cinegarimpo

setembro, 2009

O VISITANTE – The Visitor
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Para Entender o Nosso Mundo, Garimpo na Locadora, Estados Unidos, Drama - 30/09/2009

O Visitante me lembrou, de cara, o belo filme do francês Philippe Lioret, Bem-Vindo. Ambos tratam dessa complicada questão da imigração ilegal que assola a tão de perto a vida das pessoas, modificando-as de maneira implacável. Pertencer ou não pertencer a algum lugar, eis a questão que não quer calar.

Mas o assunto é abordado tendo como fio condutor a vida de Walter Vale (Richard Jenkins – nomeado ao Oscar de Melhor Ator, também em Comer, Rezar, Amar e Queime Depois de Ler), um desanimado professor universitário de Connecticut que dá o mesmo curso há 20 anos, que já publicou 3 livros e finge escrever o 4º e que não se envolve com absolutamente nada na vida. Segue vivendo, como se por inércia.

Até que é forçado a ir a Nova York apresentar um trabalho num congresso e, ao entrar em seu apartamento, encontra um casal morando por lá sem seu conhecimento. Ele é o sírio Tarek Khalil (Haaz Sleiman) e ela, a senegalesa Zanaib (Danai Gurira). Para evitar a polícia, o casal se prontifica a ir embora imediatamente. Mas, impulsivamente, Walter os convida a ficar. E eles ficam.

A vida de Walter ganha o brilho que perdera há muito tempo. A sensação que se tem é de que, sem pensar que pudesse estar acobertando ilegais, se misturando com gente sabe lá se desonesta, ele age naturalmente, como se por instinto de acolhimento e humanidade. Desse gesto desinteressado, nasce uma relação despretenciosa, sincera, musical. A vida ganha um propósito, sem que as diferenças façam de fato diferença. Pelo contrário, terminam por unir pessoas de realidades realmente díspares, mas que se completam.

No meio disso, aparece a fabulosa atriz israelense Hiam Abbas (Lemon Tree, A Noiva Síria), no papel de Mouna Kalil, mãe de Tarek – que completa o time dos protagonistas, que é realmente excelente.

É verdade que O Visitante coloca em voga a realidade dura da imigração nos Estados Unidos, precisamente em Nova York, após o 11 de setembro. Mas ressalta, sobretudo, que existe a possibilidade de as pessoas se relacionarem apesar dos pesares e fazer desse encontro um marco de tolerância e simplicidade. Talvez o truque fosse não parar muito para pensar – os preconceitos nascem dessa mania que temos de nos apropriar das coisas, pessoas, lugares, pensamentos, verdades, como se fossem só nossos. E de mais ninguém.

 

 

DIRETOR: Thomas McCarthy1 icone_DVD ELENCO: Richard Jenkins, Hiam Abbass, Haaz Sleiman, Danai Gurira, Marian Seldes, Richard Kind | 2008

Sem Comentários » TAGS:  
FROST/NIXON
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, Estados Unidos - 29/09/2009

DIRETOR: Ron Howard1 icone_DVD

ELENCO: Frank Langella, Michael Sheen, Sam Rockwell, Kevin Bacon

LOCAL /ANO: EUA/2008

frost-nixon

“Quando o presidente faz algo errado, não é ilegal.” – Richard Nixon

É justamente para arrancar a declaração de que sabia de tudo e para redimir o povo americano que o apresentador inglês de programas de entrenimento, David Frost, investe alto para conseguir entrevistar o ex-presidente em 1977, três anos após a renúncia. E é justamente essa série de quatro entrevistas, filmadas em quatro dias diferentes, que é retratada no filme como se fosse uma batalha de vida ou morte. Vale dizer que o embate tornou-se célebre, virou peça e agora filme nas mãos do diretor Ron Howard, o mesmo de A Rainha.

Nixon renunciou à presidência dos Estados Unidos por causa do famoso grampo na sede dos democratas em Watergate, durante a campanha para a sua reeleição, em 1972. A mesma opinião pública que o elegeu aliou-se à mídia e a poderosos informantes para tirá-lo do poder. Sem confessar culpa, Nixon sai dos holofotes e deixa o povo americano sem seu pedido de desculpas.

Portanto, o cerco está armado. De um lado o apresentador de futilidades luta por sua reputação e prestígio no meio jornalístico e aposta todas as suas fichas na possibilidade de arrancar uma declaração arrasadora da boca do presidente; de outro o presidente boêmio, beberrão, bon vivant, que com excesso de confiança acha que facilmente escapará das perguntas fúteis do apresentador estrangeiro. Algum dos dois sairá perdendo

Vale a pena ver, sem dúvida. Além de mostrar os bastidores, os medos, as estratégias de cada um, o filme tem um tom de documentário. O time escalado por Frost para fazer parte da equipe que preparou a entrevista dá seu depoimento sobre a empreitada, falando diretamente para as câmeras, dando um tom de veracidade ainda maior ao relato. Sem falar em Langella, que realmente se parece  bastante com Nixon (se tiver curiosidade, as entrevistas verdadeiras estão disponibilizadas na internet).

Vale ainda dizer que, para nós, brasileiros, assistir o embate entre Nixon e Frost é quase que um déjà vue de corrupção, sabotagem e espionagem. Com a sutil diferença de que no caso de Nixon, a declaração do presidente faz toda a diferença. No Brasil, nos contentamos com algo mais simplório como “não-sabia-de-nada”, “a-culpa-é-do-mordomo” e por aí vai. Cada um tem o que merece.

Sem Comentários » TAGS:  
CAOS CALMO
CLASSIFICAÇÃO: Para Pensar, Itália, Drama - 23/09/2009

DIRETOR: Antonio Luigi Grimaldi1 icone_DVD

ELENCO: Nanni Moretti, Valeria Golino, Alessandro Gassman, Isabella Ferarri

LOCAL / ANO: Itália, Inglaterra / 2008

caos-calmo

Que truque você usa quando está perdendo a paciência ou quando a conversa ao redor não lhe interessa? Eu, como não tinha nada na manga, adorei a estratégia de Pietro, o protagonista, personagem de Nanni Moretti (também de O Quarto do Filho, Caro Diário, Habemus Papam). Sem que ninguém perceba, ele faz listas, silenciosamente, cada vez de um tema: lista da companhias aéreas com as quais já viajou, endereços onde já morou, cenas que não suportou ver. O tempo passa, ele se distancia da conversa e mantêm a calma.

Caos Calmo é justamente isso: um retrato do caos armado, paralelo à calma necessária. Pietro perde repentinamente sua esposa, de quem vivia já uma distância emocional, e se vê sozinho com a filha Claudia, de 10 anos. A partir do luto, sua vida muda. Ou melhor, ele a congela para depois pensar nas mudanças. Em vez de retomar o ritmo normal de executivo bem-sucedido, resolve passar seus dias na praça em frente à escola da filha. Esse é o cenário, onde tudo acontece: desde as reuniões e conchavos de trabalho, as conversas com familiares, até o convívio com pessoas desconhecidas que circulam habitualmente pelo local.

Terminei de assistir o filme e confesso que voltei para ver algumas cenas novamente. Senti que a praça é o símbolo do próprio pai, que era antes sistemático e passa a abrir um espaço para humanizar-se novamente. O mais interessante é que ele não adota mudanças, não se precipita, não toma decisões. Simplesmente passa o dia no banco da praça, apropria-se daquele lugar como se fosse seu – tanto que as pessoas que circulam por ali já esperam encontrá-lo por lá – e calmamente recebe todos aqueles que fazem parte da sua vida, de uma forma ou de outra. Simplesmente deixa o tempo passar – e ele passa, da volta das férias de verão até o inverno.

Que maravilha conseguir manter a calma. Quantas vezes é melhor deixar o tempo passar e deixar que ele traga consigo as explicações, a tranquilidade que não conseguimos enxergar em meio ao caos. No caso de Pietro, acho que ele até recuperou o que há de mais singelo nas relações: o convívio, o contato cotidiano, o gesto de que o outro faz a diferença. Nem que seja um simples bom dia sem palavras.

Sem Comentários » TAGS:  
O SILÊNCIO DE LORNA – Le Silence de Lorna
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, Bélgica - 23/09/2009

DIREÇÃO: Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne1 icone_DVD

ELENCO: Arta Dobroshi, Jérémie Renier, Fabrizio Rongione, Alban Ukaj, Morgan Marinne

LOCAL / ANO: Bélgica, França, Itália, Alemanha / 2008

Vencedor de Melhor Roteiro em Cannes

o-silencio-de-lorna

Nunca me esqueci da entrevista com um brasileiro radicado na Europa, especialista em migração, no rádio. Ele dizia que a Europa vive o caos com a migração de tanta gente, seja do Leste Europeu, seja dos países africanos, com falta de perspectiva, de empregos, de legalização. Segundo ele, o caos só poderá ter algum alento se as autoridades se voltarem para os países de origem dessas pessoas. A saída seria investir em infraestrutura, educação, empregos, etc para que as pessoas não precisassem migrar. Seria a única saída.

Lorna é albanesa, migra para a Bélgica, casa-se com Claudy para conseguir a cidadania – ele, por sua vez, aproveita-se do dinheiro para manter o vício. Obviamente, relações como estas estão fadadas ao fracasso, mesmo antes de começar. Aqui não é diferente e vale a pena conferir a rotina, os desafios, as trapaças dessa gente que está disposta a tudo para sobreviver.

O filme peca no final. Não entendi. Vale dizer que eu não sou do tipo que exige um final, que se irrita com filmes sem um conflito específico, com sem ação, com aqueles que falam das coisas da vida. Não. Gosto disso, dos finais que deixam dúvidas, reflexões. Inclusive, outro filme dos irmãos Dardenne, A Criança, também tem um final sem conclusão. Mas aqui foi diferente. No caso de O Silêncio de Lorna, não precisava desse final nonsense e sem qualquer sinal de veracidade. Uma pena. Porque a proposta do filme é muito interessante e, esta sim, real.

 

Sem Comentários » TAGS:  
O LEITOR – The Reader
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Para Entender o Nosso Mundo, Garimpo na Locadora, Estados Unidos, Alemanha - 23/09/2009

Quem já leu o que foi publicado na mídia sobre o filme – e não foi pouco, tanto por causa do seu lado polêmico, quanto por ter rendido o Globo de Ouro e Oscar de melhor atriz para Kate Winslet – assiste com olhos já tendenciosos, analíticos, atentos à questão do Holocausto. Li pouco  a respeito e foi melhor assim –  aproveitei o sabor de mistério da personagem da primeira parte do filme.

A história tem dois momentos distintos. O primeiro deles é o momento do Michael Berg (David Kross) jovem, ingênuo, protegido pela família de posses e fachadas, que aos 15 anos se apaixona e vive uma intensa relação com Hanna (Kate Winslet, de Titanic, Foi Apenas um Sonho) – uma mulher 18 anos mais velha, experiente, fria e misteriosa. Michael é o leitor do título do filme – entre uma e outra cena de sexo, ele lê em voz alta seus livros para Hanna, que faz desses dois momentos o mote de seus encontros. Até que um dia ela desaparece e o filme sai do romance para entrar na dura realidade.

O segundo momento é aquele em que Michael Berg já é um estudante de direito, vai assistir a um julgamento de ex-agentes da SS nazista, acusadas de terem sido coniventes e ativas no extermínio de prisioneiras judias. Uma das rés é Hanna. Nesse momento, o romance fica para escanteio e vem à tona a questão dessa geração que não participou da guerra, mas que carrega consigo o trauma da Alemanha do pós-guerra, de uma nação que viu a fumaça preta subir nos campos de concentração e dançou conforme a música. A partir daqui, o Michael advogado é interpretado por Ralph Fiennes (de O Paciente Inglês, O Jardineiro Fiel, A Duquesa, A Lista de Schindler). Gosto dele. Aquele olhar frio e intocável mostra bem a confusão que essa geração enfrentou. Com ele vem a questão da ética do comportamento daqueles que não ousaram mexer no vespeiro. E de crimes que podem (ou não) ter a sua fatia de perdão, de personagens cruéis que podem (ou não) ser humanizados.

É interessante trazer essas questões para o nosso dia-a-dia. Fiquei pensando nessa história de bancarmos uma opinião quando de fato acreditamos que ela é ética, estilo doa-a-quem-doer. Que preço tem isso? Ou melhor, isso tem preço?

 

DIRETOR: Stephen Daldry ELENCO: Ralph Fiennes, David Kross, Kate Winslet |  2008 (124 min)

Sem Comentários » TAGS:  
LEMON TREE
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, Israel, Garimpo na Locadora, Drama - 23/09/2009

A história mostra que, aparentemente, a maneira mais fácil de camuflar os conflitos e fazer vista grossa para as adversidades é tirá-las da vista. Muros foram e continuam sendo construídos com esse intuito, tirar da frente o problema, evitar o olho-no-olho e seguir em frente como se nada estivesse acontecendo. E não precisamos ir a Berlim ou Pequim para tanto… ele já chegou nas nossas favelas cariocas.

A história se passa na fronteira de Israel e Cisjordânia, os territórios ocupados por palestinos. Alegando motivos de segurança pública, o governo israelense ergueu um muro nessa fronteira, exatamente onde há um pomar de limoeiros. Eles são centro de conflito do filme,  a coluna vertebral da narrativa – numa grande e inteligente metáfora da intolerância humana.

Muitas coisas no filme impressionam. Para mim, é o olhar daquela mulher, capaz de mover montanhas. A palestina Salma Zidane (Hiam Abbas) cultiva seu pomar de limões herdado do pai e tira deles sua única fonte de sustento. Viúva há anos, faz desse cotidiano sua razão de vida numa Cisjordânia superpopulosa, pobre, que sofre com as sanções impostas por Israel. Salma vê sua vida virar de cabeça para baixo quando nada menos que o ministro da defesa israelense, Israel Navon (Doron Tavory), muda-se para a casa vizinha ao pomar, porém do outro lado da fronteira.

Analisando a realidade do perigo constante das autoridades da região, o serviço secreto israelense vê o pomar como uma ameaça à segurança do ministro e sua família e determina seja cortado, sem que a proprietária possa contestar da decisão.

Mulher forte, porém já cansada de tanto sofrimento, Salma juta forças para entrar na justiça contra a decisão israelense e se depara com a resistência das autoridades e com os olhares de conivência de Mira (Rona Lipaz-Michael), esposa do ministro – que não compactua com a atitude intolerante do marido e do país como um todo, mas se sente impotente e prisioneira de uma sociedade incapaz de chegar a acordos sem que a força seja usada para acuar e ameaçar.

O desenrolar da história – baseada em fatos reais compilados, já que foram muitas as desapropriações em nome da segurança nacional israelense – mostra mulheres fortes, determinadas, que seriam capazes de chegar a um acordo se essa missão lhes fosse designada. Numa sociedade em que a mulher é mantida sob a guarda do marido, irmãos e tios, as muçulmanas precisam desafiar os homens e Deus para dizerem o que pensam – tarefa nem sempre possível. Já do lado israelense, a vítima da segurança, da política, da hipocrisia e do poder desmedido também precisa ir contra tudo e todos para dizer o que pensa – apesar da riqueza, do luxo e do poder aos seus pés.

Muitas coisas impressionam no filme. Mas o que mais chama atenção, além do tema sempre polêmico dessa região de eternos conflitos e falta de consenso, são os olhares. O olhar feminino basta e prescinde de palavras. Compactuam da mesma opinião, sem nunca terem se falado; apoiam-se, mesmo pertencendo a polos completamente opostos. Salma e Mira conseguem encontrar sua alma e lutar por ela, mesmo em uma situação adversa e tida como praticamente perdida. As mulheres é que dão o tom do conflito e, principalmente, de seu desenlace.

 

DIREÇÃO: Eran Riklis1 icone_DVD ELENCOHiam Abbass, Doron Tavory, Ali Suliman, Rona Lipaz-Michael, Tarik Kopty, Amos Lavi | 2008

Sem Comentários » TAGS:  
A NOIVA SÍRIA – The Syrian Bride
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, Israel - 23/09/2009

DIRETOR: Eran Riklis1 icone_DVD

ELENCO: Hiam Abbass , Eyad Sheety, Derar Sliman, Adnan Trabshi, Makram J. Khoury, Julie-Anne Roth, Evelyn Kaplun, Ashraf Barhoum

LOCAL /ANO: França, Israel, Alemanha/ 2004

noivasiriaposter

Sabemos que casamento arranjado é praxe em alguns países. O plus dessa noiva síria é que, ao se casar não poderá rever sua família, nem voltar para seu país. É o retrato das discórdias do Oriente Médio, que além de criar guerras e desavenças, plantam sementes que beiram o bizarro, senão o puro absurdo.

A noiva é Mona (Clare Khoury), da etnia drusa que vive nas Colinas de Golã, bem na fronteira de Israel e Síria, mas está sob domínio israelense há anos. Por ser uma região disputada pelos dois países, os drusos praticamente não têm nacionalidade definida. O noivo é Tallel (Derar Sliman), um apresentador de televisão sírio, que está pronto para receber Mona do lado de lá da fronteira.

Isso não é força de expressão:grande parte do filme se passa de fato na árida e controladíssima fronteira sírio-israelense. Mas os entraves políticos, burocráticos e nada razoáveis inviabilizam o casamento de uma maneira quase surreal.

Fico pensando como a vida dessas pessoas é complicada. Quanto ego e quanta discórdia. Mas esses fatos políticos são contados de maneira humanista, bem-humorada e ao mesmo tempo dramática. A construção dos personagens ilustra bem os tipos humanos que foram construídos com tanta confusão. Amal (Hiam Abbass, também de Lemon Tree) é irmã de Mona, tem ideias liberais que enlouquecem seu marido e fazem sua vida uma privação sem fim; Hattem (Eyad Sheety) é o irmão mais velho, que rompe com a tradição, sai do país para se casar com uma médica russa (Evelyn Kaplun); Marwan (Ashraf Barhoum) é o mais novo da família, que mora na Itália e vive de negócios escusos; e para completar o pai Hammed (Makram J. Khoury), é ativista árabe pró-síria, e leva a ferro e fogo as tradições religiosas e familiares.

É como na vida real: tanto desacordo precisa da intervenção de outros países e organizações para tentar a convivência pacífica. Nessa função está a funcionária francesa da Cruz Vermelha, a bela Jeanne (Julie-Anne Roth), que procura uma brecha de racionalidade nessa fronteira tão egoísta.

O filme é interessantíssimo. Um retrato da capacidade humana de complicar e de dificultar a vida, mas também de conciliar. É só uma questão de vontade – muitas vezes, política.

Sem Comentários » TAGS:  
A TROCA – Changeling
CLASSIFICAÇÃO: Para se Emocionar, Garimpo na Locadora, Estados Unidos, Drama - 05/09/2009

A Troca é um filme forte, a começar pelo fato de ser baseado em uma história real. Christine Collins (Angelina Jolie) sai um dia para trabalhar, deixa seu filho em casa e quando volta não o encontra mais. Para completar, tem que lidar com a polícia corrupta e mentirosa da Los Angeles das décadas de 1920 e 30, que quer obrigá-la a aceitar como filho uma outra criança – daí “a troca” do título.

Mas que mãe não reconheceria sua própria criatura? Certa de que não passava de uma armação, ela contesta a autoridade, é tida como louca e tirada do circuito, por assim dizer, como as autoridades costumam fazer quando alguém “fala demais”, “sabe demais” e pode por todo o esquema a perder.

É tudo muito atual: poderes corruptos e falta de escrúpulos. Mas há também, na figura de Angelina, a personificação daqueles que acreditam na lei para fazer justiça, nas instituições da sociedade. No caso dela, ela só queria o filho de volta, não queria vingança. Para uma época em que os poderes estavam estritamente em mãos masculinas, incontestáveis, não foi por acaso que o caso de Christine Collins nos tribunais ficou famoso.

Clint Eastwood é impecável na ambientação de época, no roteiro enxuto e na construção da personagem de Angelina: não cria vítimas ou choradeira, mas sim uma figura que não perde a esperança em nenhum momento e que luta por um ideal. Mas do lado de cá da tela, não há como não ficar com o coração apertado.

 

DIRETOR: Clint Eastwood ELENCO: Angelina Jolie, Gattlin Griffith, Michelle Martin, Michael Kelly, Frank Wood, John Malkovich | 2008

 

Sem Comentários » TAGS:  
CARAMELO – Sukkar Banat
CLASSIFICAÇÃO: Para se Divertir, Líbano, Comédia - 04/09/2009

1 icone_DVDDIRETOR: Nadine Labaki

ELENCO: Nadine Labaki (Layale), Yasmine Elmasri (Nisrine), Joanna Moukarzel (Rima), Gisèle Aouad (Jamale) e Adel Karam (Youssef)

França, Líbano, 2007 (95 min)

Ganhou o Prêmio do Público de San Sebastián e foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

caramelo - poster

Definitivamente um filme sobre mulheres, para mulheres, no universo das mulheres. Delicioso, engraçado, sensível e muito singelo. Meninas, não percam! Meninos, apurem os sentidos!

O que mais me chama atenção num filme como Caramelo é o retrato do cotidiano. Sim, porque abordar um tema específico, uma trama com começo, meio e fim é como contar uma história – não que seja fácil, de jeito nenhum. Mas neste caso, não tem um fato em si. É uma comédia de costumes. É como se a diretora libanesa Nadine Labaki tivesse entrado num cabelereiro e feito um retrato da vidinha de cinco mulheres que ali se encontram. Como ela mesma disse numa entrevista, “o filme é muito baseado na observação das pessoas e dos ambientes”, nada mais do que o retrato do cotidiano, sem glamour ou romantismo, assim como o a cera de caramelo que dá nome ao filme – afinal, é possível existir algo menos glamuroso do que depilação??

É em torno do caramelo da depilação (feito de água, açúcar e limão) que tudo acontece: Layale (interpretada pela diretora Nadine Labaki) é a dona do cabelereiro, moça lindíssima que se apaixona por um homem casado, sonha com o dia em que ele deixará a mulher e nem nota o olhar apaixonado do policial (único ator profissional do filme); Nisrine é funcionária, está de casamento marcado com um rapaz muçulmano e precisa arranjar um jeito de lhe contar que não é mais virgem; Rima trabalha no salão, tem um jeito, digamos, masculinizado e sente-se atraída por mulheres; Jamale é cliente da casa, foi abandonada pelo marido e morre de medo de parecer velha, a ponto até de mascarar até a chegada da menopausa; e Rose, uma senhora costureira, mora ali perto, cuida da irmã maluquinha e abdica de sua própria felicidade por ela.

Aí está o panorama repleto de ingredientes para alimentar tudo que acontece no filme: os diálogos, as confidências, as decepções amorosas, a cumplidade entre amigas, a liberdade e o amor. Para completar o cenário, mostra Beirute, a cidade em que os muçulmanos convivem com os católicos, em que a língua francesa é onipresente, até no nome do cabelereiro Si Belle, e se mescla com o árabe a todo momento, em que as tradições patriarcais são fortemente marcadas.

Palmas para a cena final: não vou estragar o prazer, mas é de uma singela beleza, de pura libertação. Plageando o crítico Luis Carlos Merten, “um doce de filme”!

Sem Comentários » TAGS:  
UM HOMEM BOM – Good
CLASSIFICAÇÃO: Para Entender o Nosso Mundo, Drama, Alemanha - 01/09/2009

DIRETOR: Vicente Amorim

ELENCO: Viggo Mortensen, Jason Isaacs, Mark Strong, Steven Mackintosh, Gemma Jones, Anastasia Hille, Ruth Gemmell

LOCAL/ANO: Alemanha, Inglaterra/2008

 Um homem bom - poster

Quando se trata de um tema muito falado como o Holocauto, o risco de cair no lugar comum é enorme – o que não acontece com Os Falsários, por exemplo, que trata da falsificação de dinheiro por parte dos nazistas, com ajuda dos especialistas judeus, presos em campos de concentração. Aqui, em Um Homem Bom, confesso que fico em cima do muro: é bom, conta uma história, mas não emociona tanto assim.

Fala da trajetória de um professor universitário do mundo das letras na década de 1930, cujo romance cai nas graças dos nazistas por abordar o tema eutanásia – tema esse que vai ao encontro das teorias da purificação da raça ariana de Hitler. Ele é o homem bom do título que faz parte da SS e parece se envolver com esses alemães, mesmo sem saber do que realmente se tratava tudo aquilo. Acho que o ponto forte é justamente esse: a sensação de insegurança do próprio protagonista me passa, da sua posição dividida entre o grande amigo judeu e o sistema nazista que o engole e o seduz, da sua negação e desconhecimento do que acontecia nos campos.

Se é para falar de homem bom, que salvou vidas e arriscou-se por elas, vale rever A Lista de Schindler e O Pianista. Imbatíveis.

Sem Comentários » TAGS:  

Próxima página »

CATEGORIAS

INSCREVA-SE PARA RECEBER NOSSA NEWSLETTER

Você também pode assinar listas específicas: