cinegarimpo

junho, 2010

FLOR DO DESERTO – Desert Flower
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Para Entender o Nosso Mundo, Inglaterra - 24/06/2010

DIREÇÃO: Sherry Horman

ROTEIRO: Smita Bhide, baseado no romance de Waris Dirie

ELENCO: Liya Kebede, Sally Hawkins, Craig Parkinson, Meera Syal, Anthony Mackie, Juliet Stevenson, Timothy Spall, Soraya Omar-Scego, Teresa Churcher, Eckart Friz, Anna Hilgedieck, Matt Kaufman

Inglaterra, Alemanha, Áustria, 2009 (120 min)

“A mutilação genital feminina não tem nenhuma relação com a cultura, a tradição ou a religião. É um crime.”

– Waris Dirie

 Melhor Filme Europeu escolhido pelo Público no Festival de San Sebastián, 2009

Waris Dirie chamou a atenção da imprensa quando seu belo rosto passou a ser estampado nas revistas e nas passarelas mundo afora. Ao ser entrevistada, a modelo somali negou que o dia em que foi descoberta por um consagrado fotógrafo enquanto fazia a limpeza em uma lanchonete em Londres tenha significado a grande mudança da sua vida. O dia decisivo, que direcionaria seus passos, teria acontecido muito antes e marcaria sua vida para sempre.

Aos cinco anos, Waris foi vítima da mutilação genital feminina – ato brutal em que o clitóris da menina é extirpado para evitar que tenha prazer na relação sexual. É justificado pela tradição e pelo islã, principalmente em países africanos, entre eles a Somália. Vítima da barbaridade, Waris escolheu abandonar a rentável carreira de modelo internacional para levantar a bandeira contra a brutalidade. Escreveu o livro homônimo Flor do Deserto (que é a tradução de Waris) e montou uma fundação que leva o seu nome para montar projetos para assistir cerca de 150 milhões de mulheres que sofrem com as consequências da mutilação, levantar fundos e conscientizar as pessoas através de campanhas internacionais. E mais, autorizou a produção deste filme, que conta sua história.

Flor do Deserto fala da trajetória real da menina nômade, que foge da família pelo deserto, vai para Londres, passa fome e necessidade, encontra ajuda, é descoberta pelo mundo da moda e hoje é embaixadora da ONU (interpretada pela top-model etíope Liya Kebede). A história é incrível, dirigida com sensibilidade e até com toques de humor. Aliás, acho que esse é o ponto. Apesar do tema difícil, o filme tem mais humor, cor e graça do que se imagina para uma vida sofrida como essa e não cai no provável dramalhão. Talvez por isso não tenha cara de documentário. Faz alarde sem fazer terror. Talvez uma estratégia para não tornar tudo tão pesado e, assim, atrair o grande público aos cinemas. Afinal, alardear o assunto e conseguir apoio mundial para punição dos culpados é o grande objetivo. Além de fazer, é claro, alguma diferença.

DICA AFIM: A também somali Ayann Hirsi Ali tem uma história parecida. Confira o impressionante relato no livro Infiel.  

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LIVRO – INFIEL
CLASSIFICAÇÃO: Estados Unidos, Dicas Afins - 24/06/2010

“Nasci em um país dilacerado pela guerra e fui criada em um continente mais conhecido pelo que dá errado do que pelo que dá certo. Nos padrões da Somália e da África, sou privilegiada por ainda estar viva e sã, privilégio que não posso nem nunca vou poder considerar líquido e certo, pois sem a ajuda e o sacrifício dos familiares, professores e amigos, nada me distinguiria das minhas semelhantes que apenas lutam para sobreviver.” – Ayaan Hirsi Ali

O interessante das artes, seja ela qual for, é o fato de trazer para perto de nós não só o prazer do contato com a expressão e ideia do outro, mas também realidades alheias à nossa. Talvez seja esse o diferencial que mais me agrada em expressões artísticas como o livro Infiel e o filme Flor do Deserto. É a capacidade da arte de colocar outros povos e outras culturas em contato com vivências e referências tão diversas e inimagináveis, a ponto de pararmos para refletir sobre questões básicas como liberdade, respeito e dignidade – que normalmente não temos tempo de valorizar. Quando nos damos conta de que isso é o que falta em sociedades como a somali, e tantas outras na África, percebemos o inferno que deve ser a vida dessas meninas e futuras mulheres submetidas à humilhação da circuncisão genital feminina.

Em Infiel (Companhia das Letras, 496 páginas), a somali Ayaan Hirsi Ali conta como cresceu numa sociedade em que não se tem identidade própria a não ser aquela do clã; em que as mulheres são, ainda pequenas, mutiladas para não sentir prazer sexual; onde o pai e o irmão escolhem seu marido; onde a mulher não tem voz ativa, não deve pensar, dar opinião, andar com o rosto descoberto, nem desacompanhada de um homem da família. Conta como venceu tudo isso, refugiou-se na Holanda, tornou-se deputada, lutou contra o radicalismo do islã e pelos direitos da mulher muçulmana. Conta como passou a questionar a existência de Deus e a veracidade dos dogmas islâmicos nos quais foi criada. Conta como foi perseguida por isso, ameaçada de morte e teve de ser mudar para os Estados Unidos.

Assim como Waris Dirie, Ayann encontrou nas artes uma via de acesso à opinião pública e a outros povos, distantes do seu. Povos que entendem tais práticas como sendo uma barbaridade atroz. Só a conscientização plantará a semente da mudança, ou pelo menos da proteção de quem já sofre com a mutilação.

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PARTIR
CLASSIFICAÇÃO: Para Ver Bem Acompanhado, França - 24/06/2010

DIREÇÃO: Catherine Corsini

ROTEIRO: Catherine Corsini e Gaëlle Macé

ELENCO: Kristin Scott Thomas, Sergi López, Yvan Attal, Daisy Broom

França, 2009 (85 min)

“Por favor, me deixe ir embora.” É com essa frase – uma súplica – que Suzanne (interpretada pela bela Kristin Scott Thomas, também em O Paciente Inglês e Há Tanto Tempo que Te Amo) tenta fechar a porta do casamento estável, financeiramente confortável, porém acomodado, para entrar na seara da paixão, da incerteza e da falta de dinheiro. É como se ela precisasse de permissão para deixar de existir enquanto esposa do médico, que abdicou do trabalho para cuidar da família, para voltar a ter vontade própria e ser ela mesma.

Partir tem essa intensidade em todas as cenas, é construído essencialmente por uma dualidade. Suzanne é casada com Samuel (Yvan Attal), mora em uma pequena cidade ao sul da França e tem dois filhos. Quer voltar a trabalhar, a fazer algo para si. A partir desse desejo o encontro com o espanhol Ivan (Sergi López) se dá de uma maneira quase que natural. A partir desse encontro o filme mostra dois mundos opostos: o do casamento é tumultuado, tem a câmera rápida, as cenas cortadas, o enquadramento instável e mostra uma Suzanne angustiada e tensa; o da paixão, é lento, dono do tempo e do espaço, colorido, com tomadas longas e pausadas e tem uma Suzanne feliz e leve. Impressionante a mudança no semblante da atriz e a intensidade da sua interpretação. Esse é o verdadeiro fio condutor do filme e o seu ponto forte.

Mas logo na primeira cena já sabemos que algo não termina bem. Só pela expressão de Suzanne e pelo tiro que se segue, sabe-se que algo não sai como planejado. São os riscos do casamento que cai no esquecimento, que é engolido pelo dia a dia, pela rotina dos filhos, da casa, do trabalho. São os riscos do casamento que não cuida de si próprio. Suzanne vivencia todos eles e escolhe seu caminho. Mas acaba em uma via sem saída. É verdade que no filme estamos falando de extremos – ainda bem que nem sempre tudo é tão trágico assim.

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A LESTE DE BUCARESTE – A fost sau n-a fost?
CLASSIFICAÇÃO: Romênia, Para Pensar, Para Entender o Nosso Mundo - 23/06/2010

DIRECÃO E ROTEIRO: Corneliu Porumboiu

ELENCO: Mircea Andreescu, Teodor Corban, Ion Sapdaru

Romênia, 2006 (89 min)

Logo após a queda do Muro de Berlim em novembro de 1989 (relatada no ótimo filme Adeus, Lênin!), o efeito dominó atingiu os países do leste europeu, derrubando definitivamente a cortina de ferro da ex-União Soviética. Na Romênia não foi diferente. Em Bucareste, o ex-ditador Ceausescu é deposto em 22 de dezembro daquele ano – um reflexo do conflito iniciado entre manifestantes e polícia em uma cidade vizinha.

Diante dos acontecimentos que mudaram o mapa da Europa, uma pequena cidade a leste de Bucareste se pergunta, depois de 16 anos, se realmente participou dessa mudança e fez uma revolução. Essa é a sugestão de um apresentador de televisão em seu programa. O filme gira em torno dessa questão e trata, com um humor sutil, tristeza e desilusão, o significado real dessa mudança para o povo e no povo em si.

A dita melancolia é transmitida pelo panorama da tal cidade, sem graça e mal cuidada; por seus habitantes (pelo menos a amostra coletada pelo diretor, vencedor do prêmio de Cannes aos novatos, o Camera D’Or), apáticos, que vivem uma crise existencial e familiar, fazem pinta de trapaceiros, como quem precisa tirar vantagem da situação por pura falta de opção. Na indiferença diante de qualquer mudança positiva que a tal revolução possa ter trazido, um grupo de estudantes chega ao cúmulo de sugerir a revolução francesa como tema de um trabalho – nem a revolução no próprio país exalta os ânimos, nem sequer é lembrada.

Pensando um pouco nos recentes filmes romenos (vejam também Casamento Silencioso), a semelhança entre eles é no mínimo curiosa. Ambos lançam mão da ironia e do humor sutil – que precisam ser percebidos nas entrelinhas – para tratar do grande estrago que o comunismo fez na alma do povo. As cicatrizes são tão visíveis que fiquei com a impressão de serem puros saudosistas – por ser o passado seu mais valioso patrimônio. Impressão de que só as novas gerações serão capazes de viver o presente olhando para o futuro; de que quem viveu a realidade do país fechado, reprimido, estatizado, carente de tudo não sabe valorizar o indivíduo, muito menos a si próprio. É uma crise de identidade e de maturidade, típicos de quem não aprendeu a andar com as próprias pernas. Se replicarmos essa visão aos tantos outros países na mesma situação, tem uma parte da Europa em sérios apuros.

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A RAINHA – The Queen
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Para Entender o Nosso Mundo, Inglaterra - 18/06/2010

DIREÇÃO: Stephen Frears

ROTEIRO: Peter Morgan

ELENCO: Helen Mirren, Michael Sheen, James Cromwell, Sylvia Syms, Alex Jennings, Helen McCrory, Roger Allam e Tim McMullan

Reino Unido , 2006 – (97 min)

Para quem reina desde 1953, não faltam episódios, dramas, guerras, decisões através dos quais se possa fazer um balanço do reinado ou descrever a realeza. Ter escolhido a súbita morte da princesa Diana confere ao filme enorme sensibilidade e, certamente, um olhar diferenciado. Uma decisão política ou uma aliança econômica seriam capazes de colocar a rainha Elizabeth no patamar figurativo que hoje ela já ocupa. Mas a escolha da morte de Diana como foco central de A Rainha foi capaz de dar ao filme uma dimensão profunda do lado humano, dos bastidores do Palácio de Buckingham, das relações que permeiam a vida e os sentimentos de sua alteza, a austera rainha Elizabeth 2ª.

Diana, como se sabe, já não era parte integrante da família real quando morreu em 1997 – embora fosse mãe do futuro rei. Também se sabe da dificuldade entre a rainha e a princesa de lidar com as escolhas pessoais, amorosas, pessoais de cada uma e ainda administrar o olhar atento, tendencioso, emotivo do mundo todo, separar o público do privado. Retratar o momento da morte de Diana e o que se seguiu naquela semana fatídica é como dissecar o que sentiu e pensou a rainha enquanto mãe, avó, sogra, família real, referência mundial. É retratada como sendo uma mulher firme, independente, consciente de suas responsabilidades desde que assumiu o trono ainda muito jovem, mas descontente com os julgamentos, com o fato de se sentir preterida em relação à Diana, a “princesa do povo”. É retratada como uma mulher que tem a consciência do dever de aconselhar, de representar um país coeso e unido, de manter a privacidade, os dogmas e tradições, mas que sabe avaliar o risco de não ser amada por seu povo.

Politicamente, o momento é curioso. Um pouco antes da morte de Diana em Paris, é eleito primeiro-ministro o reformista Tony Blair, que quer modernizar o país não só na esfera econômica, mas também política. A maneira como lida e contesta a tradição e o protocolo é algo inacreditável e até engraçado. Visualmente, é delicioso passear pelos aposentos reais. A Europa está cheia deles, mas me custa certo esforço ambientá-los no século 21, pensar a realeza hoje, com o luxo e as formalidades que, de tão sedimentadas, passam a ser incontestáveis. Vale o passeio pelo luxuoso palácio de Buckingham (e pela residência de inverno na Escócia, o Balmoral), pelo mais inglês dos ambientes ingleses, com direito ao indispensável chá da tarde.

Após a morte de Diana, aconselhada por Blair e cobrada pelo povo, a rainha fez, após o tão criticado silêncio, um pronunciamento. Tive a curiosidade de assistir ao vídeo da verdadeira Elizabeth falando em rede nacional. A interpretação de Helen Mirren é perfeita (segue o vídeo abaixo do trailer) – foi premiadíssima pelo papel, inclusive com o Oscar de melhor atriz. Se você se lembra onde estava no momento em que recebeu a notícia da morte de Diana, vai se lembrar da comoção que foi. É no mínimo curioso se transportar para dentro do palácio e imaginar o que acontecia por lá naquele momento. É, sem dúvida, uma viagem imperdível pelos bastidores da realeza inglesa.

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CHE 2 – A GUERRILHA – The Argentine – Guerrilla
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, Estados Unidos, Espanha - 18/06/2010

DIRETOR: Steven Soderbergh1 icone_DVD

ROTEIRO: Peter Buchman, Benjamin A. van der Veen

ELENCO: Benicio Del Toro, Rodrigo Santoro, Catalina Sandino Moreno, Demián Bichir, Julia Ormond, Lou Diamond Phillips, Franka Potente, Benjamin Bratt

Espanha, Estados Unidos, França, 2008 (262 min)

Esta semana li uma notinha em uma revista semanal sobre os 100 dias de greve de fome do jornalista cubano Guillermo Fariñas, que pede a libertação de presos políticos doentes. Essa luta dos dissidentes de Cuba sempre impressiona pela intensidade e gravidade da situação. Lembrei que fiquei devendo a continuação de Che – O Argentino. Mais que merecida. Che 2 – A Guerrilha é um filme muito interessante, longe da idealização do mártir Che e bem perto da realidade que vemos hoje em Cuba.

A primeira parte da vida de Ernesto Guevara, pelo olhar criterioso de Steven Soderbergh, termina com Fidel e Che no poder, liderando em Cuba as reformas propostas pelo modelo comunista. A segunda parte começa em 1965, com a ida camuflada de Che à Bolívia. Seu objetivo é convencer camponeses a participar da luta armada por uma vida melhor e assim lutar contra o governo boliviano para tomar o poder (tudo dentro do ideal de uma América Latina unida e comunista).

O que o filme mostra é uma sucessão de erros estratégicos (falta de mantimentos, alimentos e remédios), de falta de planejamento e organização. Nos meses passados na selva boliviana, Che e seus “soldados” camponeses conseguem, a princípio, conquistar apoio da população que vive na miséria, mas aos poucos vão sofrendo com a própria falta de preparo logístico e emocional.

Benicio Del Toro é excepcional no papel (ganhou o prêmio de melhor ator em Cannes por isso) e realmente constrói o personagem dúbio que é Che na história. Para uns, mito; para outros, lobo em pelo de cordeiro. Seu jeito calmo, também quando atua como médico cuidando dos doentes que encontra pelo caminho, e sua opção pela guerrilha na selva ao invés da comodidade do poder com Fidel em Cuba, contrastam fortemente com sua determinação em usar armas, em matar, em tomar o poder. O Che do filme tem um olhar dissimulado, irônico. Se a ideia de Soderbergh era ser imparcial e retratar o ‘homem’ Che, que sofre com crises fortíssimas de asma e confessa seus erros graves no planejamento de sua ação, atinge seu objetivo com clareza. Mas ainda bem que temos como prova a história viva de Cuba que não quer calar.

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EDUCAÇÃO – An Education
CLASSIFICAÇÃO: Para Ver Bem Acompanhado, Inglaterra - 17/06/2010

DIREÇÃO: Lone Scherfig

ROTEIRO: Nick Hornby

ELENCO:  Carey Mulligan, Peter Sarsgaard, Alfred Molina, Rosamund Pike, Sally Hawkins, Emma Thompson, Olivia Williams, Dominic Cooper

Estados Unidos, 2009 (95 min)

É bem verdade que o tema é algo conhecido: uma garota de 16 anos se apaixona por um homem bem mais velho e se encanta com a possibilidade de entrar em uma vida já pronta e estruturada, longe da mesmice da escola e bem perto da boa música, da comida sofisticada, dos bons filmes, de Paris. Mas também é verdade que o cinema está cheio de histórias parecidas, assim como a vida real. Afinal, as histórias todas se repetem. 

No entanto, há algo em Educação que o faz bonito e sensível. A começar pela construção de uma época. Tudo se passa em Londres, no início dos anos 60, antes do advento dos Beatles e dos Rolling Stones – portanto ainda o ambiente severo e sério do pós-guerra, com a juventude comportada e atada às amarras tradicionais. Jenny (Carey Mulligan, atriz revelação) curte tudo o que é francês: arte, música, literatura, a própria Paris. É educada em uma escola rígida para meninas (a diretora é Emma Thompson, também de Em Nome do Pai, Tinha que Ser Você; a professora é Olivia Williams, também em O Escritor Fantasma) e tem como objetivo entrar em Oxford – também para contentar seu pai, que vive contando o quanto investiu na sua educação. A composição de todo esse ambiente da escola e da casa, o figurino, a trilha sonora e a fotografia são realmente muito bonitos e bem cuidados. 

Interessante a abordagem da diretora dinamarquesa Lone Scherfig. Toda a argumentação de David (Peter Sarsgaard) para conquistar Jenny gira em torno do mundo cultural de Londres daquela época: leilões, restaurantes, jazz, concertos clássicos, literatura, viagens. É através desse panorama que eles se conhecem e que a relação segue o seu rumo, em contraposição à educação formal e à escolha do caminho mais longo de estudo e trabalho. Passeamos no filme pelos ambientes chiques da época, pela transformação de menina em mulher, pela bela atuação de Jenny e David. Que convencem, constroem a trama e o romance com sensibilidade e leveza. Além, é claro, de ter uma boa pitada da alma inquieta e inconformada de adolescente, que não sabe que caminho tomar, que contesta tudo e todos. Talvez seja essa passagem da adolescência para a vida adulta, em que já somos inteiramente responsáveis por nossas escolhas, o grande charme do filme.

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GIGANTE
CLASSIFICAÇÃO: Uruguai, Para Pensar - 16/06/2010

DIREÇÃO e ROTEIRO: Adrián Biniez

ELENCO: Leonor Svarcas e Horacio Camandulle

Uruguai, Argentina, Alemanha, Espanha 2009 (90 mim)

Em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, o diretor Adrián Biniez diz que escreveu o roteiro de Gigante com base na frase anotada em um caderninho: “agente de segurança se enamora de empregada da limpeza num supermercado”. É simplesmente isso. E de tão simples o filme se tornou um retrato humano e sensível de uma relação idealizada através das câmeras de segurança de um supermercado.

Vencedor do Urso de Prata em Berlim e do Kikito de melhor roteiro em Gramado, Gigante é um filme parado, com pouquíssimos diálogos – por isso, não indico para quem prefere filmes rápidos e divertidos. É através da movimentação dos personagens que a história é contada. Jara, o segurança, apaixona-se por Julia, uma das moças da limpeza. Mas não tem coragem de abordá-la, então acompanha seus passos através das câmeras espalhadas pelo estabelecimento e segue a moça pela cidade quando ela vai à praia, ao cinema, às compras e até quando vai se encontrar com outro homem. Tudo de uma maneira sutil, cotidiana. Consegue até dar um toque de humor, colocando um leve sorriso nos lábios dos atores.

Gigante chama a atenção pela sensibilidade do rapaz apaixonado e realmente pela simplicidade na produção e pretensão do filme. O que se pretende? Acho que justamente ser despretensioso, falar de gente comum. Até a escolha do protagonista foi assim. Horacio Camandulle trabalha como professor e às vezes como ator teatral. Esse foi o primeiro filme dele. Bom começo.

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O ESCRITOR FANTASMA – The Ghost Writer
CLASSIFICAÇÃO: Para se Divertir, Inglaterra - 15/06/2010

DIREÇÃO: Roman Polanski

ROTEIRO: Roman Polanski, Robert Harris

ELENCO: Ewan McGregor, Pierce Brosnan, Olivia Williams, Tom Wilkinson, Kim Cattrall

Inglaterra, França, Alemanha , 2010 (128 minutos)

Roman Polanski (diretor também de O Pianista) está preso na Suíça. Preso em termos, porque aguarda sua extradição para os Estados Unidos em um confortável chalé na vila alpina de Gstaad, apesar de ter de usar a famosa tornozeleira eletrônica que monitora seus passos. Tudo isso por causa da condenação por ter feito sexo com uma garota de 13 anos em 1977, nos Estados Unidos. Saiu do país antes de ouvir a sentença e desde então não pisa por lá.

Sugetivo, o isolamento. O Escritor Fantasma tem esse aspecto muito forte, mas em uma ilha. Lembra, inclusive, o clima sinistro de A lha do Medo, de Scorsese. Aqui, quem se isola numa ilha americana é um ex-primeiro ministro inglês (feito por Pierce Brosnan, inspirado no apoio político de Tony Blair aos Estados Unidos e à guerra do Iraque), com sua esposa (Olivia Williams, também em Educação), sua equipe e um escritor fantasma que será responsável por redigir suas memórias. O vento e a trilha sonora de suspense contrastam com a arquitetura incrível do refúgio e com a faceta fria e impassível de Brosnan. Sinalizam, logo de cara, que algo não se encaixa bem. Assim como o empregado, que tenta, em vão, varrer as folhas do chão num dia de forte vento e chuva.

Não há propriamente um detetive, nem um evento a ser desvendado. Embora se noticie logo de cara a morte do antigo ghost writer, não é ela a grande questão do filme. O escritor fantasma (na pele de Ewan McGregor) trabalha somente para escrever as memórias e vai, aos poucos, montando um quebra-cabeça inteligente que só se completa na última cena. Tem um enredo envolvente, uma história amarrada, um suspense interessante. Jogo político, claro. Polanski que o diga.

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CASAMENTO SILECIOSO – Nunta Muta
CLASSIFICAÇÃO: Romênia, Para Entender o Nosso Mundo - 15/06/2010

DIREÇÃO: Horatiu Malaele

ROTEIRO: Adrian Lustig, Horatiu Malaele

ELENCO: Meda Andreea Victor, Alexandru Potocean, Valentin Teodosiu, Alexandru Bindea, Ioana Anastasia Anton

Romênia, Luxemburgo, França , 2008 (97 min)

O que era um vilarejo tranquilo antes do final da Segunda Guerra foi destruído pelos comunistas para a construção de uma fábrica; onde era uma fábrica antes da queda do Muro de Berlin e do ditador comunista Ceausescu em 1989 será construído um vilarejo turístico. Assim é a troca de poder, na Romênia e em qualquer lugar. Mudam-se os interesses, a destruição e a construção de uma realidade se sobrepõem com a maior facilidade – questão de conveniência. Coisa que não acontece com tanta desenvoltura assim com as pessoas, que ficam à mercê de toda essa movimentação de egos.

Essa insensibilidade humana é o ponto mais tocante de Casamento Silencioso. A vida de um vilarejo, com tudo que lhe é próprio (homens beberrões, romances tórridos nos campos, figuras caricatas), é eliminada de repente, durante uma festa de casamento; 50 anos depois, quem passa por lá não tem memória, respeito com o passado, com a tradição. Resta a ironia, o interesse pelo resultado. Fica o silêncio que dá conta de calar também ao espectador diante de almas fantasmagóricas, do cenário desolador e dos esqueletos do regime comunista.

Há sensibilidade de sobra na maneira de contar a história e, por isso o estranhamento é inevitável. O diretor Horatiu Malaele contrapõe o sarcasmo dos jornalistas que entram no que restou do vilarejo a procura de uma história sobrenatural, à melancolia, apatia e profunda tristeza das mulheres viúvas que sobraram ali depois daquele casamento em 5 de março de 1953. Vale dizer que coincidentemente morre nesse dia o líder soviético Stálin e, portanto, fica proibida qualquer manifestação festiva, música, dança, casamento ou funeral. O que se segue é uma cena tragicômica que beira o absurdo. Assim como a imposição do poder – mas essa é o absurdo propriamente dito.

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