédia italiana de improviso, a commedia dell’arte, no século 16. Ganhou os cabarés parisienses na Belle Époque e atravessou o Atlântico, onde ganhou também a característica do striptease, com aquele toque, a meu ver, mais grotesco do que artístico. Interessante saber que as atrizes do filme são realmente mulheres do teatro burlesco, em carne e osso. Elas representam elas mesmas, dirigidas pelo também ator Mathieu Almaric (também em O Escafandro e a Borboleta, A Questão HumanaMunique, Ervas Daninhas), premiado em Cannes pela direção deste filme.

A turnê do título se refere justamente aos espetáculos que essa trupe de mulheres americanas faz na França, lideradas pelo ex-produtor de televisão francês Joachin Zand (Mathieu Almaric). Depois de uma temporada fracassada nos Estados Unidos, Joachin volta à França, ancorado na possibilidade de fazer sucesso com os espetáculos em várias cidades pequenas, terminando com chave de ouro em Paris. Basicamente, o enredo é esse. Pensando no filme, tracei um paralelo entre a figura dessas mulheres - que, quer você queira, quer não, são uma clara ironia ao padrão de beleza, à estética associada à sensualidade, ao consumo por esse tipo de espetáculo – e a realidade da vida, a dificuldade das relações, a solidão. O próprio Joachin não se encaixa em lugar nenhum, não consegue se comunicar com o irmão, pai e filhos, sente-se perdido, preso nos seus feitos e erros do passado, afunda-se na ilusão de uma turnê de sucesso.

Quando penso naquelas mulheres, tenho a sensação de algo desatualizado, previsível, vulgar, fora de moda – assim como os lugares por onde passam, principalmente o último hotel, degradado, abandonado. Com todos esses aspectos, Almaric consegue trazer à tona o lado humano dos personagens e suas angústias, usa dos exageros do burlesco para desmascar e desnudar a alma dos atores, deixando em segundo plano esse apelo à sexualidade. Talvez tenha sido premiado por isso, não sei. Mas não acho que era para tanto. Turnê é bem interessante, o elenco é ótimo, mas acho que não agrada a todos. Ao sair do filme, algumas pessoas comentavam que assistiram ao trailer e que achavam que se tratava de uma comédia. Ledo engano. É uma paródia burlesca sem floreios, mas com um olhar humano. Repare que você verá o filme sob o prisma de quem está nos bastidores, seja no palco, seja no panorama da vida da personagens. A representação fica para segundo plano. Gosto desse prisma - dá sentido às reflexões que o filme suscita.


UM LUGAR QUALQUER – Somewhere
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Estados Unidos - 18/04/2011

DIREÇÃO e ROTEIRO: Sofia Coppola

ELENCO: Stephen Dorff, Elle Fanning, Michelle Monaghan, Laura Ramsey

Estados Unidos, 2010 (min)

Autobiográfico ou não, imagino que Sofia Coppola tenha experiência de sobra para falar sobre a vida itinerante, vazia e entediante das estrelas de cinema. Filha do cineasta Francis Ford Coppola (da trilogia O Poderoso Chefão e Tetro), passou a vida acompanhando o trabalho do pai, convivendo com a produção de seus filmes e com a dinâmica do dia a dia de Hollywood. O que para nós, espectadores, pode parecer glamour e tapete vermelho, para quem está do outro não é bem assim. Aliás, não é em profissão nenhuma – mas isso é assunto para outro dia. O que está em voga aqui é que Sofia Coppola mostra, de uma maneira muito sensível, que a vida de um grande ator, aclamado, endeusado e rico, pode ser coberta de tédio, bebidas, drogas, badalações, jogo de interesse e muitas frustrações. Durante o filme todo achei que ela contava a história pelo ponto de Cleo (Elle Fanning, também em Babel), filha do ator Johnny Marco (Stephen Dorff), e portanto, do ponto de vista dela, filha de um grande cineasta de Hollywood. Talvez seja por causa do olhar feminino que tem o filme.

Um Lugar Qualquer, vencedor do Leão de Ouro em Veneza em 2010, tem dois momentos claros que se completam. Primeiro vem a percepção do vazio da vida de Johnny Marco e da sua superficialidade, tanto na formação de ator, quando afirma que não estudou para chegar ao sucesso, quanto na entrevista coletiva, quando não sabe dizer quem ele realmente é. São as tomadas da rotina de Marco, que zanza por Los Angeles sem rumo no seu carro de luxo, que dorme ao assistir as dançarinas, que não tem hobbies, que acata as determinações de sua agente sem questionamento ou participação, que imprimem no astro o estilo “marionete” a serviço da fama e do dinheiro.

O segundo momento é  a chegada da sua filha Cleo, que traz à tona a vida sentimental, em tudo o que ela remete: no cuidar, no divertir-se, no passar o tempo, no conversar. O sentimento preenche o vazio e os dois momentos do filme se fundem e se completam. É como se a realidade daquele ator pudesse existir em qualquer lugar, assim como muitas pessoas exercem suas profissões de maneira sistemática, mecânica, sem emoção, como maneira de ganhar a vida, desde que tivesse seu contraponto de emoção, sentimento, família, realização pessoal. Assim, estaria pleno. O momento da piscina, em que os dois estão descansando, passa essa sensação da plenitude, da profissão como meio de vida, e não como meio para o sucesso, a realização pessoal, para a fama. Passa a sensação de que o essencial é simples, é singelo – como um banho de sol. Concordo com as críticas de que o final é ingênuo. É sim, não precisava. Mesmo por que o que Sofia Coppola mostra no final já dá para perceber desde o começo. Poderia ter deixado o óbvio subentendido, porque o essencial ela consegue passar com muita competência.

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