cinegarimpo

março, 2010

GUERRA AO TERROR – The Hurt Locker
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, Estados Unidos - 31/03/2010

DIRETORA: Kathryn Bigelow

ROTEIRO: Mark Boal

ELENCO: Jeremy Renner, Anthony Mackie, Brian Geraghty, Guy Pearce, Ralph Fiennes, David Morse, Evangeline Lilly

Estados Unidos, 2009 (131 min)

Vencedor do Oscar de Melhor Filme, Diretor, Roteiro Original, Montagem, Edição e Mixagem de Som

Sem dúvida um filme diferente. Se merece o Oscar? Tudo depende de como o filme impressiona você. Minha opinião: se assistir achando que verá mais um filme de guerra, com mortes, tiros, corpos dilacerados e tudo mais, talvez não seja tão especial assim – embora os efeitos sejam interessantes. Mas se abrir os olhos para o lado humano e desumano dos países em confronto, da guerra que continua muito tempo depois do conflito em si, da maneira como os confrontos são capazes de desestruturar uma pessoa a ponto fazê-la perder as referências mais básicas de afeto e sobrevivência e viciá-la na “adrenalina de guerra”, realmente será uma experiência interessante e muito envolvente.

Guerra ao Terror vai além da história do esquadrão americano escalado para desarmar as minas terrestres espalhadas pelo Iraque. Conta essa história sim, mas coloca o espectador dentro da guerra, dentro da cabeça dos personagens, envolvido com seus sentimentos – ou com a falta dele. 

Faça o teste: coloque-se no lugar de James, o especialista em desarmar bombas, vivido intensamente por Jeremy Renner. Foi o que a diretora Kathryn Bigelow tem em mente quando nos faz ouvir a respiração do técnico vestido para “desarmar” as minas terrestres, quando treme a câmera como se essa fosse não só a visão dele, mas também nossa do caos. O tema de que a guerra é viciante é recorrente. Permeia o filme todo no personagem James, como representante dos Estados Unidos que querem a guerra enquanto mecanismo de controle militar, enquanto propaganda humana, enquanto alimento para uma alma que já não vê razão nas relações ou nas coisas simples da vida.

A essa aridez emocional, junte a aridez do Iraque em si. São lugares abandonados, com gente escondida, dissimulada, desconfiada, pronta para atacar. É um deserto não só de areia, mas também de frieza e loucura. É um deserto onde James, vestido como se fosse astronauta, debaixo do calor intenso, vive a situação surreal de desfazer, desconstruir, destruir a construção de uma proposta destrutiva. É confuso, parece ser filmado para nos confundir mesmo. Senti uma mistura de descrença nos poderosos e desesperança no homem. Mas o mais forte de tudo é a guerra e o prazer que ela traz, a possibilidade de desafio inerente a ela e de objetivo que muitas vezes falta ao homem comum. É um retrato muito sério, que acontece hoje, lá no Iraque.

Em relação à diretora premiada Kathryn Bigelow, o que me intriga é o fato de uma mulher dirigir um filme como este. Outra coisa foi a escolha dos atores. O famoso Ralph Fiennes (também em O Leitor, A Duquesa, O Paciente Inglês) faz uma ponta. Não é o protagonista. Os protagonistas somos nós, assim como os atores escolhidos: desconhecidos, sujeitos à esse tipo de tentação de guerra, de destruição. Acho que estou sendo até um pouco dramática – mas Bigelow, com seu toque feminino, talvez tenha feito de propósito. Mulher não dá ponto sem nó.

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LIVRO – O MAGO
CLASSIFICAÇÃO: Dicas Afins, Brasil - 31/03/2010

Caro Fernando:

Hoje eu completo sessenta anos. Meu plano era fazer o que sempre faço, e assim foi. (…) Por que lhe escrevo? Porque hoje, ao contrário de meus outros dias, tenho uma imensa vontade de voltar ao passado. Mas usando olhos que não são meus, e sim os daquele que teve acesso aos meus diários, aos meus amigos, aos meus inimigos, a todas as pessoas que fizeram parte da minha trajetória.

Não sei qual será a minha reação ao ler o que estará escrito ali. (…) E, no fundo, foi por esta razão que aceitei ter minha biografia escrita: para que eu pudesse descobrir outra face de mim mesmo. E isso me fará sentir mais livre.

Como qualquer escritor, sempre namorei a ideia de uma autobiografia. Mas é impossível escrever sobre si mesmo sem terminar justificando os erros e engrandecendo os acertos –  faz parte da natureza humana. Daí a ideia do seu livro ter sido aceita com tanta rapidez, mesmo sabendo que estou correndo o risco de ver reveladas coisas que, no meu entender, não são necessárias. Porque, se elas fazem parte da minha vida, precisam ver a luz do dia. Daí a minha decisão, de que em muitos momentos ao longo destes três anos eu me arrependi, de abrir os diários que escrevo desde que eu era adolescente.

Mesmo que eu não me reconheça no seu livro, sei que ali está uma parte de mim. (…) Qual seria o meu destino se eu não tivesse experimentado as coisas que vivi?

Paulo”

Esse é um trecho da carta escrita por Paulo Coelho ao seu biógrafo, Fernando Morais, no decorrer da produção do livro O Mago (Editora Planeta, 630 páginas), justamente no dia em que faz 60 anos. Alguns meses depois, ele alcança a marca dos 100 milhões de livros vendidos em todo o mundo. Nada mau. Goste ou não do seu estilo, Paulo Coelho é reverenciado no mundo todo e tem uma vida muito, mas muito interessante.

Lembro-me da primeira vez que ouvi falar dele. Era 1989, eu tinha 19 anos, e alguém fez chegar em minhas mãos, na França, os dois primeiros sucessos, O Alquimista e O Diário de um Mago. Confesso que me tocaram: falavam de transformação, de busca do sonho de uma maneira simples e direta. Os outros, não li. Não me interessei e por isso não posso opinar. Mas não se trata aqui de falar dos livros de Paulo Coelho, mas do livro sobre ele. De como ele perseguiu obsessivamente o sonho de se tornar um escritor famoso no mundo todo; de como ele persuadiu Raul Seixas a deixar o terno e a gravata e investir na música, no álcool e nas drogas; de como suportou as internações psiquiátricas e as prisões no DOI-Codi; de como aprendeu a lidar com a rigidez dos pais e com os casamentos desfeitos; de como rejeitou a bruxaria e encontrou o seu caminho e o sucesso.

Vale a pena ler. Passa por anos importantes da história do Brasil e do mundo; passa por personalidades também descritas em outras obras (como no filme Zuzu Angel) e tantas outras; passa pelos hábitos e costumes de uma época. Goste ou não de Paulo Coelho, fato é que o sujeito viveu intensamente, tem e terá ainda muita história para contar.

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ZUZU ANGEL
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, Brasil, Biografia - 29/03/2010

 

DIRETOR: Sergio Rezende

ROTEIRO: Sérgio Resende e Marcos Bernstein

ELENCO: Patrícia Pillar, Daniel de Oliveira, Luana Piovani, Leandra Leal, Alexandre Borges, Ângela Vieira, Ângela Leal, Flávio Bauraqui, Paulo Betti, Nélson Dantas, Regiane Alves, Fernanda de Freitas, Caio Junqueira

Brasil, 2006 (110 min)

Lembrei de rever Zuzu Angel por causa das referências a ela e à sua filha, Hildegard Angel, na biografia de Paulo Coelho, O Mago, de Fernando Morais. Acabo de ler o livro. Não sabia que Hildegard e Paulo Coelho eram amigos naqueles anos de chumbo, a década de 70. Assim como o famoso escritor, Stuart (Daniel de Oliveira), filho de Zuzu, foi perseguido e torturado pelo regime militar. No entanto, não teve a mesma sorte e acabou assassinado, sem que seu corpo fosse jamais entregue aos familiares.

Zuzu Angel (ótima por Patrícia Pillar) conta justamente sua luta para reaver o filho, vivo ou morto. Estilista famosa internacionalmente, acorda para o terror da ditadura quando seu filho desaparece, quando o regime passa a ameaçá-la diretamente, quando já não se vê costurando futilmente para as esposas dos militares enquanto artistas, estudantes e intelectuais morrem nos porões dos quartéis.

Plasticamente o filme é muito bonito – embora muito triste, claro. Senti a beleza do filme, ao mesmo tempo em que senti a vergonha e a dor de mãe. O filme é embalado pela canção Angélica, tributo de Chico Buarque à estilista (veja o vídeo abaixo); mostra pessoas que fizeram parte da vida de Zuzu como a modelo Elke Maravilha (na pele de Luana Piovani); mostra Zuzu levantando a bandeira de mãe de um desaparecido político; mostra a posição das irmãs de Stuart, que criaram o Instituto Zuzu Angel (IZA) em 1993 para promover a moda enquanto expressão da cultura brasileira e preservar a memória da mãe e do irmão. Tudo isso situa o filme na realidade do nosso país – o que faz dele um registro muito, mas muito interessante.

O primeiro vídeo, logo abaixo, é uma montagem com imagens reais e fictícias, com a canção Angélica de fundo; o segundo, o trailer oficial do filme. Gosto dos dois, embora tenha priorizado o primeiro, é verdade. Acho que ele transcende o cinema, entra na realidade e traz os fatos para perto de nós. Por mais duros que sejam.

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UM SONHO POSSÍVEL – The Blind Side
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Para Pensar, Estados Unidos - 25/03/2010

DIREÇÃO e ROTEIRO: John Lee Hancock

um sonho possivel

ELENCO: Sandra Bullock, Tim McGraw, Kathy Bates, Quinton Aaron

Estados Unidos, 2009 (128 min)

Mais um filme que traz um título em português bem diferente do original. Não que me ocorresse alguma tradução mais apropriada agora – apesar do ofício – mas “blind side” remete à função protetora que um determinado jogador tem no futebol americano. Nosso campo de visão não abrange tudo que ocorre ao nosso redor – assim como no ponto cego quando olhamos no retrovisor do carro. No jogo também é assim: esse ponto cego precisa ser coberto por alguém, que fica de olho, protege o jogador que será atacado pelo adversário porque não tem a visão daquele lugar específico. Portanto, o título original remete a instinto de proteção e não a sonho – que por sinal tem pouco a ver com o filme. A personagem de Sandra Bullock (também em Tão Forte e Tão Perto, Crash)não tinha um sonho. O que ela tinha era intuição e confiança.

E por falar nela (vencedora do Oscar de Melhor Atriz), gostei bastante da sua atuação. É verdadeira, dramática e prova que é capaz de incorporar um personagem mesmo que ele não seja caricato, de atuar em um filme, mesmo que não seja uma comédia.

Mas o ponto alto do filme é o fato de ser uma história é real. É verdade, já disse várias vezes que gosto dessas releituras. E aqui, acho que se trata de algo muito perto de nós, que nos atinge todos os dias com o nosso preconceito contra, às vezes, aqueles que estão dentro das nossas casas trabalhando, dedicando-se ao bem-estar das nossas famílias. Acho interessante pensar que essa mulher bonita, rica, influente, ligada em estética abre sua casa para um garoto pobre, negro, gordo, inábil intelectualmente, de mãe drogada. Interessante pensar sobre a coragem que essa mulher teve de enfrentar as pessoas, apresentá-lo como filho, responsabilizar-se por ele judicialmente, independente do preconceito contra classe, cor ou educação.

Em se tratando de Hollywood, fica fácil construir um drama assim. O papel tudo aceita – ainda mais nos dias de hoje em que quase tudo é possível e em que o apelo racial é forte. Entretanto, em se tratando de vida real, é preciso ter muita coragem para se envolver em uma situação por si só problemática e controversa. É preciso ter muita coragem para assumir, construir e dar o exemplo de que uma relação aparentemente complicada pode ser um fator transformador na vida de muita gente. Quantas vezes desperdiçamos uma experiência enriquecedora, mas nem por isso fácil, por medo, preconceito, vergonha ou até preguiça de mudar algo na vida? Quantas vezes não acreditamos na nossa intuição e ficamos aprisionados no próprio medo e insegurança? Fiz essa pergunta ao sair do cinema. É preciso ter coragem.

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CHE – O ARGENTINO / Che – The Argentine
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, França, Estados Unidos, Espanha - 25/03/2010

che_-_el_argentino_2DIRETOR: Steven Soderbergh1 icone_DVD

ROTEIRO: Peter Buchman, Benjamin A. van der Veen

ELENCO: Benicio Del Toro, Rodrigo Santoro, Catalina Sandino Moreno, Demián Bichir, Julia Ormond, Lou Diamond Phillips, Franka Potente, Benjamin Bratt

Espanha, Estados Unidos, França, 2008 (134 min)

“Temos que dizer aqui o que é uma verdade conhecida. Temos dito isso em todo o mundo. Fuzilamentos? Sim, fuzilamos. Fuzilamos e continuaremos fuzilando enquanto for necessário. Nossa luta é uma luta até a morte. Contra a imposição do imperialismo norte-americano.”

– Che, em discurso na ONU em 1964

As notícias da semana passada sobre a greve de fome do jornalista cubano, estampadas em toda a mídia, me deixaram intrigada. Ainda não tinha assistido a Che – O Argentino. Achei que estava mais do que na hora, afinal o mito Che é muito forte e as manchetes atuais mostram que a dita ‘revolução cubana’ ainda acontecesse bem debaixo do nosso nariz.

Já no poder como braço direito de Fidel Castro, Ernesto Che Guevara dá uma entrevista a uma jornalista norte-americana em Havana. Ela pergunta se a mensagem da Revolução Cubana não perderia a sua força caso os esforços recentes dos Estados Unidos para ajudar os povos latino-americanos tivessem êxito, as classes dirigentes aceitassem reformas agrária e fiscal, o nível de vida melhorasse. Era 1964 e Cuba já sofria com o bloqueio comercial imposto pelos Estados Unidos, já fora expulsa da OEA e já se alinhara com a extinta União Soviética. Traçava um destino cada vez mais longe da democracia e da liberdade de expressão. A pergunta acima (parte da entrevista está no filme) vai direto ao ponto: o apelo da turma esquerdista de Fidel foi o bem-estar do povo, o regime de igualdade, o emocional. Mas era só apelo, e não realmente o seu interesse. A revolução cubana teria perdido a sua áurea mágica se o povo não estivesse em tamanha penúria – que persiste. O que vemos hoje é um verdadeiro desastre humanitário, econômico, educacional e moral.

O filme Che – O Argentino é a primeira parte da produção cinematográfica sobre ele (a sequência é Che – A Guerrilha) e mostra um comandante já diferente daquele futuro médico idealista de Diários de Motocicleta. Mostra um comandante arrogante, irônico, poderoso e de boa lábia. A caracterização de Benício del Toro é realmente muito boa – levou o prêmio de melhor ator  em Cannes pelo papel. No filme são intercaladas as cenas do planejamento do golpe em 1956, da trajetória das colunas de guerrilheiros até Havana para depor Fulgencio Batista e tomar o poder em 1959 e do seu discurso na ONU, em 1964. Nele, Che teoriza sobre os “explorados e pobres da América Latina” que decidiram “escrever a história com as próprias mãos” e que lutam contra o “imperialismo”. Interesse da cúpula somente, a mesma há 50 anos.

Está nos jornais o resultado de todo esse discurso vazio e por si só imperialista: jornalistas presos por não poderem se expressar, internet controlada (veja site e o livro da blogueira Yoani Sánchez no post De Cuba, com carinho), greves de fome para chamar a atenção do mundo, sistemas educacional, habitacional e de saúde em colapso. E os pobres da América Latina continuam pobres. E seus líderes, inclusive o nosso, pobres de espírito.

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EM NOME DO PAI – In The Name of the Father
CLASSIFICAÇÃO: Para Rever, Para Entender o Nosso Mundo, Irlanda, Inglaterra - 24/03/2010

DIRETOR: Jim Sheridan1 icone_DVD

ROTEIRO: Terry George, Jim Sheridan, Gerry Conlon (livro)

ELENCO: Daniel Day-Lewis, Emma Thompson, Pete Postlethwaite, Anthony Brophy, Frankie McCafferty, Mark Sheppard

Irlanda, Reino Unido, 1993 (133 min)

O “pai” do título não é Deus – muito embora o conflito entre Irlanda do Norte e Inglaterra também permeie a intolerância religiosa. Estamos nos anos 1970, quando unionistas protestantes queriam continuar respondendo para Londres, mas os nacionalistas católicos achavam que deveriam voltar a fazer parte da Irlanda. Por isso criam seu braço armado, o IRA (Exército Republicano Irlandês), para lutar contra a presença inglesa no país. Durante mais de 30 anos, os atos terroristas mataram inocentes e prejudicaram a Irlanda do Norte como um todo.

De fato “pai” poderia ser uma referência à luta armada em nome de Deus – assim como muitas outras cruzadas foram justificadas pela religião. Faria todo o sentido. Mas aqui é a luta em nome do pai biológico, condenado, junto com o filho, por um crime cometido justamente pelo IRA, e não por eles, em Londres. A família Conlon é julgada e presa injustamente. Daí a luta pela justiça e liberdade.em-nome-do-pai21

O filme é de 1993, mas a questão é bastante atual. Lembrei dele quando vi Nine, também com Daniel Day-Lewis. Lembrava da sua atuação brilhante e de que através de seu personagem conhecemos a ideologia do grupo terrorista IRA e sua brutalidade, além da atitude comum da juventude britânica dos anos 70, no culto das drogas, do sexo e do rock. Preste atenção nas roupas, na ambientação. O retrato é interessante. A cena em que mostra esses jovens inconsequentes, baderneiros e descompromissados no seu “apartamento” londrino caindo aos pedaços me fez lembrar a Londres de hoje. A cidade que mantém as fachadas vitorianas, tem o interior repaginado com o que há de mais moderno, fashion e badalado – vide as lojas e os hotéis charmosos que há por lá. Metafórico talvez de como a Inglaterra se comporta hoje e ontem, do seu conservadorismo, da quebra de protocolos e paradigmas.

Atualmente os dois braços políticos coexistem pacificamente e formam o governo de coalizão, embora ainda haja grupos dissidentes criando conflito. Hoje a província britânica da Irlanda do Norte já tem mais autonomia, com os poderes de polícia e justiça centrados em Belfast, e não mais Londres. Tanto melhor. Cada um que cuide do seu. Por essas e outras, vale rever para lembrar e entender melhor o nosso mundo. Vale rever – nem que seja para apreciar uma história realmente muito boa.

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GOODBYE SOLO
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Estados Unidos - 22/03/2010

1 icone_DVDgoodbye-soloDIRETOR: Ramin Bahrani

 

ELENCO: Souleymane Sy Savane, Red West, Diana Franco Galindo, Lane Roc Williams, Mamadou Lam, Carmen Leyva

Estados Unidos, 2009

 

Prêmio da Crítica Internacional no Festival de Veneza

“Por que nos Estados Unidos as famílias não ficam juntas? Não entendo isso. No Senegal, os mais novos cuidam dos mais velhos.”

 

Quando fui devolver o filme na locadora, a atenciosa recepcionista me perguntou se eu tinha gostado. E mais, se era, de fato, muito lento. Achei interessante a pergunta. Parece que ela já tinha ouvido falar que às vezes Goodbye Solo é um pouco repetitivo. Tanto melhor você saber disso também. Assim, já fica sabendo que terá de ter olhos para outros sentidos que não agilidade e ação.

O apelo do filme é basicamente a solidariedade de um rapaz senegalês. Solo é taxista, procura melhorar de vida concorrendo a uma vaga como comissário e é casado com uma mexicana. Embora sofra com as complicações por que passam os imigrantes, tenta ser solidário com um passageiro, o severo, angustiado e solitário William. É um jogo contínuo de dar e não receber, de tentar se aproximar e ser repelido. Nada mais que isso. Mas se tiver um pouco de paciência, vai perceber a sutileza da relação e a ação gratuita para com o outro.

Talvez por isso o filme esteja falado na locadora como “parado”. As relações muitas vezes são assim, não andam nem para frente, nem para trás. Ficam paradas no tempo. Se dois não querem, não há como avançar. Talvez seja uma metáfora da sociedade americana. Como disse Solo, os americanos não se juntam em família – coisa comum na África, em que os mais novos são cuidados e uma hora chega a vez deles de tomar conta dos mais velhos. Talvez seja uma metáfora da solidão, do vazio, do marasmo que é a vida sem o outro. 

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A CONQUISTA DA HONRA – Flags of our Fathers
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, Estados Unidos - 19/03/2010

a-conquista-da-honra2DIRETOR: Clint Eastwood1 icone_DVD

ROTEIRO: William Broyles Jr. e Paul Haggis (baseado em livro de Ron Powers e James Bradley)

ELENCO: Ryan Phillippe, Jesse Bradford, Adam Beach, John Benjamin Hickey, John Slattery, Barry Pepper, Jamie Bell, Paul Walker, Robert Patrick, Neal McDonough, Melanie Lynskey, Thomas McCarthy, Chris Bauer

Estados Unidos, 2006 (131 min)

 

A Conquista da Honra seria só mais um filme de guerra se não fosse a sua cara-metade, Cartas de Iwo Jima, já no CINE GARIMPO. Tudo na vida tem pelo menos dois pontos de vista. O que a direção de Clint Eastwood e produção de Spielberg fizeram foram dois filmes absolutamente sobrepostos, complementares e caricatos da dualidade do ser humano e da sua capacidade de enxergar aquilo que lhe convém, de contar um conto e aumentar um ponto. Principalmente quando desse conto dependem milhares de vidas e o destino de diversas nações.

Diferente de Cartas de Iwo Jima, que enfoca a guerra vista pelos japoneses, entrincheirados e escondidos na imensa rede de túneis cavados nas montanhas à espera do ataque americano à ilha no Pacífico em 1945, A Conquista da Honra é o olhar americano. Mostra a sua imensa frota e o poderoso contingente sofrendo baixas pelos quase 40 dias de batalha, num momento crucial da Segunda Guerra em que os Estados Unidos precisavam de uma vitória rápida e certeira. Foi daí que a foto dos seis soldados hasteando a bandeira americana no topo do monte Suribachi ficou famosa. Foi da necessidade da construção de heróis de guerra que a foto de Joe Rosenthal (abaixo), da Associated Press, rodou o mundo e fabricou verdadeiros salvadores da pátria para sensibilizar a população da necessidade de mais fundos para vencer a guerra.

a conquista da honra - foto

O filme tem dois momentos, e começo por aquele que realmente impressiona pela sua dramaticidade, seu jogo de luz e sombra. As cenas de batalha, principalmente o desembarque americano na ilha, são incríveis – mesmo para quem não gosta de guerra. A aridez da ilha ajuda a constituir o cenário de penúria, falta de humanismo, terror. O outro momento é a turnê dos supostos protagonistas da façanha da bandeira pelos Estados Unidos, necessária para a construção do mito do herói. Aqui tem um pouco de melodrama, de trauma de guerra e até de racismo contra a população indígena. Não é o ponto forte. Vale a pena assistir ao trailer abaixo – dá uma noção do que são esses dois momentos opostos do filme.

O importante aqui é que uma produção não acontece sem a outra. São inteligentemente ligadas. Recomendo as duas. Nelas, a diferença entre as culturas americana e japonesa salta aos olhos. Interessante pensar que a primeira usa de artimanhas para manipular emocionalmente o povo em prol de mais recursos financeiros – tudo pela vitória, mesmo que isso signifique mentir; já a segunda, luta até o final, não abandona seu posto e prefere se matar a ser capturada pelo inimigo – tudo pela honra, tão presente na cultura oriental.

Acho que é por isso que o nome em português soa falso. O que os americanos conquistaram não foi a honra, foi o dinheiro e a vitória militar. Em inglês, o título fala da “bandeira dos nossos pais”, já que o filme é narrado pelo filho de um dos soldados. Nada mais. Parece que na nossa língua mãe, o título também está tentando construir heróis, não sendo nada imparcial. Nossa sorte é que temos os dois pontos de vista disponíveis para que nós mesmos tiremos a conclusão de quem é quem nessa história toda.

 

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BESOURO
CLASSIFICAÇÃO: Para se Divertir, Para Pensar, Brasil - 16/03/2010

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DIREÇÃO: João Daniel Tikhomiroff

ROTEIRO: Patrícia Andrade, João Daniel Tikhomiroff

ELENCO: Aílton Carmo, Anderson Santos de Jesus, Jessica Barbosa, Flavio Rocha, Irandhir Santos, Macalé, Leno Sacramento, Chris Vianna, Sérgio Laurentino, Adriana Alves, Miguel Lunardi.

Brasil, 2009 (93 min)

O filme Besouro foi anunciado como uma superprodução nacional, feita de um lado com atores estreantes, de outro com talento de profissionais internacionais. E de fato é – Aílton Carmo, o Besouro, é professor de capoeira e guia turístico em Lençóis e o coreógrafo chamado para fazer Besouro “voar” na capoeira foi o chinês Huen Chiu Ku, o mesmo de O Tigre e o Dragão, em que os personagens voavam lutando kung fu. O efeito é realmente bonito e o filme tem muito mais um teor poético, onde as visões e o imaginário falam mais alto, do que ação propriamente dita.  

Além do resultado plástico e estético, a questão histórica é muito interessante, baseada em fatos reais. Meu filho de 10 anos assistiu – disse que não só gostou como aprendeu com o filme, com a reconstituição da época, com os cenários e a situação de trabalho dos negros nos canaviais. Achei bacana o comentário. Besouro conta a história do capoeirista baiano Besouro Mangangá, filho de ex-escravos, que se tornou famoso por defender seu povo das garras dos coronéis e dos policiais na Bahia dos anos 1920. Naquele tempo a capoeira era proibida, pois ameaçava a hegemonia e o poderio dos coronéis. Embora não mais escravocrata, o Brasil do anos 20 ainda praticava crueldades e injustiças contra os negros, resultando numa sociedade cheia de preconceitos até hoje. Besouro é o defensor do seu povo através da luta-dança ensinada por seu mestre, passada de geração em geração. Mas, é preciso dizer que o herói aqui não é um herói pró-ativo, do tipo “ação a todo custo”. Ele é muito mais contemplativo, pensativo, cheio dos misticismos da cultura negra, o que faz o filme ser mais introspectivo – com todo o apelo que possa existir nos orixás. Daí o tom poético que mencionei acima.

Eu particularmente reparei muito no local das filmagens, o Parque Nacional Chapada Diamantina. Estive lá há poucos meses e de cara identifiquei a cor de ferro da água, as cachoeiras maravilhosas, a vegetação, as formações rochosas que tanto caracterizam esse oásis no coração da Bahia. Pela própria mística  e encantamento do lugar, é como se o Besouro lendário realmente pudesse voar.

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O EQUILIBRISTA – Man On Wire
CLASSIFICAÇÃO: Para se Divertir, Para Pensar, Inglaterra - 11/03/2010

DIREÇÃO1 icone_DVD: James Marsh

ROTEIRO: Philippe Petit (livro To Reach the Clouds: My High Wire Walk Between the Twin Towers)

ELENCO: Philippe Petit, Annie Allix, Jean-Louis Blondeau, Ardis Campbell, David Forman, Barry Greenhouse, Jean François Heckel, Jim Moore

Inglaterra, Estados Unidos, 2008 (94 min)

O equilibrista-protagonista do filme – e da façanha – é o artista Philippe Petit, um francês que dizia que as Torres Gêmeas tinham sido feitas para que ele pudesse ligá-las pelo vértice através de um cabo de aço para poder, assim, ir e vir livremente. Esse era seu sonho, perseguido até que fosse possível realizá-lo em 1974: durante 45 minutos, ele percorreu o cabo de aço 8 vezes, ajoelhou-se, deitou-se, fez reverência, olhou para baixo, apreciou o seu público e deu-se, então, por satisfeito.

equilibristaVencedor do Oscar, do Sundance e de outros 25 prêmios na categoria documentário, O Equilibrista conta a trajetória de Petit equilibrando-se em outros monumentos mundo afora, até atingir os 417 metros do topo das Torres Gêmeas. Mistura imagens reais da construção do WTC, encenações das dificuldades de preparo dessa aventura com depoimentos de parceiros da época. É uma lição de superação e até de persistência, sem falar nas imagens que são emocionantes.

Mas o que mais me causou consternação foi pensar que essas torres gigantescas simplesmente não existem mais. Quando aparecem as imagens da construção, dos operários, do vazio sendo preenchido pela montanha de concreto que se tornaria o templo do império americano por tantos anos, elas se confundem com aquela montanha de concreto retorcido depois dos atentados, com o vazio na silueta de Nova York, com os milhares de mortos e os milhares de profissionais que ajudaram retirar de cena o que restou da tragédia.

A proeza e ousadia de Petit são impressionantes. E o documentário não traz só o fato em si, mas retrata também as sensações, satisfações e medos daquele momento. Senti que não é uma apologia ao WTC ou uma lembrança indireta ao atentado. É um registro de um fato real. Mas não dá para desassociar uma coisa da outra. As imagens de 11 de setembro marcaram nossas vidas para sempre. Assistir ao planejamento de Petit, ao estudo minucioso que fez das torres, aos desafios e dificuldades para conquistá-las me fizeram pensar no planejamento feito pelos terroristas para desconstruí-las. Quase que uma ironia do destino. Mas o fato é que depois do atentado das Torres Gêmeas, o mundo nunca mais foi o mesmo. Quem não se lembra do que estava fazendo na hora do choque do primeiro avião? Eu amamentava minha filha no instante em que tudo aconteceu. Na hora não me dei conta, mas tinha pela frente um mundo diferente para apresentar a ela.

 

 

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