cinegarimpo

abril, 2011

O PECADO DE HADEWIJCH – Hadewijch
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, França - 30/04/2011

DIREÇÃO e ROTEIRO: Bruno Dumont

ELENCO: Julie Sokolowski, Yassine Salime, David Dewaele, Karl Sarafidis

França, 2009 (120 min)

 

Deus não está nas caricaturas religiosas, definitivamente. A madre superior chega a essa sábia conclusão quando a noviça Cèline (Julie Sokolowski) exagera nas privações. Não come, não se protege do frio e insiste nas atitudes que beiram o martírio, como se isso fosse prova de fé. Não é – e essa é a grande questão aqui. O fanatismo religioso não encurta o caminho até Deus, seja a religião que for. A mesma madre superior também diz que não é preciso se afastar do mundo para encontrar o divino e Cèline tem de voltar para a sociedade que tanto traz à tona seus conflitos e dúvidas. É como se a freira a colocasse à prova: se conseguir ver, vivenciar, sentir Deus em tudo que é humano, corriqueiro, trivial, nas pequenas coisas, nas relações, na natureza, tem condições de voltar e exercer a sua vocação.

O tema é superinteressante, atual, pertinente. Mesmo porque, de volta ao mundo e à fria família, Cèline conhece dois irmãos muçulmanos e a procura também se estende ao Islã. A fé da menina não a conforta e se transforma em transtorno. O mais rico do filme são os diálogos entre o professor do islã e a noviça – se sentimos a ausência de Deus, é porque ele existe, diz o rapaz. Mas seu olhar vazio perturba um pouco, a força do silêncio faz refletir e pode cansar aqueles que querem mais ação. Não assisti aos outros filmes do diretor francês Bruno Dumont (A Vida de Jesus e Humanidade), mas sei que ele costuma tratar de questões profundas e existenciais, que mexem com a razão de ser das pessoas. Percebi. Aqui ele acompanha Cèline até o fundo do poço e deixa algumas cenas até desconexas e misteriosas.

Repare no final. Tenho meu palpite, mas confesso que fiquei na dúvida e não sei como o funcionário do convento se encaixa  na trama toda. Aliás, não sei quem vem primeiro: se é a conversa com o líder muçulmano e depois a decisão de entrar para o convento, ou vice-versa. Confuso como a cabeça e o coração de Cèline, talvez seja essa a intenção do diretor. Ou talvez seja assim que funcione a cabeça de quem vê na religião um ato fundamentalista e radical. O filme tem o ritmo francês, e um olhar, no mínimo, perturbador.

 

 

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A MINHA VERSÃO DO AMOR – Barney’s Version
CLASSIFICAÇÃO: Para Ver Bem Acompanhado, Canadá - 29/04/2011

DIREÇÃO: Richard J. Lewis

ROTEIRO: Mordecai Richier e Michael Konyves

ELENCO: Paul Giamatti, Rosamund Pike, Minnie Dricer, Scott Speedman

Canadá, 2010 (132 min)

Cada um tem a sua versão do amor e dos acontecimentos, muitas vezes de acordo com o que convém enxergar naquele momento. A versão de Barney Panofsky é assim. Só sua. Ele faz e se desfazer dos casamentos, dos empregos, das amizades, das aventuras e desventuras durante anos. Acaba sendo beneficiado por esse temperamento apaixonado pela vida, mas ao mesmo tempo é vítima de um emocional que transborda o tempo todo, em todas as esferas.

Baseado no livro Barney’s Version, de Mordecai Richler, A Minha Versão do Amor passa pelos 40 anos da vida de Barney, desde sua juventude, suas liberdades, seus dois primeiros casamentos e seu verdadeiro
amor. Traça um panorama divertido, por vezes melancólico, mas sempre sensível da relação com a família, com o pai (o ótimo Dustin Hoffman, também em Tinha que Ser Você), com sua terceira esposa (Rosamund Pike), com os amigos, com suas escolhas e com aquilo que a saúde não o deixou escolher.

De extraordinária, a história não tem muita coisa. É uma história de vida e de um amor – portanto, sem medo de errar, para ver bem acompanhado. O que prende a atenção e acaba emocionando é o enfoque humano, a maneira como são mostradas as dificuldades de lidar com a perda, com o medo, com o ciúme, com a insegurança – sem falar que a escolha do ator Paul Giamatti para o papel dá veracidade e autenticidade ao que se vê na tela. E isso foi essencial. Seja qual for a sua  versão do amor, esteja certo que a de Barney é a que fez ele acreditar que tudo poderia dar certo. E é a versão dele que vai prender a sua atenção. O resto aqui não tem a menor importância.

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REFLEXÕES DE UM LIQUIDIFICADOR
CLASSIFICAÇÃO: Para se Divertir, Brasil - 28/04/2011

DIREÇÃO: André Klotzel

ROTEIRO: José Antônio de Souza

ELENCO: Ana Lúcia Torre, Marcos Cesana, Germano Haiut, Aramis Trindade, Fabíula Nascimento, Selton Mello (liquidificador),

Brasil, 2010 (80 min)

À medida em que avançavam as confissões e reflexões daquele antigo liquidificador, mais eu me lembrava do ótimo filme, também brasileiro, É Proibido Fumar. As semelhanças, deixo suspensas para não estragar a surpresa. Mas posso dizer que a maneira divertida, inteligente e dissimulada com que ambos lidam com o humor negro e com o absurdo é realmente o que faz a diferença.

A começar pelo título e pelas imagens de Elvira, dona de casa que empalha animais nas horas vagas, carregando um liquidificador. Precisa ser muito bom para colocar um liquidificador falante e palpitador num longa, sem parecer piegas, brega ou, para dizer o mínimo, infantil. Aqui não tem nada disso. O eletrodoméstico ganha vida pela voz de nada menos que Selton Mello – portanto, imagine seu tom de voz, sua ironia, seu tom de camaradagem ao se tornar o confidente e melhor amigo de Elvira. Muito bem construído, o “personagem” – se é que podemos chamá-lo assim. Além de ser fundamental para a trama. Você saberá por quê. Mas o que o liquidificador e a dona de casa vivem é uma fase diferente de suas vidas, que vai mudar absolutamente tudo. O marido de Elvira sai um dia e não volta – estilo foi-comprar-cigarro-e-desapareceu. Ela faz o boletim de ocorrência, comunica o sumiço do marido e a polícia começa a investigação. Aí ficamos sabendo dos meandros da história, da vida da vizinha, do carteiro, do marido e do liquidificador – que também tem muito o que contar.

Fica a dica. Mas acho esse tipo de filme, descompromissado, que trabalha o humor de uma maneira despretensiosa, que lida com questões e sentimentos do dia a dia de uma maneira muito simples, uma maravilha. Dá leveza ao gênero, diverte e mostra como é difícil trabalhar temas aparentemente rasos de uma maneira delicada e subliminar. Aliás, a gente até se identifica com algumas questões. Ah, se as paredes falassem…

 

 

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MINHA TERRA, ÁFRICA – White Material
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, França - 27/04/2011

DIREÇÃO: Claire Denis

ROTEIRO: Claire Denis, Marie N’Diaye, Lucie Borleteau

ELENCO: Isabelle Huppert, Isaach De Bankolé, Christopher Lambert, Nicolas Duvauchelle, William Nadylam, Adèle Ado, Daniel Tchangang, Michel Subor

França, 2009 (106 min)

“Cabelos loiros demais trazem azar; seus olhos azuis são problemáticos. É algo que desejamos destruir.”

“Seu filho nasceu aqui, mas esta não é a sua terra.”

– prefeito da cidade africana, dando o recado à francesa Maria Vial

White Material. Este é o título original e eu bem que queria que a tradução não fosse tão livre. A palavra ‘branco’ faz referência ao ponto principal da trama: a raça branca, colonizadora, pertence à África? Pode sentir-se parte do continente negro? Para os seus habitantes originais, a resposta é não. Os cabelos loiros são sinônimo de azar, os olhos azuis, significam problemas. Nesse país africano sem nome (nem precisa, representa vários deles em guerra civil e total intransigência), a família fazendeira branca não pertence à terra africana quando o que conta é a origem, a cor da pele, a força, as armas, a intimidação.

Quando explode a guerra civil entre forças milicianas do governo corrupto e forças rebeldes, o trabalho, a organização, a produção, o cuidado com a terra e com o ser humano se torna descartável. Prepondera o medo e a violência. A francesa Maria Vial (Isabelle Huppert) resiste, mas não tem mais como colher café. O exército francês foi embora, os empregados da fazenda fugiram, o medo provoca o silêncio e a conivência – ou a morte, para quem enfrenta. Minha Terra, África coloca lado a lado a coragem e a responsabilidade de uma única mulher em terra negra e machista, contra a covardia daqueles que pegam em armas, inibem, torturam e matam. As cenas do exército de crianças rebeldes, com armas em punho e espírito deturpado, são emblemáticas de uma África que recrutou sua infância em prol da ganância adulta. Cenas incríveis – e desoladoras.

O relato de Maria Vial sobre sua trajetória e seu fim é claro no seu semblante. De esperançosa e trabalhadora (aliás, as cenas da lida com o café são até poéticas), à amedrontada e esgotada, Maria não consegue enxergar a realidade e o perigo. Simboliza o material branco que carrega o estigma da colonização sem progresso, desenvolvimento, planejamento. E seu ex-marido (Christopher Lambert), representa os acordos escusos, o oportunismo. Com conflitos familiares extremos, jogo de interesses, falta de perspectiva e de mudança de visão, o filme é um impressionante relato de uma África que pouco conhecemos e pouco conseguimos imaginar. De tudo que se ouve e se lê sobre as crianças recrutadas por forças rebeldes para matar e morrer, aqui dá para olhar no olho desses pequenos grandes criminosos e sentir a extensão do caminho que esses povos têm que percorrer para tentar mudar alguma coisa. Se é que há um caminho…


 

 

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BEBÊS – Babies
CLASSIFICAÇÃO: Para se Divertir, França, Documentário - 20/04/2011

DIREÇÃO: Thomas Balmès

ROTEIRO: Thomas Balmès e Alain Chabat

França, 2010 (79 min)

Além dos quatro graciosos bebês, há dois elementos interessantíssimos neste documentário: o primeiro é o olhar sensível do diretor na escolha das imagens, ângulos, significados; o outro está justamente na ausência de texto, de fala, de narrador, de explicação. O filme Bebês prescinde de palavras. No lugar delas, compondo com as imagens, está a linguagem da linda fotografia e da suave e alegre trilha sonora. Elas constroem o ambiente de cada uma dessas crianças, cada uma em seu canto do mundo.

A ideia do projeto é bastante simples. O resultado, um panorama inteligente, engraçado e curioso das diferenças raciais e geográficas, das culturas antagônicas, das belezas naturais do mundo. Pensando bem, acho que acima das diferenças, o filme mostra as semelhanças entre os bebês no seu ambiente familiar de amor, carinho, cuidado, descobertas, frustrações, conquistas, crescimento. São quatro os atores, escolhidos pela equipe de produção que os acompanhou desde o nascimento até o seu primeiro ano de vida  – e consequentes primeiros passos.

Seja nos Estados Unidos, Namíbia, Mongólia ou Japão, os bebês crescem, experimentam aquilo que o ambiente proporciona, desenvolvem as habilidades que cada família valoriza, crescem incorporando a cultura que cada povo carrega. Não há muito mais o que dizer. A experiência do documentário é sensitiva e vale a pena ser vista. Claro, se você gostar de bebês. Mas mesmo se não for o caso, encare pelo panorama da diversidade e aceitação, pelo ponto de vista da escolha e edição de imagens, pela riqueza presente na ausência de palavras. Assim como o primeiro ano da vida de um bebê: apenas os cinco sentidos.

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TURNÊ – Tournée
CLASSIFICAÇÃO: Para se Divertir, França - 19/04/2011

DIREÇÃO: Mathieu Amalric

ROTEIRO: Mathieu Amalric, Philippe Di Folco, Marcelo Novais Teles, Raphaëlle Valbrune

ELENCO: Mathieu Amalric, Miranda Colclasure, Suzanne Ramsey, Ângela de Lorenzo, Dirty Martini

França, 2010 (111 min)

O que hoje é chamado burlesco tem suas origens na comédia italiana de improviso, a commedia dell’arte, no século 16. Ganhou os cabarés parisienses na Belle Époque e atravessou o Atlântico, onde ganhou também a característica do striptease, com aquele toque, a meu ver, mais grotesco do que artístico. Interessante saber que as atrizes do filme são realmente mulheres do teatro burlesco, em carne e osso. Elas representam elas mesmas, dirigidas pelo também ator Mathieu Almaric (também em O Escafandro e a Borboleta, A Questão HumanaMunique, Ervas Daninhas), premiado em Cannes pela direção deste filme.

A turnê do título se refere justamente aos espetáculos que essa trupe de mulheres americanas faz na França, lideradas pelo ex-produtor de televisão francês Joachin Zand (Mathieu Almaric). Depois de uma temporada fracassada nos Estados Unidos, Joachin volta à França, ancorado na possibilidade de fazer sucesso com os espetáculos em várias cidades pequenas, terminando com chave de ouro em Paris. Basicamente, o enredo é esse. Pensando no filme, tracei um paralelo entre a figura dessas mulheres – que, quer você queira, quer não, são uma clara ironia ao padrão de beleza, à estética associada à sensualidade, ao consumo por esse tipo de espetáculo – e a realidade da vida, a dificuldade das relações, a solidão. O próprio Joachin não se encaixa em lugar nenhum, não consegue se comunicar com o irmão, pai e filhos, sente-se perdido, preso nos seus feitos e erros do passado, afunda-se na ilusão de uma turnê de sucesso.

Quando penso naquelas mulheres, tenho a sensação de algo desatualizado, previsível, vulgar, fora de moda – assim como os lugares por onde passam, principalmente o último hotel, degradado, abandonado. Com todos esses aspectos, Almaric consegue trazer à tona o lado humano dos personagens e suas angústias, usa dos exageros do burlesco para desmascar e desnudar a alma dos atores, deixando em segundo plano esse apelo à sexualidade. Talvez tenha sido premiado por isso, não sei. Mas não acho que era para tanto. Turnê é bem interessante, o elenco é ótimo, mas acho que não agrada a todos. Ao sair do filme, algumas pessoas comentavam que assistiram ao trailer e que achavam que se tratava de uma comédia. Ledo engano. É uma paródia burlesca sem floreios, mas com um olhar humano. Repare que você verá o filme sob o prisma de quem está nos bastidores, seja no palco, seja no panorama da vida da personagens. A representação fica para segundo plano. Gosto desse prisma – dá sentido às reflexões que o filme suscita.


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UM LUGAR QUALQUER – Somewhere
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Estados Unidos - 18/04/2011

DIREÇÃO e ROTEIRO: Sofia Coppola

ELENCO: Stephen Dorff, Elle Fanning, Michelle Monaghan, Laura Ramsey

Estados Unidos, 2010 (min)

Autobiográfico ou não, imagino que Sofia Coppola tenha experiência de sobra para falar sobre a vida itinerante, vazia e entediante das estrelas de cinema. Filha do cineasta Francis Ford Coppola (da trilogia O Poderoso Chefão e Tetro), passou a vida acompanhando o trabalho do pai, convivendo com a produção de seus filmes e com a dinâmica do dia a dia de Hollywood. O que para nós, espectadores, pode parecer glamour e tapete vermelho, para quem está do outro não é bem assim. Aliás, não é em profissão nenhuma – mas isso é assunto para outro dia. O que está em voga aqui é que Sofia Coppola mostra, de uma maneira muito sensível, que a vida de um grande ator, aclamado, endeusado e rico, pode ser coberta de tédio, bebidas, drogas, badalações, jogo de interesse e muitas frustrações. Durante o filme todo achei que ela contava a história pelo ponto de Cleo (Elle Fanning, também em Babel), filha do ator Johnny Marco (Stephen Dorff), e portanto, do ponto de vista dela, filha de um grande cineasta de Hollywood. Talvez seja por causa do olhar feminino que tem o filme.

Um Lugar Qualquer, vencedor do Leão de Ouro em Veneza em 2010, tem dois momentos claros que se completam. Primeiro vem a percepção do vazio da vida de Johnny Marco e da sua superficialidade, tanto na formação de ator, quando afirma que não estudou para chegar ao sucesso, quanto na entrevista coletiva, quando não sabe dizer quem ele realmente é. São as tomadas da rotina de Marco, que zanza por Los Angeles sem rumo no seu carro de luxo, que dorme ao assistir as dançarinas, que não tem hobbies, que acata as determinações de sua agente sem questionamento ou participação, que imprimem no astro o estilo “marionete” a serviço da fama e do dinheiro.

O segundo momento é  a chegada da sua filha Cleo, que traz à tona a vida sentimental, em tudo o que ela remete: no cuidar, no divertir-se, no passar o tempo, no conversar. O sentimento preenche o vazio e os dois momentos do filme se fundem e se completam. É como se a realidade daquele ator pudesse existir em qualquer lugar, assim como muitas pessoas exercem suas profissões de maneira sistemática, mecânica, sem emoção, como maneira de ganhar a vida, desde que tivesse seu contraponto de emoção, sentimento, família, realização pessoal. Assim, estaria pleno. O momento da piscina, em que os dois estão descansando, passa essa sensação da plenitude, da profissão como meio de vida, e não como meio para o sucesso, a realização pessoal, para a fama. Passa a sensação de que o essencial é simples, é singelo – como um banho de sol. Concordo com as críticas de que o final é ingênuo. É sim, não precisava. Mesmo por que o que Sofia Coppola mostra no final já dá para perceber desde o começo. Poderia ter deixado o óbvio subentendido, porque o essencial ela consegue passar com muita competência.

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HOMENS E DEUSES – Des Hommes et Des Dieux
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Para Entender o Nosso Mundo, Garimpo na Locadora, França - 13/04/2011

Os monges da Ordem Trapista são beneditinos, vivem em mosteiros, mas levam uma vida integrada à comunidade local. Fazem seus votos de castidade, pobreza e obediência, como as outras ordens cristãs, e seguem o princípio fundamental da Regra de São Bento, o ora et labora, ou seja, têm a vida pautada pela contemplação a Deus, pela oração e pelo trabalho. Saber de tudo isso ajuda a entender Homens e Deuses de uma maneira mais completa e complexa. A extrema beleza do filme está nesse exercício de fé que os monges franceses fazem ao se depararem com uma questão de vida ou morte: permanecer desarmados e desprotegidos no mosteiro em Tibhirine, nas montanhas da Argélia, e cumprir sua missão, ou render-se à pressão dos muçulmanos extremistas, que queriam tomar o poder através da violência.

Ouvir os cânticos que contam essa história real é maravilhoso. E digo isso pela beleza que tem, não só a harmonia musical em si, mas também o que se canta, o que se pede, o que se reza durante as orações. Digo isso pela universalidade da oração, pelo sentido ecumênico do ato de rezar. Quando os monges oram, trabalham em prol da comunidade local muçulmana, plantam, colhem, preparam seu próprio alimento e comercializam aquilo que produzem, mostram a essência do trabalho missionário – apesar dos pesares. E os pesares aqui não são poucos. Naquele ano de 1996, os oito monges que vivem na Argélia, veem sua paz e seu trabalho ameaçado pelos violentos insurgentes muçulmanos em plena guerra civil, que aterrorizam não só os cristãos, mas a comunidade muçulmana como um todo e outros grupos estrangeiros instalados no país.

Vencedor do Grande Prêmio do Júri em Cannes em 2010, o título Homens e Deuses é apropriadíssimo. Deixa bem claro o que é obra do homem, o que é obra de Deus – tenha Deus, aqui, o nome que você quiser dar. Deus aqui é paz, convivência, harmonia, troca, serviço. Homem é ambição, ganância, vingança, violência. Toda essa linguagem é magistralmente orquestrada pela luz que entra na capela, pela escuridão que permeia o mosteiro nos momentos de dúvida e dor; pelos monges rezando juntos na capela, representando a união religiosa, ou sentados à mesa mostrando suas individualidades e angústias agora enquanto seres humanos. O desfecho dessa história é, até hoje, controverso e misterioso. Mas a emoção de Homens e Deuses é bem clara. E universal.

DIREÇÃO: Xavier Beauvois ROTEIRO: Etienne Comar, Xavier Beauvois ELENCO: Lambert Wilson, Michael Lonsdale, Olivier Rabourdin, Philippe Laudenbach, Jacques Herlin, Loïc Pichon, Xavier Maly | 2010 (120 min)

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TEATRO – NEW YORK, NEW YORK
CLASSIFICAÇÃO: Para se Divertir, Dicas Afins, Brasil - 13/04/2011

O que começou há três anos com um simples email para Earl Mac Rauch, autor do livro NewYork, New York publicado por em 1977 e eternizado no cinema com o musical homônimo de Martin Scorsese (também de A Ilha do Medo), com Liza Minnelli e Robert De Niro, virou produção teatral em São Paulo. Quando o maestro e produtor Fábio Gomes de Oliveira e a cantora Julianne Daud (que faz Carmem Miranda) tiveram a ideia para o projeto, tentar o contato com o autor da obra pareceu-lhes o caminho mais lógico. Mas achei curioso o fato de uma simples mensagem eletrônica, dentre as tantas que circulam diariamente nas caixas postais, ter sido lida, levada a sério e efetivamente ter rendido frutos como os que vi ontem na pré-estreia. Além de lindo e cuidadosamente produzido, o espetáculo é um passeio pelo pós-guerra, pelo figurino de época e principalmente pelas canções clássicas, muitas delas eternizadas pela voz de Frank Sinatra, como New York, New YorkMy Way,  além de sucessos de Charlie Parker, Cole Porter, Tommy Dorsey, Benny Goodman e Glenn Miller. Portanto, impossível não cantarolar junto – o que cria, é claro, uma proximidade com o espetáculo e uma certa, nostalgia dos tempos das Big Bands de jazz.

Isso por que a história se passa no pós-segunda guerra. Os Aliados são os vencedores, Nova York está em festa e o saxofonista Johnny Boyle (Juan Alba) conhece a cantora Francine Evans (Alessandra Maestrini). Os encontros e desencontros são inevitáveis e são preenchidos, com muita harmonia, com músicas das décadas de 30 a 50. Gostei especialmente da adaptação do texto. Numa obra como essa, cheia de referências locais, introduzir elementos que façam o público se identificar, usar uma linguagem atual e coloquial, além do indispensável humor, é fundamental. Para quem gosta do gênero musical e quer relembrar o tempo das grandes orquestras, New York, New York enche os olhos com a cenografia e a dança e os sentidos com o sapateado e as vozes.

Direção e Encenação: José Possi Neto
Direção Musical: Maestro Fábio Gomes de Oliveira

Para mais informações: www.newyorknewyork.com.br

Onde: Teatro Bradesco – Bourbon Shopping (R. Turiassú, 2100 )
Quando: de 14 de abril a 3 de julho

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DZI CROQUETTES
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, Brasil - 10/04/2011

DIREÇÃO: Raphael Alvarez e Tatiana Issa

ELENCO: Gilberto Gil, Pedro Cardoso, Miguel Falabella, Claudia Raia, Marília Pera, Nelson Motta, Elke Maravilha, Ney Matogrosso, Norma Bengell, Liza Minelli, César Camargo Mariano

Brasil, 2009 (110 min)

Nome no mínimo curioso. Dzi Croquette. Confesso que não fazia parte do meu repertório, até porque fez sucesso na década de 70 – eu era pequena demais para acompanhar e não era algo com apelo infantil, para dizer o mínimo. Mas o significado que o grupo carrega e todo o contexto que vem com ele não é, nem de longe, o que o grupo parecia ser no palco: 13 rapazes gays, vestidos de mulher, exageradamente maquiados, com figurino extremamente coloridos, embora escassos por estarem praticamente nus. Os Dzi Croquetes fizeram teatro, cantaram, dançaram com originalidade e um certo nonsense, origem do besteirol (como eles mesmos dizem no documentário) – mas só aparentemente. Em plenos anos de chumbo da ditadura brasileira, em que toda manifestação de arte foi fortemente reprimida e censurada, o grupo cantava em francês e inglês, além do português, fazia humor irreverente, dançava muito e quebrava padrões, tabus e preconceitos.  

Foi pelo filme que fiquei sabendo da importância desse movimento em vários setores da vida artística e social brasileiras. Nas artes, os depoimentos de artistas como Claudia Raia, Miguel Falabella, Pedro Cardoso, Nelson Motta mostram como os Dzi influenciaram a maneira de agir das pessoas (muito sufocadas pela direita), permitindo que se soltassem, que vivessem a emoção dos espetáculos. Foi importante, inclusive, para a trajetória dos homossexuais brasileiros. Deve ter sido mesmo. Vendo as gravações dos programas, fiquei imaginando a reação da fatia da sociedade mais tradicional. Inclusive a censura ficou confusa. Acostumada a encontrar contraversão em manifestações artísticas ingênuas, viu no nu do Dzi Croquettes uma afronta. Mas não conseguiu achar nada de obscuro além do nu e o grupo continuou apresentando-se e fazendo seguidores. O sucesso foi nos anos 70, inclusive internacionalmente. Mas foi no início dos anos 80, quando o “câncer gay” (como era chamada a Aids na época) começou a aparecer, quando alguns de seus membros padeceram da doença e as drogas passaram a ocupar uma fatia grande demais da vida deles que o grupo se dissolveu. Dos 13 membros, 5 estão vivos e atuantes no campo das artes cênicas e musicais.

Foi inspirado neles que surgiu o grupo As Frenéticas. Delas sim, tenho meus registros – era época de Dancing Days. Se não tivesse assistido ao documentário, não arriscaria uma sugestão para a origem do nome do grupo. O nome vem de uma ideia simples: croquetes eram todos eles, formados de carne; “dzi” foi uma tentativa de registrar a sonorização do artigo “the” em inglês. Portanto, seria algo como “Os Croquetes” – o que não soaria tão original. Ganhou uma dimensão bem maior traduzida nesse idioma próprio do grupo, com identidade, coragem, ineditismo e, por que não, estranheza. A emoção nos depoimentos dá um pouco da importância e influência do grupo na maneira de pensar e fazer a arte no Brasil. Considerado o melhor documentário brasileiro nos festivais do Rio e São Paulo em 2010, vale a pena o registro.

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