ELENCO: Dustin Hoffman, Emma Thompson, Eileen Atkis, Kathy Baker, Liane Balaban
LOCAL, ANO: Inglaterra, 2009
Tem dias em que realmente a gente não está a fim de nada muito complexo ou surpreendente. Tinha que ser você é para esses dias. O enredo é totalmente previsível, com aqueles “acasos” permeando e construindo o filme. É para passar o tempo e distrair. No estilo A Proposta, eu diria que é ideal para assistir no avião! Esse critério poderia até virar uma categoria…
Não espere mais do que um romance entre um pianista frustrado (Dustin Hoffman) e uma solteirona inglesa (Emma Thompson). Ele, em vez de produzir música, produz gingles publicitários para viver e viaja até Londres para o casamento da única filha (que prefere ser conduzida ao altar pelo padrasto); ela tem um trabalho burocrático e vive controlando a ansiedade da mãe, que não sossega até que a filha encontre um homem. A vantagem é que estamos falando de dois atores ótimos, que garantem boas cenas. Não fosse por isso, seria um filme ”água com bem pouco açúcar”…
Eles se conhecem por acaso em Londres e ali se passa toda a questão. Aliás, Londres! Mostra um pouquinho de um canto encantador da cidade, o South Bank, perto da roda gigante London Eye, onde um passeio pela orla do Tâmisa é delicioso. Fiquei com vontade de ver mais da cidade.
Elenco: Marianne Faithfull, Miki Manojlovic, Kevin Bishop, Siobhan Hewlett
Local /Ano: França/Bélgica/Luxemburgo/Inglaterra/Alemanha/2007
Irina Palm é interessante por dois motivos: primeiro por se tratar da história de uma avó que trabalha na indústria do sexo sem que isso seja tratado de uma forma vulgar; segundo, porque fica a pergunta: até que ponto podemos ir para salvar a vida de quem se ama? Bem europeu, mais lento e mais reflexivo – mas nem por isso monótono – tem um ritmo que nos permite acompanhar primeiro a agonia dessa avó, depois a sua certeza de que tudo dará certo. A personagem cresce, toma pé da situação e sacode a poeira. Gosto desse jeito decidido, mulher que toma atitude e não espera que ninguém faça isso por ela.
Irina Palm é o pseudônimo de uma avó que precisa desesperadamente de dinheiro para pagar o tratamento do neto, que está muito doente. Os pais não têm dinheiro e Maggie (Marianne Faithfull) já não tem crédito na praça. Além disso, não consegue emprego, por ser mais velha e não ter experiência de trabalho. Um dia se depara com uma oportunidade em uma boate de strip-tease do Soho londrino: o que seria o trabalho de “recepcionista”? O que faria uma senhora matrona como ela num lugar como aquele? Não vê alternativa senão aceitar.
A partir desse momento, o drama do garoto fica em segundo plano, o inusitado trabalho de Maggie ganha a cena e ela encara aquilo realmente como trabalho. Vence o próprio preconceito, se supera, faz “sucesso” e por isso lança o nome artístico de Irina Palm. Sem julgar pelo mérito do trabalho, ele fecha os olhos e se coloca um objetivo: juntar dinheiro para salvar a vida da criança. A conservadora Maggie assume o risco e a experiência lhe traz uma nova perspectiva de vida.
A atriz Marriane Faithfull tem uma longa carreira como cantora, inclusive com participação, ao lado de Mick Jagger e toda a turma, da farra do sex, drugs and rock and roll dos anos 60 e 70. Não sabia disso quando assisti ao filme. Agora vejo que de ingênua que é sua personagem, Marianne Faithfull não tem nada. Inclusive por isso sua atuação é incrível. Para quem aprecia filmes europeus, vale a pena. O final tem um viés romântico, mas sobretudo de cumplicidade, dela com o neto, dela com sua própria escolha.
ELENCO: Sam Worthington, Zoe Saldana, Sigourney Weaver, Lola Herrera, Joel David Moore, Giovanni Ribisi, Michelle Rodriguez, Stephen Lang
LOCAL, ANO: Estados Unidos, 2009
Assisti ao trailer de Avatar no cinema e não me interessei. Achei que era ficção científica demais para o meu gosto. Mas uma leitora do Cine Garimpo foi conferir e me avisou que eu tinha que ver, que era sim muito interessante. Lá fui eu. Ordens são ordens. E não me arrependi.
É ficção científica pura, claro – por isso, quem não gosta do gênero mundo-mágico-seres-imaginários, atenção! Mas tem um viés de natureza humana muito forte. Apesar de se passar no futuro, em um lua chamada Pandora, com seres azuis de três metros de altura e animais coloridos e extremamente selvagens, fala da relação do homem com o meio ambiente, da intolerância com o diferente, da ganância. Gostei por isso, embora se possa pensar que tudo não passa de clichê do tipo “destruidores dos povos nativos do planeta e da natureza”. Ora, cíclico ou não, isso faz parte da nossa história.
Esse mundo imaginário de Pandora é um lugar com uma natureza exuberante, que à noite fica fosforescente e parece mágico. Um lugar que tem uma crença, uma hierarquia e uma natureza em total harmonia com os Na’vi – como são chamados os nativos. Acontece que os cientistas descobrem que embaixo da árvore sagrada de Pandora há uma enorme quantidade de um minério valiosíssimo. Mas nesse planeta, o homem não pode transitar, porque o ar é tóxico. Por isso, os cientistas criam um programa chamado Avatar, em que o DNA dos nativos e dos humanos é misturado para formar corpos como o dos nativos, que funcionarão ligados ao cérebro humano. É como o avatar dos jogos da internet, em que se cria um personagem à sua imagem e semelhança, num mundo de realidade simulada. Assim, a ideia é fazer com que alguns homens possam ser espiões no mundo dos Na’vi e trazer informações úteis para conseguir tomar posse da jazida o mais rápido possível. Doa a quem doer.
Em termos de imaginação de roteiro, não há muita novidade. Tem mocinho e bandido, tem gente que muda de lado quando não concorda com a trama, tem paixão entre opostos, tem a covardia do mais forte contra o mais fraco. Mas tudo bem. O forte da imaginação está justamente na produção de tudo isso. E que imaginação! Parece que James Cameron (mesmo de Titanic) só começou a filmar o projeto, que demorou 10 anos para escrever, em 2005 – quando já havia tecnologia suficiente para dar asas, literalmente, à sua imaginação (digo literalmente porque as cenas de voo são lindas).
Deixo para o final o seguinte detalhe: não fui vem em 3D – dia de Natal, os horários estavam restritos. Se puderem, não façam o mesmo. O filme foi todo idealizado em terceira dimensão, para que o espectador pudesse realmente entrar nesse mundo surreal de Cameron. Acho que vou ter que rever.
ELENCO: Gloria Pires, Paulo Miklos, Alessandra Colasanti, Dani Nefussi, Marisa Orth, Lourenço Mutarelli, Antonio Edson
LOCAL, ANO: Brasil, 2009
Melhor Filme, Melhor Atriz e Melhor Ator no Festival de Brasília de Cinema Brasileiro de 2009
Recebi um email na semana de estreia do filme, de gente que entende muito de cinema e de música. Disseram que valia a pena assistir a É Proibido Fumar e realmente vale. O filme é bacana, bem feito e principalmente inteligente. E acho que o fato de contar com Glória Pires (também em Se Eu Fosse Você e 2 e Lula – O Filho do Brasil) como protagonista, já ganha pontos por sua versatilidade e total entrega aos personagens.
Aqui ela é Baby, uma professora de violão que dá aulas em casa – para alunos certamente sem qualquer futuro na música – e que parou no tempo. Veste-se ainda como se estivesse nos anos 80, mora num apartamento que é a sua cara e mostra bem o perfil da mulher que permaneceu sempre no mesmo lugar. Ela é apegada a tudo que lembra o passado, vai acumulando tranqueiras, plantas e lembranças para preencher um vazio e por falta do que fazer, perde tempo brigando pelo sofá velho e rasgado da tia que já faleceu. O apartamento diz tudo, principalmente em contraste com o local de trabalho e o visual de sua irmã, na pele de Marisa Orth.
Tudo segue igual até que Max (Paulo Miklos, ator e ex-vocalista dos Titãs) se muda para o apartamento vizinho e começa o romance. Ele é músico, de bem com a vida, também ligado no passado e no vinil. Acho que a criação dos dois personagens estereotipados é que dá graça ao filme e foi na medida certa. E o cigarro? Bem, Baby conta com a sua companhia no dia a dia, mas tenta parar de fumar para não atrapalhar o romance. Mas não acho que seja por isso. A referência principal é o elevador do prédio onde moram. Além do romance, tem um pouco de suspense. O gatilho foi justamente o momento em que a câmera focaliza a placa com esses dizeres “É Proibido Fumar”, pregada dentro do elevador. Apesar dela, um cigarro foi aceso. Depois disso, quem assistir, verá!
ELENCO: Mickey Rourke, Marise Tomei, Evan Rachel Wood
LOCAL, ANO: Estados Unidos, 2008
Eu disse que esta semana iria revelar uma das minhas “pérolas” guardadas e aqui vai. O Lutador é uma delas. Nada contra filmes de luta, dramas de família, fracassos, atletas em declínio físico, emocional e financeiro. Há ótimos filmes sobre tais temas. Mas este, francamente, não gostei. Ainda não entendi como ganhou um Globo de Ouro – quanto mais dois.
Quando aparece na tela, Mickey Rourke causa repulsa. Está deformado. E não pense você que é maquiagem para o filme. Ele de fato está assim. Depois de começar a declinar como ator, foi tentar a vida como lutador de boxe e de tanto levar soco, ficou desfigurado. Nada melhor, então, do que fazer o papel de um lutador decadente e deprimente – assim como ele na realidade. Tive a impressão de que é o roto falando com o esfarrapado. Vale dizer que o estilo cafajeste dele nunca me convenceu, nem nos tempos áureos de Nove Semanas e Meia de Amor. Pode ser implicância minha com o ator, mas gosto não se discute. Como disse textualmente o crítico Rubens Ewald Filho, “preferia, realmente, que a a gente tivesse se livrado dele para sempre”. Concordo.
Também não se trata de criticar a violência da luta. Vários filmes mostram a agressividade das lutas livres, do boxe, e têm bom enredo, boa atuação, como é o caso de O Vencedor. Aqui, não sobra nada. A luta é uma farsa em todos os sentidos (resultados combinados) e não passa a sensação de realidade. Quando ao drama familiar, puro clichê, também não me convenceu.
É difícil eu desistir de um filme antes do final. Neste, quase não consegui chegar lá.
“Todos têm terror do silêncio e da solidão e vivem a bombardear-se de telefonemas, mensagens escritas, mails e contactos no Facebook e nas redes sociais da Net, onde se oferecem como amigos a quem nunca viram na vida. Em vez do silêncio, falam sem cessar; em vez de se encontrarem, contactam-se, para não perder tempo; em vez de se descobrirem, expõem-se logo por inteiro (…). E por isso é que vivem essa vida estranha: porque, muito embora julguem poder ter o mundo aos pés, não aguentam nem um dia de solidão. Eis porque já não há ninguém para atravessar o deserto.”
No teu deserto, de Miguel Sousa Tavares (Editora Companhia das Letras, 128 páginas) não foi tão falado quanto Equador e Rio das Flores, do mesmo autor. Mas é muito interessante. Lembrei dele por causa do deserto de O Paciente Inglês, dessa paisagem mágica e inóspita do filme, um mar de areia. E também por causa do romance – que no livro, ele chama de ”quase romance”.
O enredo gira em torno de uma história de amor que deveria ter acontecido, mas que não se realizou. Veterano no deserto, o protagonista português desta vez é acompanhado na travessia do Saara por Cláudia, uma moça que conhece praticamente na partida da viagem. Já no começo do livro ele conta que, anos depois dessa viagem, Cláudia morre – por isso escreve, para recordar a história que viveram juntos. O texto é simples, quase uma conversa que deveriam ter tido, mas que não tiveram.
Mas o que eu gosto no livro é a metáfora do deserto. É o fato de o autor falar do silêncio, da importância do “não falar” para que se possa ter o que falar; da necessidade de conhecer o deserto, a solidão e a reflexão para poder se conhecer melhor. Gosto do que ele diz das relações do mundo atual (trecho acima). Isso me fez parar para pensar no valor que os momentos de silêncio têm na vida.
ELENCO: Ralph Fiennes, Kristin Scott Thomas, Juliette Binoche, Willem Dafoe, Naveen Andrews
LOCAL, ANO: Inglaterra, 1996
Antes de falar do filme propriamente dito, quero dizer que fiquei impressionada com o fato de a nossa cabeça – pelo menos a minha – apagar completamente alguns registros. E também é verdade que já se passaram 13 anos desde o lançamento de O Paciente Inglês e que muita água rolou debaixo da ponte, ocupando alguns espaços na mente. Tudo isso para dizer que vale rever porque é muito bom e porque nos ajuda a não esquecer.
Também acho difícil classificar um filme destes. Além de ter história, pois se passa durante a Segunda Guerra, tem o romance trágico que direciona praticamente o filme todo. Por isso, resolvi deixar na categoria Para Rever, por se tratar de um filme premiadíssimo que a grande maioria já viu.
Vamos ao enredo: Ralph Finnes (também em O Leitor e A Duquesa) é Almásy, um sujeito misterioso, membro da National Geographic Society, líder de uma expedição para mapeamento do norte da África e busca de cavernas com desenhos rupestres. Um acidente de bimotor o faz ficar irreconhecível por causa das queimaduras, além de lhe custar a memória. A partir do momento em que uma enfermeira, vivida por Juliette Binoche (também em Horas de Verão e Paris), cuida do que resta desse homem em uma igreja abandonada na Itália, agora já no fim da guerra, é que começamos a saber o que aconteceu. Alguns detalhes ajudam a contar a história: um livro que ele carrega traz muitos registros e lembranças; um homem aparece trazendo informações que montam o quebra-cabeça e explicam que romance foi esse com a bela Kristin Scott Thomas (também em Há Tanto Tempo que Te Amo).
Plasticamente o filme é muito bonito, a história é muito boa, a paisagem e a ambientação de época, maravilhosas. Vale dizer que o clima de guerra e romance trágico é quebrado pela leveza da personagem de Juliette Binoche, que recebe Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante pelo trabalho naquele ano. Quem se lembra do filme, sabe do que estou falando; quem não lembra tanto assim, como eu não lembrava, saiba que valeu rever.
VEJA EM DICAS AFINS: Romance no deserto remete ao livro mais recente do escritor português Miguel Sousa Tavares, No Teu Deserto.
ELENCO: Rodrigo Noya, Carmem Maura, Julieta Cardinali, Jean Pierre Noher, Alejandro Agresti, Mex Urtizbeara
LOCAL, ANO: Argentina, 2002
De novo um filme argentino que traz, na sua simplicidade, as relações humanas em primeiro plano. Valentin, o menino, me fez lembrar de imediato o Mauro, de O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias. Ambos são os narradores de sua própria história, relatam suas experiências familiares e como elas ocupam sua vida e são responsáveis pelas escolhas futuras. Valentin é um filme lindo, profundo e muito, mas muito simples. Deve ter sido por isso que gostei tanto. Afinal, não é nada fácil contar uma história tão corriqueira de uma maneira sensível como foi feito aqui.
Valentin tem 8 anos, sonha em ser astronauta, mora com a avó e tem pais separados. Sua mãe já não aparece para visitá-lo; seu pai, aparece às vezes, cada hora com uma namorada diferente. Apesar da relação amorosa com a avó (a ótima espanhola Carmem Maura), seu sonho é ter uma família normal, um pai e uma mãe para chamar de seus.
Não tem como não se emocionar. Achei a escolha do ator Rodrigo Noya muito boa e o texto dele, inteligente. Ele passa a ternura e a inocência da infância de uma maneira engraçada e espontânea, ao mesmo tempo em que transmite a determinação de realizar seu sonho. Que é seu – e de outras tantas crianças.
Dois detalhes técnicos curiosos: o pai de Valentin é representado pelo próprio diretor Alejandro Agresti e o filme é basicamente autobiográfico. No decorrer da história sabemos em que época estamos por passagens sutis: a morte de Che em 1967, o antissemitismo e a ditadura na Argentina – fatos que marcaram intensamente a vida do diretor. É o cinema mais uma vez no seu papel tão importante de perpetuar histórias de vida.
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