cinegarimpo

novembro, 2010

O GAROTO DE LIVERPOOL – Nowhere Boy
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Inglaterra - 30/11/2010

DIREÇÃO: Sam Taylor Wood

ROTEIRO: Matt Greenhalgh

ELENCO: Aaron Johnson, Anne-Marie Duff, Kristin Scott Thomas, Thomas Sangster, David Threlfall, Josh Bolt, Sam Bell

Reino Unido, Canadá , 2009 (98 min)

Em outubro deste ano John Lennon teria completado 70 anos e dia 8 de dezembro faz 30 anos que ele morreu. O lançamento de O Garoto de Liverpool justamente agora não é à toa. Vem relembrar o ícone, aquele que era considerado um caso perdido pelos diretores da escola onde estudou (o Nowhere Boy do título em inglês dá mostras claras de que não acreditavam que ele fosse chegar mesmo em algum lugar).

Embora furadas essas previsões, não é disso que o filme fala. Ele trata justamente da outra fase de Lennon, anterior à fama. Fala da sua primeira banda, do encontro com Paul McCartney, então com 15 anos, das suas peripérsias longe da escola e da faculdade, do gosto pelo rock de Elvis. Tudo isso constrói o começo do que viria a ser o líder dos Beatles. Mas o garoto de Liverpool não é só sucesso e é desse aspecto que o filme trata também. Abandonado pela mãe, criado pela tia Mimi (Kristin Scott Thomas, também em Partir, O Paciente Inglês, Há Tanto Tempo que Te Amo), sem saber o paradeiro do pai e tendo presenciado a morte do tio que o criou, John Lennon vive as angústias da ausência dos pais e do desconhecimento das razões do abandono.

O Garoto de Liverpool não dá a John um ar de futuro ídolo. Pelo contrário, mostra suas inseguranças e medos, típicos da passagem da adolescência para a vida adulta e próprios de quem tem um histórico familiar como o dele. Sempre é bom lembrar de John Lennon, sempre é interessante conhecer mais a vida desses personagens eternizados. Seria interessante produzir a sequencia disso – o final, todos nós já sabemos qual é.

Estreia dia 03 de dezembro nos cinemas.

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O QUE RESTA DO TEMPO – The Time That Remains
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, Palestina - 29/11/2010

DIREÇÃO e ROTEIRO: Elia Suleiman

ELENCO: Elia Suleiman, Saleh Bakri, Lotuf Neusser, Amer Hlehel, Samar Tanus, Ziyad Bakri, Shafika Bajjali

França, Palestina, 2009 (105 min)

À primeira vista, parece um filme monótono, há poucos diálogos e o cenário é teatral e artificial. A produção transmite claramente a ironia da condição dos palestinos em Israel, mas a lentidão e repetição de alguns planos pode desanimar os mais desavisados. Vale dizer que O Que Resta do Tempo está na categoria ‘para entender o nosso mundo’, mas indico também, e sobretudo, a quem busca um filme que vá além da superfície e do modelo auto-explicativo de cinema. É um filme ‘para pensar’. E a reflexão vem naturalmente, porque o tom de sarcasmo é realmente muito forte e evidente (pelo trailer já dá para perceber isso).

Fique atento aos detalhes do roteiro que compõem o significado do filme – as crianças árabes cantando música judaica, os fogos de artifício das cores da bandeira palestina, o soldado israelense pedindo que o árabe tome cuidado para não se machucar diante de um jipe que pode explodir. Esses e outros elementos são ferramentas importantes da percepção do diretor Elia Suleiman sobre as relações entre os povos que habitam Nazaré. Ele dá seu ponto de vista sobre a ocupação da Palestina pelos judeus durante a criação do Estado de Israel em 1948 e vai até os dias de hoje. Vai da expulsão das famílias palestinas de suas casas, da caça às bruxas, até os muros construídos ao redor dos territórios ocupados.

Os muros são intransponíveis, dificultando a vida e a economia das famílias que resistiram aos israelenses, mas a história é capaz de transpor as barreiras e chegar aos cinemas. Através de cartas de familiares que tiveram que deixar a Palestina, da experiência contada pelo pai do diretor, que resistiu à invasão e acabou sendo preso, Suleiman conta como foi sua vida desde a infância até hoje e ele mesmo se representa no filme. O olhar sempre perdido, catatônico e indiferente é a sua crítica mais autobiográfica do que sobrou da sua cultura e do tempo de resta para o povo palestino.

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MANHATTAN
CLASSIFICAÇÃO: Para Rever, Estados Unidos - 27/11/2010

DIRETOR: Woody Allen

ROTEIRO: Woody Allen, Marshall Brickamn

ELENCO: Woody Allen, Diane Keaton, Micheal Murphy, Meryl Streep, Mariel Hamingway, Anne Byrne Hoffman

Estados Unidos, 1979 (min)

“Uma ideia para um conto: falar sobre as pessoas de Manhattan, que estão constantemente criando problemas neuróticos desnecessários, porque assim não precisam lidar com questões mais sérias e insolúveis do universo.” – Woody Allen

É assim que o Isaac, personagem de Woody Allen em Manhattan, define o livro que vai escrever. É o cinema falando do cinema, claro, já que a definição se encaixa perfeitamente no roteiro do filme. Ao revê-lo depois de tanto tempo, acho que é o olhar mais poético do diretor. Filmado em preto e branco, tem um ar de filme clássico, tem planos lindos da cidade e aqueles desencontros e encontros típicos do seu estilo. Mas sem rancor ou pessimismo. É verdade que o personagem de Allen já é hipocondríaco, mas não é o pseudo chato de alguns filmes.

Agora que ele acaba de lançar mais um longa, Você Vai Conhecer o Homem dos seus Sonhos, lembrei do emblemático Manhattan (também do diretor: Hannah e Suas Irmãs, A Rosa Púrpura do Cairo, Vicky Cristina Barcelona, Tudo Pode Dar Certo). Aqui Woody Allen tem 42 anos, namora uma garota de 17, é ex-marido da jovem Meryl Streep e se encanta com Diane Keaton, amante do amigo. Histórias de vida. O mais precioso? Nova York em preto e branco, sem dúvida.

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VOCÊ VAI CONHECER O HOMEM DOS SEUS SONHOS – You Will Meet a Tall Dark Stranger
CLASSIFICAÇÃO: Para se Divertir, Estados Unidos - 23/11/2010

DIREÇÃO e ROTEIRO: Woody Allen

ELENCO: Anthony Hopkins, Antonio Banderas, Josh Brolin, Naomi Watts, Freida Pinto, Gemma Jones, Lucy Punch

Estados Unidos, 2010 (98 min)

Fiel ao seu estilo direto de falar das mazelas pessoais e dos desastres da vida amorosa dos casais, o novo filme de Woody Allen, Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos, ganha um toque interessante de ironia no título em português. Afinal, não há nada ideal nos seus filmes. Pelo contrário, há um retrato cínico e melancólico de personagens urbanos comuns e básicos, de gente egoísta e confusa. Ele retoma o tema da tragicomédia que envolve a vida daquelas pessoas que se apaixonam, casam-se, decepcionam-se e voltam a se apaixonar ao virar a esquina. Exatamente nessa ordem.

Embora as histórias se repitam em Woody Allen, elas têm sempre algo novo e são uma crítica à mesmice das relações e da busca do ser humano. Aquele narrador, que descreve os sentimentos e sensações dos personagens, praticamente nos convida a vestir a carapuça. O personagem de Anthony Hopkins separa-se de esposa para retomar a juventude que já ficou para trás; sua filha (Naomi Watts, também em Destinos Ligados) se encanta com o chefe (Antonio Banderas) porque é infeliz no casamento com um escritor frustrado e sem ética (Josh Brolin, também em Milk – A Voz da Igualdade e Wall Street – O Dinheiro Nunca Dorme), que por sua vez se interessa pela bela vizinha (Freida Pinto, também em Quem Quer Ser um Milionário?); a ex-mulher de Hopkins confia no futuro previsto por uma charlatã de última categoria e todos buscam se ajeitar nesse mundo bem desajeitado.

É verdade que o filme não tem o charme e a graça de Vicky Cristina Barcelona, mas também não tem o tom rabugento do seu filme anterior, Tudo Pode Dar Certo. É uma produção interessante e inteligente, repleta das mais amargas relações humanas. Para quem gosta do estilo do diretor, é uma boa pedida. É a vida como ela realmente é.

Estreia dia 26 de novembro no cinema.

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LOPE
CLASSIFICAÇÃO: Para Ver Bem Acompanhado, Espanha - 17/11/2010

DIREÇÃO: Andrucha Waddington

ELENCO: Selton Mello, Pilar López de Ayala, Leonor Watling, Sônia Braga, Alberto Ammann (Lope)

Espanha, Brasil, 2010

Há pelo menos três brasileiros neste filme espanhol que concorreu à indicação de melhor filme estrangeiro no Oscar 2011: o diretor Andrucha Waddington (também em Casa de Areia), o sempre ótimo Selton Mello, no papel de um português e Sônia Braga, com uma maquiagem muito bem feita e um sotaque espanhol cuidadoso. Ojalá!

O filme volta para a Espanha do século 16 para contar a história verdadeira do dramaturgo Lope de Vega, que revoluciona o teatro da época. O que antes eram encenações engessadas e previsíveis transformam-se em versos mais leves e bem humorados. Segundo ele, seus textos e suas peças deveriam ser como a vida. Sua trajetória no amor e na literatura é mostrada no filme com toda a caracterização da Madri da época, portanto o destaque aqui é para o vestuário, constituição de época e tudo mais que inclui o visual.

 Agradável aos olhos, é recheado de um romance sem muito sal e diálogos por vezes cheios de clichês. Mas Lope vale por ser um filme poético e muito bonito do ponto de vista da produção. Para quem gosta de filme de época, é uma boa pedida para ver bem acompanhado.

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LIVRO e FILME – ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA
CLASSIFICAÇÃO: Portugal, Dicas Afins - 17/11/2010

Aproveitando Saramago e o documentário sobre sua relação com sua esposa, a espanhola Pilar Del Río, vou falar do que já deveria ter falado, na ocasião da sua morte em junho deste ano. Aproveitando o belo documentário José e Pilar e a cena em que os dois acompanham o diretor Fernando Meirelles na exibição da sua adaptação do romance Ensaio Sobre a Cegueira, quero registrar que não me esqueço da sensação que o livro e o filme produziram em mim. Quem não leu e gosta do estilo do autor português, coloque o livro na sua lista de desejos. Quem se cansa da sua falta de pontuação e outras coisinhas mais, veja o filme. A sensação produzida por ambos foi muito parecida e isso prova a competência e sensibilidade de Meirelles de levar para a tela algo muito difícil de transferir.

Quando li Ensaio Sobre a Cegueira (Blindness, título em inglês), imediatamente me lembrei do personagem de Machado de Assis, Simão Bacamarte. Em O Alienista, o médico Bacamarte resolve internar as pessoas da cidade que sofrem algum distúrbio de loucura. Acaba internando quase toda a população, até perceber que o louco mesmo era ele. Na história de Saramago, a loucura é substituída pela cegueira. Contagiante, ela acaba contaminando toda a população e a única que consegue enxergar e ver a falta de visão dos outros, a falta de dignidade, de humanidade e decência do ser humano num mundo como no nosso é a personagem de Julianne Moore no filme (também em Minhas Mães e Meu Pai). A prisão de todos para evitar uma epidemia não impede que a cegueira moral e ética se alastrem, assim como os pacientes de Bacamarte, todos loucos e desequilibrados.

A aflição que tanto o filme quanto o livro geram é inesquecível, ainda mais quando projetamos todas as barbaridades da humanidade nas proporções de uma epidemia. Saramago quis mesmo dizer que o homem não merece o mundo que tem. E Meirelles conseguiu transmitir isso. As imagens feitas em São Paulo são incríveis, de uma cidade que poderia ser qualquer outra no mundo. São imagens sem nome ou local, simplesmente como é a atitude gananciosa e egoísta das pessoas. As duas obras são fortes e marcantes. Saí do cinema como se tivesse levado um soco no estômago, como se aquilo pudesse nos fazer enxergar o que realmente somos, por o que realmente lutamos. E não restou um pingo de dignidade.

CRÉDITOS DO FILME:

DIREÇÃO: Fernando Meirelles

ROTEIRO: José Saramago (livro) e Don McKellar

ELENCO: Julianne Moore, Mark Ruffalo, Gael García Bernal

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José e Pilar
CLASSIFICAÇÃO: Portugal, Para se Emocionar, Para se Divertir - 16/11/2010

DIREÇÃO: Miguel Gonçalves Mendes

ELENCO: José Saramago, Pilar del Río, Gael García Bernal

Espanha, Portugal, Brasil, 2010 (125 min)

José não seria Saramago se não fosse Pilar. Pelo menos foi com essa sensação que saí do cinema, após assistir ao documentário José e Pilar. Revelador e sensivelmente editado, o filme retrata três anos da vida do casal de maneira natural e espontânea, referendando a parceria como o próprio Saramago a define: “eu tenho ideias para os romances; ela, para a vida”. Prêmio Nobel de Literatura, era contestador, ateu e comunista. Mas não melancólico, nem sisudo. Daquela figura triste e desiludida que eu tinha em mente, sobrou pouca coisa. Foi substituída por um sujeito espirituoso, consciente, realista e principalmente apaixonado pela vida e por Pilar.

Jornalista e tradutora espanhola com quem se casou aos 66 anos, Pilar foi seu alicerce na coordenação da carreira, na maratona internacional das entrevistas e compromissos, no estímulo da escrita, no direcionamento da vida. Conforme ele mesmo disse, tudo veio tarde, inclusive a literatura. Os livros que construíram Saramago internacionalmente foram escritos depois dos 60 anos, com um estilo específico, às vezes difícil e incompreendido – também na forma, já que não utilizava a pontuação comum. O filme mostra a casa do casal na ilha espanhola de Lanzarote, passa por seu dia a dia, pela biblioteca, pela formação da Fundação José Saramago, pelos momentos difíceis da doença, da exaustão das viagens e compromissos, pelo humor inteligente e simples durante as entrevistas e conversas com amigos. As trocas com Pilar são reveladoras e emocionantes, assim como a cena em que assistem à ­adaptação de seu livro Ensaio sobre a Cegueira por Fernando Meirelles (também em O Jardineiro Fiel).

A edição de José e Pilar é leve e criteriosa. Mostra um Saramago humano e humorado, tendo como pano de fundo o momento da sua vida em que escreve o curioso livro A Viagem do Elefante. Reverenciado no mundo todo, Saramago morreu em junho de 2010 e deixa um importante e inteligente legado sobre sua percepção do mundo e da humanidade. Nem sempre fácil ou afável, mas que merece uma reflexão. Vale a pena ver o trailer abaixo.

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HANNAH E SUAS IRMÃS – Hannah and Her Sisters
CLASSIFICAÇÃO: Para Rever, Estados Unidos - 11/11/2010

DIREÇÃO e ROTEIRO: Woody Allen

ELENCO: Woody Allen,  Michael Caine, Mia Farrow, Dianne Wiest, Carrie Fisher

Estados Unidos, 1986 (102 min)

A Vida Durante a Guerra, filme anterior a este aqui no Cine Garimpo, também fala do relacionamento entre três irmãs. Embora sejam departamentos opostos, cinemas completamente diferentes, ambos diretores são judeus, colocam a religião na prateleira do supermercado e usam a figura do relacionamento entre as três para contar uma história. Aqui o questionamento não é feito através da ironia. A proposta do diretor Woody Allen (também em A Rosa Púrpura do Cairo, Vicky Cristina Barcelona, Tudo Pode Dar Certo) é retratar, com humor, o dia a dia das três mulheres em Manhattan, cada uma com seus problemas de relacionamento, de trabalho, de autoconhecimento. Divididas em capítulos, as histórias montam uma comédia de costumes de uma típica família que se reúne no dia de Ação de Graças porque acima dos vícios, das dificuldades conjugais, da traição, da hipocondria, ainda está o núcleo familiar.

Outra semelhança que me fez lembrar Hannah e Suas Irmãs é a questão religiosa. Ver o personagem de Woody Allen buscando uma nova religião como quem vai ao supermercado comprar produtos de consumo triviais, é curioso e chega a ser engraçado. Bastante atual a questão. Se Mia Farrow (também em A Rosa Púrpura do Cairo) às vezes é um pouco lenta, Michael Caine está ótimo e merece ser revisto.

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A VIDA DURANTE A GUERRA – Life During Wartime
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Estados Unidos - 11/11/2010

DIREÇÃO e ROTEIRO: Todd Solondz

ELENCO: Shirley Henderson, Ciarán Hinds, Allison Janney, Michael Lerner, Chris Marquette, Dylan Riley Snyder

Estados Unidos, 2009 (96 min)

Assisti támbém a Felicidade, o filme de 1998 de Todd Solondz – tive que reeditar o começo deste texto depois que isso aconteceu. E faço o alerta: é muito interessante assistir aos dois,  já que é evidente que A Vida Durante a Guerra é um tipo de releitura dos mesmos temas. Algumas cenas têm até o mesmo cenário, o mesmo formato; alguns personagens, o mesmo nome. Segundo o diretor, por que não revisitar algumas cenas se ainda há muito o que dizer? Os assuntos abordados, que não são nada fáceis, nem triviais, permeiam entre a pedofilia, o abuso sexual, a dependência por medicamentos, a infância roubada, a esquizofrenia, a hipocondria da sociedade, a falta de entendimento na família, a falta de autoconhecimento, a necessidade da fuga de si próprio. Tudo isso temperado com muita ironia e humor negro, numa verdadeira desconstrução da família e do indivíduo.

Diante de tudo isso, fiquei pensando que ‘guerra’ seria essa no título. Os personagens mencionam o país em guerra, por causa do Iraque, mas com tantos temas polêmicos, reforçados ainda mais pelos fantasmas do passado que perturbam a vida de cada um dos personagens, a guerra passa para o lado psicológico e emocional da vida. Como lidar com tantas questões internas, com o passado que não se resolve, com as crianças que já nascem no mundo adulto? De tanta paranóia, os personagens chegam a cansar. Mas eles se cansam deles mesmos, ficam exaustos. Senti que eles não aguentam mais o seu questionamento, as suas loucuras internas. A primeira sensação é de rejeição ao filme – afinal, são temas difíceis. Mas passados alguns dias, percebi que a reflexão fica, o incômodo permanece e que é essa a intenção de Solondz. Realmente questionar que mundo é esse e que relações são essas que construímos.

Isso se estende também para a religião. Ele coloca em xeque as tradições judaicas, os fatores de identificação do povo e a falsa ideia de que isso realmente possa trazer o entendimento entre as pessoas. Seu sarcasmo é muito contundente. Se estiver disposto a levar alguns chacoalhões, é bem interessante. Mas não é um filme fácil de engolir.

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A SUPREMA FELICIDADE
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Brasil - 05/11/2010

DIREÇÃO: Arnaldo Jabor

ROTEIRO: Arnaldo Jabor, Ananda Rubinstein

ELENCO: Marco Nanini, Dan Stulbach, Mariana Lima, Jayme Matarazzo, Elke Maravilha, João Miguel, Maria Flor

Brasil, 2010 (125 min)

Alguma coisa incomoda no filme de Arnaldo Jabor. Não acho que seja o mesmo incômodo que às vezes causam seus comentários incisivos e espinhosos como jornalista (quando se trata de política, muitas vezes certeiros). A Suprema Felicidade não pretende ser ‘dona da verdade’ – tom tão característico do diretor, como no comentário que ouvi hoje na CBN. Segundo Jabor, a crítica está contra ele e seu filme não é óbvio. Disse inclusive que quem gostou não precisa se sentir um idiota, afinal os cinemas estão lotados e o filme está sendo aplaudido de pé. E alerta: quem não gostou é porque acha que o cinema hoje se restringe a “tiros e carros”. Uma coisa não tem nada a ver com a outra, não é mesmo?

O filme tem, sobretudo, um tom de nostalgia, de melancolia de um tempo que passou, de um Rio de Janeiro que já não existe mais, das relações que começam românticas e sonhadoras e acabam esfaceladas, da descoberta do amor e sua decepção. Há algo no ar de A Suprema Felicidade que deixa o filme confuso. A falta de linearidade – o que é um recurso muito útil – aqui me deu a sensação de confusão, de uma mente que está misturando alegorias, sonhos, fantasias, caricaturas, sem realmente deixar uma mensagem. O filme tem momentos bonitos e eu diria que a maioria deles tem como protagonista Marco Nanini no papel de avô do garoto. Ele solta verdadeiras pérolas, mostrando que sua experiência de vida o ensinou a relevar muitas coisas na vida, viver o momento presente e não deixar que a crueza dos fatos o paralisem. Das preciosidades, destaco a maior delas: que ninguém é feliz nessa vida; com sorte, será alegre.

Se intenção de Jabor foi despertar para uma reflexão sobre o assunto, talvez tenha conseguido. No quisito enredo e produção, confesso que deixaria de lado vários cenários e personagens que fazem parte de um imaginário mais pobre e artificial: as marchinhas de carnaval, o pipoqueiro paquerador, o comprador de jornais, os prostíbulos – fiquei um pouco impaciente com essas repetições. Mas para quem viveu o Rio de Janeiro de meados do século 20, talvez faça mais sentido. Para quem não viveu, garimpe os momentos entre neto e avô. São os melhores conselhos, são os mais felizes.

A Suprema Felicidade foi exibido na 34a. Mostra de Cinema de São Paulo e já está em cartaz nos cinemas.

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