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fevereiro, 2011

POESIA – Shi
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Drama, Coreia do Sul - 28/02/2011

 

DIREÇÃO e ROTEIRO : Lee Chang-dong

ELENCO: Yoon Jeong-hee, Ahn Nae-sang, Kim Hira, Lee Da-wit

Coreia do Sul, 2010 (139 min)

Este filme sul-coreano venceu o prêmio de melhor roteiro em Cannes em 2010, mas teria sido melhor se Yoon Jeong-hee tivesse sido premiada (perdeu para Juliette Binoche, de Cópia Fiel). Isso por que Poesia é essencialmente o trabalho incrível da atriz no papel duplo de avó responsável pelo neto e de senhora que procura a poesia para se ocupar e ver o mundo por outro prisma.

Não acho que Poesia agrade a todos. É um filme seleto, direcionado a quem aprecia esse tipo de sutileza poética. Além disso, lembre-se de que se trata de um filme sul-coreano, portanto com timing mais lento e contemplativo. A avó Mija passa basicamente por duas dificuldades na vida neste momento e, de cada um delas, tenta tirar um verso, uma emoção, um olhar: além de sofrer com a postura indiferente e abusiva do neto adolescente, tem que lidar com o seu esquecimento das palavras e início de uma doença. A poesia é uma maneira não só de se distrair, mas de trabalhar suas visões de mundo. Dessa observação, Mija percebe que a poesia nem sempre é beleza e suavidade, que ela existe onde existe emoção, sensações e vivências. E é essa descoberta é o ponto mais bonito do filme e a mensagem também fica clara para o espectador.

Mija descobre que a poesia está na postura totalmente equivocada do neto e de seus amigos, nos suicídios dos adolescentes, na maneira destorcida dos pais educarem seus filhos, na sua busca constante por uma explicação, ou na observação de uma simples maçã. Até do jogo de badmington ela parece tirar um verso e, se você reparar bem, há ali um poema amargo. Ela se empenha, enquanto o neto é displicente. Poema amargo, mas poema. E o mais poético é que nem mesmo a saída do neto do jogo faz com que ela desista de escrever.

 

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OSCAR 2011
CLASSIFICAÇÃO: Estados Unidos - 28/02/2011

Ontem o Oscar 2011 não apresentou surpresas. Venceu quem tinha que vencer e ponto. Prefiro assim, um Oscar mais democrático, com escolhas equilibradas. Sinal de que o público foi premiado com vários bons filmes, com talentos diversos. Mas também é verdade que quando há um filme arrebatador, imbatível, que abocanha a maior parte das principais estatuetas ele se torna inesquecível. Quem não se lembra de A Lista de Schindler, Gandhi, O Último Imperador, Titanic, O Senhor dos Anéis, por exemplo? Fato é que não tivemos isso na produção do ano passado, mas sim ótimas atuações, espalhadas por vários filmes.

Outro ponto positivo foi o formato da cerimônia. Finalmente a Academia de Hollywood resolver fazer algo mais dinâmico, com apresentações mais rápidas de canções, por exemplo, tornando a premiação algo possível para nós brasileiros, que precisamos entrar na madrugada em plena segunda-feira – embora 1h30 da matina não seja um horário muito promissor. Os apresentadores Anne Hathaway (em O Casamento de Rachel) estava bem, já James Franco (de 127 Horas) um tanto quanto indiferente…

O grande premiado da noite foi O Discurso do Rei. Levou para casa o que lhe era de direito: melhor roteiro original, ator (Colin Firth), diretor (Tom Hooper) e filme. Também levou quatro estatuetas o filme A Origem, em quisitos mais técnicos – que é o forte do filme, convenhamos: melhor edição e mixagem de som, efeitos especiais e fotografia – embora este eu tivesse preferido dar à Bravura Indômita. A Rede Social ficou com trilha sonora, roteiro adaptado e edição. Alice no País das Maravilhas ganhou o que poderia ganhar: vestuário e direção de arte – ou seja, o visual, que é o que o filme tem de bom – porque o resto não me convenceu, não gosto do roteiro, nem da adaptação do clássico. O Vencedor ganhou dois prêmios importantes e juntos, muito justos: melhor ator coadjuvante para Christian Bale e atriz coadjuvante para Melissa Leo. Toy Story 3 foi a melhor animação – e é mesmo – e teve a melhor canção, We Belong Together.  Trabalho Interno foi o melhor documentário, deixando Lixo Extraordinário para trás – uma pena, gosto muito dos dois. Por último, mas não menos importante, Natalie Portman foi a melhor atriz por Cisne Negro. Imbatível, incontestável e comentadíssima durante toda a temporada pré-Oscar. Há quem tenha amado o filme, quem tenha odiado – fico na primeira turma. Mas não há quem tenha saído do filme indiferente.

Adoro a categoria de filme estrangeiro – traz sempre visões de mundo diferenciadas e interessantíssimas. Este ano não foi diferente (eu diria até que foi especial – veja no Cine Garimpo os indicados). Venceu o ótimo Em Um Mundo Melhor – imperdível, fala de uma questão complicada e frequente entre crianças e adolescentes: o bullying. O prêmio de documentário de curta-metragem foi para Strangers no More, sobre crianças refugiadas, vindas de 48 países, acolhidas em uma escola de Tel Aviv;  o melhor curta-metragem para o americano  God of Love e curta de animação para o australiano The Lost Thing – todos inéditos no Brasil.

Para ver a lista completa dos indicados, acesse Oscar 2011 – indicados.

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RESTREPO
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, Estados Unidos - 24/02/2011

DIREÇÃO: Sebastian Junger, Tim Hetherington

Estados Unidos, 2010 (90 min)

Restrepo é um documentário de guerra, sobre a guerra. Nu e cru. Ou seja, se o espírito não for testemunhar a vivência de um pelotão americano no mais perigoso dos confins do Afeganistão, deixe para outra ocasião. Mas se quiser ter uma amostra do que foi a experiência desses rapazes no Vale Korengal, lugar inóspito, árido e cruel, considerado pelo exército americano a sua mais perigosa base, são só 90 minutos. Lembrei-me de Guerra ao Terror (vencedor do Oscar de melhor filme no ano passado), que também me despertou a sensação de fazer parte do contexto, de sentir na pele o que sentem os soldados – embora muita gente não tenha gostado do filme. Só que Restrepo é real e isso faz toda a diferença.

Explico o porquê. Quando o jornalista e escritor Sebastian Junger e o fotojornalista Tim Hetherington, ambos com larga experiência na cobertura de guerras e conflitos, resolveram acompanhar esse pelotão no montanhoso território afegão, terra da milícia do Taliban, a ideia era simplesmente essa: mostrar o que acontecia por lá, como os soldados se relacionavam, como se comportavam, quais eram suas angústias e medos e como foi aquele ano entre 2007 e 2008. Para tanto, ligaram as câmeras. E só. Não há interferência, não há montagem, o perigo é sempre iminente e a ferida que fica da experiência, eterna. Os depoimentos com os soldados, um ano depois de terem deixado o vale, mostra o abismo que existe entre a teoria do alto comando estratégico da máquina da guerra e a prática. No campo, nada está sob controle, as vidas são totalmente vulneráveis – a começar pelo paramédico Restrepo, morto em combate, que dá nome ao posto militar perdido nas montanhas.

Trocando em miúdos, não sobra muita coisa dessa guerra desmesurada. Os soldados são enviados para uma terra de ninguém, para uma negociação impossível com moradores locais, para um choque cultural enorme, sem um objetivo claro. Nem eles sabem o que foram fazer por lá; só sabiam que não estavam preparados, que o inimigo morava ao lado e que o preço psicológico a pagar seria caro, muito caro.

Restrepo concorre ao Oscar de melhor documentário, disputando com Trabalho Interno e Lixo Extraordinário.

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LIXO EXTRAORDINÁRIO – WASTE LAND
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Para Entender o Nosso Mundo, Inglaterra, Documentário - 24/02/2011

 

DIREÇÃO: Lucy Walker, João Jardim, Karen Harley

PRODUÇÃO EXECUTIVA: Fernando Meirelles

PARTICIPAÇÃO: Vik Muniz, Fabio Ghivelder, Sebastião Carlos dos Santos, José Carlos Lopes, Suelem Dias, Isis Garros

Reino Unido, 2009 (99 min)

Lixo extraordinário. Aliás, se é extra é porque vai além do ordinário, do comum, do que não presta, do que realmente é lixo. Com disse Tião, um dos catadores participantes do projeto quando entrevistado por Jô Soares, eles não são catadores de lixo, e sim catadores de material reciclável. Recolhem o extra, aquilo que pode ter outro fim (ou outro começo) e novamente servir de matéria-prima para a indústria. Embora o título original seja Waste Land, literalmente “terra do lixo”, adoro a versão brasileira de chamar o lixo reciclável de extraordinário. Funcionou quase como um subtítulo e deu significado ao documentário naquilo que ele tem de melhor, inclusive na descoberta do fator extra também do lado humano.

Não que a terra do lixo em si não seja interessante – e impressionante. Um dos maiores do mundo, o aterro sanitário Jardim Gramacho, na periferia do Rio de Janeiro, recebe 7 mil toneladas de lixo por dia, ou seja 70% do total produzido no Rio e arredores. Impressionante o suficiente, não? Mas são as histórias de vida que acabam se tornando o centro do aterro e o lixo, mesmo que extraordinário, serve de material para compor esse projeto idealizado pelo artista plástico Vik Muniz. É quase como uma inversão, a cria acaba engolindo o criador. Pelos depoimentos de Vik, nem ele esperava que o lado humano viesse tanto à tona, que o trabalho fizesse tanta diferença na vida dessas pessoas. Que ele não iria mudar um mundo, já era sabido. Mas é inegável o efeito transformador que uma proposta como essa teve na vida dos catadores participantes, durante e depois de dois anos de projeto.

A obra de Vik Muniz passa a ser coadjuvante, como também é secundário o fato de você gostar ou não do que ele produz – eu particularmente acho interessantíssimo. O grande prazer do documentário é observar atentamente as transformações possíveis daquilo a que não damos valor. Aqui o lixo vira arte contemporânea, o lixo vira luxo internacional, o lixo humano vira gente.

Indicado ao Oscar de melhor documentário, concorreu com Trabalho Interno.

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127 HORAS – 127 Hours
CLASSIFICAÇÃO: Para se Divertir, Estados Unidos - 23/02/2011

DIREÇÃO:Danny Boyle

ROTEIRO: Danny Boyle, Simon Beaufoy, Aron Ralston (livro)

ELENCO: James Franco, Kate Mara, Amber Tamblyn

Estados Unidos, 2010 (94 mim)

A grande questão em 127 horas é arranjar uma saída. Da mesma forma que o aventureiro Aron Ralston (vivido pelo apresentador do Oscar deste ano, James Franco – também em Milk – A Voz da IgualdadeComer, Rezar e Amar e Homem-Aranha 1, 2 e 3) tem que encontrar uma forma de se ver livre de uma pedra no seu caminho, ou melhor, dentro de um cânion, o diretor Danny Boyle (também de Quem Quer Ser um Milionário) tem que achar uma saída para contar essa história de um só personagem e um só fato.

Embora nada tradicional, a saída que Ralston encontra é a única que lhe resta. Só quem passou por uma situação de vida ou morte sabe o que é tomar uma decisão tão extrema. Não é meu caso, felizmente. Mas a coragem de uma atitude do tipo ‘tudo-ou-nada’, contra o instinto natural que temos de auto-preservação, só acontece quando realmente todas as outras alternativas se esgotam. E isso o filme transmite muito bem. Viver fala mais alto.

Da mesma maneira, a saída encontrada pelo diretor de transportar para o local do acidente as lembranças e as reflexões de Ralston, de fragmentar na tela os acontecimentos em diversos enquadramentos, transformando em cinema a sua própria maneira de agir e de pensar, de usar uma trilha sonora estimulante, como se aquilo fosse só uma aventura, tiraram a suposta monotonia que um filme como esse naturalmente traria. Ainda assim, saí com a sensação de que o pobre Ralston, preso naquele cânion, sentiu na pele não só a penúria da privação de água, comida, descanso e tudo mais, mas também da monotonia de um tempo que passa muito devagar e que abre obrigatoriamente as janelas da vida, por onde ele nunca parou para olhar. Para um sujeito agitado e egocêntrico como ele, pura ironia da vida.

Ator e diretor se saíram muito bem, mas não daria o Oscar ou coisa do gênero. Mas a história é real, Aron Ralston viveu para contá-la e, pelo que mostra o filme, não perdeu o bom humor, nem o espírito avetureiro. Só isso já é bem interessante e rende uma boa conversa.

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INCÊNDIOS – Incendies
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Para Entender o Nosso Mundo, Drama, Canadá - 21/02/2011

DIREÇÃO: Denis Villeneuve

ROTEIRO: Valérie Beaugrand-Champagne| Wajdi Mouawad (obra teatral)

ELENCO: Lubna Azabal, Mélissa Désormeaux-Poulin, Maxim Gaudette, Rémy Girard, Abdelghafour Elaaziz, Allen Altman

Canadá, 2010 (130 min)

Indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, Incêndios vai além do título. Além de cristãos ateando fogo em um ônibus cheio de muçulmanos, de escolas queimadas e crianças sem teto, os incêndios de que o diretor canadense Denis Villeneuve trata são internos, da alma em chamas, do sofrimento em carne viva, da necessidade de apagar o fogo para poder viver. Intenso, forte, emocionante e, sobretudo, muito bonito. É através de Nawal Marwan (personagem da atriz belga Lubna Azabal, de descendência hispano-marroquina) que a grandeza do filme chegou para mim. Sua condição de mãe supera qualquer dor, mágoa ou raiva que a vida lhe ensinou a sentir.

Não vou entrar em detalhes, porque este filme não merece ser desvendado desta forma. Mas posso dar o panorama geral, sem tirar o fator surpresa e as revelações da história. Nawal Marwan morre e deixa seu último pedido escrito em testamento: quer que seus filhos gêmeos localizem o pai e o irmão, em algum lugar do Oriente Médio, para entregar-lhes uma carta. Jeanne (a ótima Mélissa Désormeaux-Poulin) e Simon não sabem se esses parentes estão vivos, nem nunca os conheceram. Ao partir em busca dos familiares, descobrem o passado da mãe e a nova realidade de suas próprias vidas. Em nenhum momento é dito que país é aquele – árido, muçulmano, severo, conflitante – talvez porque possa representar vários povos e regiões. Mas cristãos contra muçulmanos e vice-versa, massacres revidados com intolerância e terror me remeteram ao Líbano, no período da guerra civil entre 1975 e 1990 – e à incrível animação Valsa com Bashir, que retrata, na linguagem dos mangás, o genocídio dos refugiados palestinos no Líbano pelas mãos dos falangistas cristãos.

As retomadas dos conflitos históricos são sempre uma maneira de nos fazer lembrar aquilo que a humanidade não pode repetir. Incêndios trata também, de uma maneira subliminar, mas não menos importante, da questão dos imigrantes em países como o Canadá, formado em grande parte por esses grandes movimentos migratórios de povos originários de países em conflitos. Mas eu diria que é um filme humano, o que faz com que tenha um bonito equilíbrio nos quisitos razão-emoção, fatos-sentimentos e consiga emocionar e informar, entreter e formar opinião.

Concorre ao Oscar com o mexicano Biutiful, o argelino Fora da Lei, o dinamarquês Em um Mundo Melhor e o grego Dente Canino (ainda inédito no Brasil). Estreia dia 25 de fevereiro.

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PARENTE É SERPENTE – Parenti Serpenti
CLASSIFICAÇÃO: Para se Divertir, Para Rever, Itália - 21/02/2011

DIREÇÃO: Mario Monicelli

ROTEIRO: Carmine Amoroso, Suso Cecchi D’Amico, Piero de Bernardi, Mario Monicelli

ELENCO: Tommaso Bianco, Renato Cecchetto, Marina Confalone, Cinzia Leone, Alessandro Haber

Itália, 1992 (105 min)

Engraçado e tão atual! Aliás, acho que enquanto houver a instituição chamada ‘família’, Parente é Serpente sempre o será. O que é para ser um tradicional encontro de Natal e Ano Novo se transforma em uma verdadeira lavagem de roupa suja, cheia de desabafos de situações mal resolvidas no passado, revelações surpreendentes e muito, mas muito veneno no ar. Mas no meio de tanto dramalhão, das ‘caras e bocas’ e diálogos engraçadíssimos, da relação conflitante entre cunhados e irmãos, da responsabilidade que é jogada no colo dos outros como uma verdadeira ‘batata quente’, fica a triste ideia (o triste  fica por minha conta, não é uma sensação que o filme passa) sobre a dificuldade de envelhecer, de encontrar espaço, tempo e paciência na vida dos familiares (quanto todos estão ocupados e têm suas vidas) e de ter companhia.

Já naquela época, há quase 20 anos, os filhos discutem o que fazer com os pais que agora vão viver mais tempo, que mesmo doentes têm chance de uma sobrevida mais longa. As conversas em torno do assunto chegam a ser tragicômicas e realmente engraçadas. Ainda mais considerando que quem observa tudo isso é o neto, um garoto que talvez não entenda as nuances das relações, mas que com certeza pegou o espírito da coisa!

Infelizmente não consegui o trailer do filme. Abaixo segue um trecho (em italiano) do momento  em que a matriarca faz o anúncio de que finalmente resolveu sair daquela casa e morar com um dos filhos. É quando o desconforto chega para ficar!

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O VENCEDOR – The Fighter
CLASSIFICAÇÃO: Para se Divertir, Para Pensar, Estados Unidos - 17/02/2011

DIREÇÃO: David O. Russell

ROTEIRO: Scott Silver, Paul Tamasy

ELENCO: Mark Wahlberg, Christian Bale, Amy Adams, Melissa Leo

Estados Unidos, 2010 (114 min)

Concorre ao Oscar de melhor filme, diretor, ator coadjuvante (Christian Bale), atriz (Adams e Leo), roteiro original

O grande argumento a favor do esporte vai muito além do desenvolvimento físico ou da performance vencedora. Quem valoriza a prática esportiva enquanto elemento importante para o desenvolvimento humano está falando da sua importância como metáfora da vida: é na sua prática que o atleta tem que aprender a lidar com a vitória e com a derrota, ser persistente e não desistir na primeira dificuldade, conviver com a equipe de forma harmônica, lidar com as diferenças e dar a sua contribuição ao time. Um ensaio da vida, eu diria. É só sobrepor as duas vivências e veremos como elas se repetem. O Vencedor mescla as duas experiências, do esporte, da competição com a vida e suas dificuldades. Baseado em uma história real, o filme faz a pergunta que não quer calar: estamos somando com virtudes ou anulando com diferenças? Cada família sabe do seu, mas quem não tem que lidar com questões adversas, que jogue a primeira pedra.

Difícil saber quem é o vencedor do filme. Só se descobre isso no final. Durante quase o tempo todo acompanhamos a trajetória e as escolhas de dois decadentes irmãos pugilistas. Dicky (Christian Bale) é o mais velho, já não luta mais, deixou escapar algumas chances que teve no esporte e optou pelo crack e pelo vício; Micky (Mark Wahlberg) aprendeu o que sabe com o irmão Dicky, que é seu treinador, e não consegue andar com as próprias pernas, nem quando vê o barco afundar. Coordenando essa complicada dinâmica está Alice (Melissa Leo, também em 21 Gramas e Rio Congelado), a mãe controladora que tem debaixo da sua saia mais sete filhas improdutivas e palpiteiras, muita gente para sustentar e uma visão oportunista e amorosamente distorcida das relações.  Dicky é persuasivo, Micky, submisso e Alice, centralizadora. Até que surge alguém de fora, Charlene (Amy Adams, também em Julie & Julia, Um Noite no Museu 2, Dúvida), que olha para o cenário e rapidamente identifica onde está a trava de toda a relação e das vidas que dependem dela.

Lutar contra uma situação há muito acomodada custa esforço e persistência. O boxe é pano de fundo para a luta pela identidade individual e pela reformulação das relações entre as pessoas. A chegada de Charlene incomoda, já que traz uma visão realista e nova do que a família entendia como correto. Incomoda porque causa sofrimento. Não que o boxe não seja bem feito e importante no filme. É as duas coisas, mesmo para quem não aprecia o esporte em si – como eu. Mas o mais importante é a dificuldade de convivência entre as pessoas de uma família e o delicado que é construir uma dinâmica que permita que o positivo de cada um venha à tona. Deixar que venha o negativo é fácil – basta conviver.

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LIVRO – O TEMPO ENTRE COSTURAS
CLASSIFICAÇÃO: Espanha, Dicas Afins - 16/02/2011

Entre vestidos de festas, clientes comuns e poderosas, Espanha, Portugal e Marrocos, a estilista Sira Quiroga vive um período interessante da história espanhola. A guerra civil, a ascensão de Franco, suas relações com os ditadores Hitler e Mussolini, sua postura no período da guerra. Achei interessante esse panorama do livro O tempo entre costuras (María Dueñas, 480 páginas). Acompanhando a vida de Sira, conhecemos um pouco do que foi o protetorado espanhol no Marrocos, época em que outra parte do país era de domínio francês, como mostra o filme Casablanca.

Claro que o livro tem romance, drama, questões familiares (às vezes até clichês), mas tem também política e espionagem e um pouco da dinâmica dos resistentes espalhados pela península, tentando desvendar as relações entre os poderosos empresários e políticos espanhóis e a máquina de guerra alemã. Para quem gosta do tema, o livro dá uma interessante pincelada nesse período histórico.

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CASABLANCA
CLASSIFICAÇÃO: Para Ver Bem Acompanhado, Para Rever, Estados Unidos - 16/02/2011

DIREÇÃO: Michael Curtiz

ROTEIRO: Julius J. Epstein, Philip G. Epstein, Howard Koch

ELENCO: Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, Paul Henreid

Estados Unidos, 1943 (102 min)

Sempre haverá Paris e sempre haverá a dupla Ingrid Bergman e Humphrey Bogart para relembrar este clássico filmado e ambientado durante a Segunda Guerra. Casablanca se passa justamente na porção francesa do Marrocos, governada pelos colaboracionistas de Vichy, por onde passavam todos aqueles que almejavam fugir da guerra em direção aos Estados Unidos. Em tempos de Oscar, vale dizer que Casablanca ganhou como melhor filme, diretor e roteiro em 1943, em plena guerra.

Além de refugiados e membros da resistência, a cidade de Casablanca ficava, naquela época, repleta de nazistas e oportunistas de plantão. É nesse clima que Ilsa Lund (Ingrid Bergman) e Rick Blaine (Humphrey Bogart) se reencontram e relembram a Paris de antes da guerra e que Rick tem que optar em socorrer seu rival Laslo, líder da resistência tcheca em fuga dos nazistas, ou revidar por ter sido deixado o Ilsa no passado. Em um dos vários diálogos memoráveis, Ricky pergunta ao inspetor de polícia por que salvaria Laslo. Sabiamente, o policial responde: “Porque atrás dessa sua cara cínica, há um sujeito sentimental”. E é desse sentimentalismo irônico que eu mais gosto no filme.

Ao som da eternizada As Time Goes By, o filme se desenrola com diálogos bem humorados e cenas inesquecíveis. Lançado em plena Segunda Guerra, imagino que os espectadores da época tenham ficado sem saber como tudo terminaria de fato – àquela altura do campeonato, não se tinha ideia do que ia acontecer com a Europa e com o mundo e o final do filme sugere uma certa incerteza quanto ao futuro dos personagens. Mesmo sabendo do desfecho da guerra e dos anos que se seguiram, até hoje, quando assisto à última cena, também me pergunto o que terá sido de todos eles. Um golpe de mestre do diretor Michael Curtiz em meio ao nevoeiro.

DICA AFIM: Ao rever Casablanca, lembrei-me do livro O Tempo Entre Costuras, da espanhola María Dueñas.Também se passa no Marrocos durante a Guerra Civil Espanhola e a Segunda Guerra Mundial, mas desta vez no Marrocos espanhol.

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